Terça-feira, 16 de Agosto de 2011

O futebol vive de momentos como este. Em meia hora Sergio Aguero redefiniu totalmente o jogo do Manchester City e consagrou-se como a grande figura individual do arranque mais morno de uma Premier League no que vai de década. O seu estilo de jogo eléctrico encontrou em Silva o parceiro perfeito e os adeptos citizens podem, legitimamente, sonhar com grandes noites. Aguero, talvez a contratação do Verão, tem tudo para levar o clube azul celeste às estrelas.

O Swansea começou de forma brilhante o seu primeiro jogo na Premier League.

Ser o primeiro conjunto galês na história a jogar na máxima competição britânica trazia uma aura especial ao encontro que fechava a jornada inaugural da Premier. Mas se deixarmos de lado esse simbolismo histórico, o duelo entre Swansea e Manchester City tinha um significado bem mais profundo e futebolístico. Mancini tinha a oportunidade de apresentar ao mundo, pela primeira vez longe da neurose humana que é o Vicente Calderón, o génio de um argentino que parece bem mais tranquilo do que o temível "Apache" Tevez. Fiel ao seu hermetismo, Roberto Mancini preferiu esperar. Aguero, esse pequeno guerreiro com pés de seda e mente de génio prodigioso, sentou-se no banco e começou a perceber que a na Premier é preciso tempo para singrar. O jogo decorreu contra as expectativas, especialmente pela surpreendente réplica dos debutantes, e quando teve de mexer pela primeira vez no onze (um onze com Dzeko, Touré, Johnson e Silva e sem Tevez e Balotelli) o técnico italiano elegeu Aguero. O momento foi determinante. A equipa tinha acabado de marcar o primeiro golo (excelente trabalho do avançado bósnio) e o argentino entrava sem a pressão de ter de decidir o resultado. Mas talvez nem o italiano imaginasse a rapidez com que a sua nova estrela iria deixar a sua marca no jogo de uma equipa que pelo orçamento e plantel tem de se assumir como candidato a um titulo que escapa há mais de quatro décadas. Aguero chegou, viu e venceu e deu uma profundidade de jogo ao Manchester City que nenhum outro jogador do City of Manchester pode oferecer. Foi um momento de redefinição de tempo e espaço.

 

Quando Aguero entrou em campo, David Silva sorriu.

O jovem espanhol há muito que se sente desacompanhado em Inglaterra. Ao seu modelo de jogo rendilhado e cuidado, esse trademark da Espanha moderna, supera-o sobretudo a verticalidade e fúria dos seus colegas de ataque, de Balotelli a Tevez, passando mesmo por Touré e Dzeko. Sem parceiros à sua altura, Silva tem sofrido bastante e há muito que a chama de magia do astro canário se vem apagando. Mas Aguero significa para ele uma nova oportunidade. Habituado ao jogo espanhol, o homem que andou na passada época, literalmente, com o Atlético de Madrid às costas, percebe bem a importância de um modelo de jogo de toque curto e associação. A química entre ambos foi inevitável e deu um novo perfume ao jogo vertical e incontrolado dos citizens. Sem De Jong em campo, o técnico italiano colocou Touré ao lado de Barry, o que permitiu à equipa conservar a bola, e deixou o seu dueto hispânico à solta. O espectáculo estava garantido.

Mais do que os dois belos golos e a assistência para o tento de Silva, que foi outro nos segundos 45 minutos, foi essencialmente a forma como Aguero encontrou o meio caminho entre a raça do futebol inglês e a classe do futebol espanhol que impressionou. Poucos jogadores sul-americanos encontraram esse ritmo no historial do futebol inglês desde os dias de Villa e Ardilles. O "Kun" parece feito dessa madeira, um atleta que também é futebolista, um artista com corpo de potrero selvagem, filho da dureza que marca os calos nas mãos de tantos pamperos. Aguero não tem um corpo de gladiador mas atrás de si há um historial de dureza que lhe permite enganar o defesa mais duro. A obsessão que tem com o golo permite-lhe chegar mais depressa onde outros só conseguem imaginar que é possível por os pés. Durante o Verão especulou-se com a sua ida para o Real Madrid. Teria sido o jogador perfeito nas mãos de José Mourinho. Mas o ódio visceral entre clubes impediu o negócio (o Atlético exigia que o IVA da operação ficasse a cargo do clube merengue, mais 30 milhões do que pagou o City) e talvez uma parceria histórica entre o argentino e Cristiano Ronaldo. Em Manchester, cidade onde brilhou o português, com quem Aguero tem mais semelhanças do que diferenças, esperam ansiosamente pela melhor versão de um jogador que pode definir uma era no clube azul celeste. Longe de ser uma alma rebelde e conflictiva como Tevez ou Balotelli, em Aguero o técnico Mancini sabe que pode encontrar a âncora perfeita para o seu projecto.

