Ninguém espera que o ritmo se mantenha. Em algum momento o balão começará a perder ar e deixará de fintar as nuvens para voar rente ao chão. Mas enquanto deambula pelos céus, o Levante pode pela primeira vez sentir a sensação de olhar para baixo e ver todos os outros que o perseguem. Será um feito anedóctico, menos para os valencianos, mas este pobre Levante continua a mandar na liga dos mais ricos.
20 milhões de euros, nem um cêntimo mais, nem um cêntimo menos.
Um orçamento insignificante para os habituais padrões das ligas europeias. Mais ainda na espanhola, na chamada liga das estrelas, onde Real Madrid e Barcelona manejam, anualmente, orçamentos de 400 e 500 milhões de euros. Inferior ao que custou, para colocar apenas dois exemplos, Fábio Coentrão ao Real Madrid e Alexis Sanchez ao FC Barcelona. Mas o futebol é assim, um fenómeno previsivel repleto de pequenas surpresas. Isso sim, surpresas que não podem durar muito tempo. No final os davids sempre acabam vergados ao inevitável peso dos golias. E em Valencia sabem-no melhor do que ninguém. A sua guerra é outra.
O clube acabou a passada temporada num ritmo endiabrado. O promissor técnico Luis Garcia pegou na equipa já com um pé na Liga Adelante e graças a uma segunda volta espantosa quase que deixou os azulgrana de Valencia em postos europeus. O espirito de grupo de um plantel formado, sobretudo, por jogadores descartados por outros clubes ou sem contracto, tornou-se na grande arma de uma equipa sem um só nome sonante para o público mais desatento. As suas estrelas passam já a idade e não têm o perfil de vedetas. E no entanto tiveram capacidade para bater o Real Madrid e Villareal, duas equipas que marcam presença na Champions League deste ano, para à nona jornada seguir como lideres isolados da Liga BBVA. Um quarto de campeonato cumprido e com 23 pontos em 27 possíveis, os levantinos estão muito mais perto do seu objectivo real: a permanência.
Saiu Luis Garcia para o Getafe como seria de esperar e para o seu lugar a direcção do clube foi encontrar uma solução ainda mais surpreendente.
Antes de ser treinador de futebol, Juan Ignacio Martinez fez um pouco de tudo. Guarda-costas, vendedor de seguros, empregado numa gasolineira. Sabe o valor do trabalho como poucos e só este ano chegou ao futebol profissional. Na época passada treinava na 2º Divisão B e antes tinha andado pelos campeonatos regionais sem chamar demasiado à atenção.
Muitos suspeitavam da sua inexperiência mas Martinez fez disso uma força. É um dos técnicos que melhor estudo os rivais (os seus cadernos de apontamentos estão a ganhar fama de contornos miticos) e sobretudo, é um motivador nato. Numa equipa com muito coração mas pouquissimos recursos essa é uma arma que não pode ficar no coldre. Martinez, o "Guardiola dos pobres" como a imprensa espanhola o apelida, pegou nos veteranos Munua, Juanfran, Venta, Nano e, sobretudo, Salva Ballesteros, e transformou-os na defesa mais eficaz da liga. Cinco golos sofridos em nove jogos num quinteto cuja média de idade supera os 29 anos.
Se no final de 2011 os golos de Caicedo foram valiosos para garantir a permanência do clube valenciano na prova, em 2011-12 a equipa perdeu o seu dianteiro estelar mas ganhou, sobretudo, em eficácia. Juanlu é o rosto desse ar mais humilde e sincero de uma equipa em que os médios são tão eficaz diante da baliza contrária como os seus dianteiros.
Com estas armas tão modestas surpreende que o Levante não tenha perdido um só jogo até ao momento na prova. Depois de dois empates consecutivos contra rivais directos na luta pela permanência (Getafe e Racing), a vitória em casa sobre um apático Real Madrid abriu a corrida à liderança que inicialmente foi partilhada com Valencia, depois com Barcelona e por fim tornou-se num prazer pessoal e solitário. Rayo, Espanyol, Bétis, Málaga, Villareal e Real Sociedad foram as vitimas insuspeitas de uma história que nunca terá um final feliz. Pelo menos para os românticos que ainda acreditam em surpresas num mundo controlado do primeiro ao último minuto. O Levante sabe que necessita só mais 20 pontos, menos do dobro do que já acumulou, para cumprir o objectivo da permanência. Haverá quem sonhe no Ciutat de Valencia com um lugar europeu mas isso são contas de outro rosário. Poucos esperam que uma equipa com um plantel tão envelhecido consiga manter este ritmo durante muito tempo mas ninguém se atreve agora a subestimar o notável trabalho de Martinez no banco azulgrana.
No final do ano muitos certamente acabarão por esquecer-se deste brilhante arranque de época do Levante se a equipa acabar nos postos anónimos no meio da tabela classificativa. É a crueza de um desporto que vive dos resultados e que esquece, tantas vezes, a forma como são obtidos. Para este Levante dos 20 milhões qualquer coisa que não seja a despromoção é uma especie de titulo de liga. Qualquer coisa mais uma versão particular da sua Champions League. No final a missão heroica dos azulgrana de Valencia perduará na memória daqueles que não esquecem. Daqueles que sabem que o futebol é algo mais do que uma questão de bolas de ouro e titulos europeus.

