Sabia André Villas-Boas que trocar a cadeira de sonho por uma cadeira electrocutada tinha os seus riscos e apesar de parecer uma mudança fácil a decisão de trocar o FC Porto pelo Chelsea sempre pareceu mais complexa do que se possa imaginar. O projecto desportivo de Abramovich chegou a uma dessas encruzilhadas onde realmente se julga a condição de grandeza de um clube. O técnico português foi chamado mais por essa crença do magnata russo nesse futuro respeitável do que propriamente numa filosofia de resultadismo que orienta projectos onde o dinheiro fala sempre mais alto. Resta saber quanto vale a fidelidade do russo a uma ideia...
Pouco fica quando o dinheiro acaba e, mais tarde ou mais cedo, ele acaba mesmo.
Treinar um projecto desportivo que está assente no livro de cheques é um risco porque a cobertura pode um dia falhar e revelar uma realidade cheia de cinzentos escuros e negros. Hoje ninguém aceitaria treinar um Blackburn Rovers endinheirado e no entanto isso foi o que Kenny Dalglish fez quando os Rovers eram o Chelsea dos 90s e quebraram um mandato dictatorial do melhor United de Ferguson. Equipas como o Manchester City ou o Chelsea, por muito passado respeitável que tenham, sempre foram membros dessa classe média futebolística, irmãos pequenos dos grandes rivais urbanos e, portanto, perdendo o prestigio tinham de o compensar com algo. O dinheiro.
Só que projecto assim normalmente têm prazo de validade. Se o dinheiro é curto - e quem se lembra de Peter Risdale? - acabam depressa quando o banco começa a exigir mais do que o que dá. Se o dinheiro dura vários anos é, habitualmente, quem o investe que se farta de mais do mesmo e procura uma noiva loira de mamas falsas, um novo iate de luxo, um clube nas Américas e um hotel nas Arábias. Quando o dinheiro se vai vai-se tudo com ele e só os clubes que apostaram no prestigio histórico - por muito mal que andem de dinheiro - conseguem sobreviver com dignidade em dias de penúria. Os outros - lembram-se do Matra Racing? - caem no esquecimento. Esses clubes vivem o momento, o sonho e precisam de homens que sintam essa necessidade de armar tenda em qualquer lado para triunfar. José Mourinho foi o homem ideal para Abramovich porque era um treinador com a vista noutro lado desde o primeiro dia. O seu impacto é imediato, o seu sucesso exprimido até ao tutano e depois, et voilá, o adeus a tempo e horas prevê a catástrofe. O Chelsea pós-Mourinho até fez melhor figura na Europa (foi a uma final da Champions, perdida pelo azar de Terry e a fraqueza mental de Anelka) e voltou a vencer a Premier, mas essa aura de projecto novo atractivo perdeu-se. Mais do que Abramovich se fartar - e o dinheiro começou a chegar em menor quantidade - foi o mundo que se fartou do Chelsea. Os adeptos procuraram outros ódios de estimação (olá City), os jogadores descobriram que havia destinos mais atractivos e os rivais perderam-lhe o respeito. Em quatro anos o Chelsea deixou de ser um ogre temido a ser mais um de muitos clubes de top que têm prazo de validade quando os cheques deixaram de chegar definitivamente. O iate de Abramovich já conheceu melhores dias.
No meio deste cenário de luxúria desportiva, chega com uma garrafa de Porto vintage um tal André Villas Boas a Londres.
Não é um Special One porque as imitações raramente funcionam e o seu sucesso no FC Porto deveu-se a muitos factores e só um deles lhe corresponde directamente. Cómodo no clube do coração, chegou a um momento da sua vida onde podia perspectivar um futuro repleto de titulos portugueses e alguns brilharetes europeus aqui e ali. Mas esse prestigio que é treinar o FC Porto não deixa de ser enganador num mundo de tubarões da alta finança e como o mais cínico dos Humphrey Bogarts podia presumir, isso não era suficiente. Londres atraía pelo passado mas sobretudo pelo futuro. O problema, está claro, era o presente.
