Foi o triunfo do futebol planeado, do toque e da sabedoria sobre um exército desordenado e que (sobre) viveu durante 90 minutos graças ao partido notável de Cristiano Ronaldo. A maldição confirmou-se e os ingleses do Manchester United não revalidaram o triunfo de Moscovo. Mais, foram totalmente ultrapassados por um Barça ousado e eficaz que sobreviveu a um quarto de hora complicado para depois tomar posse da arena de Roma e fazer sua a festa. Os dois titãs do futebol europeu do presente igualam-se em Champions League (três cada uma) longe dos rivais nacionais (Real Madrid conta com 9 e Liverpool com 5) e apresentaram em Roma uma versão soft daquilo que fizeram ao longo do ano. Mas em campo havia uma equipa que sabia bem a sua lição e outra que parecia ter estudado de véspera.

O Manchester United - até hoje a equipa mais organizado e eficaz do panorama europeu - foi um fantasma de si próprio durante quase todo o encontro. Sir Alex Ferguson, ao contrário do ano passado, começou a perder o jogo ao escolher um onze inicial desiquilibrado. Diante do melhor meio campo do Mundo apostou em colocar Giggs (genial extremo mas em final de carreira e sem o espirito de um criativo) e Anderson ao lado de Carrick. O coreano Park no lado direito e Rooney no lado esquerdo apoiavam o falso 9 que falava português com sotaque da Madeira. Erro fatal. Carrick foi uma sombra, Anderson acusou a pressão e Giggs, Rooney e Park nunca se viram, a não ser a perder bolas disparatadas. A própria defesa britânica era uma sombra de si própria com Vidic a fazer o encontro mais desastrado do ano e sem acutilância nas alas, onde O´Shea pouco se aventurava e Evra quando o fazia, fazia-o mal.
Diante deste dispositivo o novato técnico catalão mostrou que a sabedoria não vem exclusivamente com a idade. Sabia de cor o Man Utd e tinha a forma ideal para anular o estilo de jogo ingles. As baixas na defesa foram compensadas com cautela. No lugar do motor Dani Alves um voluntarioso Puyol, excelente nas iniciativas ofensivas e muito correcto a defender. No lado esquerdo Sylvinho fez um óptimo desafio, mas fica mais uma vez a sensação de que Ferguson perdeu ao não colocar Cristiano Ronaldo em cima de um lateral sem qualquer ritmo competitivo e de nivel médio. Guardiola agradeceu até porque sabia que Pique tem estofo para liderar a defesa azulgrana como o voltou a provar, surpreendendo a facilidade com que o campeão inglês o deixou partir de Old Trafford. O meio campo catalão foi igual a si próprio com o jovem Busquets a mostrar mais profissionalismo e maturidade que os consagrados Carrick e Anderson, enquanto que Xavi voltou a ser o melhor em campo pautando sempre o ritmo da final. Iniesta, cada vez mais decisivo neste Barcelona e Henry flutuavam pelos flancos. Etoo descaía habilmente para o lado de Evra confundindo a dupla de centrais do Manchester e por aí vagabundeava Messi. O argentino apontou o segundo golo mas foi uma sombra do que já o vimos fazer. A imagem da celebração do tento da consagração vale um Ballon D´Or, mas mais uma vez ficou demonstrado que o médio argentino está ainda uns furos abaixo de Ronaldo, Xavi ou até mesmo Gerrard, autor de um ano fenomenal em Liverpool.

O Man Utd entrou a matar e Cristiano Ronaldo podia ter resolvido cedo a final. A sorte de Moscovo não o acompanhou e minutos depois dos seus dois remates as redes de Valdes, o camaronês Etoo benificiava do primeiro de muitos erros de Vidic, Ferdinand e Carrick e abria a contagem. A partir daí o jogo nunca mais foi o mesmo. O Barcelona estava cómodo, o Man Utd escondeu-se atrás do seu craque e nunca mais apareceu. Durante setenta minutos o número 7 tentou de todas as formas remar contra a maré mas esteve sempre só, inevitavelmente só. Já o Barcelona funcionou sempre como uma equipa, solidário, rápido nas transições e capaz de controlar o ritmo de jogo. Daí resultaram vários lances de perigo para van der Saar e apesar do segundo tempo ter começado mais equilibrado, rapidamente os catalães voltaram a impor o seu dominio. Após um passe genial de Xavi, o argentino Messi rematou de cabeça para o 2-0. A final terminava aí, por muito que Cristiano tivesse tentado mais do que uma vez reduzir a contagem no marcador. Ferguson errou no banco como tinha errado no alinhamento inicial e lançou os homens certos nos momentos e para as posições erradas. Nunca se viu o técnico capaz de recuperar o controlo do encontro e fica mais uma vez provada a máxima de que é um brilhante pastor de homens, mas um técnico altamente limitado durante os 90 minutos.
O Man Utd de Roma foi mais a equipa que defrontou, por exemplo, o FC Porto em Old Trafford, do que o campeão europeu reinante. Já o Barça, apesar de longe do futebol espectáculo que exibiu ao longo do ano na Champions e na Liga Espanhola, foi fiel a si próprio. Ultrapassou o nervosismo inicial e seguiu as indicações do maestro Guardiola. O prémio final é inevitável. O Barça é um justo campeão europeu e a juventude do plantel e, principalmente, do técnico, abre a hipótese de se abrir uma nova era no futebol europeu. Mas para o ano tudo começa de novo. A arena é nova, os gladiadores mudarão de equipa e a bola voltará ao circulo central. Mas antes Canaletas está em festa. Afinal estes guerreiros chegaram, viram e venceram tudo. E ficam para a história! Assim é o futebol...


