Em 1983 o presidente Rafael Cabrera marcou uma reunião com os máximos dirigentes da Federação Argentina. Liderava um séquito dos principais clubes da liga local e estava preparado a boicotar o torneio nacional se a AFA não aceitasse a sua temerária proposta. Depois de uma dura ronda de negociações o dirigente do River Plate conseguiu o que queria. 38 anos os Milionários de Buenos Aires reencontram-se com o destino que iludiram há 38 anos. Só um milagre pode permitir ao River Plate fintar uma despromoção pendente há quatro décadas.
A derrota frente ao modesto Lanús confirmou as piores expectativas no Monumental. O River terá de lutar até ao fim para não cair no poço da 2º Divisão do futebol argentino. Um feito impensável se tivermos em conta que não há campeonato do mundo onde os grandes estejam tão protegidos como o argentino. Por culpa do River Plate e agora, apesar deles.
A equipa de Buenos Aires liderou em 1981 uma rebelião contra o sistema instaurado nos anos 30 pela AFA, a federação argentina. A queda de outro histórico, o San Lorenzo de Almagro, na 2º Divisão, levou a que os directivos dos principais clubes (que incluíam o Boca Juniores, Estudiantes, Independiente, San Lorenzo, River e Racing Avellaneda) instigassem a federação a protege-los contra os mais pequenos. A perda de categoria do San Lorenzo significava um rombo nas contas do clube e era um sério aviso aos restantes grandes do futebol albiceleste. Depois de dois anos de duras negociações a federação capitulou. Foi instaurado um sistema de pontuação altamente complexo que protegia as costas dos grandes locais perante qualquer deslize pontual. As equipas seriam despromovidas não pelo resultado de um ano mas sim pela média das pontuações acumuladas nas três temporadas anteriores. Além do mais, para reforçar ainda mais esse conceito de liga fechada, só os dois últimos seriam despromovidos. Os penúltimos e antepenúltimos classificados podiam ainda jogar um play-off contra o 3º e 4º classificados da 2º Divisão. É nessa situação que se encontra o conjunto buenarense.
A negociação de Cabrera revelou-se fundamental para o clube. Precisamente em 1983, o ano em que o novo sistema foi inaugurado, a equipa terminou no 18º e antepenúltimo posto da tabela. Mas livrou-se de disputar o play-off porque, evidentemente, a sua classificação média das três épocas anteriores (onde contava com dois títulos conquistados com Alfredo Di Stefano no banco de suplentes) garantia a sua sobrevivência. O modelo revelou-se um sucesso para os clubes grandes de tal forma que nas décadas seguintes nenhum deles perdeu a categoria. Havia sempre um ano pretérito com a pontuação necessária para evitar males maiores. Até agora.
O descalabro desportivo do River Plate não é recente.
O clube começou a cair do trono a meados da década com a sucessiva venda dos seus melhores activos para o futebol europeu de forma a paliar a imensa divida acumulada nos anos de bonança. Depois da vitória no Torneo de Clausura de 2008 , com Diego Simeone no banco e o jovem Diego Buonanotte como estrela mais reluzente, o clube entrou numa espiral negativa que o levou à dramática situação com que se depara. Em 2009 a equipa somou apenas 14 pontos e terminou o ano no final da tabela depois de uma série de dez derrotas consecutivas. Mas salvou-se. Já sabemos porquê. Aliás, no topo da tabela classificativa por médias, o River ainda era líder, apesar do annus horribilis. Não seria assim por muito tempo. Um ano depois os fracos resultados repetiram-se. O clube, sob a gestão desportiva de Nestor Gorosito e com os veteranos Almeyda e Gallardo no onze titular, terminou o ano no 14º posto com apenas 25 pontos. Daniel Passarella, antiga glória nos anos 70 e 80, chegou à presidência e com ele trouxe dois velhos nomes, Leonardo Astrada e Angel Cappa. Apesar do arranque promissor - e do reforço do plantel - a equipa voltou a desiludir e a tropeçar na tabela.
Em 2010/11 a classificação final do Torneo de Clausura não foi tão má como se imaginaria. O clube, com as promessas Erik Lamella e Funes Mori em destaque, logrou terminar o ano no 9º posto. Mas a soma dos resultados dos anos anteriores atiraram com os Milionários para o 17º posto da tabela classificativa colectiva. E para o duelo desesperado contra o Belgrano. A duas mãos o River terá de evitar o destino. Juntamente com o Boca Juniores, Independiente e Arsenal de Sarandi é uma das poucas equipas que não sabe o que é jogar na 2º Divisão argentina. Conta com o maior estádio do país, o mais espectacular dos historiais mas também uma das dividas mais assustadores. O duelo contra o modesto Belgrano é apenas o primeiro passo que o clube de Buenos Aires tem de dar rumo a melhores dias. A partir da próxima época a posição do clube na tabela classificativa geral baixa ainda mais. O River começaria o próximo ano já despromovido e teria de lutar contra o inevitável. O espectro da descida.
Para muitos a situação actual do River Plate é apenas o espelho da desorganização institucional em que vive o futebol argentino. Num complexo sistema criado para proteger os grandes, o futebol argentino mergulhou numa letargia tremenda que se transformou, de certa forma, num peso difícil de suportar. Os clubes grandes hoje em dia lutam para não perder a sua supremacia moral mas são muitas vezes os pequenos projectos que levam para casa os títulos e as participações nas provas continentais. A liga argentina tem vindo a perder peso na própria América do Sul e os dirigentes têm consciência dessa crua realidade. Reformular o campeonato num país que prima pela desorganização institucional é um desafio que Julio Grondona, actual presidente da AFA, não está disposto a realizar. A longo prazo essa decisão pode significar o estrangulamento de um dos campeonatos que ensinou ao mundo a jogar futebol.

