Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

Na sociedade actual o pensamento único é uma tendência dominante e, ao mesmo tempo, preocupante. O diferente, o alternativo, o original, o ancestral é deixado de parte em prole de uma linha comum, de um politicamente correcto que corrói até à medula os alicerces da nossa sociedade. O futebol, que funciona sempre como espelho sincero desse mundo interior, vive o mesmo dilema. A ditadura futebolística de um Barcelona único, respaldado pelo sucesso internacional da selecção espanhola transformou em vaca sagrada o futebol de posse mas como a experiência de Luis Enrique vem provar, o sucesso de cada estilo depende, como dizia Gassett do "eu", das circunstâncias.

 

O sucesso espantoso do Barcelona de Guardiola escondeu, na passada época, um fenómeno ainda mais atraente. O êxito da equipa B dos catalães. O projecto que liderava Luis Enrique foi, durante largas semanas, uma das grandes sensações do futebol europeu, demonstrando uma classe e superioridade que permitiam imaginar uma posição cómoda na tabela em muitas ligas europeias. E estes, maioritariamente miúdos, eram apenas a segunda versão do conjunto blaugrana, aquela a que Pep recorre quando sente necessidade de expandir o plantel principal, controlado até ao último ego.

Seguindo a filosofia de toque da escola cruyffiana, imitando o modelo de jogo dos titulares, o jogo do Barça B encantava pela fluidez, pelo controlo e pelas dimensões ofensivas. No cálculo do espaço, no tempo com a bola e na aptidão pela surpresa. Com Nolito, Soriano, Robert, Oriol, Montoya, Bartra, Thiago, Fontás e companhia, estava claro que só com esse pensamento único na bola como filosofia a equipa podia funcionar. E como um relógio suiço, preciso e mecânico, o projecto foi transformando-se de anedota a realidade e terminou o ano em posições de disputa de um play-off de acesso a que teve de abdicar por questões lógicas de regulamento. Era evidente que o papel de Luis Enrique fazia todo o sentido nesse micro-cosmos onde a posse, o passe e o “rondo” são santo e senha e muita foi a expectativa que se gerou quando o asturiano – um dos que trocou Madrid por Barcelona, no caminho inverso que fez Laudrup na mesma época – anunciou que iria procurar um novo desafio, talvez sabedor que viver à sombra de Guardiola é complicado.

 

Por muito paradoxal que aparente a escolha de Luis Enrique pela AS Roma no inicio parecia fazer sentido.

O clube gialorosso tem uma tradição dentro do Calcio de ser uma equipa que preza a bola mais do que o espaço. O clube que glorificou Conte, Falcão e Totti gosta de sentir-se importante a fazer o esférico circular e o projecto milionário que pretendia revitalizar a vida de um dos poucos clubes a desafiar a hegemonia do Inter durante os mandatos de Mancini e Mourinho parecia ter encontrado a sua alma gémea.

Só que Luis Enrique, destemido mas sempre incauto, esqueceu-se das celebres e certas palavras do seu amigo Guardiola sobre um futebol italiano que ele aprendeu a amar durante as suas passagens por Brescia e pela própria Roma. Numa das suas dissertações, quando ainda bebia futebol como aluno, Pep falou da sua relação com um célebre dirigente do Brescia enquanto discutia à mesa sobre a supremacia do futebol de toque e o jogo de espaços que sempre caracterizou o giocco a la italiana. Depois de horas a debater Pep levantou-se, beijou a testa do seu contertulio e exclamou, “tens razão, é impossível discutir a essência de um povo”, e deu por terminado o assunto. Com essa afirmação ficou claro que Guardiola se deu conta que enquanto o futebol de toque funciona bem dentro da filosofia centro-europeia – exportada fielmente para Barcelona e só para Barcelona – no resto do mundo encontra sempre resistências face à cultura local. Em Itália, como Mourinho provou, ter a bola é o de menos quando se controla o espaço. No país da bota o sucesso do Barcelona é visto à distância com admiração mas, também, com esse dose de profundo realismo de um futebol diferente que não é nem melhor nem pior no mesmo que consagrou o AC Milan ou a Squadra Azzurra na última década. Esse olhar arrogante que a maioria dos apologistas da posse têm sobre os demais esta habitualmente ausente quando se olha a partir de outras filosofias, incapazes de aceitar o dogma da verdade institucional.

A campanha de Luis Enrique numa Roma reforçada a seu belo prazer (Bojan, Osvaldo, Lamela, Jose Angel) demonstra bem esse olhar de superioridade frustrado. Entre adaptar-se a uma filosofia local e depois explorar o seu ideário e impor a sua mentalidade, Luis Enrique optou pela segunda abordagem, desafiou os adeptos, encarou-se com Totti e em troca não conseguiu apresentar nada. A sua equipa tenta jogar como os projectos blaugranas pretéritos mas o ADN italiano parece vir ao de cima quando a bola deixa de fluir com normalidade e a velocidade e o recuo de linhas convida a pensar que desastrada é este mistura de ideários. Como se um violinista clássico tentasse entrar numa rave, Luis Enrique é incapaz de entender que antes da sua Roma poder jogar como o Barcelona, primeiro tem de assimilar todos os conceitos sociais, politicos e individuais que fizeram do clube catalão o clone perfeito do ideário holandês. A singularidade do espírito catalão tornaram-no num laboratório perfeito para este sistema de jogo mas, ao mesmo tempo, deixaram-no ainda mais isolado do resto do Mundo onde o jogo directo (no Norte), o jogo de espaços (no Mediterrâneo), a desordem táctica assente no génio individual (em grandes partes da América e África) e, sobretudo, um jogo muito mais estruturado e muito menos fluido são santo e senha. O técnico que abdicou de Isaac Cuenca (emprestado ao Sabadell) por entender que a equipa B deveria emular o jogo da principal, repleto de falsos 9 em lugar de extremos puros, voltou a deixar em evidência a sua incapacidade para ver mais além do velho ditado que nele se aplica tão bem.

 

O fracasso do técnico espanhol no projecto romano é evidente e consequente com tudo aquilo que Luis Enrique preconiza. Um dos grandes defeitos dos treinadores quando migram é o autismo que demonstram face à nova realidade que os rodeia. Esse insularismo mental consegue sempre que se suspeite de técnicos que são bem sucedidos num só laboratório de provas (daí as suspeitas de muitos com Guardiola, suspeitas que não partilho) porque mais do que manejar as tropas, conhecer a bíblia táctica e lidar bem com a imprensa um técnico é, sobretudo, um antropólogo e sociólogo, capaz de reconhecer o mundo onde entra e onde pretende triunfar. Se faz da sua vida profissional um doutrinário das ideias únicas, do politicamente correcto, o seu destino está traçado desde o primeiro dia. O sucesso de uma ideia não faz com que seja, forçosamente, a única ideia a seguir.



Miguel Lourenço Pereira às 11:11 | link do post

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