Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011

Tique, taque, tique, taque. Relógio pausado, tranquilo, sabedor que um minuto são sessenta segundos por muito depressa que se queira que o relógio corra. Tique, taque, tique, taque. A bola circula de um lado ao outro, respiro pelos céus, penteia a relva, sente-se querida, sente-se respeitada. Sabe que voa mas não corre e que, como qualquer explorador, será enviada a terras desconhecidas que só os mais ousados são capazes de contemplar, para lá do horizonte. Tique, taque, tique, taque...se o futebol fosse um relógio seria espanhol e não suíço. E chamar-se-ia Xabi Alonso.

Até a eventual confusão de nomes próprios na sua versão local do Javier castelhano se enuncia já o problema. A Alonso aconteceu-lhe o mesmo que a Hidgkuti, que teve de jogar na era de Puskas. O basco joga na era de Xavi é difícil para todos, até para um Xabi. O médio de Terrasa é talvez um dos mais exímios pensadores da história do jogo. Apesar de largos anos passados na sombra, desprezado pelo próprio Camp Nou (quem ainda se lembrará dos assobios sempre que tocava na bola nos anos de Rexach e Antic), o futebol finalmente foi justo com ele e hoje, mais do que nunca, o seu estilo de jogo é referência mundial. Talvez por isso as pessoas parem menos a pensar no que seria se em vez da era de Xavi se vivesse agora a era de Xabi. Trajectórias diferentes mas a mesma relação com a bola, a mesma paixão pela geometria futebolística e, sobretudo, a mesma devoção à organização.

Quando o Real Madrid de Florentino Perez anunciou em questão de semanas um set de novas contratações poucos foram nos que repararam na viagem de um jogador que, em Liverpool, no mítico Anfield, começava a tornar-se tão fundamental como os pilares de sabedoria de Shankly. Como sempre sucede o enfoque foi dado aos Ballon´s d´Or mas da mesma forma que o outro Xavi, o com v de vitórias, continua à espera do seu (que o digam Laudrup, Coluna, Schuster, Cantona, Pirlos e companhia) nunca ninguém se lembraria do relógio de Alonso para este tipo de prémios. Dois anos e meio depois ninguém duvida que só há dois jogadores insubstituíveis no onze de José Mourinho: Iker Casillas e Xabi Alonso.

Quando o tolossara não está as camisolas brancas dos merengues emudecem, perdem a cor e esbotam a desorganização mental em que vive o clube sem o seu pensador. Sem o seu relógio.

Como uma artéria, Alonso coordena o batimento cardíaco da equipa de Mourinho com a mesma classe e certeza que um paciente escultor. Sabe quando mover os tempos, quando abrir e fechar o campo. Encontra espaços fantasmas e desdobra o tapete verde como um quadro de M.C. Escher , onde os labirintos parecem criações impossíveis. Para Xabi Alonso o impossível é apenas uma fantasia do cérebro traiçoeiro do Ser Humano. Ele vive na era dos passadores cerebrais e é talvez a sua versão mais pura, mais arreigada às tradições. Desde a sua origem basca à consagração inglesa, Xabi Alonso teve de demonstrar o que a Xavi nunca lhe pediram: adaptar-se a outras filosofias que a de berço. E isso tem o seu valor.

 

Filho de um dos mais célebres jogadores bascos dos anos 80 (essa era dourada), Xabi Alonso viveu entre Barcelona e San Sebastian à medida que a carreira do pai, Periko Alonso, se ia transformando num ícone social para os seus compatriotas. Por isso sentiu na pele - e nas pernas - a rudeza do jogo do norte e a finura exigida ao toque catalão. Com o seu inseparável amigo de infância, Mikel Arteta, sonhou em ser grande e trabalhou arduamente para isso. Longe do estereótipo de jogador vazio de ideias e alma, decidiu passar um Verão com 16 anos na Irlanda para estudar inglês e o futebol local. Começou a beber cedo o peso da tradição e, sobretudo, o valor da bola.

