Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

Entre Baggio e Totti pareceu viver sempre. E nunca se mostrou verdadeiramente incomodado por isso. Mais do que uma lenda viva do Calcio quando este ainda era o Calcio, a verdade é que o génio bianconero nunca deixou de ser para o Mundo o pequeno "Pinturrichio" que durante anos embasbacou aos seguidores do futebol italiano. Como na obra de Dumas, vinte anos depois Alessandro Del Piero já não é o mesmo e o seu adeus talvez não doa tanto. Mas no ar ficou a ágria sensação que houve algo que ficou por fazer nessas décadas de magia. E agora já não há tempo...

 

Quando uma geração diz adeus parece fazê-lo quase de forma instantânea.

Del Piero era um resistente, um dos últimos. Deixará de sê-lo no final desta época e junta-se aos Scholes, Vieira, Ronaldo e outros contemporâneos que decidiram que este desporto não é para velhos. Sobram os Giggs, Raúl e Totti, esses que continuam a resistir à gravidade e ao peso do Mundo transformando o seu jogo e desafiando os tempos. O número 10 da Juventus fartou-se dessa luta porque há muito que deixou de sentir o mesmo apelo, a mesma ilusão. Talvez porque, ao contrário dos recém-citados, deixou de ser importante. Deixou de ser Alex Del Piero e passou a ser apenas isso, uma lenda viva em cera, como uma estátua do Madame Toussaud.

Em 2006, quando a Itália quebrou a malapata de outras duas gerações, Del Piero foi determinante. Na meia-final contra a Alemanha de Klinsmann, rejuvenesceu e destroçou os germânicos como não fora nunca capaz de fazer no passado nos poucos minutos que esteve em campo. Foi o seu jogo mais importante com a Azzura. É significativo que tenha sido assim aos 32 anos apenas. Um espelho de uma carreira confusa e profundamente intrigante. No final desse torneio, que nem foi dele nem de Totti, o seu grande rival, mas sim de Pirlo, Buffon e Cannavaro, os problemas da Juventus anunciaram um fim que se prolongou por meia década.

Del Piero acedeu descer com a equipa aos infernos. Como Buffon e Nedved manteve-se fiel à causa. Confirmou o que todos pensavam dele mas talvez o tenha feito porque, aos 32 anos, sabia que seria incapaz de render de acordo com o seu nome em qualquer outro sitio. Ficar em casa era mais popular mas também mais cómodo para um atleta cuja evolução já tinha estagnado um par de anos antes. A estrela que tinha despontado em 1993, ao lado de um imenso, imenso Roberto Baggio, tinha sido um verdadeiro pesadelo para rivais e próprios durante uma década. Mas depois da saída de Lippi, na sua segunda etapa, começou a perder o seu espaço no onze. O homem que sobreviveu a Baggio, Zidane, Nedved e Ibrahimovic foi perdendo contra ele mesmo. As fracas performances com a selecção tinham criado um sentimento de desconfiança nacional que se juntou rapidamente aos adeptos bianconeros quando souberam que alguns dos seus mais emblemáticos jogadores (incluindo o  Pinturrichio) podiam ter sido cobaias de tratamentos médicos ilegais durante o reinado de Lippi. O reinado do número 10.

 

Del Piero nasceu em Conegliano, uma aldeia perto de Turim, onde passou os primeiros anos de vida.

Com 17 anos a Juventus descubriu-o no Pádova e não hesitou a juntá-lo às filas da primeira equipa onde já militavam Baggio, Ravanelli, Vieri, Vialli e Inzaghi. O impacto do trequartista foi imediato. Estreou-se na segunda jornada contra o Foggia como titular e na seguinte já tinha marcado o seu primeiro golo. Quinze anos depois, em 2008, tornou-se no jogador da Juventus com mais golos e jogos disputados da história, superando a Scirea e Boniperti, dois mitos históricos do clube. No final desse ano a equipa venceu o Scudetto pela primeira vez desde os dias de Platini ao mesmo tempo que batia o AS Parma na final a duas mãos da Taça UEFA. O genial Roberto Baggio levou os prémios individuais mas os jornalistas pareciam realmente encandeados com o talento de um miúdo de 19 anos que nunca ninguém tinha visto. Começou a criar-se uma aura e genialidade que o acompanhou durante toda a carreira. E que nunca foi totalmente preenchida.

Fracos desempenhos com a Azzura (45 minutos contra a Rússia em 96, fracos Mundiais em 98 e 02 e muitas oportunidades falhadas nos momentos decisivos do Euro 2000) e a ascensão de Totti na capital começaram a deixar em evidência o jogador em quem todos pensavam depositar o futuro do futebol italiano. Com a Juventus, em contra-partida, Del Piero logrou tudo aquilo que um jogador pode desejar. Uma vitória na Champions League (quando formava o tridente ofensivo com Vialli e Ravanelli) e mais três derrotas, cinco scudettos (e dois retirados à posteriori) e vários prémios pessoais pareciam preencher de números e troféus uma carreira que se ia perdendo. O golo à Del Piero, movimento diagonal interior seguido de um forte remate colocado tornado famoso pela imprensa italiana por representar uma esmagadora percentagem dos seus golos com os bianconeri, espelhava a previsibilidade do seu jogo. Del Piero deixou de lograr surpreender, perdeu a capacidade de controlar as mudanças de velocidade e foi-se, de certa forma, vulgarizando. Ao seu lado passaram Zidane e Nedved, ambos Ballon´s D´Or ao serviço da Vechia Signora, um prémio a que o avançado italiano nunca esteve sequer perto de optar. Ninguém, no futebol europeu, era capaz de dizer mal do jogo de Del Piero. Mas também eram muito poucos os que o consideravam como um génio. Algo similar ao que passou a Raúl, em Espanha e na Europa, foi corroendo a sua carreira. Em 2006, com 33 anos, muitos imaginavam uma retirada imediata. Pouco havia mais por fazer, por ganhar, por surpreender. Capello tinha transformado o ídolo dos adeptos num suplente de luxo e a situação não parecia que se iria alterar. Mas chegou o Calciopolli, a debandada de técnicos e estrelas e a despromoção. Foi uma segunda juventude para o capitão que voltou a transformar-se, de forma insuspeita e inesperada, no líder do projecto da familia Agnelli. Como uma ressurreição, Del Piero voltou às capas de jornais pelo seu jogo mais do que pela falta dele.

 

No entanto o tempo, que em Itália respeita mais os jogadores do que se possa imaginar, passava e o surpreendente (e nefasto) estado físico de Alex continuava a dar azo aos rumores que falavam no seu surpreendentemente rápido desenvolvimento muscular numa era onde a Juve era suspeito de tudo por todos. Incapaz de agradar a Del Neri ou ao seu velho amigo Conte e sabendo-se incapaz de se reinventar no terreno de jogo, Del Piero anunciou o que estava escrito há quase uma década. Espera dizer adeus como disse olá, com um titulo histórico depois de uma longa travessia no deserto. No futuro os seus números continuarão a ser inquestionáveis mas o presente já lhe dictou sentença, uma sentença que será difícil de alterar com o tempo. Aquele que tinha todas as condições para ser o idolo do calcio italiano parece agora, talvez injustamente, como um elo pequeno de ligação entre as genialidades de Baggio e Totti.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:46 | link do post

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