Numa sondagem recente os adeptos ingleses consideraram a contratação de Juan Sebástian Verón pelo Manchester United como a pior transferência da história do futebol inglês. Normal. O filho de um dos heróis do maldito Estudiantes estava destinado a uma passagem pelo purgatório nos palcos britânicos. Talvez esse momento tenha marcado um verdadeiro antes e depois. Verón nunca foi um jogador verdadeiramente respeitado porque ele é, de certa forma, um dos últimos de uma estirpe que olha para o jogo mais como uma profunda diversão do que um negócio cínico e calculista. E no entanto a magia da Brujita fará certamente mais falta do que muitos possam sequer supor...
O corpo não aguenta mesmo que o cérebro esteja sempre preparado para mais.
Uma sina, não triste mas inevitável, que acaba com todas as carreiras, dos anónimos às estrelas, dos génios aos vulgares. Verón diz adeus da mesma forma silenciosa que penteia a bola sobre o relvado. Com a mesma certeza de quem se especializou em colocar o esférico com uma precisão geométrica em qualquer espaço livre. Para homens como Verón um campo de futebol não é só um tapete verde de medido em metros. Ele, como Riquelme, talvez o outro espelho perfeito desse lado do futebol que só a América do Sul é ainda capaz de cultivar, joga em milímetros. Milímetros de espaço são verdadeiros oásis que o seu olhar cirúrgico analisa e explora com a determinação de um Colombo.
O futebol nos pés de Verón sempre foi algo mais e no entanto isso só sucedeu porque o argentino olhou para o jogo precisamente como um jogo. Esqueceu-se das dimensões externas, recusou-se a ser um profissional exemplar e nunca perdeu tempo a pensar nos prós e nos contras das suas mudanças pontuais de equipa. Seguiu o seu instinto, o mesmo que fez dele um astro em Itália, um mal amado em Inglaterra e um eterno incompreendido na Argentina.
Quando guiou o histórico Estudiantes de la Plata, a reencarnação da equipa maldita que fez do seu pai uma figura de referência nos anos 70 do futebol argentino, ao titulo continental, muitos eram incapazes de entender que a linguagem de Verón no campo se media numa gramática diferente à dos restantes 21 jogadores. Aquele duelo com o Cruzeiro foi a prova viva de que, com 34 anos, o médio tinha mais critério e sabedoria com a bola de que a maioria das jovens e flamantes estrelas de um futebol mundial órfão de figuras como ele.
Verón nasceu num dia em que o seu pai Juan Ramon "La Bruja" Verón marcou o golo da vitória no derby de la Plata.
Só quando chegou ao balneário é que soube, pelo seu técnico, o polémico Billardo, do nascimento do filho. A celebração entrou para a história do outro mundo do futebol argentino e foi com essa condição, quase régia, que o jovem Juan Sebástian cresceu. Talvez esse peso, inesperado, o tivesse moldado de uma forma particular para aguentar o peso de ser a "Brujita".
Em 20 anos de carreira profissional disputou três Mundiais, três performances desesperadamente tristes da albiceleste. Na primeira era a grande promessa, na última o veterano em que ninguém, a não ser Diego Maradona, depositava a mais mínima confiança. Ao contrário de Riquelme nunca disse que não à pátria, nunca se negou, nem nos piores momentos, ao calvário de envergar a "albi". Quando se mudou para Itália, depois de forjar-se na masculinidade profunda do futebol argentino, aterrou num clube repleto de egos mas longe dos seus melhores dias. Ao serviço da Sampdoria passou o duro teste da Serie A e ganhou direito de juntar-se ao grande clube de estrelas de então, o Parma por onde já andavam Cannavaro, Thuram, Buffon, Asprilla, Chiesa e o seu amigo Crespo. No miolo cabia a Verón dictar o tempo, as pausas, o ritmo, as pulsações do jogo. Esse histórico Parma, último suspiro de uma ideia da Parmalat, culminou na vitória histórica em Moscovo, frente ao Olympique Marseille, da Taça UEFA de 1999. Verón, inevitavelmente, foi coroado como um dos mais determinantes jogadores do futebol mundial e quando o dinheiro em Parma acabou surgiu a Lazio e o dinheiro de Cragnotti em Roma para aliciá-lo a mais uma ideia onírica e profundamente anti-sistema.
Nesse Verão todos os grandes da Europa tentaram contratar o argentino mas para Verón era mais importante o desfrute de alinhar num projecto ambicioso mas sem a pressão mediática (e as exigência profissionais) de um dos gigantes do Velho Continente. A aposta de Erikson deu os seus frutos e no ano seguinte a malapata de duas décadas e meia do clube romano chegou ao fim. Verón venceu esse Scudetto a um ritmo diferente dos demais numa equipa não feita à sua medida mas onde todos entendiam que a bola só se movia quando Verón realmente queria.
A mudança para Old Trafford, em 2001, quando Ferguson tentou de tudo para recuperar o prestigio europeu abalado por dois anos irreconhecíveis, gastou o crédito de Verón na Europa. Na cinzenta cidade inglesa os seus bruxedos não encontravam aquele olhar extasiado do público e a sua motivação, o verdadeiro motor da sua carreira desportiva, desapareceu. Nem Chelsea, nem Inter conseguiram recuperar o sorriso de um astro que não se sentia cómodo já neste mundo de muitos milhões. O seu regresso a casa, ao Estu, foi tão inevitável como bem sucedida e a forma como recuperou o prestigio de um clube longe dos seus dias de glória deixou a nu, uma vez mais, que no futebol Verón sempre era capaz de sacar um coelho branco da cartola. O adeus de um mito profundamente ostracizado do futebol mundial é alvo de breves apontamentos na imprensa desportiva um pouco por esse mundo fora. Talvez porque a memória é traiçoeira, porque os seus maiores dias já passaram há mais de dez anos. Com a perspectiva do tempo, esse sempre sábio conselheiro, muitos chegarão à conclusão que o futebol sempre será mais futebol enquanto espíritos livres como Verón caminhem tranquilamente com a bola colada aos pés pelos campos verdes desse mundo fora...

