De há uns meses para cá começou no meio futebolístico o inevitável debate sobre quem é, na actualidade, o melhor defesa direito do Mundo.
Os dois grandes candidatos dançam o samba enquanto percorrem a linha lateral mas fazem-no de forma bem distinta. De tal maneira que este juizo de valor parte, de imediato, de uma premissa errada. São dois jogadores incomparáveis pelo simples facto de que espelham uma diferença crucial no mundo do futebol que muitos parecem esquecer frequentemente. Ou seja, para simplificar, não é o mesmo ser-se um grande defesa direito do que ser-se um grande lateral direito. A posição de onde partem no terreno de jogo é exactamente a mesma mas o posicionamento ao longo do encontro e a sua acção no terreno varía e muito. São elementos incompativeis e condenados a uma eterna disputa.
O grande problema tem, neste momento, o seleccionador brasileiro. Dunga está forçado a escolher entre dois modelos de jogo e uma das decisões mais complicadas repercute-se claramente na escolha do titular do lado direito da defesa canarinha. Ao optar por Daniel Alves, para muitos um dos jogadores mais em forma do futebol mundial, o antigo médio centro do São Paulo está a seguir a escola brasileira que sempre defendeu que a linha pertence a um defesa lateral. Alves é claramente o herdeiro histórico dos grandes nomes do futebol brasileiro, desde os veteranos Nilton Santos a Carlos Alberto passando por Jorginho e Cafú. É o tipico lateral, sempre mais preocupado em provocar desiquilibrios nas transições ofensivas, do que propriamente em guardar as costas quando sobe todo o corredor. É o jogador que permite ao extremo direito deslocar-se para o miolo de jogo, e assim provocar desiquilibrios na hora da finalização. Guardiola percebeu-o muito bem (mais depressa até que Juande Ramos que muitas vezes o prendeu em demasia ao seu posto de origem) e fez dele o sócio perfeito de Messi. Com Alves a funcionar quase como falso extremo, o argentino flecte para o meio e ganha mais preponderância ofensiva. O desiquilibrio ofensivo é total.
Mas a verdade é que esta selecção brasileira dá-se ao luxo de deixar no banco um jogador como Alves, uma opção que muito poucos entendem. Mas Dunga tem a explicação. Aquele que é, provavelmente, o mais contido e defensivo seleccionador brasileiro de sempre - ao nivel de Carpeggiani e sem o engenho de Carlos Alberto Parreira - não está disposto a correr muitos riscos. E sabe que utilizar um lateral direito provoca buracos dificeis de tapar. Se Guardiola tem Puyol para fazer de bombeiro, Dunga não tem um central de alto nivel mundial capaz de fazer todo o jogo um dois em um. E se Alves ataca muito bem, a verdade é que a defender é como todos os laterais brasileiros: bastante deficiente.
Para isso, Dunga prefere sempre utilizar Maicon. O jogador do Inter de José Mourinho - outro treinador que gosta de defesas que primeiro defendem e só depois atacam - é o protótipo do defesa direito que sempre existiu na Europa, mas que no Brasil é uma raridade. Raramente se arrisca a fazer todo o corredor e deixar a sua zona de acção desprotegida. Cada subida é pensada ao milimetro a contar com a recuperação. Maicon não só tem um controlo total da sua zona de influência, como é também o primeiro a flectir para o meio, ajudando o trinco defensivo e o central a cortar as asas a um falso avançado mais atrevido. A defender, Maicon é o defesa mais completo da actualidade a actuar na ala. A atacar é eficaz, mas menos aventureiro e por isso, inevitavelmente, cria menos desiquilibrios.
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Esta luta de dois galos para um poleiro (na selecção brasileira e no onze ideal de muitos amantes da bola) é apenas o reflexo dessa eterna disputa. Maldini e Roberto Carlos, durante muitos anos, foram o espelho da mesma realidade, mas no lado oposto. Maldini era perfeito a defender e comedido a atacar. Roberto Carlos era o defesa lateral perfeito, mas um defensor com muito que melhorar. Qual deles o melhor? Isso, como sempre, depende do sistema de jogo a aplicar. No contido futebol italiano, jogadores como Maicon ou Maldini adequam-se mais ao método de jogo praticado, onde a defesa de quatro joga em bloco. Em Inglaterra, os laterais sempre tiveram mais liberdade para cruzar a tres quartos da linha de conta. As subidas de Gary Neville, Ashley Cole ou dos portugueses Bosingwa e Paulo Ferreira sempre foram elementos desiquilradores nos lances de cariz mais ofensivo, mas isso deve-se também a uma menor preocupação táctica das equipas das ilhas. Basta ver que o Chelsea de Mourinho usava apenas os laterais em lances controlados e nunca deixando a retaguarda totalmente descoberta. Essa eficácia defensiva valeu a Mourinho dois titulos seguidos enquanto que o Manchester United via Evra e Neville serem, muitas vezes, os responsáveis de contra-ataques letais da equipa adversária.
Os amantes do futebol espectáculo são, provavelmente, os que se rendem aos sprints de Daniel Alves, que até no sofá da sala de casa cansam o mais resistente dos desportistas. O mais preocupados com sistemas defensivos serão incapazes de o preferir à mestria de Maicon em controlar o espaço. Jogar com os dois na mesma equipa não é só impossivel, como também resulta de um contra-senso. Afinal eles são o espelho mais visivel de duas formas tão diferentes de encarar o futebol.