 

Tempo ao tempo, Sergio Aguero está chamado a ser uma das máximas figuras deste ano desportivo. Provou-o num clube que vive numa profunda cápsula de pequenez mental, provou-o numa selecção argentina constantemente à deriva e agora tem todas as condições para ser a figura individual da próxima Premier League. Com um plantel milionário e um parceiro perfeito para o argentino na figura de Silva, o City este ano não tem desculpas. A dupla Aguero-City promete fazer estragos!

 

 

Depois de três semanas de férias em que o Em Jogo funcionou a meio gás, espero a partir de hoje voltar ao ritmo habitual deste espaço. A todos os fiéis leitores que mantiveram os índices de visitas em alta, mesmo na minha ausência, e aos que esperaram pacientemente pela minha tardia resposta aos comentários que foram colocando, um especial agradecimento!



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:13 | link do post | comentar

7 comentários:
De ismas a 17 de Agosto de 2011 às 14:50
Miguel acho q tu como muita gente tem uma ideia errada do Man City e do Mancini.O City a 4 anos jagavam para nao descer e nao perder como Man united e tudo foi feito do telhado para os pilares a equipa foi frente para tras com muita culpa de Mark Hughes e quando chega o Mancini ele teve que equilibrar a equipa e e faze-los saber ganhar e sabes que isso nao e facil.Tornar uma equipa do fundo da tabela em vencedora e lutar para ser campea nunca sera facil ja que os jogadores para se habituarem a a vencer 2 3 4 jogos seguidos e para mais vindos a peso de oiro quando alguns nao custavam o que foi pagos por eles pesa nas costas e nao pouco.Quando um jogador chega do Braga ao sporting muitos nao suportam o peso da camisola imagina em Inglaterra onde tu tens 5 6 equipas do topo e acho que o Mancini quis fazer um processo por etapas onde primeiro a equipa poder chegar a certos estadios e nao perder depois ganhar alguma coisa de tipo uma taca e se classificar para champion, este ano veras um city muito mas atrevido com um sistma de jogo definido o 4-3-3 e com uma identidade ves a equipa mais solta com menos pressao e os jogadores com outra liberdade.O facto de teres 4 avancados e so jogar 1 nao quer dizer nada quantos avancados ves no milan,united,chelsea etc etc em inglaterra tens 3 tacas e mais a champions que vao este ano jogar.E nao te esquecas do factor medo,respeito que os com a vinda do Aguero as ouras equipas passaram a sentir e jogar mais atras e com outros receios que nao tinham antes e isso faz muita diferenca no futebol e entre seres grande e nao o seres meio caminho andado para marcares no ultimo minuto ou nao o factor psicologico os ultimos 30metros.espero ter me explicado bem.:)


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Agosto de 2011 às 09:11
Ismas,

O Man City era a minha equipa inglesa de miudo, nos tempos ainda do grande Nial Quinn e dos duelos com o Man Utd de Robson, Kanchelsis e Cantona, por isso conheço bem a trajectória e realidade do clube, especialmente marcado pelos mandatos de Keegan e Hughes, dois técnicos que nunca entenderam bem o potencial da equipa que se estava a montar. Mas a minha critica a Mancini, ele um génio no campo, já vem dos seus dias de Itália onde teve um desempenho regularíssimo com o Inter então numa Serie A onde não havia concorrência.

Desde há 3 anos para cá que o City tem um dos 4 melhores planteis da Premier League, melhor que o do Arsenal, Liverpool e até do Tottenham. Este ano, para mim, é o mais completo de todos. É normal que depois de tanto dinheiro gasto e com tantas opções que cheguem as exigências. De vitórias e bom jogo. O ano passado o terceiro lugar soube a pouco e o bom jogo apenas se viu.

Falamos de um plantel recheado de jogadores que sabe ganhar noutros sítios (Silva, os irmãos Touré, De Jong, Tevez, Dzeko...) e o principal problema é mais a o espírito colectivo que a fome de ganhar. De momento o que vi continua a ser uma equipa mais cautelosa do que atrevida, mais resguardada do que declaradamente ofensiva e essa imagem quase de falta de confiança é o que falta apagar. Quanto aos avançados, claro que todos os grandes têm vários, mas não somando o que o City pagou pelos 4 que tem (inexplicavelmente, especialmente no caso do Balotelli, um problema andante) e que até agora nunca renderam de acordo com as expectativas.

Acho que a chegada de Aguero marca um antes e um depois no projecto mas para funcionar a equipa tem de estar mais solta e solidária e é precisamente isso que vejo difícil num treinador com as características do Mancini.

um abraço


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