Sábado, 24 de Dezembro de 2011

De pequeno sempre tive uma profunda reverência à fleuma britânica. Olhava cinicamente para o jogo pausado que vinha do outro lado do Altântico e ambicionava ser capaz de sentir-me tão à vontade com a bola nos pés como o mais vulgar dos artesões holandeses. Mas em Itália encontrava o meu consolo, sentia a minha alma palpitar de outra forma. Ali o jogo belo era-o por um sem número de motivos, cada um mais atractivo do que outro. Hoje o Calcio vive horas a fio na penumbra da dúvida sobre um futuro que não termina de desenhar-se nos céus. Talvez por isso o ame mais do que nunca. Talvez por isso sinta este fascínio sem igual...

Onde uns vêm com desdém eu mastigo com devoção.

A bola rola pesarosa por um tapete que não chega à imagem verde que a mitologia nos ensinou mas que, se pudesse falar, contaria histórias de dez mil e uma noites sem pregar olho. O posiconamento dos vinte e dois jogadores roça a perfeição. O erro é o castigo, a exigência é máxima. Se o acordeão se move para o lado o espelho acompanha. Três, quatro, cinco passos, não há espaço para mais, mover-se é um desafio tão exigente como não falhar...o passe, o remate, o corte, o posicionamento. Nenhum futebol do Mundo é tão exigente como o Calcio e por isso mesmo mergulhar profundamente na sua idiossincrasia não deixa de ser um sério desafio.

Nasci com uma bola nos pés e aí ela foi ficando, ano após ano, à medida que ia encolhendo e eu aumentando de tamanho. Tornava-se fácil apreciar o leque de estrelas que via nos jogos disputados em Espanha. Ou vibrar com o jogo frenético e tão desorganizado da Premier League, esse jogo que aprendi a ver como o original quando, realmente, era apenas um hiato numa história que mudou muito ao longo dos últimod 100 anos. Em provas de selecções tinha os meus fetiches, habitualmente países pequenos com esse ar de superioridade moral a quem a posse e o toque transmitem uma sensação de impotência ao alheio. Mas no final, Itália era uma perdição.

Crescer na época dourada do futebol italiano forçosamente alterou a minha perspectiva mas hoje, muitos anos depois de perder a conta às grandes equipas que via, continuo a sentir algo especial sempre que vejo aqueles estádios semi-vazios, aquele relvado apertado no miolo e aquelas camisolas azzuri quando a Primavera se despede de dois em dois anos para dar lugar ao Verão. Itália tornou-se naquela mulher que todos admiramos mas poucos têm coragem de confessar aos amigos. Porque não é a mais bonita, porque não é a mais sensual ou a mais excitante. Mas que nos consegue mover só com a picaresca do olhar.

 

Aprendi que a bola no Calcio é um elemento tão importante como a chuteira, a altura da relva e o nome do árbitro.

Essa devoção quase absurda de uns conseguia fazer-me sentir ainda mais atraido por aqueles que viam o jogo com o mesmo apetetito que um xadrezista de topo olhava para o tabuleiro por estrear. As peças colocadas, as jogadas ensaiadas vezes sem fim e no final o inevitável cheque mate. Como diria o imenso Gianni Brera, para o italiano o jogo perfeito seria sempre um 0-0, algo que o adepto comum seria incapaz de suportar porque olha para o futebol como uma forma de livrar-se das penas do dia a dia. Da mesma forma que a maioria dos espectadores nas salas de cinema preferem comédias, melodramas ou cinema de acção também os seguidores da bola gostam de golos, sprints, fintas espantosas e irrepetíveis e emoção. Passar hora e meia a ver o relógio mover-se, timidamente, à medida que os ponteiros medem a tensão de ambas as equipas, definitivamente, não é para qualquer um.