Quando voltou à bela San Sebastian explodiu perante a incredulidade local sob o comando de outro britânico, John Toshack, que viu nele as características de um médio passador nato, um certeiro jogador de baseball, capaz de colocar a bola onde e quando queria. O galês centrou o jogo da Real à sua volta (com o apoio de Karpin e De Pedro no miolo e os golos de Nihat e Kovacevic à frente) e contra todas as expectativas (e quando o outro Xavi era apupado em Camp Nou), Alonso levou o seu clube de infância a um segundo lugar que podia ter sido bem um titulo se o Real Madrid de Florentino Perez não tivesse gasto, no Verão anterior, mais uma soma milionário em Ronaldo.

 

Alonso foi coroado unanimemente como jogador do ano mas poucos entendiam bem a natureza do seu jogo. Apesar da sua qualidade no passe ele preferia jogar como médio mais recuado, com tempo nos pés para ler e estudar bem o jogo. Em vez de adaptar-se à posição de dez, transformou-se num seis com vocação de interior e a sua basculação lateral, com lançamentos beckhamianos tornaram-se em trademark registado. O tiki-taka curto dos Xavi e Iniesta ainda era uma ideia de laboratório, o seu jogo era mais puro. Por isso Rafa Benitez, que sofreu na carne o seu génio, cedo entendeu que em Inglaterra o valor de Xabi seria inquestionável. Juntou-o a um proeminente Gerrard, naquilo que se tornou numa relação de amor única, e como prenda teve direito a uma Champions League, uma FA Cup, uma outra final europeia perdida e muitos momentos inesquecíveis.

Em Anfield o jovem intelectual basco tornou-se lenda e à medida que Aragonés ressuscitava no país da fúria o futebol de toque a sua imagem começou a fazer mais sentido. Mas nesse Europeu que foi, mais que nada, um heróico tour de force, não havia espaço para o seu jogo mais directo no meio de tanto futebol rendilhado e curto entre os Silva, Cazorla, Fabregas, Iniesta e Xavi. A partir de então tornou-se evidente que enquanto o futebol espanhol seguia o caminho de Xavi, a utopia continuava nos pés do relógio basco.

30 milhões bastaram para fazer Alonso regressar a Espanha. Em dois anos passou a ser a máxima referência do jogo do Real Madrid, primeiro com Pellegrini e depois com Mourinho. O técnico português sabe que o basco é o único insubstituível no seu plantel e não é por acaso que em três meses de competição, Alonso seja o jogador de campo com mais minutos. Não é só referência fulcral no jogo de transição ofensiva que faz do ataque madrileño uma verdadeira máquina goleadora, como é também o único jogador em campo capaz de parar para pensar e temporizar os ânimos quando a fome de golos do quarteto da frente começa a estancar a fluidez de jogo colectiva. Ao contrário do alter-ego catalão, Alonso não vive rodeado de jogadores que partilhem o seu credo, o seu adn. Ele é no Bernabeu o extraterrestre e não a referência escolástica. O seu porte de viking, o seu ar tranquilo contradizem com o espírito de jogadores habitualmente aclamado no palco merengue e apesar de ser santo e senha de cada treinador que tem contado com ele (e del Bosque emendou a injustiça aragoniana e fez dele eixo central da selecção campeã mundial), o público parece ainda não ter tido tempo (ou paciência) para ignorar as corridas loucas, a bola veloz e as celebrações quase histéricas daqueles que o rodeiam. Hoje em dia ver um jogo de futebol em Espanha é sentir na pele a herança da filosofia destes Xav(b)is, dessa paixão pela bola e pelo espaço. Passar 90 minutos não só a contar os passes mas, sobretudo, a sentir como o relógio corre e o jogo flui, é um verdadeiro deleite dificilmente imitável em qualquer outra zona do planeta.

 

Xabi Alonso poderia sair tranquilamente do Bernabeu e com um gesto ordenar o trânsito caótico da Castellana. Poderia subir a Wall Street e com um movimento reordenar a loucura do mercado financeiro. Em vez desse reivindica o seu imenso génio dando corda ao seu relógio, fazendo respirar o tapete verde e sentindo nos pés o perfume da precisão...tique taque, tique taque!



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:32 | link do post | comentar

2 comentários:
De Cristina Pereira a 19 de Outubro de 2011 às 19:41
Excelente artigo. Como sempre a dar voz a quem não costuma gritar...;)


De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Outubro de 2011 às 07:54
Cristina,

Obrigado :-)

São os únicos que verdadeiramente vale a pena ouvir!

