Terça-feira, 28 de Abril de 2009

O meu pai sempre me disse que uma pessoa sabe que está a envelhecer quando descobre que os jogadores que imitava quando era pequeno se transformam em treinadores de semblantes sérios. E como sempre, tinha toda a razão. Ao olhar para as imagens mais marcantes deste fim de semana é inevitável que essa ideia me venha à cabeça. Depois de passar a infância e adolescência com uma bola no pé ou a trocar cromos com os meus irmãos e amigos, ver hoje esses mesmos rostos no banco de suplentes a dar indicações para o mesmo terreno de jogo onde estava habituados a vê-los, é um choque. E como em tudo na vida, deixa que pensar. Especialmente se a sorte que os une também os separa. E lembro-me de três casos paradigmáticos, três idolos de infância, por motivos diametralmente opostos, que agora vivem situações bem diferentes. Mas como o tempo passa agora já não estou na rua, com a bola nos pés e a camisola de cada um deles sob o corpo. Estou a olhar para os seus rostos sérios, a contemplarem o seu futuro, um futuro de que há anos nem suspeitava que viesse a existir.

Depois de uma experiência frustada na cidade dos arcebispos é delicioso olhar para o banco de suplentes do Olhanense e ver o rosto triunfante de Jorge Costa.

O antigo capitão do FC Porto sempre foi uma instituição nas Antas e ficou para a história como o capitão - ao lado do seu amigo de sempre, Vitor Baía, que preferiu uma função bem mais recatada - das grandes conquistas europeias dos portistas. Depois de quase quinze anos a arrancar aplausos dos sócios azuis e brancos - que até lhe perdoaram a braçadeira atirada ao chão num jogo com o Setúbal que ficaria para sempre marcado na sua memória - o popular "Bicho" deixou os relvados para logo se sentar no banco de suplentes. Capitão e lider em campo, passou a sê-lo também fora dele. E depois de ter sofrido em Braga essa pressão de um clube que continua sem encontrar o seu lugar mais adequado, mergulhou na misteriosa II Liga para lançar as bases de um projecto fascinante. Os mais velhinhos lembrar-se-ão da última vez que o Olhanense andou pela I Divisão, mas a verdade é que se o futebol anda longe do Algarve há muitos anos, de Olhão melhor nem falar. Com uma equipa repleta de jovens promessas e jogadores emprestadas pelos grandes, o Olhanense surpreende com o seu bom futebol e sentido competitivo, marca pessoal do seu treinador. Tropeça aqui e ali mas, neste momento, é lider na Liga Vitalis e se vencer no próximo fim de semana um dos seus rivais directos - a União de Leiria, em terceiro - carimba praticamente a subida de divisão. Tudo resultado de uma politica coerente e de uma liderança única. Jorge Costa poderá subir de divisão com o seu Olhanense, mas está claro que o futuro é risonho, e tarde ou cedo o veremos por outras paragens...muito provavelmente com destino final: estação estádio do Dragão.

No lado oposto deste espectro está Alan Shearer.

Foi provavelmente o melhor ponta de lança da história do futebol britânico, capaz de ombrear com nomes únicos do passado, mas onde sempre destacou sobre os demais foi na sua imensa humildade e espirito de sacrificio. Filho de Newcastle, foi forçado a viajar pelo país quando os treinadores das camadas jovens do seu clube do coração o rejeitaram. Este filho de mineiros, que de pequeno também baixava debaixo da terra para ajudar a familia, acabou na outra ponta do país, em Southampton, onde se fez estrela. O Blackburn Rovers perdeu a cabeça e fez dele a sua estrela, suficiente para conseguir o seu único titulo de campeão. De aí ao regresso a casa passou pouco, pouco tempo, mas essa fidelidade aos "geordies" custou-lhe muito dinheiro e a fama de arrecadar titulos. No Newcastle nunca mais venceu nada. Rejeitou ofertas milionárias para emigrar ou para assinar por um grande britânico. Na selecção alcançou números históricos e quase esteve a ponto de matar Portugal nesse mitico 3-2 no jogo de abertura da prestação portuguesa no Euro 2000. Cabeceou vitoriosamente diante de...Jorge Costa. Mas também pela selecção da rosa falhou os titulos mais importantes e nunca esteve na lista dos "melhores" por ter sido sempre um jogador com pouco marketing. Mas a marca que deixou em St. James Park é única. E por isso mesmo, no momento de aflição em que se encontra, a direcção do clube suplicou a Shearer aceitar treinar a sua equipa do coração nas últimas jornadas da Premier League, e assim evitar uma mais que provável descida de divisão. Ontem o Newcastle voltou a não ganhar (empatou a 0 com o Portsmouth) e nem com Owen, Viduka e Martins conseguiu marcar. A descida é quase inevitável e apesar da fama do clube, a verdade é que históricos como o Nottingham, Southampton, Norwich ou Sheffield Wednesday começaram como os "magpies" e agora apodrecem nas divisões inferiores. Resta saber se Shearer terá forças para impedir a queda ou se tem talento para repetir o feito de Jorge Costa e para o ano devolver o Newcastle aos palcos onde merece estar.

Por fim temos Pep. Assim, apenas e só, Pep.

Quem viu jogar o Dream Team sabia que o génio de Romário, Stoickhov ou Laudrup assentavam numa premissa: estava Pep em campo para controlar o jogo...milimetro por milimetro. Provavelmente um dos médios centro mais completos da história, Guardiola foi o fiel da balança de Cruyff, o lider da equipa de Robson e a ponte para a geração de van Gaal. Passou por Itália, viu o seu nome associado a um escandalo de doping - nome que insistiu em limpar até ao fim - e voltou, tranquilamente, a casa. Sob a montanha do Tibidabo olhou para o Camp Nou e pediu para regressar ao lar. Deram-lhe a equipa B do Barcelona para começar a sua formação. Não era preciso. Em campo Pep já treinava, já era a voz de comando e o cerebro de Cruyff no relvado. Depois de um ano de preparação, o presidente Joan Laporta viu nele o sucessor ideal de Rijkaard, com fama de brando para uma equipa repleta de prima-donas. Chegou Pep. E com ele voltou a alegria de jogo, a disciplina, dentro e fora do campo, e o futebol espectáculo, sinónimo de Can Barça. Se o Real Madrid tem fama de ganhar titulos, o Barça tem fama de jogar bem. Este ano pode aliar os dois e conquistar os três trofeus mais importantes. E tudo graças a Pep, que vestido impecavelmente, sorri quando a equipa joga bem, comemora efusivamente quando empatam em campos perigosos e aplaude com sofrem golos. Um mestre dentro e fora de campo.

 

E ainda me lembro quando por um cromo de Guardiola tinha de dar os cromos de Nedved, Zola ou Henrik Larson. Outros tempos!  



Miguel Lourenço Pereira às 14:14 | link do post | comentar

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Miguel Lourenço Pereira

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