Com o Calcio aprendi que a disciplina vale mais que as corridas com o coração nas mãos tão habituais da mentalidade morrer com as botas calçadas da Premier. Ou o brilhantismo técnico, tantas vezes inconsequente, da Liga Espanhola. Os jogadores em Itália são diferentes de todos os outros. Tecnicamente podem ser tão ou mais dotados mas psicologicamente vivem num mundo à parte. São capazes de ler um jogo em 94 minutos, de saber controlar os tempos, as emoções os suspiros. Encaram cada jogo com o mesmo profissionalismo de uma cimeira de paz, sempre pensando nas consequências de cada acção. A diplomacia do futebol italiano aproxima-o, mais do que nenhum outro, à realpolitik, a mesma que destroçou a anarquia romântica do Brasil de 82 ou que rasgou as casas de apostas em 2006. Os italianos são, talvez, dos poucos que entendem o futebol verdadeiramente como algo colectivo e mostram uma impressionante capacidade conciliar o individuo com o todo, a arte com o oficio. Baggio, Zola, Del Piero, Totti, Cassano, Pirlo valem tanto como Gattuso, Conte, Ancelloti, Baresi, Maldini, Tachinardi ou Cannavaro. Têm a injusta fama de futebol defensivo - e são talvez uma das melhores canteras de guarda-redes e centrais do Mundo - e no entanto ninguém esquece a fome goleadora das equipas de Sacchi e Lippi, o respeito que ouvir os nomes de Rossi, Vialli, Mancini, Chiesa, Delvechio, Montella, Ravanelli, Inzaghi, Toni ou Pazzini supõem para o rival. Talvez por viverem num país estreito, os italianos sempre preferiram canalizar o seu jogo pelo corredor central. Não há extremos ou laterais ofensivos que abram o campo, a bola discute-se com o mesmo fervor que a relva. E com a mesma exactidão. O relógio continua a soar, lá ao fundo, numa qualquer piazza de eclesia perdida no meio do belle paese, e o jogo segue, sem pressas, sem essa vontade de agradar que tanto parece fazer falta aos demais.

 

Com o passar dos anos aprendi a amar cada futebol pelo que é, descubrindo as suas virtudes e defeitos e hoje é dificil dizer que exista algum estilo, alguma escola que não me apaixone de certa forma. Ruivas, loiras ou morenas, com bola, sem ela, altas, baixas, muito ou pouco peito, atrás com 5 à frente com quatro, no meio com sete... o futebol, como o sexo feminino, só me desperta sensações positivas e experiências únicas. Ver o Chivas de Guadalajara, o Hearts of Oaks ou o Hellas Verona tornaram-se vivências, por si só, únicas na sua emoção. Mas o meu olhar acaba sempre perdido nos Alpes, viaja pelo Pó, senta-se na baía de Napoles e mergulha no Mediterrâneo. Como com as mulheres, e não se entende o futebol italiano sem as mulheres italianas, no final só há uma que me preenche verdadeiramente. Lembro-me daquele por do sol e penso no Calcio, a bola continua a girar, o acordeão de jogadores move-se lado a lado, a cabeça bem levantada e a vida faz-se eterna debaixo do limoeiro...



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 00:06 | link do post | comentar

3 comentários:
De César João a 24 de Dezembro de 2011 às 12:00
Desejo um Santo e Feliz Natal para si,família e, a todos os que visitam este blogue.
Festas Felizes!

César João


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Dezembro de 2011 às 12:51
César,

Obrigado e um óptimo Natal para si e todos os seus ;-)

grande abraço


De jaques a 3 de Fevereiro de 2012 às 22:33
Venho tarde mas tenho de deixar na mesma o meu apreço pelo belo texto de ode ao calcio, e aos outros futebóis.

Nos anos 90 admirava muito Itália, depois a bússula do bom futebol indicou Inglaterra, e hoje os melhores (treinadores e jogadores) estão em Espanha.

De qualquer forma continuo a admirar quem não se rende a modismos e se mantém fiel a um estilo...

A Samantha Fox abanava muito os melões, a Penélope Cruz põe-se em bicos de pés em Hollywood, mas nenhuma chega aos calcanhares das italianas: Gina Lollobrigida, Sofia Loren, Monica Bellucci...


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