Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011

Pode ser que T.E. Lawrence, na voz inesquecível de Peter O´Toole, tenha tentado fazer-nos crer que nada estava escrito mas a repetição do duelo entre um Portugal decadente e uma flamante Bósnia parece dizer todo o contrário. Em vinte anos um país que sobreviveu à maior catástrofe humana que o Velho Continente viveu em mais de meio século pode olhar olhos nos olhos no exemplo perfeito da desintegração europeia. Falamos de futebol, claro, desporto em que Portugal começa a perder argumentos e onde os bósnios encabeçam, com certa autoridade, a revolução de uma nova e pujante vaga.

Antes de que o ano acabe falaremos da Arménia, da Estónia e do Montenegro, selecções que hoje por hoje são mais interessantes e meritórias que as decadentes potências da Europa Ocidental perdidas entre elogios pretéritos e sonhos irreais. Potências como a França ou Portugal está claro. Mas entre todas essas selecções a que mais espanta, mais surpreende e, por outro lado, mais encanta, é sem dúvida a da Bósnia-Herzegovina.

Há momentos que marcam gerações. Ninguém que viveu os anos 90 com uso de razão pode esquecer as imagens de uma Sarajevo rasgada na pele, destroçada na alma. Hoje provavelmente a maior parte das ruas da cidade já não são construidas com tijolo e cimento. O mais seguro é que se sustenham com lágrimas e sangue.

Essa cidade, conhecida há séculos como a Jerusalem europeia, sempre foi a mais discriminada das capitais regionais da antiga Jugoslávia, discriminada por Tito e pelos seus seguidores em detrimento de Belgrado e Zagreb, cidades mais cosmopolitas e, sobretudo, mais eslavas. A herança muçulmana e judia fizeram da rainha das montanhas dos alpes dinários um primo pobre, olhado de lado. O mundo demorou a ter pena mas quando as imagens falaram mais alto do que todas as palavras dos corredores diplomáticos o mundo apaixonou-se por Sarajevo.

Vinte anos depois a capital da Bósnia é uma cidade diferente. Os problemas continuam lá, ninguém se engane. A corrupção, a crise económica, o desemprego e as relações institucionais no caldeirão de pólvora balcânico continuam a ser um problema. Mas como em tantos outros sitios esquecidos do mundo uma bola pode mudar muita coisa. Pode transformar uma rua de lágrimas num poço de euforia. Uma bola que rola, no próximo mês, com um objectivo claro e histórico.

 

Desde a separação da antiga Jugoslávia que as várias repúblicas que fizeram parte do ideário nacionalista de Tito usaram o futebol como o meio preferencial de afirmação nacional. Excluidos pelo Ocidente do seu brinquedo, a croatas, eslovénios, sérvios, bósnios, montenegrinos e macedónios tiveram de recorrer ao futebol (e ao basket é certo) para não deixarem o Mundo esquecer-se que eles existiam.

Os croatas foram os primeiros a brilhar, bem alto, e rapidamente se seguiram sérvios e eslovenos. Dez anos depois da extinção da Jugoslávia as três nações já tinha marcado presença tanto em Europeus como Mundiais e de forma bastante satisfatória. No meio da euforia colectiva todos pareciam esquecer-se da Bósnia, da pobre, ostracizada e semi-destruida Bósnia.

Mas a metamorfose do futebol bósnio tornou-se evidente na última década. A sua liga nacional continua a ser, em traços gerais, a mais pequena das três principais da ex-Jugoslávia (a eslovena e montenegrina são ainda mais humildes) mas a sua selecção deu um tremendo salto qualitativo. A aposta na formação local tornou-se uma realidade quando os clubes entenderam que não havia dinheiro para competir com o exterior. As estruturas foram-se melhorando a pouco e pouco e a corrupção federativa, um habitué nos dias da Jugoslávia, tornou-se menos evidente. O último problema, a tripla presidência federativa, espelhava de certa forma a identidade partida de uma Bósnia ainda orfã da guerra. Com o fim dos clãs étnicos a pujança da equipa nacional tornou-se mais evidente do que nunca. Pela primeira vez a nação sentia-se verdadeiramente unida.

No meio de tudo isto a figura tutelar do mitico Miroslav Blazevic.

