Os filhos do Mediterrâneo profundamente católico aprenderam ao longo dos tempos a celebrar o dia do santo de quem herdaram o nome da mesma forma que celebram o seu próprio dia de aniversário. Talvez hoje existam muitos Andrés por esse lago fora a receber felicitações. A nossa vai para um santo muito especial, um homem que, em retrospectiva, foi provavelmente o melhor jogador de futebol que passou pelos relvados desse Mundo fora na última década. San Andrea...Pirlo!
Na passada noite nem o frio deixou em casa os mais incautos, desejosos de ver mais um duelo santoral, um verdadeiro confronto entre santos do Norte e do Sul desse país único e inexplicável que é Itália. O San Gennaro local, essa aura de invencibilidade que rodeia a equipa napolitana de Walter Mazzari, defrontava o San Andrea que o norte aprendeu a venerar nos últimos 10 anos. O santo de Pirlo, o arquitecto perfeito.
Hoje todos falam de Xavi e do Barcelona como a sumula perfeita do futebol de toque, da visão e leitura de jogo mas esses são os que se esquecem que o médio catalão - pretendido em 2003 pelo AC Milan de Ancelloti - foi um dos jogadores mais assobiados do Camp Nou até que em 2005 o talento de Ronaldinho iniciou uma mutação histórica na vida do conturbado Barça. Se o final da década confirmou o génio do filho favorito de Terrasa, os dez anos que definiram o arranque do novo milénio pertenceram totalmente a Andrea Pirlo.
O italiano pode não ter sido o jogador mais espectacular da década (esse titulo será eternamente de Ronaldinho) mas foi certamente o mais genialmente regular futebolista que os campos de futebol viram nos últimos dez anos. Aos títulos colectivos faltaram os individuais - mas nisso Pirlo, como Xavi, pertence a outro tipo de jogadores, muito menos preocupados com as capas de jornais - para que o grande público se desse realmente conta da sua importância. Porque Pirlo definiu o futebol de um país de uma forma que poucos jogadores podem reclamar.
Aprendeu dos melhores, criou expectativas como nenhum outro futebolista italiano nos últimos anos e teve de viver uma mutação táctica que o transformou num futebolista único e especial. Do Brescia à Juventus sentiu na pele o que é ser parte do esqueleto futebolístico de um país e agora, no ocaso da sua carreira, demonstra ter finalmente superado todos os fantasmas dos seus antecessores directos.
Assistir aos jogos da Juventus de Conte, como o disputado no San Paolo - aqui os santos estão por todos os lados - é um desses prazeres futebolísticos que o cinzento Calcio sempre guarda na manga. Sabendo que Pirlo está em campo transmite uma tranquilidade única que deita borda fora qualquer preconceito. O técnico bianconero montou o seu projecto à volta do genial centro-campista e logrou em três meses o que a Vechia Signora não conseguia desde os dias de Marcello Lippi: encantar.
Pirlo pensa, sente e ouve o jogo como nenhum outro futebolista. Enquanto alguns dos seus colegas arrancam em solos espantosos, o tempo musical de Pirlo é sempre constante, sempre intenso, sempre tranquilizante. Em Nápoles viu a sua equipa sofrer dois golos na primeira parte e arquitectou - ai essa palavra, sempre constante em cada um dos seus 507 jogos - uma reviravolta que terminou num inesquecível 3-3. Um resultado que serve perfeitamente para os transalpinos sonharem com um regresso aos títulos. Titulos é algo que não faltam no curriculum de Pirlo. Não só ao serviço do AC Milan (duas Champions, dois Scudettos) mas também com a Itália. Apesar do génio individual de Del Piero e Totti, apesar do Ballon D´Or de Cannavaro, a Itália de 2006 define-se num só jogador: Pirlo.