Villas-Boas viveu na pele a era Mourinho. Sabe o efeito do sadino nos seus ex-jogadores e sabe que depois deste sair estes nunca mais voltam a ser os mesmos. Essa orfandade emocional, esse físico destroçado por anos de exigência máxima são difíceis de compensar e o Chelsea de Mou continuava a ser o mesmo cinco anos depois, anos em que Abramovich tentou vários modelos sem nunca se sentir satisfeito. O problema dos novos-ricos do futebol não é o dinheiro que gastam mas a sensação de que o fazem sem ter uma só ideia. O Barcelona gasta todos os anos verdadeiras fortunas mas, pelo menos, vive uma ideia de jogo à que é habitualmente fiel e que lhe permite dar continuidade à estrutura do clube. No caso de entidades como o Chelsea (olá City) vê-se o enfoque no imediatismo e nunca se pára para pensar o que se quer para o amanhã. O Chelsea é um clube de possessão ou de contra-golpe? De pressão alta ou de deixar jogar? De jogadores com uma entidade técnico-fisica evidente ou uma miscelânea? Ninguém, nem o próprio Abramovich, sabe ou pensa sequer nisso. Por isso os Mourinhos do futebol funcionam tão bem porque eles trabalham com o que há para o hoje. O amanhã é para os lorpas que vêm a seguir resolverem. Villas-Boas não quer ser o lorpa de turno, o novo Grant, Scolari ou Ancelloti mas para isso terá de medir os seus tempos com frieza e determinação.
Já na época passada se tinha começado a reestruturar o plantel do clube londrino mas, uma vez mais, sem ideias de futebol presentes. A contratação de Torres, David Luiz e Ramires deixaram a nu essa incerteza. Um avançado que joga em velocidade num plantel onde abundam os avançados. Um defesa de choque mas com propensão para o erro ocasional ao lado de uma dupla Terry-Ivanovic, de primeiro nível. E um médio pulmão sem critério com a bola que deixa antever que o toque não será uma prioridade. E no entanto, meses depois, chegam Mata, Meireles, Oriol e com eles Villas-Boas a defender o critério, a posse e o jogo entre-linhas. O 4-3-3 da era Mourinho, compacto, de jogo lateral e veloz transformou-se num 4-3-3 de defesa alta, linhas móveis e ataque continuado. Mas a filosofia no papel contrasta com a falta de critério no balneário.
As derrotas dos Blues frente ao Manchester United, Liverpool e Arsenal foram mais do que derrotas no plano futebolístico. O Chelsea perdeu contra equipas de prestigio, instituições que sabem ao que jogam e que, por muito mal que estejam no presente, têm um ADN a que são fieis e que sacam a reluzir em jogos de máxima importância. O Chelsea vive perdido nesse meio porque Villas-Boas ainda não teve habilidade para manobrar esses tempos de gestão fundamentais para que um blockbuster se transforme num êxito de larga duração. Mais do que reformular o plantel onde abundam jogadores em fim de carreira o que o português tem de lograr é persuadir Abramovich a esquecer o iate por um instante e pensar que a sua paixão de uma noite se transforme num longo casamento, cheios de dias rotineiros, jantares de família aborrecidos e sessões de sexo esporádicas e sem paixão. Villas-Boas sonha sobretudo em criar à sua volta o mesmo prestigio que logrou Wenger que soube manter longevos os homens do "boring Arsenal" como Keown, Adams, Dixon e Parlour ao mesmo tempo que ia imprimindo o seu cunho com Henry, Pires, Ljunberg, Vieira, Cesc e companhia. Vencer o Manchester City é um logro importante no imediato mas não deixa de ser um duelo de iguais, de duas equipas cheias de egos mas sem uma identidade. Mais do que disputar o titulo ao novo-rico do momento a liga do Chelsea deveria ser a do amanhã, a que lhe permita um dia sentar-se ao lado do trio histórico que define o futebol britânico e esperar a ser servido como um membro mais da família.

