Num país onde o futebol não é, nem de longe, um dos três desportos mais populares, quanto vale um apuramento histórico para um Campeonato da Europa? O peso da tradição joga todo do lado da República da Irlanda mas a grande sensação chega de uma Estónia que há uma dúzia de anos era apenas mais uma equipa entre muitas a abater e que agora se pode tornar na quarta ex-república soviética a marcar presença numa grande prova internacional.
É curioso que uma super-potência futebolistica como foi a União Soviética tenha tido, até hoje, apenas três descendentes directos nos palcos mais sonantes do futebol mundial. O apuramento da Rússia em 1994 foi o primeiro de uma ex-república soviética a brilhar com luz própria. Foi preciso esperar 10 anos para um replay, com a insuspeita Letónia a bater todas as previsões. Foi sol de pouca dura e para os letónios hoje a lembrança desse Verão português é algo que não provoca demasiado entusiasmo. Para fechar o trio, dois anos depois, a Ucrânia que sempre parecia estar a ponto de marcar os bilhetes e que sempre ficava apeada no aeroporto, marcou a sua estreia de forma categórica no Mundial da Alemanha. Agora regressa como anfitriã e juntamente com os russos, no próximo mês de Junho está garantida a presença de uma forte herança do futebol dos primeiros campeões europeus. Mas e se em lugar de duas selecções, sejam três as ex-repúblicas a disputar o ceptro continental?
Para os estónios esse fenómeno era surreal apenas há um ano atrás. Afinal o país do Báltico está longe de ser um entusiasta do beautiful game. Em Tallin e arredores qualquer desporto com gelo, e até mesmo o basquetebol, é muito mais popular que o futebol e isso sempre se fez notar. Os clubes estónios primavam pela sua ausência na poderosa liga soviética e as suas equipas, já recém-independentizadas, nunca deram um ar da sua graça nas provas europeias (ao contrário de letões e lituanos, por exemplo). A selecção azul e negra era um rival simpático e bem-vindo em qualquer sorteio. E talvez no futuro tudo volte a ser como dantes. Mas esta semana o mundo do futebol para obrigatoriamente aqui.
O frio de Riga será um rival tão ou mais intenso para os irlandeses como a qualidade da selecção orientada por Tarmo Ruttli.
Quando o seleccionador chegou ao banco da equipa nacional, durante a fase de qualificação para o Mundial da África do Sul, a Estónia estava no 137º lugar do ranking FIFA. Dois anos depois encontra-se no 57º posto, uma metamorfose que poucos conseguem explicar. Não apareceu nenhuma estrela internacional, não há uma verdadeira geração de prodigios e, sobretudo, o país não se apaixonou pela sua equipa nacional. E contra tudo e contra todos, desafiando a pura lógica, os estónios estão a 180 minutos de fazer história.
A Irlanda é uma ilha que traz boa sorte aos bálticos.
Nos dois últimos encontros de apuramento a Estónia mediu-se contra a Irlanda do Norte, país que desde 1986 não marca presença numa competição internacional. À partida os irlandeses eram favoritos mas os homens do norte venceram os dois jogos (4-1 em casa e 1-2 fora) e confirmaram uma surpresa absoluta.
Uma viagem que começou um ano e meio antes com um vitória surpreendente em Belgrado contra uma Sérvia que tinha saído do Mundial com a cabeça baixa. Os homens dos Balcâs eram considerados como claros favoritos a disputar a liderança do grupo à Itália de Cesare Prandelli mas os problemas no balneário depois da péssima performance no Mundial ficaram à vista de todos na noite em que a Estónia decidiu começar a tratar a bola por tu. Apesar da derrota com a Itália e a esperada vitória diante das ilhas Faroe muitos imaginavam que o duplo duelo contra a igualmente mundialista Eslovénia iria colocar os estónios no seu respectivo lugar. A derrota no jogo disputado em casa frente aos eslovenos deixou a entender que assim seria mas depois os estónios empataram, também em casa, com a Sérvia e, beneficiando-se de uma campanha exemplar da Itália, viram-se isolados no segundo lugar do grupo. Uma posição que provocou certamente vertigens, de tal forma que a derrota contra a amadora selecção das Faroe funcionou como um verdadeiro choque de realidade. Faltavam três jogos e os estónios necessitavam de somar sete pontos para chegar aos play-off.
E então apareceu Purje.
Numa selecção onde os jogadores actuam todos em clubes de segunda, terceira e quarta linha internacional, que um médio de 26 jogue num modesto cipriota não é novidade. Mas Purje tornou-se num jogador especial quando ao minuto 81 desnivelou a balança (o jogo e o resultado) no duelo na Eslovénia, marcando o agónico 1-2 que deixava tudo nas mão dos homens do Báltico para a ronda final. Só os sérvios lhes poderiam arrebatar o sonho mas a derrota o empate em Itália e a derrota na Eslovénia permitiram à equipa da Estónia fazer história. Sem jogar - depois da dupla vitória contra os irlandeses do Norte - os jogadores celebraram um passaporte único para a fase de play-off onde defrontarão uma Irlanda traumatizada pela derrota diante da França (e dessa mão) há dois anos.
Ninguém espera que os estónios se apurem (aliás, na Irlanda, apesar de Trapatonni, a confiança roça o histerismo) mas a crença nos golos de Konstantin Vassiljev (foram cinco, o melhor registo de sempre da selecção numa fase de apuramento) e no espirito de grupo que Ruttli criou à volta de atletas que roçam quase o amadorismo torna esta eliminatória num dos pratos mais apetecíveis de toda a fase de qualificação. Os irlandeses encontram uma equipa que talvez lhes lembre a eles mesmos, quando Jack Charlton transformou o EIRE num caso sério de popularidade. Quase 25 anos depois, haverá alguém que tenha coragem de não esperar por um milagre no gelo de Riga?

