A novela futebolística da silly-season desta temporada chama-se Cesc Fabregas. Uma novela tão supérflua e vazia como qualquer livro ligeiro que se leva para a praia e que se lê em diagonal. Ninguém questiona o talento do capitão do Arsenal mas transformá-lo num cavalo de batalha e num conflicto mediático é algo surpreendente tendo em conta que actualmente o jogador dos gunners não tem espaço no onze de Guardiola.
Quando um jornal conhecido pela sua militância fanática como é o Sport catalão anuncia uma mutação táctica para acomodar a chegada mais do que previsível de Fabregas ao Barcelona, começa a ficar claro que o problema é mais grave do que se poderia supor. É difícil imaginar um treinador que seja tão talentoso e perspicaz como é Josep Guardiola. Pensar que o treinador da equipa mais bem sucedida do futebol mundial dos últimos 20 anos irá mudar o desenho táctico que, precisamente, levou a essa supremacia, simplesmente para acomodar a um jogador, é por si só espelho do desespero mediático em que se envolveu nesta novela a sociedade blaugrana. Imprensa e clube não sabem que fazer com um jogador que é petição expressa do homem que ninguém se atreve, nem mesmo Sandro Rossell, a contrariar.
Guardiola é hoje o presidente de facto do FC Barcelona e poucos duvidam disso mesmo. Ao contrário de Cruyff, que sempre teve de viver com a sombra de Nuñez, o técnico de Santpedor controla o seu clube do topo à base com a autoridade concedida pelo sucesso indiscutível que teve desde que regressou ao Camp Nou. Um mandato presidencial oculto mas que tem definido, positivamente, o sucesso desta estrutura desportiva da qual ele é, de certa forma, o protótipo perfeito. No meio do seu mandato oculto, Fabregas tornou-se num tema nuclear.
O jogador saiu do Barcelona de costas voltadas com a direcção de Joan Gaspart que se recusou a oferecer os valores que pedia para renovar contrato. Tal como Gerard Pique, o seu melhor amigo, escolheu Inglaterra para continuar o seu crescimento profissional sem nunca esconder a sua devoção pelo clube de origem. Em Londres foi o exemplo perfeito de como Arsene Wenger sabe pescar e trabalhar jovens promessas e rapidamente se tornou no capitão dos gunners. Mas desde que se tornou titular, Fabregas nunca soube o que era ganhar um troféu de nível com o Arsenal. Mais do que isso, nunca se tornou no jogador diferente que tantos esperavam dele, o estilo de jogador capaz de vencer, por si só, todas as adversidades. Cesc é bom, muito bom, mas é um jogador de colectivo, como seria de esperar de alguém que seguiu o ideário blaugrana ao longo da sua vida. Nunca se destacou como uma estrela individual e nunca se viu rodeado com um colectivo que partilhasse a mesma filosofia. Porque Denilson, Diaby, Flamini, Nasri e Song não são, propriamente, violinistas de excepção. Essa sombra sobre o seu sucesso profissional criou uma certa inimizade com o próprio público do Camp Nou que não parece gostar muito da ideia do regresso do jogador a casa. Um sentimento partilhado pela directiva oficial, a de Rossell, que preferia gastar a fortuna que está sobre a mesa - 40 milhões, mais coisa menos coisa - noutras posições e noutros mercados (a saber, o mercado brasileiro onde Rossell dá cartas). Mas é aí que entra a figura de Guardiola.
Guardiola é o espírito vivo da Masia e quer rodear-se de todos aqueles que partilhem o seu sentimento, antes de voltar a aventurar-se em trazer algum jogador, por muito bom que seja (leia-se Ibrahimovic) que não encaixe no seu ideário. E Pep é, sobretudo, um treinador de jogadores, dos seus jogadores, daqueles que cresceram com ele como idolo. Por isso permite que Milito se mantenha no plantel (ele é o baby-sitter de Messi para todos os efeitos), por isso valoriza jogadores como Pinto e Keita, as almas do balneário de portas para dentro. E por isso sabe que gastar dinheiro num jogador estranho ao ambiente do clube é algo que não vai com a mentalidade que defende o seu grupo de trabalho.
