Há algo nos pés dos jogadores canários que se assemelha à calma das ondas quando se aproximam das ilhas que África perdeu há tantos milhões de eras atrás. A areia fina escorre pelos pés e dá forma à chuteira, a bola desliza suavemente a cada golpe e o momento de génio, mesmo antes da decisão, permite guardar na posteridade um riso no olhar. Nessa escola perdida e imemorial, a de Silva e Valeron, vive agora o talento de Jonathan Viera, um filho da areia com os olhos perdidos no tempo.
Aos 22 anos para muitos surpreende que um génio consumado como Viera ainda durma tranquilamente na sua casa de familia em Las Palmas.
Afinal será verdade esse mal-dito bem castelhano que faz referência ao que de fora é melhor, ao de casa desconfiar? Poucos motivos mais há para entender que nenhum dos 20 clubes da Liga BBVA tenha decidido a arriscar-se aos pés de um jogador chamado a marcar uma era nessa evolução histórica do futebolista canário. Desde há várias décadas que das ilhas atlânticas saem jogadores distintos, de fino corte, capazes de romper com o expectável. Assim era Juan Carlos Valeron quando na Coruña, esse outro rosto do Atlântico, se emergiu em figura superlativa do futebol técnico made in Spain. Assim é, agora, esse génio indomável David Silva, a quem Mourinho não quis, a quem Guardiola não confiou e que em Manchester começa a causar um impacto tão lendário no City como Cantona logrou com o United há vinte anos atrás.
Viera pertence a essa escola, não precisamos de mais de 15 minutos para sabê-lo com certeza (aos 10 já o desconfiávamos), e isso significa que no seu jogo vem o bom e o mau, as noites perdidas em festas nas ruas quente de Las Palmas e os golos e passes impensáveis que destila cada vez que sobe ao relvado. A sua história não é tão diferente dos demais.
Depois de uma infância como estrela consumada do futebol juvenil da ilha de Las Palmas, aos 16 anos Jonathan Viera ingressou definitivamente nos quadros da UDLP, passando a fazer parte da equipa B onde começou a despontar às poucas semanas de aterrar. Sem grande velocidade nas pernas, é a visão de jogo e o poderoso remate que surpreende a mais concentrada defesa que lhe permitiram destacar sobre os demais. Em dois anos tinha cumprido com a sua formação e foi ascendido, inevitavelmente, à equipa principal. As ilhas viviam a euforia do regresso à Liga, com o Tenerefe, mas o clube de Santa Cruz não tinha um jogador com ele o destino dos azulones tornou-se inevitável. O de Viera começava a desenhar-se.
A partir de 2010-11 a sua presença na primeira equipa dos canários tornou-se regular e fundamental.
O clube islenho aguentou a competitividade da Liga Adelante, quando todos o condenavam à despromoção, e os golos (6) e assistências (7) de Viera revelaram-se decisivos nos momentos mais apertados da temporada. A forma elegante como caminhava pelo terreno de jogo, cabeça erguida, olhos na bola, davam-lhe esse traço distintivo que só os jogadores superlativos conseguem transmitir. Mas os relatórios dos olheiros que viajavam semana sim, semana não à ilha traziam também referências sobre a sua vida nocturna, as suas poucas ânsias de deixar a casa dos pais, essa tradição familiar tão omnipresente no historial espanhol. E o ano passava e as chamadas à direcção continuavam omissas, guardadas numa caixa de pandora de futuro. Viera ficou mais um Verão mas com a sua estreia pela selecção nacional sub-21, em vésperas do seu novo titulo europeu, deram-lhe um protagonismo extra que só o parece ter motivado ainda mais.
2011-12 arrancou e ainda só vai a meio mas os números do médio já igualam todo o seu registo da temporada passada. Viera é mais certeiro diante das redes, mais arriscado no último passe, mais rápido na condução de jogo e os relatórios da noite começam a perder força, talvez depois de o seu idolo David Silva, essa inspiração diária, ter passado pelo mesmo na sua etapa em Valencia, nesse seu fascinio pela festa que fez com que tanto Mourinho como Guardiola dissessem não e os milhões do City um gritante sim.
A esmagadora maioria dos analistas da liga espanhola sabem que este é o último ano de Viera em casa. Tanto o Villareal como o Valencia já fizeram saber do seu interesse no jogador. Do estrangeiro, talvez inspirados pelo sucesso esmagador do futebol espanhol, começam a chegar ofertas truculentas. Viera joga com a fome de quem sabe que o relógio anda a passe acelerado. Talvez por isso jogue cada vez noutra dimensão, nessa esfera de tempo onde só os eleitos têm direito a estar.