Há clubes dificeis de entender, de explicar. Cada país tem o seu. A grandeza que os rodeia perdoa muitos dos seus erros mas os dramas e surpresas que nos reservam garantem-lhes uma condição sui generis. Em Inglaterra nenhuma instituição se aproxima tanto desse ideário como o Newcastle United. Depois de uma década de atracção de feira, cheia de altos e baixos, os Geordies parecem finalmente a começar a levantar a cabeça. Ecos de um passado não tão distante relembram-nos que a magia de St. James´s Park continua viva debaixo do primeiro orvalho da manhã...
Ainda não atingiram o brilhante do projecto de Keegan e Dalglish de meados dos anos 90.
Aquela equipa jogava um futebol de ataque impensável para os dias de hoje. Impensável para os dias de então. Protagonizou algumas das noites mais espantosas da história do futebol inglês (os duelos com Liverpool e Manchester United tornaram-se clássicos únicos) e apesar de terem falhado por duas vezes o titulo, esse que tanto lhes escapa, ficaram para a posteridade como algo realmente especial. Equipas como o Newcastle são assim. Deslumbram mais vezes do que ganham, dramatizam mais vezes do que perdem. Em quinze anos os Geordies já souberam a que sabe o inferno, já voltaram a provar uma delicia do céu e agora, aparentemente, dedicam-se a desfrutar do carpe diem. A vida corre-lhes bem.
Depois de alguns anos em que a magia de St. James´s Park se esfumou diante dos seus, com os milionários projectos do clube a transformarem-se num quebra-cabeças desportivo e financeiro, esta época a alegria voltou ao rosto dos veteranos adeptos, daqueles que conhecem a realidade do clube antes do dinheiro da Premier ter chegado e com ele a ilusão de poder sonhar com algo grande.
A vitória por 3-0 diante do Manchester United, no passado 4 de Janeiro, não foi só um exemplo perfeito de que esta equipa está preparada para grandes noites. Foi também uma doce desforra contra o clube que impediu o sonho geordie há tantos anos atrás. E que agora entrou, também, num perigoso túnel escuro. O triunfo seguiu-se a um empate na primeira volta, em Novembro, em Old Trafford. Há largas épocas que o Newcastle não lograva ultrapassar os dois jogos contra os Red Devils sem uma só derrota. Sinais dos tempos. A equipa já perdeu duelos directos contra Manchester City, Chelsea e Liverpool mas em 20 jornadas os Geordies somam apenas cinco derrotas, os seus melhores números em muito tempo. Por isso cavalgam surpreendentemente em séptimo lugar, a apenas quatro pontos da Champions League.
O sucesso desta primeira metade de temporada do Newcastle deve-se, quase em absoluto, ao trabalho de Alan Pardew.
O técnico chegou a meados da época passada, substituindo Charles Hughton, o homem responsável pelo regresso à Premier League. Sem dinheiro para gastar, sem Andy Carroll (vendido ao Liverpool poucos dias depois da sua chegada ao banco) o técnico inglês construiu pacientemente uma equipa de trás para a frente, trabalhando sobretudo a solidez defensiva, grande lacra dos Geordies na última década. Confiou no holandês Tim Krul para a baliza - ele que está a ser um dos nomes próprias desta temporada - e numa linha de quatro com Simpson, Collocini, Ryan e Stephen Taylor (agora lesionado e substituído pela promessa italiana David Santon). O ataque foi entregue ao promissor diante senegalês Demba Ba, um dos goleadores mais eficaz das ligas europeias nesta temporada, apoiado nas alas pelo francês Obertan (depois da experiência falhada em Old Trafford) e pelo irlandês Leon Best.
Mas foi no miolo que realmente Pardew introduziu mudanças significativas que transformaram o Newcastle numa equipa sólida, cómoda com a bola nos pés, fiável nas transições e, sobretudo, com a maturidade para sofrer 90 minutos sem perder a concentração. A chegada de Yohan Cabaye, peça nuclear no titulo do Lille de Rudi Garcia, permitiu esse plus de classe no meio-campo, algo de que o Newcastle carecia há largas temporadas. O francês transformou-se naturalmente no líder do projecto e a sua contribuição, flanqueada pelo imenso trabalho defensivo de Jonás Gutierrez e Cheick Tioté, revelou-se determinante.
Com mais de meia época cumprida o Newcastle sabe que o mais difícil está por chegar. O excelente arranque de época elevou as expectativas ao máximo mas o desmantelamento do chamado Big Four (Man Utd, Chelsea, Liverpool e Arsenal) este ano é mais claro do que nunca com as campanhas de Manchester City e Tottenham Hotspurs a fecharem a qualquer outro projecto a entrada nos postos europeus. Dentro dessa realidade os Geordies conhecem as suas limitações e sabem que a Europa é uma ambição complicada por muito que a tabela classificativa diga o contrário. O papel de Demba Ba tem-se revelado fundamental mas a sua partida para África, onde disputará durante um mês a CAN, não augura boas noticias. A falta de liquidez financeira impede Pardew de procurar no mercado alternativas e o curtíssimo plantel permanecerá assim até Junho. Ba foi responsável por 13 dos 29 golos da equipa e na linha ofensiva só Shola Ameobi com um e Leon Best com três já marcaram esta época.
No entanto nem tudo são más noticias. Pardew confia que Sylvan Marveaux, mentor do Rennes na passada época e parceiro preferencial de Cabaye, esteja apto para voltar ao onze. Será uma adição superlativa que permitirá, sobretudo, um plus de qualidade que fará falta nos momentos mais tensos da época. Esperando ultrapassar os dois primeiros meses do ano por dificuldades, a equipa acredita que mais do que o sucesso imediato, se começam a construir as bases para um futuro mais sorridente. Os Geordies que rumam religiosamente a St. James´s Park sentem de novo a confiança no ar. E continuarão a marchar...