Quando o médio surgiu, a finais dos anos 90, ao serviço do modesto Brescia, todos elogiavam o futuro sucessor de Del Piero como o trequartista que iria continuar a saga de sucesso dos números 10 à italiana. O seu impacto no futebol de formação italiano foi tal - e nessa altura a Itália jovem era tremenda - que levou o Inter a resgatá-lo ao seu primeiro clube. Mas esses eram os dias da esquizofrenia morattiana e Andrea nunca sentiu a comodidade necessária a quem precisa de tempo e espaço para trabalhar. Em 2001 apareceu o AC Milan com um projecto de futuro e o jovem trocou o azul pelo vermelho do equipamento e continuou a sua formação. Dois anos depois, com Ancelloti como mentor, a sua mutação táctica tinha terminado. Jogar ao lado de Rui Costa (e mais tarde Kaká) permitiu-lhe trabalhar mais o sentido posicional do seu jogo e a pouco e pouco abandonou o histórico espaço do trequartista para dictar o tempo do jogo sobre a linha do meio-campo. E a definir-se como o jogador completo.
A destreza de Pirlo com a bola só é equiparável à sua capacidade de jogar sem ela.
Poucos jogadores sabem preencher os espaços defensivos como o filho de Flero, uma dessas pequenas localidades lombardas perdidas entre a bruma e o verde que descansam aos pés dos Alpes. A evolução táctica de Pirlo, da frente para trás, permitiu-lhe ampliar a sua visão de campo, a conectar directamente com a primeira linha defensiva e a saber manobrar, a régua e esquadro, os ritmos de jogo da equipa. Uma equipa que conta habitualmente com Pirlo e subitamente vê-se sem ele sente rapidamente a diferença. No AC Milan actual, de onde o jogador saiu depois de duas épocas onde sofreu, fisicamente, uma série de sete anos irrepetíveis (e desgastantes) não há quem pense o jogo com critério e a bola voa sem parar para dizer olá. A Juventus, espessa e impessoal como poucas equipas sobre o mandato de Del Neri ou Ferrara, é agora um conjunto tão resplandecente como a primavera italiana.
Ao contrário de Xavi, um playmaker clássico com uma vocação profundamente ofensiva, o médio italiano sente-se igualmente cómodo a atacar e defender. Com e sem a bola nos pés. Os seus passes são habitualmente letais mas os seus desarmes, tacklings controlados ao milésimo exacto, são igualmente fascinantes. Filho do Calcio como poucos jogadores, Pirlo agradaria tanto a Gianni Brera como a Arrigo Sacchi, os dois grandes patronos do futebol defensivo e ofensivo que transformam a liga italiana na competição tacticamente mais estimulante do Mundo. A final de Berlim - onde foi coroado como o melhor em campo - foi o exemplo perfeito da sua transmutação. Durante 120 minutos foi o futebolista total, algo que os franceses nunca conseguiram encontrar nem em Vieira, nem em Zidane, excelentes e únicos na sua posição mas incapazes de desdobrar-se em dois. Com Pirlo a Itália de Lippi jogava sempre com 12 no terreno de jogo. E esse é o melhor elogio que se pode fazer a qualquer jogador.
Os italianos têm sido habituados nas últimas décadas à eterna guerra entre os operários e os artistas, as prima-donas e os camponeses dos relvados. Um futebol onde por cada Baggio há um Baresi, por cada Totti um Gattuso. Com Pirlo não há discussão porque ele é a súmula perfeita de todas as grandes qualidades do futebolista transalpino. Profissional até à medula, não precisa de encarnar um ideal nacionalista como é habitual no discurso dogmático do genial Xavi Hernandez. Eficaz ao mesmo tempo que espectacular, determinante ao mesmo tempo que é low profile, Andrea Pirlo pode não ter sido tão espantoso como o inimitável Ronaldinho e não ter tido uma imprensa tão favorável como a que recebeu Xavi neste ocaso de carreira. Mas dificilmente encontrarão um futebolista tão completo, tão imprescindível e tão inimitável durante a década de 2000 que