;-)


Comentar post

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Últimos Comentários
Thank you for some other informative web site. Whe...
Só espero que os Merengues consigam levar a melhor...
O Universo do Desporto é um projeto com quase cinc...
ManostaxxGerador Automatico de ideias para topicos...
ManostaxxSaiba onde estão os seus filhos, esposo/a...
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
arquivos

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

.Em Destaque


UEFA Champions League

UEFA Europe League

Liga Sagres

Premier League

La Liga

Serie A

Bundesliga

Ligue 1
.Do Autor
Cinema
.Blogs Futebol
4-4-2
4-3-3
Brigada Azul
Busca Talentos
Catenaccio
Descubre Promesas
Desporto e Lazer Online
El Enganche
El Fichaje Estrella
Finta e Remate
Futebol Artte
Futebolar
Futebolês
Futebol Finance
Futebol PT
Futebol Total
Jogo de Área
Jogo Directo
Las Claves de Johan Cruyff
Lateral Esquerdo
Livre Indirecto
Ojeador Internacional
Olheiros.net
Olheiros Ao Serviço
O Mais Credível
Perlas del Futbol
Planeta de Futebol
Portistas de Bancada
Porto em Formação
Primeiro Toque
Reflexão Portista
Relvado
Treinador de Futebol
Ze do Boné
Zero Zero

Outros Blogs...

A Flauta Mágica
A Cidade Surpreendente
Avesso dos Ponteiros
Despertar da Mente
E Deus Criou a Mulher
Renovar o Porto
My SenSeS
.Futebol Nacional

ORGANISMOS
Federeção Portuguesa Futebol
APAF
ANTF
Sindicato Jogadores

CLUBES
Futebol Clube do Porto
Sporting CP
SL Benfica
SC Braga
Nacional Madeira
Maritimo SC
Vitória SC
Leixões
Vitoria Setúbal
Paços de Ferreira
União de Leiria
Olhanense
Académica Coimbra
Belenenses
Naval 1 de Maio
Rio Ave
.Imprensa

IMPRENSA PORTUGUESA DESPORTIVA
O Jogo
A Bola
Record
Infordesporto
Mais Futebol

IMPRENSA PORTUGUESA GENERALISTA
Publico
Jornal de Noticias
Diario de Noticias

TV PORTUGUESA
RTP
SIC
TVI
Sport TV
Golo TV

RADIOS PORTUGUESAS
TSF
Rádio Renascença
Antena 1


INGLATERRA
Times
Evening Standard
World Soccer
BBC
Sky News
ITV
Manchester United Live Stream

FRANÇA
France Football
Onze
L´Equipe
Le Monde
Liberation

ITALIA
Gazzeta dello Sport
Corriere dello Sport

ESPANHA
Marca
As
Mundo Deportivo
Sport
El Mundo
El Pais
La Vanguardia
Don Balon

ALEMANHA
Kicker

BRASIL
Globo
Gazeta Esportiva
Categorias

a gloriosa era dos managers

a historia dos mundiais

adeptos

africa

alemanha

america do sul

analise

argentina

artistas

balon d´or

barcelona

bayern munchen

biografias

bota de ouro

braga

brasileirão

bundesliga

calcio

can

champions league

colaboraçoes

copa america

corrupção

curiosidades

defesas

dinamarca

economia

em jogo

entrevistas

equipamentos

eredevise

espanha

euro 2008

euro 2012

euro sub21

euro2016

europe league

europeus

extremos

fc porto

fifa

fifa award

finanças

formação

futebol internacional

futebol magazine

futebol nacional

futebol portugues

goleadores

guarda-redes

historia

historicos

jovens promessas

la liga

liga belga

liga escocesa

liga espanhola

liga europa

liga sagres

liga ucraniana

liga vitalis

ligas europeias

ligue 1

livros

manchester united

medios

mercado

mundiais

mundial 2010

mundial 2014

mundial 2018/2022

mundial de clubes

mundial sub-20

noites europeias

nostalgia

obituário

onze do ano

opinião

polemica

politica

portugal

premier league

premios

real madrid

santuários

seleção

selecções

serie a

sl benfica

sociedade

south africa stop

sporting

taça confederações

taça portugal

taça uefa

tactica

treinadores

treino

ucrania

uefa

todas as tags

subscrever feeds