Um treinador que sobrevive, sobretudo, graças ao seu tremendo carisma e que nos anos 90 foi o grande responsável pela reestruturação de outra nação recém-criada, a Croácia de Boban, Suker, Prosinecki e companhia. Com Blazevic ao leme a Bósnia começou a melhorar os seus resultados nas fases de apuramento. A isso ajudou também a chegada de uma nova vaga de jovens valores como Edin Dzeko, Asmir Begovic, Miroslav Pjanic, Vedad Ibisevic ou Haris Medunjanin que se juntaram aos veteranos Spahic, Rahimic, Muzlimovic ou Misimovic. Um onze espalhado pelas principais ligas da Europa e que se tornou num adversário temivel para qualquer selecção europeia. Ao contrário do que se supõe, um onze repleto de pequenas grandes estrelas.

A transformação arrancou em 2008. A Federação transferiu a esmagadora maioria dos jogos em casa para o mais pequeno - mas mais "quente" e intenso - estádio de Zenica que se transfou num verdadeiro fortim. A equipa começou a olhar de igual para igual com as nações do seu nivel. Em 2010 falhou o apuramento directo para o Mundial depois de sofrer na pele a superioridade da Espanha (mas batendo no sprint a Turquia) e caiu diante de Portugal no play-off. Na passada terça-feira foi outra campeã do Mundo, a França, a garantir o apuramento directo num grupo onde os bósnios voltaram a superar outra selecção com mais tradição como é o caso da Roménia. E mais uma vez o destino, esse que afinal parece estar escrito, colocou Portugal no caminho dos bósnios. 

 

Exceptuando dois ou três jogadores (se muito) o onze base português não é substancialmente diferente do melhor onze bósnio.

Zenica pode ser um inferno tão intenso como a Luz ou o Dragão (e muito mais que Alvalade) e o novo seleccionador, Safet Susic, goza de muito mais prestigio e respeito dentro e fora de portas do que o próprio Paulo Bento. O prestigio recente parece indicar, aos mais despitados, que Portugal é favorito. Longe disso, a dinâmica do momento parece indicar precisamente o contrário e são os bósnios, feridos pelo empate em Paris, quem surgem como o alvo a abater. O seu 4-2-3-1, acente no jogo ofensivo de Pjanic, Dzeko, Medjunjanin apoiado na segurança defensiva de Begovic, Spahic, Misimovic e Rahimic, propõe um modelo de jogo equilibrado e com várias soluções para os momentos mais complicados. Da solvência de Pjanic nas bolas paradas à eficácia goleadora de Edin Dzeko sem esquecer uma das defesas menos batidas na fase de qualificação, liderada por um Begovic em plena maturidade desportiva, transformam o onze dos Lirios, como são popularmente conhecidos, num durissimo rival.

Num país de 3,8 milhões de habitantes, sem uma imensa tradição futebolistica e com uma liga que anda entre a terceira e quarta divisão europeia, o mérito desta campanha é imenso. Um espelho perfeito de uma nova Europa de que fazem parte várias nações do antigo bloco de Leste que começam a superar nações históricas do Velho Continente que vivem em perfeito estado de estagnamento desportivo.

Portugal provou em Copenhague que está num lento mas claro processo de desintegração, incapaz de manter-se já nos bicos de pés que aguentou durante uma década junto das grandes potências. Faltam-lhes as forças, faltam-lhe os argumentos, faltam-lhe as ideias. À medida que nações como a portuguesa (e a belga, e a austriaca, e a escocesa, e a hungara, e a norueguesa) vão perdendo competitividade, consequência de várias decisões erradas a distintos niveis, novas nações como a Bósnia representam aquilo que estes próprios países, no passado, chegaram a representar face às potências de sempre que ainda o são hoje em melhor (Alemanha, Holanda, Espanha) e menor (Inglaterra, Itália, França, Russia) medida.

 

Uma semana servirá de pulso para entender se o processo de crescimento bósnio é decisivo e irreversível da mesma forma que os portugueses acabarão por se ver confrontados, mais tarde do que cedo, com a inevitabilidade do final dos seus dias de ouro. Portugal surge como favorito para a imprensa internacional mas na Bósnia o amor a uma pátria que há vinte anos não tinham e a lembrança dos dias de Sarajevo podem fazer a diferença. Para os adeptos neutrais, quando esse conceito ganha sentido num desporto de amor e ódios, entre ambas as nações ficará evidente quem representa o passado e quem representa o futuro. E muitos deles se lembrem das lágrimas e sintam essa canção de amor, de amor a Sarajevo, a cidade de um povo que quer quer o futebol sirva - pela enésima vez - para transformar as lágrimas em gritos de genuina alegria. Para eles o destino de sofrimento também é algo que não está escrito...



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 22:17 | link do post

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