Agora que se conhecem oficialmente as 16 equipas que em Junho disputarão um titulo que só espanhóis, alemães e holandeses parecem poder verdadeiramente aspirar, voltamos atrás no tempo para tomar o pulso àquela que foi talvez a mais interessante revelação da fase prévia. Não chegou sequer aos play-offs mas durante ano e meio mudou definitivamente a percepção e os estereótipos que a tinham condenado ao desconhecimento geral. A Arménia foi, provavelmente, a selecção que mais merecia ter carimbado o passaporte para o Europeu. Agora o futuro dirá se o crescimento do futebol arménio é real e sustentável.
No historial da antiga União Soviética o futebol arménio nunca teve direito a grande destaque.
Entre Moscovo e Kiev moldavam-se as relações de poder e o único clube do Cáucaso que chegou a bater, com alguma regularidade, o pé aos grandes, encontra-se na vizinha Georgia. No entanto a classe dos arménios sempre foi reconhecida como única dentro do espectro soviético. Com a independência, esse toque de classe ganhou ainda mais sentido. Ao contrário dos físicos vizinhos do norte, a bola na Arménia rola por tapetes débeis mas pés delicados, capazes de trazer um ritmo próprio a cada respiração do jogo. Sem a disciplina táctica de ucranianos ou russos, o futebol nas imediações do mitológico monte Ararat sempre foi mais uma questão de sentimentos do que puro racionalismo. Talvez essa displicência com o aspecto organizativo do jogo tenha causado problemas no passado mas a progressiva migração de alguns dos maiores talentos locais nos últimos 20 anos começa a transformar essa realidade. A Arménia de hoje é, sem dúvida, uma selecção muito mais compacta e responsável do que qualquer formação do seu passado.
Esse trabalho deve muito à experiência que o escocês Ian Porterfield trouxe a Yerevan quando em 2006 foi nomeado seleccionador do combinado nacional. Era o quinto estrangeiro escolhido pela federação local em quatro anos e muitos imaginavam que o seu destino seria em tudo igual ao dos seus antecessores. O antigo técnico do Chelsea tornou-se um trota-mundos e quando chegou ao Cáucaso causou imediato impacto pela sua natureza mas, sobretudo, pela sua abordagem. Entendeu que o grande erro dos técnicos anteriores foi a imposição de um estilo e modelo que não se adequava com o espírito dos jogadores locais. Porterfield rodeou-se de autóctones e decidiu imprimir um cunho verdadeiramente arménio à sua equipa. A mudança começou a notar-se de imediato mas, um ano depois da sua chegada, o seleccionador faleceu, vitima de um cancro implacável. Deixou as sementes que o seu sucessor, o adjunto Vardan Minasyan, soube recolher. O artífice desta magnifica selecção não convenceu de imediato a federação que voltou a optar por um estrangeiro - o dinamarquês Jan Poulsen - antes de entender que o anterior número dois estava finalmente preparado para a missão mais difícil da sua vida.
Minasyan é um metódico onde a maioria desfruta do jogo em plena anarquia.
antigo internacional, soube rodear-se de jogadores a disputar o débil campeonato local a quem juntou apenas aqueles expatriados que demonstravam verdadeiro interesse em actuar pelo combinado nacional. Transformou um leque de atletas num grupo e decidiu entregar os galões do seu projecto ao promissor Henrikh Mkhitaryan, a maior promessa da história do futebol local em muitos anos. À volta do médio centro montou uma equipa organizada mas capaz de tratar a bola com a reverência habitual dos locais. Elegeu a Yedigaryan, Mkrtchyan e Manucharyan como acompanhantes de luxo da sua jovem estrela e deu-lhes liberdade para jogar. Um meio campo profundamente criativo mas rodeado de um colectivo profundamente organizado que, no entanto, foi incapaz de superar a muralha defensiva montada por Giovanni Trapattoni no jogo inaugural da qualificação. Essa derrota injusta - depois de um jogo totalmente dominado pelos locais - acabou por motivar ainda mais os underdogs que partiram para uma série de quatro jogos sem perder (vitórias sobre a mundialista Eslováquia e a selecção de Andorra e empates na Macedónia e com a Rússia). O duelo com os russos teve contornos de épica pura, importantes para quem ainda se lembra do opressivo regime de Moscovo e da forma como o grande clube local, o Ararat Yerevan foi tratado durante a época soviética. A derrota em San Petersburg doeu menos do que muitos esperavam, talvez porque os arménios até começaram o jogo a vencer ou, talvez, porque durante grande parte dos 90 minutos foram melhores com a bola nos pés que os imensos vizinhos.
Terminada a primeira ronda de jogos, surpreendentemente, a Arménia ombreava com irlandeses e eslovacos pelo segundo lugar de qualificação - o tal do play-off - e apesar de muitos perspectivarem uma queda livre, a qualidade de jogo dos caucasianos veio ao de cima na histórica goleada em Zilina contra a Eslováquia. Uma vitória por 4-0 implacável e que deixou a nu a diferença entre uma selecção que marcou presença nos oitavos de final do último Mundial e uma equipa que começava a funcionar como tal. O sucesso de Minasyan era evidente mas o sonho com o segundo lugar começava a fazer cada vez mais sentido. Em teoria o jogo na Irlanda avizinhava-se como determinante mas antes era necessário domar a Macedónia, equipa complicada e do mesmo nível que os arménios. Outros 4 golos marcaram claramente as diferenças e deixaram os irlandeses num compromisso. Vencer era obrigatório e as habituais tácticas defensivas da velha raposa tinham de dar lugar a algo mais de ousadia. Os arménios sabiam que não eram favoritos e rapidamente entenderam que o futebol europeu tem truques a própria razão desconhece. Muito superiores em jogo aos locais, os arménios sofreram na pele talvez a sensação de injustiça que custou aos irlandeses a viagem à África do Sul. Uma expulsão duvidosa do guarda-redes Roman Berezovsky, determinante em toda a campanha, por mão fora da área, determinou o jogo. Um infeliz auto-golo, pouco depois, rematou as poucas possibilidades dos visitantes que ainda reduziram pela estrela do costume depois de Dunne ter ampliado a vantagem. Os irlandeses marcaram menos (mas também sofreram menos) golos que os arménios mas seguiram em frente. O sonho evaporou-se.
À medida que o futebol de clubes se tenta reorganizar no Cáucaso, as selecções continuam a ser o grande emblema dos países. A Arménia sofreu na pele os anos da opressão soviética mas desde o empate a zero contra Portugal no apuramento para o Mundial de França (os pontos que custaram a passagem aos lusos) que tem vindo a melhorar progressivamente. Pela primeira vez discutiu de tu a tu com nações com outros recursos e historial a qualificação e depois de ser colocados num grupo com Itália, Dinamarca, Republica Checa e Bulgária para os duelos de apuramento ao próximo Mundial muitos imaginam que o trabalho de Minasyan pode acabar por ter um final feliz. A estrutura começa a solidificar-se, a classe individual está à vista de todos e o perfume do futebol arménio pode ser inebriante. Talvez os arménios merecessem mais que os irlandeses esse bilhete (como sucedeu há dois anos com insulares e gauleses) mas o futuro pode reservar-lhes surpresas inesperadas que façam com que momentos como este sejam vistos como apenas mais um passo rumo ao sonho.