Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

Durante a última década formou-se uma corrente de pensamento que consagrava a carreira do genial Zinedine Zidane como a súmula perfeita de uma época clássico no jogo. Chamaram-lhe o "Quinto Grande" por alusão ao lugar vazio atrás do poker Di Stefano-Pelé-Cruyff-Maradona (assim, temporalmente, para evitar discussões) tornando a sua roleta, frieza e camisola suada num icone de uma era. Mas a grandeza de Zinedine - indiscutível - talvez não tenha sido tão evidente que uma boa campanha de marketing não tenha ajudado a mistificar. E quando a bola rola, dorme, beija e toca a chuteira de Don Andrés, é difícil não imaginar que o "Sancho Panza" manchego mereça - como mínimo - o mesmo tratamento que o filho da nova Gália.

Movimento, roleta, movimento, cabeça alta, olhar fixo, gota de suor, movimento, leitura, suavidade, segurança, passe, cheque...mate.

Zinedine Zidane tratava a bola com a mesma devoção com que Paulo de Tarso perseguia cristãos. Com essa agressividade dissimulada no olhar, esse suor de guerreiro desde os primeiros sprints, esse ar de cavaleiro berbere, habituado a migrar pelas grutas do monte Atlas. "Zizou" foi, durante meia década, a diferença. O seu jogo não vivia do arranque e da velocidade como Figo, Ronaldo ou Owen (para citar os Ballon D´Or contemporâneos) nem era tão incisivo como o toque de Rivaldo ou Nedved. Com ele a bola parava em movimento, adormecia com tranquilidade e despertava com destino certo. A classe de cada gesto, os braços erguidos, a cabeça levantada, foram mais do que uma imagem de marca, foram a definição de um estilo iminentemente clássico num jogador indiscutivelmente moderno.

Zidane não defendia, queixavam-se muitos, e no entanto defendia melhor do que ninguém. Mantendo a bola nos pés, fazendo-a rodar pelos seus, Zizou garantia o equilíbrio que o musculo de Makelele ou as corridas de Figo eram incapazes de entender. Talvez por isso foi admirado até à exaustão, talvez por isso a história se esqueça com mais facilidade desse seu ritmo tão próprio em detrimento daquele passe, daquele remate de cabeça, daquele volley em Hampden, daquela cabeçada infame...Zidane definiu-se a si mesmo como esse filho perfeito do Mediterrâneo, sempre com essa brisa de mar no rosto a dar-lhe esse ar desafiante, o mesmo que guiou a França a uma era de prosperidade inédita, o mesmo que transformou o jogo do Real Madrid num prazer inconfessável. O mesmo que, reformado por tudo e por todos, demonstrou que a bola, nos pés de quem a ama, é um servo obediente do seu amo.

 

A magia do gaulês parecia guardada numa cápsula do tempo, inimitável, pedaço de vídeo para gerações futuras tropeçarem como hoje os mais novos não conseguem entender o mecanismo dos movimentos de Cruyff, as cavalgadas heróicas de Beckenbauer, o toque subtil de Pelé ou até mesmo o estilo de rufia de bairro de Maradona. Muitos guardavam-no seu relicário, como a São Paulo na evangelização dos cristãos, como irrepetível. Não, o futebol não entende de credos e súplicas mas algo começou a despontar quando a luz de Zizou se foi apagando lentamente.

A brisa do mar não lhe toca e isso nota-se numa pele desenhada a pensar na sombra das oliveiras que rodeiam os caminhos de terra à volta dos seus vinhedos. Talvez contemplando a imensidão do planalto manchego, Don Andrés tenha entendido o mesmo que Zidane a olhar para um mar sem fim. A eternidade conquista-se com um suspiro.

A bola seca pelo sol ardente só procurava um amigo com quem conversar mas em Iniesta encontrou um amor. Inconfessável devoção de um estilo, de uma era que não morre por muitos sinos que toquem a rebate. Nos pés do génio espanhol o esférico encontra o aconchego do lar, levanta-se e anda com a firmeza de Lázaro, por cima dos comuns mortais. Iniesta é para a bola de futebol o que a areia é para o mar, inseparável. Em Barcelona, há largos anos, ainda Guardiola era um jogador com inquietudes, Messi um miúdo traquinas e Xavi um aspirante assobiado jogo sim, jogo sim, o actual treinador blaugrana virou-se para o seu sucessor e disse-lhe com a sua habitual tranquilidade: "Tu vais-me retirar a mim, mas este aqui vai retirar-nos aos dois". Não foi assim. A história guardou-os para uma missão em conjunto.

Se Xavi é o cérebro futebolístico de uma era, o pensador perfeito, e se Messi a estrela mediática que qualquer projecto necessita (que o diga Gerson de Pelé, Hidgekuti de Puskas, Netzer de Beckenbauer, Schuster de Rummenige, Rui Costa de Figo...) o futebol em Barcelona é responsabilidade de Iniesta.

O espanhol joga, faz jogar e existe, com a sua presença, como um espectro indiscutível sobre a cabeça dos rivais. Os treinadores perdem horas a falar na marcação ao homem a Messi mas o mérito do argentino foi saber-se rodear dos melhores. E o melhor encontrou-o em Iniesta. O herói silencioso, o pistoleiro do velho Oeste de poucas palavras. Cada sprint de Messi encontra a tabela no segundo perfeito com Don Andrés. Cada drible do herói de qualquer Cervantes moderno, cada vez que levanta a bola por cima da teoria de relatividade de qualquer Einstein pretérito, acontece futebol. Iniesta está para além do gostar ou não gostar em que os mitos como Messi e Ronaldo vivem. Iniesta é a pura essência do jogo moderno, o médio que defende com a bola, que ataca com a bola, que dorme com a bola, que regressa aos balneários com a bola e que dorme com a bola. Em campo o seu deambular anárquico ordena, as suas diagonais desorganizam e o seu olhar condena. É o homem das noites mágicas, o herói das causas perdidas, do sofrimento incontrolável. É tudo aquilo que o futebol quer ser mas não ousa pedir. Por cada Iniesta há mil Busquets, há 100 Messis e 10 Xavis.

 

Zidane jogou sempre com o peso do seu mundo às costas. O peso da herança berbere, o peso de uma França fragmentada que se uniu no seu corte de monge para desafiar as probabilidades. Às vezes avançava com as costas curvadas, sentindo essa necessidade de liderar o rebanho como quem se sabe incapaz de fintar todos os lobos. Don Andrés não se curva, não sente qualquer peso a não ser o da aragem quente que rasga Fuentalbilla. Ganhou tudo o que havia para ganhar - e antes que muitos nomes ilustres - e no entanto continua a olhar para a bola com a mesma inocência com que driblava todos os pedregulhos que se deparavam pelo caminho. Filho dessa Espanha insólita, perdida no tempo e no espaço, a Iniesta nem Cervantes seria capaz de resumir em dez tomos. A ele define-o a bola que podemos ver, cada vez que se despede do seu mágico pé, a despedir-se com um piscar de olhos...



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:43 | link do post

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