Durante os últimos 40 anos a Bundesliga viveu sob uma eterna realidade. O livro de cheques do Bayern Munchen. O clube a quem muitos chamam, despectivamente, FC Hollywood, tornou-se no pesadelo dos seus rivais. Dentro e fora de campo. Estrela que irrompia em hostes alheia, estrela que os bávaros tentavam capturar para o seu castelo. Marco Reus quebrou uma tendência crónica e, sem sabê-lo, pode até mesmo ter invertido uma longeva realidade. Hoje quem contrata são os outros, quem cultiva a formação são os ogres de vermelho.
No magnifico plantel desenhado por Louis van Gaal e que este ano é orientado por Jupp Heynckhes os números de contratações de estrelas locais empalidecem em comparativa com o leque de jogadores que chega dos escalões inferiores. Salvo a recém-chegada de Michael Neuer, indubitavelmente o melhor guarda-redes europeu do último ano, e o olfacto goleador de um Mario Gomez que chegou há três anos vindo do Stuttgart, o Bayern Munchen parece ter abandonado a sua velha politica de roubar as estrelas emergentes aos rivais para cuidar mais do seu quintal. Talvez a politica de formação que tanto (e tão bem) transformou o olhar que temos da Bundesliga também tenha realmente começado a fazer sentido para Uli Hoeness e Karl-Heinz Rummenigee, os homens fortes do futebol do Bayern.
Aos já veteranos Bastian Schweinsteiger e Philiph Lahm juntam-se actualmente Thomas Muller, Holger Badstuber, David Alaba, Toni Kroos, Diego Contento e Maximillian Riedmuller, todos eles formados nas camadas jovens do clube. Nove jogadores da casa no plantel principal, um êxito que não era logrado desde os anos 80 e que espelha bem a inversão da politica desportiva do clube. Se a isso juntar-mos que as mais recentes contratações foram relativamente low profile (o sueco Nils Petersen, o japonês Takashi Usami, emprestado e Anataly Timostschuk) temos um retrato bem diferente do que era habitual. E no entanto o caso Reus podia ter alterado essa imagem redentora.
Poucas figuras individuais pareceram tão relevantes no panorama desportivo alemão do último ano como Marco Reus.
O jovem médio-ofensivo emergiu como o líder de uma geração irreverente que transformou o decrépito Borussia Monchengladbach, outrora grande do futebol alemão, numa equipa capaz de lutar pelos primeiros postos da tabela. Rosto visível desta Nova Alemanha, junto a Ozil (Real Madrid), Muller (já no Bayern) e Gotze (estrela do Dortmund), o médio era também o valor mais apetecível do mercado, capaz de captar o interesse dos grandes da Europa...e do Bayern Munchen.
Apesar de ter várias opções para essa zona do terreno (incluindo Kroos, Muller, Ribery e Robben) o apetite bávaro perante uma pechincha (17 milhões de euros de cláusula) tornou-se evidente ao longo da primeira metade da temporada e muitos imaginavam um regresso às origens, ao período em que cada estrela jovem que despontava, como sucedeu com Michael Ballack, Sebastian Deisler, Steffen Effenberg, Oliver Kahn e tantos outros, acabaria no Allianz Arena. E no entanto, à medida que Hoeness tratava de vender a sua nova politica de formação (e estão Emre Can e Dennis Cheesa a caminho), o livro de cheques encarnado voltava a surgir como fantasma de dias pretéritos.
Mas Reus, inadvertidamente, mudou as regras do jogo. Entre Bayern Munchen e Borussia de Dortmund elegeu a segunda opção. O clube que se decidiu a formar para sair da crise financeira e descobriu em Nuri Sahin, Kevin Grosskreutz e Mario Gotze as armas para um titulo histórico decidiu inverter a tendência do mercado e pagar a cláusula por um jogador que, curiosamente, já fez parte da sua célebre formação e que saiu para Monchengladbach para procurar fortuna (como sucedeu com Ozil com o Schalke 04 ou Kroos e o Bayern). A chegada de Reus ao Welfastsadion tem um significado implícito previsível, nada menos do que a partida de Mario Gotze no próximo Verão por valores que certamente cobrirão este gasto surpreendente. Há muito que o Borussia estava longe das altas contratações (Jerome Boateng e Luis Gustavo, hoje no Bayern, foram exemplos de jogadores que se lhe escaparam) e só a frescura financeira com o dinheiro da Champions League e as vendas de Sahin, e previsivelmente, de Gotze poderiam justificar esta aventura.
No fundo este golpe na mesa significa, definitivamente, que há um novo ideário nesta nova Bundesliga onde nem todos os jogadores se rendem à atracção de Munich. A partida de Khedira, Ozil, Reus, Aogo e a incapacidade de atrair as jovens estrelas do Dortmund reflecte, de certa forma, uma mudança de imagem no papel de papão dos homens de Munich. É certo que homens como Neuer, Gomez e Boateng (via Manchester)o continuam a espelhar esse desejo do clube bávaro de se nutrir dos melhores jogadores alemães mas o processo começa a distanciar-se da omnipotência pretérita. Uma lufada de ar fresco para um campeonato que se converteu por direito próprio na grande sensação dos últimos anos. A forma como projectos sólidos em Dortmund, Gelsenkirchen, Bremen, Leverkusen ou Hoffenheim se vão formando, resistindo às acometidas do eterno campeão, ajudam também a explicar este novo perfume que jogadores como Reus, seguramente destinado a marcar o futebol alemão da próxima década, trouxeram aos campos da Bundesliga.