Quando os empresários de jogadores começaram a ganhar o seu espaço no universo futebol poucos imaginariam que alguns anos depois eles seriam os elementos centrais dessa indústria cada vez mais complexa. Um poder que ultrapassa o aspecto meramente financeiro e que agora, mais do que nunca, tem capacidade inclusive para moldar projectos desportivos. A contratação de Fábio Coentrão, à primeira vista absolutamente desnecessária, reforça essa ideia. O Santiago Bernabeu converte-se, a pouco e pouco, na sede do clã Mendes.
Não há um empresário desportivo como Jorge Mendes.
A ascensão do português é um case study desportivo que merece ser visto e revisto. Porque não deixa de ser uma licção para os que não acreditam no fenoméno europeu do self made man. Mas também porque deixa a nu todo o lado negro, esse caminho obscuro, que o futebol tomou quando aceitou entrar nesse rodopio financeiro que os milhões das grandes marcas e da televisão anunciavam com um sorriso de anúncio. Há uns meses atrás um jornalista do jornal britânico The Guardian divulgou, em vários capitulos, a saga da vida empresarial de Mendes no mundo de futebol e como os negócios com o mercado britânico ajudaram a cimentar a sua posição desde a sua primeira transferência, do vimaranese Nuno Espirito Santo para o Deportivo. A relação que establece com Cristiano Ronaldo e José Mourinho, os dois grandes embaixadores portugueses além portas e dois dos icones mundiais que o jogo produziu nos últimos anos, transformaram por completo a sua carreira, então iminentemente local.
Mendes é capaz do impossível. Fez Alex Ferguson, o mais perspicaz dos treinadores, contratar um jogador que nunca tinha visto jogar por um valor astronómico. Em Inglaterra nunca se esquecerão de Bebé. Mendes também não. Foi o negócio que deixou a nu todo o seu poder nos bastidores do jogo. Em Madrid, a sua segunda casa - depois do livre trânsito que fez dele uma das pessoas mais invejadas de Manchester como prova a contratação, mediada por si, de David de Gea - o empresário acaba de assinar outro contrato milionário para um atleta na sua carteira sem fim. Um negócio que não chega ao extremo do caso de Bebé - afinal Fábio Coentrão é um jogador de top - mas que espelha bem a sua influência junto de Mourinho e, directamente, do clube espanhol. Mendes consegue um valor recorde para o SL Benfica, um salário apetecível para o jogador, uma comissão generosa para si, mais um jogador da confiança do seu treinador (mais seu que do próprio presidente do clube) e, sobretudo, cimenta a sua posição no balneário do Real Madrid. Fábio Coentrão será o quinto jogador seu a actuar pelo histórico clube merengue. Em dois anos Mendes conseguiu transformar o seu peso numa instituição de renome de tal forma que ele hoje é uma figura com tanto poder como qualquer directivo do clube. Ser agente de Mourinho e Cristiano Ronaldo ajuda, mas contar com figuras como Pepe, Ricardo Carvalho, Di Maria e agora Coentrão transforma-o numa verdadeira força de pressão. Pelo meio ficaram os negócios frustrados de Hugo Almeida (petição de Mourinho, imagine-se), as declarações do treinador para forçar a renovação de Pepe (inusitadas), as palavras de Angel Di Maria nada mais chegar à Argentina sobre uma eventual renovação de contrato (aparentemente prometida no ano transacto) e a campanha mediática à volta da figura de Cristiano Ronaldo que encontra um forte antagonismo no sector histórico do balneário, onde Iker Casillas ainda é dono e senhor.
O poder da Gestifute no clube espanhol é claro e evidente.
