Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

Contam à boca pequena nos corredores da Football Federation que os míticos leões do símbolo que a Inglaterra ostenta há mais de um século no peito há muito que se podiam ter transformado em gatitos. O peso da FA nas últimas duas décadas decaiu profundamente mas, apesar de tudo, o organismo que gere o futebol inglês ainda é um adversário temível. Michel Platini, mais diplomático que o seu mentor Sepp Blatter, entende isso melhor do que ninguém. A atribuição da final da Champions League ao estádio do Wembley para 2013, apenas dois anos depois de receber o evento, é precisamente uma manobra diplomática extremamente hábil do francês. Com esse gesto magnânimo a UEFA procura apaziguar os leões e transformá-los, uma vez mais, em dóceis gatitos.

 

 

Quando Sepp Blatter tomou o controlo da FIFA em 1998, conseguiu-o convencendo a influente FA de que o seu mandato beneficiaria o futebol inglês. Fugindo à disciplina de voto da UEFA, a Football Association ajudou a eleger o suíço e depois sentou-se à espera da recompensa.

Como tantas vezes acontece, Blatter fez precisamente o oposto e transformou os ingleses num do seu alvo preferencial. A derrota esmagadora na dupla candidatura mundialista - em 2006 e 2018 - em que os ingleses saíram sempre na primeira ronda de votações, a que se seguiram as habituais acusações de suborno, apenas reforçaram o afastamento entre FIFA e FA. Nada novo. Afinal os ingleses foram a única federação que ousou declarar guerra à máxima organização mundial. Um braço de ferro de duas décadas que nunca foi totalmente resolvido. Os ingleses sempre desconfiaram das organizações continentais e estes sempre afirmaram publicamente que a FA procurava sempre seguir um caminho distinto às restantes federações europeias. Mas o peso da FA, especialmente no Internacional Board - que promulga as leis do jogo - sempre convidaram à cautela. Até chegar Blatter, o incauto por natureza.

Se a FIFA sempre teve problemas com a FA, a UEFA não foi menos. Depois do duplo desastre de Heysel e Hillsborough, o máximo organismo europeu utilizou a Inglaterra como bode expiatório e castigou os clubes ingleses com uma prolongada ausência das provas europeias. Os ingleses não se esqueceram. Anos depois, a FA ajudou os clubes a criarem a Premier League, contra os desígnios da Liga, apoiada directamente pela UEFA. Os clubes venceram, a Premier League nasceu e as regras do jogo mudaram. Ao ver o sucesso do modelo inglês os restantes países da Europa perceberam que aquele era o modelo a seguir e começaram a afastar-se paulatinamente das suas federações nacionais. A longo prazo a Premier foi um golpe duro para a UEFA e foi também a base de partida para a formação do G14 que desafiou mesmo o destino do futebol europeu num longo braço de ferro. Michel Platini, então conselheiro pessoal de Blatter, tomou nota. Uns anos depois, quando o suíço o apresentou como candidato à presidência da UEFA, o francês procurou o apoio dos ingleses. Conseguiu-o. Meses depois das eleições colocou em prática as lições do seu mentor e de forma mais diplomática começou a tratar o leão inglês como um gatinho.

 

No meio deste contexto de conflictos pode surpreender o anuncio de que a final da Champions League 2013 volta a ser disputada em Londres. No mítico Wembley. Mas essa decisão faz parte da estratégia politica do presidente da UEFA. Ao contrário de Blatter, um dirigente muito mais autoritário, Platini segue o ideário de Maquiavel, divide e conquistarás.

Platini anunciou que o evento será mais do que uma final da Champions League. A final fará parte de uma homenagem da UEFA à própria FA, que nesse ano cumpre os 150 anos de existência. Parte de uma série de eventos de aproximação entre ambas as instituições que inclui um congresso extraordinário da UEFA na capital inglesa. O sucesso da final da passada época foi o pretexto logístico para os meios e adeptos europeus que não entendem como a UEFA pode permitir-se este tipo de atitudes e nem sequer  proceder a uma votação entre diferentes candidatos. Afinal, não foi a UEFA que defendeu o aumento da categoria de elite para os principais estádios do velho continente, as celebres 4 estrelas? E não foi Michel Platini que defendeu que o futebol europeu tinha de ser levado a todos os cantos do continente? 

