Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

O Ballon D´Or é um abrumador banho ao ego. Qualquer prémio individual num desporto colectivo acaba por sê-lo, seja por factos objectivos (golos, assistências, defesas) seja pela opinião alheia. Em Barcelona, talvez a equipa mais coral da história, sobrevive apenas um ego. O que sobe ao estrado para recolher a nome individual o prémio que Guardiola insiste no balneário que é de todos. Como Platini antes dele, Lionel Messi é o rosto do valor colectivo e o espelho de uma era.

 

Muitas criticas receberam os directivos da publicação France Football quando Michel Platini foi fotografado com o seu terceiro Ballon D´Or consecutivo. Apesar de ser indesmentível que o francês era, por direito próprio, o jogador da sua época, muitos apontavam o dedo ao favoritismo nacionalista da publicação (afinal ele era o orgulho francês) e a falta de critério num prémio que não se decidia sobre se votavam no melhor ou no que fosse o protagonista principal do melhor ano. Platini tinha vencido nessa época (1985) a sua única Taça dos Campeões Europeus, onde apontou o golo decisivo nessa tarde para nunca esquecer em Bruxelas, por outros e muito mais sérios motivos. No ano anterior tinha sido a vitória superlativa no Europeu a justificar a atribuição do galardão. E em 1983, quando abriu a sua série, ficou no ar a ideia de que, simplesmente, era uma compensação por ter perdido o prémio no ano anterior para Paolo Rossi depois de realizar um notável Mundial em Espanha. Foi a última vez.

Depois de Platini surgiram jogadores que a história certamente colocará no seu devido lugar e alguns deles (Marco van Basten, Ronaldo, Ronaldinho, Zinedine Zidane) possam até ser considerados como superiores ao gaulês. Mas exceptuando o bailarino holandês (não de forma consecutiva), nenhum deles venceu por três vezes o galardão que qualquer futebolista ególatra gostaria de receber.

O Ballon D´Or é o que sempre foi, um prémio ao individuo num desporto onde este, para ser alguém, tem de saber estar ao serviço do colectivo. Valorizam-se os troféus ganhos pelos jogadores quando estes realmente são ganhos pelas equipas. Salientam-se as estatisticas individuais quando passa desapercebido que atrás de cada golo há um passe, atrás de cada assistência há uma recuperação e por cada finta genial há, de certa forma, o trabalho de outros 10 que possibilitam o tempo e espaço necessário para brilhar. Há jogadores que nunca ganharam ou ganharão um troféu destas características porque não entram nesse leque de egos no qual o futebol tanto gosta de se apoiar. E há outros que nunca ganharão prémios suficientes para aplacar o seu imenso ego. Messi é um deles.

 

O argentino sabe que na história do FC Barcelona nunca nenhum jogador teve tanto poder.

Pode passar desapercebido mas o papel de Messi no balneário do Camp Nou é superlativo. Foi à volta dele que Guardiola decidiu montar o seu projecto depois de obter da Pulga a concordância com um novo estilo de vida longe dos perigos da noite, da droga e do álcool onde começava a mergulhar. A partir dessa reunião Messi renasceu como jogador e Guardiola conseguiu o que necessitava. Dos velhos lideres do balneário, os homens da casa, como Xavi, Iniesta ou Valdés conseguiu o consentimento absoluto para as liberdades individuais de um jogador que, desde o primeiro momento, aprendeu a valorar o conjunto. Nesse aspecto a grandeza de Messi é inquestionável e aproxima-o muito mais aos grandes.

Platini soube sempre, mesmo debaixo do seu ego, que o seu triunfo era o de Tigana, Giresse, Girard, Rocheteau, Boniek, Scirea e companhia. Ele era o rosto, as mãos que recolhiam um troféu que existia por todos. Messi sabe-o e demonstra-o.

Guardiola podia ter optado por uma luta de egos porque seguramente a Andrés Iniesta, Xavi Hernandez, Gerard Pique, Victor Valdés, David Villa e até mesmo Samuel Etoo e Zlatan Ibrahimovic, poderiam reclamar muito mais protagonismo do que alguma vez tiveram. Os dianteiros foram afastados por isso mesmo, os restantes foram, de certa forma, forçados a aceitar como reconhecimento os triunfos colectivos, mesmo que os seus currículos superem os do próprio Messi com esses títulos de campeões da Europa e do Mundo com a Espanha que Messi nunca logrou emular nem de longe nem de perto. Por pertencerem a essa casta coral, é mais fácil para Xavi - dono de um ego descomunal que utiliza, como Guardiola, não para recolher prémios mas para se tornar numa espécie de guru da filosofia blaugrana - e Iniesta suportarem o sucesso de um colega e amigo do que para Messi ver-se superado individualmente por um colega que fez tantos ou mais méritos para ser considerado isso de melhor. Secretamente Guardiola, que viveu os dias complicados do Dream Team com Laudrup, Koeman, Stoichkov e Romário em eterna disputa, desejaria que Messi vencesse sempre, Xavi e Iniesta se contentassem com as nomeações e os pódios e todos felizes e contentes. Parte da sua labor está em manter esse equilibrio da mesma forma que van Basten foi eleito símbolo do AC Milan de Sacchi, que Cruyff representou o Ajax e a Holanda de Michels, que Beckenbauer (e não Muller) foi a cara do Bayern e da RFA ou que Platini representou o perfume do futebol champagne gaulês. Para um grande projecto, um só rosto, nenhuma luta (visivel) de egos e um bilhete para posteridade.

Este troféu - talvez o mais merecido dos três que já ganhou - confirma Messi e este Barça nesse planeta especial onde jogadores que pensam exclusivamente no ego individual nunca conseguirão estar. O génio individual de Ronaldinho, Cristiano Ronaldo, George Weah, Rivaldo ou Hristo Stoichkov é premiado ocasionalmente pela sua inevitável grandeza (da mesma forma que há prémios que só se explicam pelo "momento" em questão como os de Owen, Nedved, Cannavaro, Kaká ou Sammer) mas torna-se dificil repetir-se porque não assenta nesse espírito colectivo que é o que permite establecer esse porta-estandarte. Zidane, Figo e Ronaldo vencerem Ballon D´Ors ao serviço do Real Madrid mas nunca por estar a jogar de branco mas sim porque quem eram no panorama internacional. Este Barcelona optou por outro caminho, o de concentrar todos os focos num dos seus génios mais expressivos e guardar para o segredo do balneário as verdades sobre o real valor de cada um. Como a história já demonstrou, esse foi sempre o caminho dos grandes projectos, das grandes gestas. O triunfo do ego único para a sobrevivência do colectivo.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:34 | link do post | comentar

1 comentário:
De Aposta a 11 de Janeiro de 2012 às 18:36
Parabéns Messi!!!


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Miguel Lourenço Pereira

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