Não aterra num planalto desconhecido mas o plano de voo de André Villas-Boas certamente que sofreu mais de uma correcção desde que o técnico começou a desenhar o seu futuro. A sua chegada a Londres está marcada por lembranças pretéritas, traições mal explicadas e uma ambição tremenda. O português tem tudo para consagrar-se no futebol inglês como um treinador de excepção. Tudo menos o mais importante. AVB já corre contra o relógio.
Apesar da fama da Premier League de respeitar o trabalho do Manager acima de todas as coisas, o Chelsea não é o melhor exemplo a seguir.
Nos últimos sete anos o clube já contou com sete treinadores, com Avram Grant, Luis Filipe Scolari e Guus Hiddink a não completarem sequer uma só época. O israelita e o russo foram opções alternativas e chegaram para sanar as feridas deixadas pelas saídas inesperadas (ou talvez não) de Mourinho e Scolari. Mas não tiveram tempo, oportunidade ou vontade de continuar. O Chelsea consegue ser um projecto muito stressante.
Villas-Boas sabe-o e muito bem. Chegou em 2004 com o resto da comitiva anónima que seguiu com José Mourinho do Porto para Londres. Por essa altura chamava menos à atenção que o possante Silvino ou o inseparável número dois, Rui Faria. Mas o seu trabalho de prospecção revelou-se chave na preparação das três épocas de Mourinho, nas contratações de Essien, Diarra, Cole e companhia. Quando Mourinho saiu, a Villas-Boas não lhe teria incomodado ficar um pouco mais numa cidade onde se sentia em casa. Mas decidiu seguir o seu mentor. Por pouco tempo. Esse ano sabático de Mourinho permitiu ao portuense ver o seu futuro como treinador principal. E foi aí que o jovem olheiro começou a desenhar o seu futuro. Mas nem ele imaginaria que voltaria à capital inglesa tão depressa. Não fosse por Guus Hiddink e talvez o seu regresso nunca tivesse acontecido de todo. Uma questão de timing!
O holandês, actual seleccionador da Turquia, foi cortejado por Abramovich durante meses a fio. Nem o fracasso com a selecção russa retirou prestigio a um homem que já foi uma vez chamado pelo bilionário russo para tapar os buracos de gestão em Stamford Bridge. A Hiddink o projecto não lhe deve ter achado muita graça. Nem quis continuar ao leme do clube, abrindo caminho para a chegada de Carlo Ancelloti, nem sequer mostrou grande interesse em voltar. As negociações arrastaram-se até que o técnico disse finalmente não ao seu amigo Roman. O dono do Chelsea olhou para o mercado e viu poucas possibilidades em carteira. O relógio continuava o seu curso e o tempo escasseava. O timing era tudo e havia pouco por onde pescar. Decidiu sacar o livro de cheques e recuperar um velho conhecido, com quem falava alegremente no escritório de José Mourinho quando baixava ao centro de treinos para ver que tal ia a sua equipa. Villas-Boas conhece bem Abramovich e sabe o que o espera. Para ele sair do FC Porto era algo inevitável, por muito que tenha entretido os adeptos azuis e brancos com declarações de amor eterno que já nem se usam. Talvez não imaginasse que o salto fosse tão precoce. Nisso teve culpa própria, afinal a época azul e branca não passou desapercebida ninguém. Nem o timing da sua escolha.
O novo treinador do Chelsea saiu da sua cidade como um traidor e chegou à sua admirada Londres debaixo de muita suspeita.
Os adeptos do FC Porto dificilmente irão perdoar o inevitável. A Invicta, apesar de ser a sua cidade, tarde ou cedo acabaria por ficar pequena para as suas ambições, declaradas ou não. O seu problema foi esse maldito timing, a única coisa que não controlou ao longo do defeso. A oferta do Chelsea foi repentina (os contactos prévios que Pinto da Costa referia dizia apenas respeito a um trabalho como treinador de campo) e irrecusável. Tanto pelo dinheiro envolvido - e Villas-Boas, como qualquer outro, é um profissional - como pelo projecto. Tal como com Mourinho em 2004 (que recusou o Inter como Villas-Boas porque Abramovich prometeu muito dinheiro para reestruturar a equipa), o portuense chega com a ilusão de começar do zero.
Lampard, Terry, Cole, Cech, Anelka e Drogba estão mais perto do final das suas carreiras (ou do seu zénite, pelo menos) do que do arranque. A espinha dorsal sobre a qual Mourinho construiu o seu projecto começa a dar lugar a novos rostos. Torres, Bosingwa, Alex, Ivanovic, David Luiz, Obi Mikel, Ramires ou Benayoum já lá estão. Mas os muitos milhões que o russo promete colocar à disposição do seu novo técnico permitem imaginar um plantel totalmente reestruturado a que se podem juntar também os jovens que Ancelloti foi lançado (Sturridge, van Aaholt, McEachran, Kakuta, Bruma) e que foram sendo recrutados pelo departamento de prospecção, como o brasileiro Lucas Piazon. Para ele, em Londres, o timing é perfeito para começar uma nova era, sem o peso do passado nos ombros e com a expectativa de um futuro brilhante pela frente.
Villas-Boas seguirá os passos de todos os treinadores quando rumam ao estrangeiro e certamente levará consigo um ou dois dos seus ex-jogadores. Com isso enriquecerá ainda mais o seu ex-clube e saldará qualquer conta pendente. O seu karma foi talvez o optimismo (ou oportunismo) das suas declarações ao longo do ano. Que talvez fossem genuínas mas que condicionaram forçosamente qualquer decisão futura. Mas AVB não deixa de ser o mais significativo negócio na história do clube azul e branco e pode, com o seu poder de decisão em Londres, permitir ao seu antigo clube reestruturar totalmente o seu orçamento desportivo. Mérito da sua gestão como treinador e da sua saída.
Em Londres vai encontrar, sobretudo, desconfiança. Um Special Two sem sentido - até porque Mourinho e o seu Special One chegaram com o glamour de uma Champions debaixo do braço - mas que terá bem em cima a lupa de adeptos, gestores, imprensa e jogadores. Se com os primeiros Villas-Boas tentará emular a relação que tinham com Mourinho (e que perderam nos últimos quatro anos) com os restantes o braço de ferro será mais interessante. Particularmente com os nomes duros do balneário, Terry à cabeça, responsáveis da queda em desgraça do seu anterior mentor.
A dificuldade da Premier League - uma Premier League espicaçada com o fluxo de dinheiro do Manchester City, a renovação do Manchester United, a prometida nova politica desportiva do Arsenal e até mesmo o reforço dos projectos de Tottenham, Liverpool, Everton e Aston Villa - será muitíssimo superior do que Villas-Boas possa hoje imaginar. A isso junta-se uma Champions League dominada moralmente pelos colossos espanhóis, mais fortes do que nunca, depois da era dos clubes ingleses ter, aparentemente, chegado ao seu final. A Villas-Boas prometem tempo, dinheiro e paciências mas todos irão exigir títulos históricos (vulgo, Champions League) resultados imediatos (sem tempo para estados de graça) e futebol de primeiro nível. Seria uma missão temível para qualquer um, mais ainda para um treinador que, apesar de tudo, ainda é um rookie. Talvez por isso a sua chegada faça todo o sentido. Villas-Boas não tem nada a perder e tudo a ganhar. Se o seu projecto falhar continua a ter mercado um pouco por todo o Mundo e tempo para dar a volta por cima. Se vencer, supera todas as expectativas (outra vez) e cria um precedente histórico. Um desafio destes era impossível de recusar. Resta saber se é impossível de concretizar!