Tudo isso é verdade mas Platini joga sempre com uma mão no bolso e outra na mesa.

O presidente da UEFA sabe que precisa de encontrar um equilíbrio entre as grandes potências e os pequenos países. O homem que defendeu a introdução da lei 6+5 (que minará os mercados das principais ligas), um modelo de salário inspirado na NBA, o fair-play financeiro e a redução de equipas das três principais ligas nas provas europeias tem-se afirmado como um defensor do futebol para todas as associações. Como Blatter, com os membros africanos, caribenhos e asiáticos da FIFA, distribuiu benesses, ajudas e apoio indiscutível às federações que não fazem parte da elite do jogo. Apoio a realização do Europeu de 2012 na Ucrânia e Polónia (apesar do risco que envolvia o projecto, como o tempo tem vindo a demonstrar) e há muito que declarou que gostaria de ver um Europeu na Turquia. Também aproveitou para anunciar que a Supertaça europeia, até agora um exclusivo do principado do Mónaco, passará para Praga, no coração da Europa. Uma jogada de charme que garante, de antemão, votos suficientes para uma terceira reeleição, em 2014. Ou, como todos suspeitam, uma base de apoio forte para suceder ao seu mentor, Sepp Blatter, nas próximas eleições da FIFA. 

Só que para aplicar estas medidas impopulares junto das grandes ligas, Platini tem usado o jogo também como arma para as suas missões diplomáticas. O ano passado anunciou que a sua vontade era de que as finais da Champions League fossem exclusivas de estádios com mais de 70 mil lugares, enquanto que a Europe League poderia ser disputada em estádios entre os 50 e 60 mil lugares. Reforçando essa divisão, Platini entrega a gestão do principal evento desportivo às grandes potências - que são quem o sustenta financeiramente - e pisca o olho às grandes federações. Principalmente a FA. Nos últimos meses os homens da FA têm começado o seu próprio conflicto interno com a Premier League e as medidas da UEFA são bem vistas pelos leões de Wembley, para onde mudou a sua sede , para pressionar ainda mais os gestores dos principais clubes ingleses. Platini triunfa precisamente porque consegue, com estas simples medidas, dar à FA a sensação de grandeza que os directivos ingleses sempre gostaram de ostentar. Na realidade, na realpolitik do futebol, o que o francês consegue é desarmar a pressão britânica, desviando-a para confrontos internos e para a sua mediática luta contra a FIFA, enquanto continua a gerir o jogo do velho continente à sua maneira.

 

O fenómeno de Wembley será recorrente. A politica da UEFA, sob o mandato de Platini, garante que a Champions League é um feudo dos grandes e assim continuará. O que logrou com Londres repetirá, tarde ou cedo, com Madrid, Munique, Roma, Paris e Moscovo, que provavelmente serão anunciados como organizadores das finais dos anos seguintes. Com esse rebuçado, o francês aplaca as grandes potências continentais, afasta-os do ideário da Liga Europeia de Clubes e ganha margem de manobra para colocar em prática as suas medidas impopulares. Ao mesmo tempo continua a piscar o olho aos países mais pequenos e a cimentar a sua popularidade quando chegar a nova temporada de urnas. No meio deste jogo, como tem acontecido nas últimas duas décadas, a Football Association desembrulha um presente envenenado com a alegria de uma criança na véspera de Natal. O leão está apaziguado, a UEFA vence mais um round.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:46 | link do post | comentar

6 comentários:
De jaques a 18 de Junho de 2011 às 01:13
Uma bela análise aos jogos de poder nos bastidores da bola. Semre gostei do Platini e continuo convencido que, mesmo através da real politic (existe outra verdadeira politic?), luta pela pureza dos ideais do belo jogo. A pureza do jogo defende-se combatendo a corrupção moral a todos os níveis: a dos salários dos futebolistas, a dos défices colossais dos clubes, e a da estrangeirização/descaracterização quase absoluta das equipas. Os clubes franceses são o melhor exemplo de que a rendição à Lei Bosman não é uma inevitabilidade.


