Terça-feira, 14 de Junho de 2011

Trinidad está em festa. Mesmo que a família FIFA esteja mais entretida com as lutas de poder nos corredores de Zurique. Quando a bola comece a rolar pelo relvado - ou algo parecido - do estádio Malabar, o Mundial de 2014 arrancará oficialmente. O primeiro de 832 jogos antes da fase final, a disputar no Brasil. No entanto os fantasmas que rodeiam a organização do evento não permitem grandes festejos. Trinidad está em festa mas provavelmente eles serão os únicos com algo que celebrar.

 

Desta vez a figura omnipresente de Jack Warner, o homem mais corrupto do futebol caribenho e vice-presidente da FIFA suspenso de funções, não estará debaixo dos holofotes. Nem a do seu amigo, até à pouco, o presidente Sepp Blatter. Noutra ocasião os dois pesos pesados da organização que gere o futebol mundial estariam seguramente em Malabar para dar o pontapé de saída para o próximo Mundial. Não vai ser assim.

A FIFA quer esquecer, de momento, que a CONCACAF existe. A confederação de países que garantiu três eleições consecutivas para Blatter virou-lhe as costas e agora sofrerá as consequências, como sucedeu já com a UEFA no passado. O suiço não é homem de esquecer. A sua gestão - e a sua amizade com o presidente da CONCACAF e vice-presidente da FIFA, o tobaguenho Jack Warner - significou uma época de prosperidade para o futebol das Caraíbas. Mais dinheiro do que nunca, duas presenças num Mundial (Jamaica e Trinidad e Tobago), torneios juvenis e, sobretudo, um sério investimento nas infra-estruturas locais. Uma delas resultou no estádio Larry Gomes, construido de propósito para o polémico Mundial de sub-17, um torneio que funcionou como lavagem de dinheiro para a gestão de Jack Warner e que poucos paises participantes recordam com ilusão. O estádio recebe hoje um duelo sem qualquer importância no panorama internacional.

Montserrat, uma minuscula ilha caribenha que joga em "casa" por não ter ainda um estádio disponível no pequeno país com 40 kms de extensão que ainda pertence ao Reino Unido. E que é a 202º selecção do ranking FIFA. A antepenúltima. Dizemos que ainda não tem estádio , porque a FIFA já financiou a construção de um novo recinto, cujas obras estão por completar, cortesia do amigo Warner com ajuda do amigo Blatter, quando a amizade ainda fazia da CONCACAF um dos maiores recipientes do dinheiro gerado pela FIFA.  Belize, o país da América Central que surge como visitante, está um pouco melhor. É a selecção número 172. O jogo, aparentemente insignificante, reveste-se de importância porque significa que o Mundial de 2014 arrancará oficialmente. Claro que para o grande público o torneio em si só terá lugar em Junho de 2014. Mas até lá o mundo do futebol irá lutar até às últimas consequências para conseguir um bilhete milionário para o torneio. Há 32 vagas e 198 selecções que ambicionam participar (as selecções do Butão, Mauritânia, Guam e Brunei preferiram não inscrever-se). Claro que nenhuma delas estará amanhã em Trinidad.

O jogo significa que arranque a pré-eliminatória da fase de qualificação da CONCACAF, a confederação com a série de apuramento mais larga. Da qual resultarão apenas três participantes. O jogo de amanhã abre a série de pré-qualificação que seguirá durante os próximos dois meses entre as selecções que falharam o apuramento para a Golden Cup. A partir de 30 de Julho começa a segunda etapa da qualificação, já aberta a todas as confederações. CONCACAF, CAF e AFC contam com várias fases prévias até chegar à definitiva fase de grupos, a disputar entre o final de 2012 e todo o ano de 2013. A partir de Setembro de 2012 começam igualmente a jogar as selecções da UEFA, CONEMBOL e OFC. Só em Dezembro de 2013 serão conhecidos os 32 finalistas, 832 jogos depois.

 

Mas o ambiente não está para festas.

A FIFA nunca viveu dias tão negros e a percepção geral é que o organismo vive a maior crise de credibilidade da sua história. Desde a eleição de Sepp Blatter que os problemas se têm multiplicado. A compra de votos nas eleições presidenciais e votações para organizar o Campeonato do Mundo foram os temas mais debatidos nos Media. Mas havia muitos esqueletos guardados no armário do suiço que nos últimos anos têm visto a luz do dia. O escândalo financeiro da ISL, os contratos com as empresas Visa e Mastercard, a venda de bilhetes do organismo no mercado negro e os contratos televisivos foram, a pouco e pouco, deixando a nu todas as manobras que se cozem em Zurique à medida que as equipas vão disputando as eliminatórias de acesso ao torneio de maior apelo popular do mundo.

E no entanto os problemas de Blatter não se limitam à sua gestão presidencial. O seu "Mundial" no Brasil, uma aposta tão pessoal como a entrada no mercado asiático em 2002 ou a recompensa à fidelidade africana em 2010, está a dar-lhe mais dores de cabeça do que imaginava. A três anos de arrancar o torneio, Ricardo Teixeira, enteado de João Havelange, vice-presidente FIFA e eterno dono da CBF, continua sem ter uma estrutura organizativa hábil capaz de manejar os muitos problemas que lhe vão aparecendo. O mais grave de todos é a possível exclusão de São Paulo do torneio. A maior cidade da América Latina, sede de alguns dos clubes mais exitosos do Mundo, recusa-se a endividar-se para beneficio exclusivo da FIFA e o estado de deteriori em que sobrevivem alguns dos seus estádios mais emblemáticos pode significar que os paulistas terão de ver o seu Mundial através da rede Globo. Um problema de sensibilidade politica, de profundo endividamento autárquico e das guerras internas entre cariocas e paulistas dentro da própria CBF tem deixado o problema aumentar como uma bola de neve. Em vez de contribuir para o apaziguamento, tanto a FIFA como Ricardo Teixeira têm devotado os últimos meses a criticar a federação paulista e a sua eterna indecisão de avançar, ou não, para a construção de um novo estádio no estado. 

