O futebol é o campo de guerra moderno. Os conflictos armados diminuíram felizmente nos últimos 50 anos de uma forma tremenda mas o orgulho e ódio entre nações, cidades, personalidades rivais não desapareceu debaixo do tapete. O grande fenómeno sociológico do século XX tornou-se nesse novo pasto de guerra, com regras ás vezes quebradas, com exércitos treinados especialmente para o combate e com ideologias próprias. Acima de tudo, o futebol recuperou a mitologia clássica da luta entre elites, entre os melhores. Evocando a memória de Homero, os grandes clássicos tornaram-se em reedições do célebre duelo entre Aquiles e Heitor. Salvo quando, pela calada, Troia decide enviar ao tapete verde em lugar do seu mentor o frio e rasteiro Páris...
Não parece uma noite de Janeiro em Madrid. Estamos num desses dias quentes nas areias de Ilion.
Armaduras brilhantes, recém desenhadas pelos deuses do marketing, as asas de Nike e as tiras de Adidas, arena de batalha flamejante e os deuses com dezenas de câmaras no seu particular pay-per-view olímpico e divino seguem com interesse esta disputa de humanos que tanto os motiva. Alguns vestem as cores dos seus, outros alinham por uma falsa neutralidade divina mas todos, sem excepção, esperam que entre os visitantes helénicos, esses que ajudaram a fundar a Barcelona mediterrânea, surja o seu espantoso Aquiles, calvo e não loiro de cabelos ao vento, tenso e não relaxado como quem sabe ser de outra fibra. Os da casa, os que da muralha lançam gritos de incentivo, os que defendem as suas mulheres e filhos de mais uma humilhação querem o seu Heitor, o seu símbolo, para esgrimir com o helénico um tipo de duelo só ao alcance dos eleitos. Quando este sobe á arena, precedido pelos seus imponentes filhos de uma Tróia amaldiçoada sente-se a esperança no ar, a vontade de expulsar de uma vez por todas o fantasma dos mirmidões azulgranas. O tempo passa, a bola rola e um troiano, Eneias disfarçado talvez de lusitano, rasga as filas helénicas e desfere o seu golpe diante de um Ajax incapaz de fazer algo mais. Tróia grita, Heitor lidera os seus e a vitória parece, finalmente, sua. Os deuses, esses deuses da bola pretéritos conjuraram um novo rumo nesta epopeia. Mas a pouco e pouco o rosto de Heitor vai-se mutando, a sua pose imponente encolhe-se diante do olhar desafiante de Aquiles e do nada desaparece. No seu lugar, para desespero e espanto até dos deuses, surge Páris, o polémico, o assustado, o medroso, o rasteiro Páris. Tróia sabe que está perdida porque nem uma flecha envenenada e descontrolada, até pelos deuses, alcunhada de Pepe pode mudar o destino da história. Aquiles sabe-se, sente-se e é, verdadeiramente, invencível. O Bernabeu troiano é incapaz de lhe encontrar o calcanhar.
Quando Bill Shankly, filho da mitologia céltica mais do que da esmerada escrita homérica, disse que o futebol é mais do que a vida e a morte não podia estar mais certo. A Europa deixou de lutar entre si no campo de batalha e deixou os duelos medievais, feudais, nacionais para os campos desportivos. O futebol apropriou-se dessa gesta e fez dos seus os Lancelots, Césares, Napoleões, Marlboroughs do presente com os seus feitos a serem cantados como se de um verdadeiro herói clássico se tratasse. Mas até Homero, que sabia que o homem era tão cinzento como os deuses, sabia que há personagens fadadas a serem os maus da fita, aqueles a quem o caracter falha no momento decisivo.
O seu Páris troiano tinha tudo para não ser o que se tornou, esse arqueiro implacável e rasteiro incapaz de olhar diante de Menelau e Aquiles nos olhos e defender o seu estandarte. José Mourinho transforma-se jogo após jogo contra os mirmidões catalães no Páris contemporâneo. A forma como empequenece diante do exército rival é só comparável com o medo agónico do príncipe troiano de Homero. No último duelo, esse enésimo clássico a que estamos condenados a voltar, mês atrás de mês, pela evidente superioridade de gregos e troianos sobre os demais, essa realidade voltou a ser, por demais, evidente.
O homem que espantou a Europa com os seus legionários azuis e que já ensaiou a guerrilha de Viriato de neruazurri com grande sucesso é incapaz de dar a volta á história e fazer de Tróia um bastião vencedor. Porque parte para o campo de batalha com a derrota escrita a sangue nas costas, no olhar, no coração. O calor do Bernabeu é incapaz de lhe devolver o sangue ás veias e como um réptil se comporta, sibilino, rasteiro e condenado a ser cortado em dois. O seu 4-3-3 que se transformou, pateticamente, num 5-3-2 á medida que o tempo discorria, transparece bem a facilidade com que o Real Madrid deixa de ser Heitor e se transforma em Páris quando em lugar dos Ajax, Menelau, Ulisses e companhia se lhes aparece á frente o Aquiles azulgrana, implacável e abençoado pelos divinos, até os mais neutrais.
Para o Real Madrid de Mourinho o Barcelona tornou-se na lembrança divina de que há formas e formas de jogar futebol, todas elas meritórias. Mas que só uma forma definitiva de sair derrotado: prostar-se desde o primeiro suspiro. O golo de Cristiano Ronaldo (no seu melhor jogo de sempre contra os azulgrana) de nada serviu porque o homem que custou 100 milhões de euros foi forçado a jogar de ala defensivo durante mais de uma hora, preso ao chão pelo seu amedrontado general. Alinhar três dianteiros e depois abandoná-los a um massacre implacável é talvez o acto mais rasteiro que pode conceber um treinador. Benzema, Ronaldo e Higuain foram abandonados como náufragos enquanto os restantes marinheiros cerravam filas, como as caravanas, com os imponentes e esbeltos índios a cercarem-nos impiedosamente. Guardiola, igual a si próprio como Aquiles na arena, limitou-se a confiar nos seus. E isso basta-lhe neste duelo porque já nem a excelência (que não a houve) é necessária para suplantar o amedrontado Páris e os seus sequazes.
Futebolisticamente o Real Madrid continua sem se comparar ao Barcelona pura e simplesmente porque nem apresenta batalha. Várias vezes nos últimos nove duelos os merengues limitaram-se a não jogar e a não deixar jogar esperando que a sorte de uma flecha envenenada - como em Valencia - fizesse o resto. Grande contra os pequenos, pequeno contra os verdadeiramente grandes, estes troianos estão condenados ás chamas da história. A pequenês de grandes como Casillas e a barbárie de primatas como Pepe espelha bem o desnorte mental de uma equipa que olha para o seu Heitor á procura de um gigante e encontra um Páris empequenecido pela realidade. Do outro lado Aquiles e os seus já estão saciados. Até ao próximo confronto!