De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Junho de 2011 às 08:25
Jacques,

Obrigado pelas palavras. No que diz respeito à gestão de Platini, penso o exactamente o contrário. O francês sabe por experiência própria que para equilibrar a balança de poder entre a UEFA e o G14, ou a Associação de Clubes como hoje existe, precisa de uma muleta importante. E essa muleta chama-se leste da Europa. A concessão do Euro 2012, as novas quotas de qualificação para a CL e o fair play financeiro são, sobretudo, manobras políticas para manter contentes aqueles que, realmente, hoje elegem os principais cargos da UEFA ao mesmo tempo que espeta alguma que outra alfinetada nos rivais da organização.

Se é verdade que as diferenças financeiras do jogo estão a tomar direcções insustentáveis (que se podem apreciar pela progressiva perda de importância de equipas que pagaram pelo breve sucesso que tiveram) o que a UEFA pretende, no fundo, é recuperar o controlo absoluto do jogo que deteve até ao aparecimento da lei Bosman. Um controlo absoluto que tinha pouco que ver com a pureza do jogo e muito mais com os jogos de bastidores de uma organização que foi perdendo força nos últimos anos.

Quanto aos clubes franceses, um aparte. Os gauleses são talvez os que melhor entenderam o poder de utilizar o valor da dupla nacionalidade para contornar o aumento crescente de estrangeiros na sua competição. Um estudo do L´Equipe anunciava que havia cerca de 40% de jogadores com dupla nacionalidade franco-qualquer coisa (sobretudo africana e caribenha) a actuar na Ligue 1, a que se somavam os 30% de estrangeiros a 100%. Foi também contra isso que a FFF se rebelou quando se deu a polémica das declarações de Blanc porque muitos desses jogadores utilizam a dupla-nacionalidade para jogar como franceses na Ligue 1 mas depois decidem actuar pelas suas selecções nativas (ou nativas dos seus pais). O mesmo fenómeno existe na Alemanha e Holanda, com a forte presença das comunidades turcas e magrebis (no caso dos alemães também com polacos, espanhóis e americanos) e esses números acabam por distorcer a ideia. Se em Portugal se fizesse o mesmo com os brasileiros, por exemplo, a Liga Sagres também teria quotas de estrangeiros muito baixas e se calhar o senhor Platini já não se incomodava tanto!

um abraço


De jaques a 20 de Junho de 2011 às 21:08
Eu sei que antigamente, no tempo pré-Bosman, o jogo não estava isento de pecado, mas o meu problema é que as manchas são cada vez maiores.

As nacionalidades futebolísticas nem sempre coincidem com as políticas, e até nas selecções isso acontece, com vários países a competirem como se fossem independentes quando na verdade não o são.

Um dos erros mais comuns quando se discutem "Bosmanices" é confundir estrangeiro com filho de estrangeiro nascido na Europa. Os filhos de estrangeiros nascidos em França, Alemanha, Holanda, ou Portugal, têm todo o direito de escolher representar a selecção do país onde nasceram, e de sentirem essa nacionalidade com sua. O mesmo não se passa com os contentores de brasileiros e sul-americanos que sazonalmente invandem este rectângulo à beira-mar plantado. Uma coisa é um Benzema ou um Zidane; outra muito diferente é um Deco ou um Liedson.

Isto parece-me claro como água, embora haja quem prefira misturar tudo e fazer uma caldeirada argumentativa (não é obviamente o seu caso), a bem do aceleramento da desnacionalização futebolística.


