A saída de Fabregas provocou um calafrio na espinha dos gunners. Pela enésima vez um dos seus melhores jogadores preferia abandonar o navio capitaneado por Arsene Wenger e, pela enésima vez, um sentimento de orfandade apoderou-se dos adeptos de um clube que passou de aborrecido a genial e de dominador a sofredor. Apesar das apostas de última hora em Arteta e Benayoum, o que os gunners não esperavam é que a solução para o vazio deixado pelo catalão estivesse dentro de casa. Na camisola de Aaron Ramsey.
Quando Wenger acordou com a direcção do clube que o dinheiro disponível nas arcas dos londrinos seria, quase na integra, destinado à construção do novo Emirates, tinha um trunfo na manga. A sua experiência no Mónaco ensinou-lhe o verdadeiro valor da formação e depois de conquistar Inglaterra com duas equipas repletas de estrelas e descartados pelos grandes do Continente, o desafio agora era repetir o feito com material da casa. Um problema, tendo em conta a diferença gigantesco de orçamentos com os seus rivais habituais, Manchester United e Chelsea, e com o dinheiro dos petrodolares do Manchester City, então um rival inexistente.
Essa aposta na formação começou a dar, paulatinamente, os seus frutos em jovens que vinham dos quatro cantos do Mundo, desde Fabregas a Song passando por Sagna, Szczesny ou Denilson. Apesar dessa aposta clara os adeptos reclamavam a herança britânica de um clube que se tinha tornado mais numa filial desportiva das Nações Unidas do que, propriamente, num grande do futebol inglês. Theo Walcott foi a primeira resposta de Wenger mas o rápido extremo vinha da formação do Southampton e não contava propriamente com o selo da casa na camisola. Só em 2009 se começou a perspectivar uma mudança de rumo nas apostas pessoais do gaulês. A primeira chamou-se Aaron Ramsey.
O médio galês começou a sua formação na sua Cardiff natal e em 2008 foi recrutado pelo clube londrino que via nele uma cópia do modelo de médio que jogadores como Frank Lampard e Steven Gerrard popularizavam, talvez como nunca, nos tapetes ingleses, o chamado box-to-box. Ramsey tinha um pouco de tudo. Posicionamento defensivo, velocidade, arranque, colocação no remate, precisão no passe e um sentido de autoridade que o distinguia dos demais. No 4-2-3-1 habitual de Wenger o seu posicionamento permitia-lhe sonhar com uma equipa sem Fabregas, já então fortemente cobiçado pelo Barcelona. O francês sabia que o jogador, tarde ou cedo, iria querer voltar a casa. O relógio obrigava-o a trabalhar mais depressa do que nunca para preparar a sua sucessão.
Em 2009 Ramsey começou a ser utilizado com maior regularidade e o seu estilo de jogo pareceu encaixar perfeitamente com o ideário wengeriano, um técnico que defende o futebol espectáculo mas que não abdica da solidez e eficácia nos seus jogadores. Foi a primeira aposta assumidamente britânica do producto da casa e o seu talento era mais do que evidente. A sua progressão confirmou as expectativas do técnico e o seu papel na equipa começou a conquistar preponderância até que, numa inesquecível tarde de 27 de Fevereiro, em 2010, o seu génio cruzou-se com as pernas de Ryan Shawcross. A duríssima entrada do médio do Stoke City atirou Ramsey para o hospital com uma fractura de tibia. O seu fantástico crescimento era brutalmente interrompido e começavam a surgir as dúvidas sobre o seu futuro como atleta de alta competição.
Foram meses duros, muito duros para o galês. Como é habitual nele, Wenger prolongou o seu contracto para dar-lhe um forte sinal de confiança mas foram precisos nove meses para Ramsey voltar a tocar numa bola de futebol num jogo competitivo. Entretanto o técnico francês tinha encontrado uma nova coqueluche, o inglês Jack Whilshere, que ocupou no campo e na mente dos adeptos um lugar que apenas há um ano parecia eternamente destinado ao galês. Para recuperar a forma o jogador foi emprestado, primeiro ao Nottingham Forrest e depois ao seu Cardiff durante três meses. Quando voltou a Londres a equipa que semanas antes parecia candidata a tudo entrou numa espiral auto-destructiva que afectou profundamente o médio. O seu jogo de re-estreia pelos gunners ocorreu na derrota por 2-0 contra o Manchester United, nas meias-finais da FA Cup. Dias depois seguir-se-ia a eliminação da Champions League, a derrota na League Cup e o descalabro na Premier. O médio foi ainda utilizado nos jogos finais e começou a recuperar velhas sensações mas a suspeita estava aí. A sua dupla com Whilshere, reeditada desde os dias em que ambos coincidiam na equipa de reservas do clube, parecia prometer muito mas o final da época adiou a experiência por um par de meses. A venda de Cesc facilitou o processo mas foi a lesão de Whilshere, como triste ironia do destino, que devolveu a titularidade a Ramsey.
O galês agarrou-a com ambas as mãos e tornou-se peça fundamental de um renascimento esperado do Arsenal depois do descalabro em Old Trafford (sem oito titulares) e do arranque titubeante na liga. No último mês poucas equipas exibiram a mesma regularidade e qualidade que os gunners e o trabalho fisico e táctico de Ramsey contribuiu fortemente para essa transformação de cordeiros em lobos. O seu posicionamento, atrás do espanhol, no desenho do 4-2-3-1 - com van Persie, Wallcot e Gervinho à sua frente e Song no apoio defensivo - dá outro dinamismo à condução ofensiva dos londrinos. Os seus golos e assistências revelaram-se determinantes em Marselha e no duelo do último fim de semana contra o Chelsea de André Villas-Boas. O seu passe, no golo inaugural de van Persie, desmembrou por completo a eficiente linha defensivo dos Blues e o seu pulmão e inteligência táctica desmontaram o tridente do meio-campo do Chelsea.
Espera-se avidamente o regresso de Whilshere no Emirates e muitos começam já a especular se o técnico francês vai optar por manter o duo no meio-campo (abdicando de Song), se será o recém-contratado Arteta - bastante irregular desde a sua chegada a Londres - a ceder o posto à promessa inglesa ou se a ascensão de um destes novos prodígios do futebol britânico significará, no imediato, travar a ascensão do outro. Apesar de serem jogadores com perfil similar, Wenger já provou a Ramsey numa posição mais criativa, por detrás do trio da frente, e para muitos esse será o caminho a seguir. Depois do espantoso mês de Outubro o jovem capitão de Gales tem vontade de recuperar o ano perdido e para os londrinos isso só pode significar boas noticias. Se os destaques da imprensa vão para a febre goleadora de um superlativo Robbie van Persie, a verdade é que Wenger sabe que a mutação de jogo de um Arsenal que todos se preparavam para enterrar antes de tempo se deve, sobretudo, ao génio do galês.

