Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Setembro nunca foi tão quente e Guardiola tão audaz. Nesse inicio de mês de despedida de um Verão inesquecível escrevi aqui que o técnico de Santpedor tinha dado um passo mais em frente e abdicado da figura do avançado moderno. Muitos pensavam que este Barcelona não podia ir mais longe e que o desejo de jogar só com centro-campistas era mais um sonho retórico que um projecto realista. Palavra de Pep, palavra cumprida. O futebol de moda, agora,  é dos médios!

A chegada de Fabregas e Alexis Sanchez ao Camp Nou (ao mesmo tempo que se promovia definitivamente o talento inato de Thiago Alcântara) parecia, à primeira vista, criar um problema de overboking. Um plantel superlativo com poucas opções atrás, menos à frente e um excesso de centro-campistas para quem esteve habituado a jogar os últimos anos num 4-3-3 fléxivel mas, mesmo assim, 4-3-3.

Guardiola, provavelmente o treinador que melhor soube inovar tacticamente o jogo desde os dias de Marcelo Bielsa (de quem, de certa forma, é tão sucessor como de Johan Cruyff) sabe que não renovar é morrer, não só no panorama do futebol profissional actual mas, sobretudo, no ADN desportivo do Barcelona.

Um clube que sofre mais do que é habitual quando deixa de ganhar tem de encontrar uma constante motivação para não perder. A decadência dos projectos de Cruyff, van Gaal e Rijkaard deixou lições aprendidas e, melhor do que ninguém, Guardiola sabia que o sucesso só era factível se a aposta fosse em quem sentisse profundamente o sentimento de gere o cosmos de um clube que brilhou com os seus galácticos nos anos 90, com uma hoste de holandeses na mudança de século e depois com o sotaque exótico afro-brasileiro no mandato de Rijkaard. Rodear-se de filhos da Masia, filhos seus, foi o primeiro passo. Cercar-se de médios, o definitivo.

Guardiola sempre referiu que para ele o jogo era uma questão de centro-campistas e se fosse possível alinhar 11 médios o faria. Claro que muitos levaram pouco a sério este e outro tipo de frases que levaram a Ibrahimovic a catalogar o técnico como "filósofo", um epítome que funciona mal com o cheiro a suor dos balneários. Mas esse ideário táctico que contrariava a tendência histórica de considerar o jogo ou uma questão de defesas ou de avançados nunca saiu da mente de Pep e sentindo-se forte, sentindo-se conhecedor do meio onde navegava, o técnico decidiu romper com as regras e realizar a mais profunda mutação táctica desde os dias de Sacchi. No ocaso do Verão anunciou as intenções, na despedida do Outono completou a metamorfose. Muitos duvidavam da eficácia do 4-6-0. Para Guardiola o futuro é o 3-7-0.

 

Naturalmente um desenho táctico sem avançados e praticamente com os mesmos defesas que ideou Herbert Chapman há oitenta anos não só parece complexo no papel. Na realidade é-o ainda mais. Provavelmente é um esquema que funcionará no tempo e espaço, tempo hoje, espaço Camp Nou, reflexo perfeito desse leque de maravilhas que é o plantel blaugrana. Dificilmente uma equipa pretérita conseguiu reunir tantos talentos num espaço tão apertado do tapete verde como este projecto que arrancou com os despojos de Rijkaard e que se metamorfoseou até tornar-se algo profundamente inovador.

Qualquer clube que não disponha de jogadores que combinem tão bem a velocidade e o critério, o posicionamento defensivo e o jogo colectivo transformaria este esquema num desastre absoluto, mais próprio de um desenho infantil do que uma ideia vanguardista. Mas Guardiola sabe que esta era é irrepetível e que Xavi, Iniesta, Busquets, Cesc, Messi, Thiago e Alves não voltarão a jogar juntos com o mesmo apetite, frescura e classe como nesta série de anos que se prolonga mais do que muitos esperariam. Por sabê-lo, por senti-lo, Pep tem a certeza que esta experiência entrará nos anais da história e aí ficará, como peça de museu, quando o seu projecto, inevitavelmente se desintegre. E enquanto dura, o melhor é desfrutá-la.

Este 3-7-0 não renega do ataque nem da defesa. Busca o eterno equilibrio que tantos técnicos são incapazes de lograr, ora sacrificando um homem à frente (como os Mourinho), ora perdendo o controlo do manejo dos espaços atrás (como sucedeu com a Alemanha de Low no último Mundial). Guardiola conta com um lateral da escola brasileira que lhe garante a factibilidade de jogar apenas com três defesas. Dani Alves não é um jogador único porque o seu modelo de jogo é, no fundo, um loop do que o Brasil vem oferecendo, com mais ou menos critério, desde a década de 50. O seu aproveitamento como falso extremo, falso médio, falso defesa emula o que Scolari procurou com Roberto Carlos e Cafú em 2002 e de certa forma pode dizer-se que o brasileiro fez pelo lado direito o que o eterno número 3 do Real Madrid logrou com o esquerdo. O seu balanço ofensivo é compensado pela frieza posicional de um trio de ases - Puyol, lateral direito nos dias de van Gaal, Piqué e Abidal, um lateral esquerdo que é central e que às vezes nos lembra que foi lateral esquerdo. Com esses três homens (e com Mascherano), Guardiola sabe que a solução será sempre a mais fácil e, preferencialmente, com a bola a seguir tranquilamente no tapete verde. O trabalho de Victor Valdés, que se transforma nesse quarto defesa, num libero ao estilo de Rene Higuita, é igualmente fundamental para garantir uma defesa que se coloca preferencialmente equidistante entre o miolo e a grande área. E que encurta o campo como Guardiola aprendeu de Sacchi durante horas de conversas perdidas no tempo.

