Guardiola recuperou alguns dos principais conceitos do Dream Team, confirmou o reposicionamento de Messi no terreno de jogo e aplicou uma fórmula que relembra quase os primórdios do WM de Herbert Chapman. O Barcelona 3.0 do técnico catalão é uma equipa mais refinada, mais cínica e mais autoritária com a bola mas tem também pontos débeis que os homens de Old Trafford poderão explorar.
Desta vez Guardiola chega a Londres com toda a armada disponível salvo o suspenso Pinto.
Sergio Busquets, que esteve em risco de falhar o jogo do ano por chamar "macaco" a Marcelo, finalmente estará no onze e será pedra basilar na estrutura deste Pep Team que procura recuperar o trono perdido às mãos do Inter na temporada passada. Guardiola mudou a sua equipa de forma subtil mas evidente desde essa semi-final. Abdicou, definitivamente, de jogar com uma referência ofensiva - uma das máximas de Cruyff que contou com van Basten no Ajax e Salinas e Romário em Barcelona - para dar total liberdade de movimentos a Messi, precisamente o que Michels e Kovacks fizeram com o 14 holandês na sua etapa de jogador. Dessa forma Guardiola encontrou a fórmula para destabilizar uma defesa rival sem uma referência a que marcar (como eram Etoo e Ibrahimovic) e favoreceu ainda mais o jogo de carrossel de trocas de bola entre o miolo e ataque blaugrana.
O reposicionamento de Messi é a chave na estrutura deste Barça. Tem os seus aspectos positivos evidentes mas também impede o Barça de uma maior e constante presença na área rival. Guardiola emenda essa circunstância mantendo-se fiel à sua filosofia de posse de bola. O Barcelona é uma equipa que joga longe da grande área com a bola nos pés para depois procurar, em velocidade, rasgar as linhas diagonais defensivas e finalizar já dentro do pequeno rectângulo. Quase nenhum golo do Barça surge de fora da área e no entanto quase nenhuma da posse de bola é mantida dentro da grande área. Esse vai e vem é possível pelo reajuste da filosofia cruyffiana que remonta ao ideário do WM de Herbert Chapman de há 80 anos.
Com a bola nos pés o Barcelona funciona como um acordeão e transforma o seu 4-3-3 base num 3-4-1-2 engenhoso. Villa e Pedro, como os antigos extremos, abrem o campo ao máximo e forçam assim as defesas a deixar espaços no coração da área sob pena de serem apanhados em contra-pé. No lado oposto, Puyol e Abidal (se se confirmar a presença do lateral francês, uma grande noticia para o futebol) são pedras inamovíveis e cabe a Pique e Alves deambular entre defesa e meio-campo. Quando um sob, o outro fica atrás a cobrir transformando a defesa de quatro em três. Pique com a bola, Alves com a velocidade incorporam-se a um miolo de quatro por onde anda o olhar cirúrgico de Busquets, a precisão de passe de Xavi e a velocidade mental de Iniesta. No meio de tudo, Messi, erguido em avalanche ofensiva por excelência, coordena o ritmo de jogo.
A táctica espremida por Guardiola garante uma constante manutenção de posse de bola entre as linhas dos adversários.
Força o ataque rival a recuar para ajudar o miolo e começa a defender ainda na linha de meio campo. Puxa a defesa rival metros acima e abre clareiras bem aproveitadas pela velocidade mental de Xavi e Iniesta e o sentido de oportunidade do trio da frente. E isso permite cansar o rival com a bola em lugar de desgastar-se fisicamente com transições constantes e, ás vezes, ineficazes. O ratio de aproveitamento do Barcelona é altíssimo porque a equipa só solta a bola para o último passe quando acredita que vai gerar o ambicionado golo. Se para isso tem de dar 500 passes consecutivos fá-lo com uma precisão e um cinismo letais.
No entanto esse posicionamento no terreno, perfeito com a bola, pode ser contrariado no momento em que o rival recupera o esférico. Para tal é fundamental que o rival se saiba igualmente posicionar sem cair na armadilha preparada por Guardiola que deixa milhas e milhas entre a bola e Valdés. Se a bola é recuperada dentro do meio-campo blaugrana o número de efectivos que fica para trás é reduzido e ultrapassável. Se a bola, no entanto, for recuperada no meio campo defensivo, então o mais provável é que o Man Utd se encontra com uma floresta de pernas dispostas fechar fileiras bem acima da linha defensiva. O Shaktar Donetsk teve várias oportunidades para colocar esta teoria em prática mas o reposicionamento defensivo dos blaugrana, a frieza de Valdés - imenso este ano - e o desacerto da troupe de brasileiros dos ucranianos mantiveram o marcador em números bastante mais lisonjeiros do que seria de esperar.
Por outro lado, um dos handicaps deste Barça, continua a ser o seu posicionamento defensivo nos lances de bola parada. Inevitável face ao tamanho da esmagadora maioria dos seus jogadores e que pode ser aproveitado em lances estudados que funcionam, sempre e quando o imenso Pique não esteja pelo caminho. Foi assim que o Arsenal marcou o seu único golo em Camp Nou (um auto-golo de Busquets) e foi assim que o Real Madrid criou a maioria dos lances de perigo nos duelos a eliminar. Em ambos os casos a chave do Barça será sempre Victor Valdés, que está a actuar ao seu mais alto nível e é um verdadeiro seguro de vida para os homens de Guardiola, uma equipa com vocação ofensiva que tem no guarda-redes o seu primeiro homem de campo.
Por fim, Messi. O astro argentino vem de mais uma época superlativa para marcar diferenças. Não é só o melhor marcador da equipa como é também, devido ao seu reposicionamento, o melhor dos assistentes, por cima inclusive de Xavi Hernandez. O número 10 vem buscar jogo muitas vezes aos pés de Busquets e com o seu ritmo maradoniano galga a defesa rival à procura de um espaço, de um colega, de um momento. Permitir que Messi deambule à vontade tem o seu preço e o Real Madrid sabe-o bem. Marcá-lo implacavelmente, como fez Pepe durante 220 minutos deixa a nu a "messidependência" de uma equipa tremenda que perde poder de fogo quando o seu génio está atado a uma teia invisível. Ferguson não é homem de marcar o rival de forma tão implacável, mas é nos espaços que possa vir a ter o argentino que se decidirá uma contenda histórica.

