Três anos depois o projecto de Rudi Garcia recebeu a merecida recompensa. Uma equipa montada com alguns tostões, muita imaginação e talento que soube romper com a hegemonia do poder financeiro que na última década tem dominado a Ligue 1. Desde o triunfo do Nantes, em 2001, que nenhum outsider vencia o titulo francês. O génio de Hazard, os golos de Sow, a eficácia de Cabaye, a velocidade de Gervinho e a liderança de Garcia desfizeram o tabu. O futebol francês agradece...
Desde 1998 que o titulo de campeão de França não morava no norte do país.
Então foi o RCD Lens, este ano despromovido, a celebrar o triunfo graças ao trabalho miraculoso do "druida", Daniel Leclercq e o talento do luso francês Daniel Moreira. Treze anos depois, na vizinha Lille, o mesmo modelo voltou a funcionar para quebrar a hegemonia do Midi de Marseille, Bordeaux, Lyon e Monaco. A vitória do Lille foi de tal forma indiscutível que apenas pecou por tardia. Graças à pressão do Olympique Marseille de Didier Deschamps que apurou até ao final da prova as suas opções de revalidar o titulo. O conjunto marselhês icou-se pelas intenções, muito por culpa do Olympique Lyon - outra época decepcionante do melhor plantel do campeonato - e viu como a equipa de Garcia fazia a festa logrando, igualmente, a sua primeira dobradinha.
Liderados pelo genial belga Eden Hazard, chamado a ser um dos mais influentes jogadores europeus da próxima década, o atractivo e incisivo jogo dos lillois pautou o ritmo do torneio. Os nortenhos chegaram cedo à liderança e nunca mais a largaram. Moussa Sow desequilibrava com golos, Gervinho com assistências e Yohan Cabaye, uma das confirmações da prova, marcava as coordenadas do ataque. Um quarteto de luxo que funcionou como um relógio e nunca baixou o ritmo. Rapidamente afastados das provas europeias - onde, como o PSG, investiram pouco - os homens de Garcia cedo anunciaram que o seu objectivo era superar a barreira de 2010. As importantes vitórias frente aos rivais mais directos, Marseille e Lyon, abriram caminho a um titulo histórico, o primeiro desde os longínquos anos 50, quando o conjunto de Lille disputava a supremacia do futebol gaulês com o Stade de Reims.
Época notável logrou igualmente o Olympique Marseille.
O plantel de Didier Deschamps não tinha amplitude de armário suficiente para manter-se no topo a todos os niveis e a séria aposta na Champions League quase deu os seus frutos, até à eliminatória extremamente equilibrada com o Manchester United que marcou o afastamento dos gauleses. Quando quiseram reenfocar atenções na Ligue 1, o atraso para o lider já era significativo. Mesmo assim a equipa liderada, como sempre, pelo argentino Lucho Gonzalez, soube lutar até ao fim e superou, pelo segundo ano consecutivo, os milhões do Lyon. Os "Gonnes" continuam sem saber como recuperar um trofeu ganho por sete vezes consecutivas e perdido desde há três épocas. Nem a compra de Yohan Gourcouff trouxe esse plus de qualidade que tanta falta faz em Gerland. Os lioneses garantiram na última jornada o último lugar do pódio e subsequente acesso à Champions League, na fase de pré-eliminatória, mas deixaram um mau sabor de boca aos seus adeptos que este ano nem tiveram a Europa como distração.
Mérito também para o PSG que começa a consolidar-se, definitivamente, nos lugares altos da tabela, depois de uns anos erráticos, e sobretudo o Sochaux. A equipa de Marvin Martin, a revelação da prova, fez uma época absolutamente estupenda, totalmente por cima das modestas expectativas criadas e superou concorrência de respeito como Bordeaux (à deriva desde a saída de Blanc), Toulouse, Saint-Ettiene, Lorient e Montpellier. No reverso da medalha, à despromoção anunciada do Arles-Avignon juntou-se o drama de dois campeões recentes, Lens e Monaco, que caem no poço da Ligue 1. O caso dos monegascos é ainda mais gritante se olhamos para um plantel que reúne algumas das maiores esperanças do futebol francófono. O preço da péssima gestão desportiva pós-Deschamps chegou finalmente ao principado.
O triunfo do Lille ajuda a relançar a ideia do equilíbrio absoluto porque se rege a Ligue 1 depois da ditadura do Lyon. Em três épocas, três campeões, três sensações, três modelos de jogo e três figuras totalmente diferentes. Mérito para Rudi Garcia, que confirmou todas as expectativas há muito depositadas e, sobretudo, mérito para um projecto desportivo cauteloso, coerente e que sem entrar em loucuras soube dar ao seu treinador as armas necessárias para atacar o titulo. Se é expectável que Hazard, Sow, Cabaye e Gervinho possam nem sequer estrear o novo estádio, baptizado sugerentemente como De la Borne d´Espoir, a verdade é que as bases do sucesso estão lançadas e o conjunto do norte tem hoje todas as condições para manter-se no topo nas próximas temporadas.