A imprensa madrileña começa já a referir a possibilidade de José Mourinho retirar a braçadeira de capitão ao histórico Iker Casillas e entregá-la a Cristiano Ronaldo. Uma jogada que já foi planejada por Mendes com Florentino Perez quando o jogador português aterrou em Madrid, depois de uma transferência milionária que fez de Mendes um homem ainda mais rico (e lhe valeu no Dubai o prémio ao melhor empresário desportivo do ano) e que ficou em banho maria. É provável que o plano dos homens fortes da Gestifute fique no papel mas só a ideia deixa antever o peso real que esta estrutura parelela tem no clube. José Mourinho tem reestruturado o Real Madrid de uma ponta à outra, especialmente depois de vencer o braço de ferro que culminou com a saída de Jorge Valdano. Desde então o sadino rodeou-se no clube de homens de confiança e pretende fazer o mesmo com o plantel onde entende que há posições que devem ser reforçadas, sim ou sim.
No entanto olhando clinicamente para o plantel do clube merengue é dificil encontrar uma necessidade real de contratar por 30 milhões de euros (mais 50% do passe do central Ezequiel Garay) um jogador das caracteristicas de Fábio Coentrão. Não que o português não seja um dos melhores do Mundo na sua posição actual, lateral esquerdo. Mas porque nesse top três ideal estariam Gareth Bale e... Marcelo.
O brasileiro foi um dos melhores e mais regulares jogadores merengues do último ano. O seu posicionamento permitiu uma fluidez de jogo ofensivo ao Real Madrid em tudo similar ao que Dani Alves proporciona, no flanco oposto, ao seu grande rival. Marcelo emulou mesmo, em várias ocasiões, o papel do histórico Roberto Carlos. Não contente com isso, o clube merengue dispõe igualmente do versátil Alvaro Arbeloa, um desses cães para toda a refrega que tanto agradam ao treinador e cuja polivalência lhe permite jogar em ambos os lados da defesa. Tal como o turco Hamit Altintop, de fora até Outubro por uma lesão que traz dos seus dias de Munique. Três jogadores para um lugar onde Coentrão se distingue por ter, precisamente, as mesmas caracteristicas de jogo de Marcelo. E no entanto ela move-se, pensarão, e Coentrão pode chegar para actuar mais à frente no terreno de jogo. Uma vez mais, as posições que o esperam estão, desde já, bastante cobertas. No ataque tanto Angel Di Maria como Cristiano Ronaldo e até Mezut Ozil podem actuar no lado esquerdo do ataque com total solvência (para não falar do próprio Marcelo). Excluindo de antemão a propalada chegada do brasileiro Neymar claro. No miolo, onde Coentrão nunca actuou ao mesmo nivel que na ala, o Madrid conta com o talento de Xabi Alonso e Sahin, outra incorporação de classe para povoar o miolo. Ficamos, no fim de contas, sem entender onde cabe Fábio Coentrão no esquema de Mourinho. Mas temos a certeza que a sua chegada acontece, essencialmente, porque pertence à grande familia do clã Mendes.
Com a cantera de Valdebebas mais um ano abandonada à sua sorte e com muito melhores (e mais baratas) soluções no mercado interno (leia-se Canella ou José Angel, por exemplo), a chegada de Coentrão (que passou sem pena nem glória pelo Zaragoza onde era mais habitual vê-lo nas discotecas aragonesas do que no terreno de jogo) é mais um prego no caixão do projecto de espanholização do clube propagado pelo seu presidente, Florentino Perez, aquando da sua reeleição. É também mais um triunfo pessoal para José Mourinho, reconvertido em dono e senhor da parte desportiva do clube mas, sobretudo, uma vitória de Jorge Mendes. O representante amplia a sua fortuna e influência e torna-se, a pouco e pouco, também ele dono de um clube que até há bem pouco tempo era visto como um cemitério para os empresários mais ambiciosos. O clã Mendes fará de tudo para marcar presença na Cibeles em Maio do próximo ano. Florentino Perez já entregou, definitivamente, a parcela desportiva à dupla Mourinho e Mendes e agora resta-lhe esperar e rezar. Mais um ano de fracasso pode significar o desmoronar de mais um projecto em Madrid que começa a construir-se pelo telhado. De vidro neste caso.