De Miguel Lourenço Pereira a 21 de Junho de 2011 às 08:27
Jacques,

Há uma confusão directa entre o ideário da lei Bosman e o problema dos estrangeiros. O que Bosman queria, e que a lei realmente dicta, é que um jogador possa trabalhar sem depender exclusivamente do patronato tendo para isso direito a rescindir contrato e embarcar numa nova viagem profissional sem ficar preso ao seu anterior patrão. Essa conquista de Bosman chegou tarde porque é um direito que assiste a todo o trabalhador e o futebolista não é menos.

Mas o que realmente mudou com a lei Bosman foi a directriz da União Europeia que aproveitou a ocasião para desferir uma estocada letal na UEFA, com quem nunca se levou bem, reforçando a lei com o conceito de mobilidade dentro das fronteiras europeias. O conceito de 2 estrangeiros (mais tarde 3) foi inventado pela UEFA por pressão dos grandes clubes e essa quota acabou com a directriz da UE que ninguém se atreveu a contestar por muita nostalgia que haja.

No caso dos Benzema e companhia, ninguém duvida da sua real nacionalidade, nem faria sentido pensar de outra forma. O problema de alguns casos franceses, holandeses e italianos é que recorrem, não só a filhos de emigrantes nascidos em França, mas sim a filhos das suas colónias e protectorados (ou filhos de emigrantes a residir no estrangeiro à várias gerações) para vender a imagem de que estão a contratar jogadores nacionais. Nesse sentido um brasileiro com ascendência portuguesa valerá sempre tanto como um francês que chega da Martinica, um holandês do Suriname ou um Itália oriundi da Argentina. Por exemplo ninguém pensou na possibilidade de convencer Kevin Gameiro a jogar por Portugal quando ainda não era internacional francês?

A questão que rodeia a importação de contentores, que existe também noutros campeonatos importantes e Espanha é disso exemplo, é que significou o abandono das escolas de formação porque os gastos dos clubes não encontravam rentabilidade com os longos e custosos projectos de formação. O futebol é um desporto de imediatismo e o adepto que quer uma equipa formada em casa é o primeiro a exigir a cabeça de um técnico à segunda derrota. Nesse sentido os clubes portugueses preferiram divergir o dinheiro que gastavam em formar em compras com data de validade para resolver problemas do momento. E isso não tem nada a ver com a UEFA, lei Bosman ou UE, é pura responsabilidade social e financeira das instituições.


Um abraço


De jaques a 22 de Junho de 2011 às 12:30
Concordo com quase tudo. O Kevin Gameiro foi tentado a jogar por Portugal, mas recusou, tal como fez Robert Pires.
Os adeptos contemporâneos vivem naquele dilema típico do "vale tudo" para ganhar, até ter uma equipa de 11 estrangeiros , mas ao primeiro desaire sentem-se órfãos do "antigamente" e acusam os "mercenários".
Os adeptos têm culpa no cartórtio, mas a maldita UE tem ainda mais e, no caso de Portugal, a maldita Liga de Clubes tem ainda mais, porque liberalizou por completo a entrada de estrangeiros, o que não acontece em nenhum dos principais campeonatos europeus.

Um abraço.


De Miguel Lourenço Pereira a 22 de Junho de 2011 às 13:54
Jacques,

Tal como sucedeu com o Pires e o Moreiro, o convite ao Gameiro foi mal feito e demasiado tarde e não quando estava ainda nos escalões de formação, que é como as coisas se fazem nos países sérios. O problema começa na estrutura do futebol de selecções português e prossegue para a Liga e para os clubes como tal.

Talvez o modelo a seguir seja o italiano que só permite a inscrição de 1 jogador não-comunitário a actuar fora da Serie A por época. Isso obriga os clubes a apostar em jogadores locais ou comunitários, mas na realidade o que muitas vezes o que sucede é que os compram, emprestam a clubes italianos para que cumpram o ano e depois recuperam-nos imediatamente.

um abraço


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