Depois dos técnicos low-profile e da aposta na formação o Sporting procura uma fórmula mágia que permita recuperar o atraso considerável face aos seus historicais rivais na luta pelo titulo. O leão reinventa-se com os nomes responsáveis pelos últimos titulos de volta aos escritórios de Alvalade e com um técnico que quer vencer o seu primeiro titulo para confirmar-se, também ele, como um dos grandes de Portugal.
A Domingos Pacicência falta um titulo. Ao Sporting também, há muito tempo. Demasiado.
Hoje falar do Sporting é questionar a própria ideia de Três Grandes que fez parte da cultura do futebol português durante 80 anos. Afinal, os leões foram responsáveis pelo delapidar do seu projecto desportivo, pela falência do seu ideário económico e pela falta de ideias e projecção para colmar o imenso buraco que se abriu entre eles, o renascido SL Benfica e o constante FC Porto. Na última década os leões e as águias partilham o mesmo número de titulos (2 contra 7 do FC Porto) mas a distância emocional entre ambos os clubes nunca foi tão grande. Mesmo no largo hiato de 19 anos sem vencer um troféu, nunca o clube de Alvalade deu tantas mostras de impotência e desnorte. A saída de Paulo Bento, responsável em grande parte pelo paliar de uma situação que se agravava às escondidas dos próprios adeptos, precipitou a queda do clube. A ascensão do Braga, a emular o logrado pelo Boavista há dez anos atrás, condenou ainda mais os leões ao exilio de grandeza que sempre almejaram. A situação critica exigia medidas desesperadas. Um murro na mesa. Uma autêntica reinvenção.
Luis Duque, o homem por detrás do sucesso da era Dias da Cunha, tornou-se na aposta pessoal de Godinho Lopes, o presidente eleito em Abril que garantia, de certa forma, uma especie de status quo directivo longe de uma presidencia mais populista (e talvez mais interessada em conhecer o real estado das contas do clube). Num clube com problemas financeiros tão graves como aqueles que vive o clube verdi e branco é surpreendente descobrir que os leões são um dos clubes europeus mais activos no mercado de transferência. Sem os milhões do Málaga ou da Juventus, o Sporting já conseguiu os serviços de onze novos jogadores e esperam-se novidades nos próximos dias. O plantel à disposição de Domingos estará mais perto da casa dos 30 atletas do que dos recomendáveis 20 nomes. Um problema de escoamento que terá, forçosamente, de ser resolvido nos próximos dias e que dará tantas ou mais dores de cabeça à equipa directiva - onde também está Carlos Freitas, que o técnico conhece bem de Braga - do que a chegada de ilustres desconhecidos que o técnico leceiro terá de saber potenciar.
Depois de dois anos desportivos para esquecer Domingos Paciência surge como uma lufada de ar fresco.
Não tem o baixo perfil de Carvalhal, Couceiro e Paulo Sérgio e traz consigo a fome do primeiro titulo, algo que lhe escapou nas suas duas notáveis épocas em Braga. Domingos, técnico forjada na escola das Antas, traz também organização defensiva (a sua principal arma no Minho), inteligência de jogo e, sobretudo, a velocidade que tem faltado a um Sporting sempre previsivel, dependente e inofensivo.
Depois de anos e anos a apostar quase exclusivamente na formação (com incursões desastrosas no mercado internacional), o Sporting de Domingos terá pouco impacto do trabalho desenvolvido em Alcochete e será, sobretudo, um work in progress entre o técnico e as jovens promessas contratadas a um preço de mercado acessível (mas mesmo assim incomportável para um clube que, supostamente, vive à beira da bancarrota há largos anos).
Se Turan, Arias e Carrillo são promessas com muito caminho pela frente, já do bulgaro Valeri Bojinov, uma das grandes promessas do futebol europeu desde há vários anos e, sobretudo, de van Wolfswinkel espera-se golos. Especialmente no caso do holandês, que no modesto Utrechet rompeu as estatisticas com um faro de golo apuradíssimo. Poucos dianteiros na Europa se dão tão bem com as balizas contrárias como o dianteiro holandês o que numa equipa onde as restantes opções de ataque são Djaló e Postiga, dois dianteiros reconhecidos pela pouca atracção que têm com o golo, é de se agradecer. Mas se Domingos Paciência foi avançado (e dos bons) e sabe quanto vale um golo, a sua faceta de treinador tem evidenciado mais ainda o quão importante é não sofrê-lo. É na defesa que o nivel do Sporting deverá melhorar a olhos vistos. Evaldo, depois de uma época para esquecer, reencontra-se como o técnico que o potenciou. Onyewu e Rodriguez são duas figuras de peso para dar solvência e segurança defensiva a Rui Patricio (ou a Marcelo Boeck, se se confirmam os rumores da saída do jovem guardião para o Atlético Madrid). E a isso há que juntar ainda Daniel Carriço, capitão e eixo central do projecto leonino, que pode ocupar posições na defesa e meio-campo onde estará acompanhado por André Santos (outro dos poucos sobreviventes de Alcochete) e os recém-chegados Schaars, Rinaudo e Luis Aguiar (outro homem de confiança do técnico).
No processo de chegadas e saídas (que não deve ficar por aqui), a grande jogada da dupla Duque e Freitas está na relação com os elevados salários que alguns dos jogadores do projecto anterior auferiam. Pedro Mendes, Maniche, Abel, Zapater, Grimi e companhia têm guia de marcha e a sua troca por jogadores mais novos (e com salários bem inferiores) têm por objectivo reduzir directamente os gastos do clube com a carga salarial do plantel. Uma ideia que entra no espirito do fair play financeiro da UEFA mas que precisa de sucesso no terreno de jogo para funcionar.
O grande trunfo do Sporting está no seu próprio insucesso recente. Dos leões poucos esperam que bata a pé a um Benfica hiper-reforçado e um FC Porto que acaba de coroar-se como um dos reis da Europa. Talvez por isso - e provavelmente pela fortissima aposta na Liga Sagres em detrimento das provas a eliminar - este Sporting seja um sério candidato ao titulo 2011/12. Um projecto que procura reinventar-se entre juventude, velhas amizades e um ideário que se assemelha, mais do que nunca, á equipa que quebrou outro longo jejum, há doze anos atrás!