E nesse grupo estão todos os amigos de Fabregas, os seus antigos colegas de equipa (Piqué, Messi, Valdés) e aqueles a quem já ele admirava (Xavi, Puyol,Iniesta) quando dava os seus primeiros passos na Masia. Esse fortíssimo grupo de pressão tem feito de tudo nos últimos dois anos para forçar o regresso de Fabregas a casa. Independentemente da opinião da directiva (já Laporta preferiu apostar tudo em Villa do que em Fabregas) e do público, eles querem o seu companheiro de luta ao seu lado, independentemente de questões técnico-tácticas. E financeiras claro está.
Se isso é normal entre o plantel, o estranho é que o próprio Guardiola se deixe prender num problema que pode condicionar a própria evolução da sua quarta temporada, ele que pretende emular o feito de Johan Cruyff conquistando o Tetracampeonato no próximo mês de Maio. Todos sabem dos problemas de Fabregas com Vicente Del Bosque. O seleccionador espanhol, pessoa sábia, correcta e razoável a todos os niveis, confinou-o ao banco de suplentes ao não ver espaço para um jogador das suas características num meio-campo com Xavi, Iniesta e Busquets...o mesmo que encontrará em Camp Nou. O jogador do Arsenal, que com o 4-5-1 de Aragonés teve espaço para brilhar, sabe que o jogo do Barcelona acenta em Messi e na sua posição de falso nove que precisa do jogo de extremos (Pedro e Villa) para ser eficaz. Isso implica um meio-campo de três, o tal meio-campo de três onde Del Bosque não vê espaço para Fabregas. O capitão de um dos grandes da Europa equaciona, aos 24 anos, mudar para ser suplente?
Talvez, mas se a mesma situação lhe provoca mal estar com a selecção, onde joga de tempos a tempos, imagine-se uma rotina diária. Esquecendo a estapafúrdia ideia do Sport, a aposta num 3-4-3 cruyffiano (que o próprio Guardiola já descartou várias vezes, depois de aprender de Capello as licções sobre uma boa defesa de 4) que faria pouco sentido quando se tem Dani Alves e Gerard Pique na equipa (que transformam a defesa de quatro em defesa de três e dois com classe e soltura) então ficamos presos a esse desenho de tridente e à ausência de espaço para Cesc crescer. Mais ainda, o ainda jovem jogador do Arsenal competirá também com Thiago. Pode parecer uma comparação supérflua, até porque Fabregas é uma estrela internacional e Thiago um rookie de projecção. Mas não é dificil ver no MVP do Europeu de sub-21 talento para tornar-se, talvez, no melhor jogador do Mundo na sua posição e a sua maturidade desportiva pede tempo de jogo (em jogos importantes) e espaço de manobra. A chegada de Fabregas não só custa 40 milhões e uma possível temporada no banco de suplentes, também pode significar um problema para Thiago, estrela emergente que o Barcelona deveria saber cuidar. Um negócio que entra em confronto com a mensagem de ajuste financeiro do clube e o clima de tranquilidade que Pep Guardiola tem sabido transmitir.
Cesc Fabregas pode - e certamente o fará - ampliar o leque de opções numa longa e difícil temporada. Mas também poderá tornar-se numa bomba relógio pronta a explodir. Xavi é ainda peça fundamental na manobra da equipa. Busquets uma rocha inamovível e Iniesta o elemento mais desequilibrante, depois de Messi. Com a chegada de Fabregas e a ascensão de Thiago o Barcelona torna-se, mais ainda, a equipa mais poderosa do mundo a meio-campo. Mas também reedita um velho problema do seu eterno rival, o Madrid Galáctico que gastou milhões para acumular figuras no eixo ofensivo para depois ter de viver com os problemas de egos e as carências noutros sectores do terreno de jogo. No meio de tudo isto nada parece mais supérfluo do que a contratação de Fabregas.