 

É no entanto o médio que se torna o protagonista. O verdadeiro, o falso, o interior, o exterior, o ofensivo, o destruidor, o constructor...

Com Guardiola o futebol de moda tornou-se no futebol dos médios. Hoje os miúdos continuam a encantar-se com golos e sprints mas há cada vez mais pequenos Xavis, Iniestas e Fabregas de futuro nos recreios das escolas. O médio total tornou-se tão ou mais apelativo que a figura do solitário dianteiro. Essa solidariedade colectiva de que vive o jogo do Barcelona, esse eterno rondo que continua até nas horas de sono, transforma os sete magníficos do miolo numa arma impossível de contrariar, pelo menos, até agora.

Alves é o homem que varre à direita, aquele em quem todos podem confiar que tanto pode abrir o campo ao máximo como, subitamente, realizar uma diagonal que desconstrói a defesa mais bem organizada. No lado oposto dançam Sanchez ou Thiago (ou Pedro, ou Villa, ou Afellay, ou Cuenca que a lista é interminável). Esse é o posto mais anárquico, o que varia conforme o interprete mas que, sobretudo, tem menos preocupações defensivas que o lado oposto, o que mais depressa encontra forma de surgir como falso avançado (como sucedeu com Sanchez no Bernabeu) ou pivot para o jogo de toque curto dos restantes cinco. No jogo contra o Santos, o tal que fará parte de qualquer lição de bem jogar a partir de hoje e até tempos imemoriais, Thiago exemplificou perfeitamente o que Guardiola idealizou para essa camisola rotativa. Um sacrifício pelo bem comum, um destelho para a alegria colectiva. Desde o seu primeiro ano que nos habituamos a ver os extremos de Guardiola junto da linha lateral. Tornou-se no seu habitat natural, da mesma forma que já o eram nos dias de Chapman e que, com o passar dos anos, se tornou num pálido reflexo do passado. Mas, sobretudo, esse posicionamento permitiu abrir um imenso quadrado no meio onde se desenham os triângulos que formam o esqueleto blaugrana. Esses são os homens que fazem funcionar a máquina. O que impedem que a bola não incomode demasiado os três (quatro com Valdés) atrás e que garantem que ela acabe, com o máximo número de toques possível, nas redes do contrário.

Dois vértices em baixo - Busquets e Xavi - dois vértices em cima - Cesc e Iniesta - e um joker livre pelo meio, Lionel Messi, e as palavras deixam de fazer sentido. A forma como a bola flutua pelos pés dos cinco jogadores em espaços tão exíguos relembra uma celebre cena de um dos mais icónicos dos filmes dos irmãos Marx, A Night at the Opera, onde o quinteto de irmãos consegue encher um compartimento de um cruzeiro das mais distintas personagens.

O miolo do Barcelona parece sempre sobrepovoado, o campo parece do tamanho de um ringue de futebol sala, e no entanto essa escola de toque que se fomenta desde a mais tenra idade na Masia transforma esse problema na verdadeira solução. Os rivais não sabem manobrar-se em tão pouco espaço, a bola perde-se com mais facilidade porque não há tempo para pensar e a tentação do lançamento largo só facilita a recuperação da posse de bola, esse credo do qual vive e respira qualquer equipa de Guardiola.

 

O 3-7-0 não será a táctica do futuro (o 4-6-0 não era propriamente uma novidade inédita, apesar da sua pontualidade ocasional) porque depende de tantas condições que é altamente improvável que volte a surgir uma conjuntura tão propicia. O futuro do futebol mundial dependerá sobretudo não dos Mourinhos, Ferguson ou Wengers, nomes consagrados fieis ao seu ideário, mas sim dos técnicos novos que estudem a maneira de pensar deste Barcelona e encontrem o antídoto certo, um antídoto que reclame a bola e o espaço como seu sem abdicar de um e de outro. Será complicado porque o esgar colectivo de assombro, esse aplauso generalizado provoca sobretudo uma falta de tempo e critério para a observação e estudo das falhas, que certamente existem, no planteamento de Guardiola. Até chegar esse momento, até assistir-mos a uma nova metamorfose, o futebol será desses magníficos. Mais do que títulos o grande logro histórico deste Barcelona foi superar os preconceitos do passado e transformar-se na vitória dos médios!



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:42 | link do post

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