O problema de São Paulo é o mais mediático mas em nenhum outro estádio brasileiro as obras seguem de acordo com o previsto. E muitos têm encontrado sérios problemas de financiamento. E o pior nem está na construção dos recintos. Quinto maior país do mundo em extensão, o Mundial do Brasil depende fortemente da facilidade de deslocação de equipas, adeptos, imprensa, patrocinadores e directivos. E aí o drama é ainda mais significativo. A organização do certame já assumiu, de cabeça baixa, que a maior parte dos aeroportos não estarão preparados a tempo do torneio. E os que estejam funcionarão a meio gás. A revista Veja publicou no passado mês uma reportagem especial em que denuncia que só 7,5% das obras nas infra-estruturas estão completas e que a este ritmo o Brasil estará pronto para receber o Mundial...em 2038.

Entretanto o dinheiro investido pela FIFA e pelo governo de Dilma Roussef, que está pessoalmente empenhada em mudar o curso dos eventos, na organização começa a desaparecer e muitos olham já com severa suspeita para o próprio Ricardo Teixeira, homem já levado aos bancos dos tribunais várias vezes por desfalque financeiro com fundos do organismo que gere o futebol mundial. O Brasil há muito que solicitava o Mundial e Havelange e Teixeira forçaram Blatter a optar pelo país e assim romper com a habitual rotação de sedes entre a Europa e o resto do Mundo. Mas as suspeitas de que o país se iria transformar num possível pantanal para os interesses da organização (já para não falar do futebol em geral) começam a ganhar contornos de crua realidade. Não só o Brasil está muito atrasado para organizar um Mundial de alto nível como há uma série probabilidade de que não o consiga fazer dentro do prazo. O Mundial não estará em causa, mas a sua qualidade e o nome da FIFA sim.

Em Trinidad poucos se importarão com todos estes problemas, para eles o jogo de hoje é uma pequena festa que anuncia o Verão. O Belize é favorito, afinal o ranking da FIFA impõe uma significativa diferença de mais de 30 posições entre os centro-americanos e os homens de Montserrat, todos atletas amadores locais. Mas amanhã ninguém no mundo se importará com o resultado final ou sequer com o destino de ambos os países nesta corrida de loucos aos milhões e à glória que um Mundial oferece. A crueza do mundo do futebol é apenas um espelho da sociedade e enquanto Ricardo Teixeira e Sepp Blatter trocam emails preocupados, alguém em Trinidad estará feliz. Afinal, é através deles que o futebol, na sua vertente mais pura, sobrevive.


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publicado por Miguel Lourenço Pereira às 14:00 | link do post

De Pudget a 15 de Junho de 2011 às 10:33
Optimo post, fiquei colado ate ao ultimo paragrafo. Realmente quando o dinheiro vem ao de cima o pior da raca humana tambem flutua, mas eu creio que depois de crises como esta que a FIFA esta a viver e que culminara com um dos piores mundiais que a historia recente conhece (o do Brasil!!!, isso se chegar a acontecer no Brasil), tanto o pais como a propria FIFA terao de assumir e estudar a vergonha dos seus parcos creditos e a imundice de certas afiliacoes.

Nao desejo mal a ninguem, mas esta era uma oportunidade de outo do Brasil mostrar uma cara nova. Infelizmente esta a dar ao mundo mais do que ja conheciamos, uma tendencia quase genetica dos politicos para corromper. Obviamente quem paga e o povo que deseja apenas aquilo que o futebol tem para dar de melhor, esse espectaculo cheio de magia; mas Blatter, Teixeira e outros que tais nao tem caracter nem perfil para representarem um dos poderes mais fortes (e por isso se deseja mais limpo) no mundo, como e o caso da FIFA.


De Miguel Lourenço Pereira a 15 de Junho de 2011 às 15:10
Pudget,

Obrigado ;-)

Neste caso são os próprios brasileiros - vale a pena ler o que escreve o veterano jornalista Juca Kfouri sobre este assunto - que começaram as denuncias contra a organização do Mundial. Uma realidade que salpica também os Jogos Olimpicos de 2016 no Rio de Janeiro.

Nao tenho duvidas que o Mundial será no Brasil, mas é fácil de perceber que o governo brasileiro investirá muito mais dinheiro do que o previsto e que depois estará décadas a pagar a factura. Já sucedeu o mesmo com a África do Sul. Hoje há estádios que nem luz corrente têm enquanto que a FIFA, graça aos seus contractos esclavagistas, sumou os maiores lucros da história. Enquanto o Mundial for organizado de forma dictatorial pelo gabinete de Blatter e das grandes multinacionais que o apoiam, a situação vai-se repetir. Ou alguém imagina que na Russia e Qatar a situação vai ser diferente?

um abraço


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