Quarta-feira, 25 de Maio de 2011

Reedição da final de Roma em 2009 mas numa conjuntura distinta. A noite que transformou a vida do Barcelona de Guardiola significou também uma profunda mudança de ciclo em Old Trafford. Duas temporadas depois os dois clubes mais importantes do futebol europeu da última década reencontram-se para esgrimir argumentos. O Barça agora é favorito, o Man Utd agora é mais equipa, o duelo promete ser apaixonante.

 

Em Roma o Manchester United chegava como campeão em titulo e máximo favorito. Perdeu.

Confirmou-se a maldição do AC Milan de Sacchi, último conjunto a reter o máximo troféu europeu, mas sobretudo confirmou-se a magia de uma equipa orquestrada magistralmente pelo estreante Pep Guardiola. Num jogo em que os blaugrana dominaram de forma impressionante, o Barcelona sacou o seu melhor rosto, aquele que iria fazer história nas duas épocas seguintes em Espanha e que acabaria por maravilhar o mundo. Etoo, já proscrito, e Messi, já erigido em figura divina, fizeram os golos face a um Man Utd pálido, inexpressivo e demasiado pendente do jogo de Cristiano Ronaldo, o único que tentou remar contra a maré. Foi o fim de um ciclo histórico em Old Trafford e o inicio de outro, glorioso, em Camp Nou. O Barcelona não revalidou o trofeu mas começou a impor a sua lei na liga espanhola e, sobretudo, a definir o estilo que hoje mais admiradores tem entre os adeptos futebolisticos por esse mundo fora. Um estilo de jogo rendilhado, inspirado na posse de bola, e com um pressing defensivo asfixiante. Foi a final de Puyol e Pique - com Touré de central pela ausência de Alves - a final de Busquets, um pilar no miolo, mas também a das combinações sem fim entre Iniesta e Xavi. No ataque Messi ainda era extremo, Henry ainda por lá andava e Etoo abriu o caminho da glória, uma vez mais. É aí, no sector ofensivo, que o Barcelona mais se diferencia neste segundo round, agora em Londres.

A velocidade de Pedro e Villa, jogadores que irão colocar à prova os rins de Evra e (previsivelmente) O´Shea, será chave na estratégia de Guardiola que recriou com Messi o posicionamento pretérito de Maradona, Cruyff, Charlton e Hidgekuti, como falso dianteiro, um dandy no miolo que terá em Fletcher a sua sombra. Este Barcelona não tem o mesmo efeito surpresa daquela magnifica equipa mas não deixa de ser, justamente, considerado o favorito. Um peso que o Manchester não terá de carregar.

 

Ferguson quer ser o primeiro técnico a vencer três Champions League e terá poucas oportunidades de lograr o feito.

Ele sabe-o e quando saiu derrotado à dois anos começou a trabalhar nesse sentido. Sem Ronaldo e Tevez, apostou no espirito guerreiro dos seus jogadores de classe média. Elevou Park Ji-Sung, recrutou Valencia, deu minutos a Berbatov, impediu Giggs e Scholes de dizerem adeus e confiou na capacidade de liderança de Rooney. Montou uma equipa que se assemelha, e muito, à filosofia do seu primeiro conjunto ganhador, no inicio dos anos 90. Tem várias opções para apresentar uma cara mais ofensiva (com Nani, Valencia, Chicharito, Rooney, Berbatov....) ou mais especulativa (reforçando o miolo com Anderson, Carrick, Fletcher, Scholes ou Park). Poucas equipas podem presumir de ter um fundo de armário tão impactante e que permitem mudar, de um momento para o outro, a postura no terreno de jogo.

O jogo contra o Arsenal nos quartos de final da FA Cup e a eliminatória frente ao Chelsea são, quiça, o melhor espelho do que esperar. Uma equipa segura atrás, com critério a sair a jogar e acutilante à frente. A defesa é o maior quebra-cabeças do técnico escocês que tem em Ferdinand e O´Shea duas dúvidas sérias que preencher (e Rafael ou Evans como opções) para acompanhar Evra, Vidic e um van der Saar que se despede com o ensejo de ganhar a sua terceira "orelhona". Daí para a frente a especulação.

Contra um meio-campo de três que, realmente, é de cinco, com as subidas de Alves e Pique, primordiais na saída de jogo do Barça, talvez se espere o musculo de Fletcher, o posicionamento de Carrick e o espirito de luta de Park. Com Rooney, Valencia e Berbatov no ataque. O técnico já provou com Giggs no miolo, há dois anos, e não lhe funcionou. O ritmo da troca de bola do Barcelona não convida a veteranos e Scholes também deverá ver o jogo no banco. Mas são armas, como Chicharito. O jovem mexicano é o mais entusiasmante das individualidades do Man Utd mas tanto ele como Nani terão de esperar pela sua hora. Ferguson é, sobretudo, um pragmático. 

 

Se o Barcelona conquistou o seu primeiro titulo no velho Wembley poucos se lembram de que a primeira Taça dos Campeões ganha pelos Red Devils também foi conquistada no tapete verde londrino num duelo histórico contra o Benfica de Eusébio. Ambos os clubes contam com três trofeus e, de certa forma, representam o futebol contemporâneo. O Manchester oficializou, esta época, a ultrapassagem ao Liverpool enquanto que o Barcelona moderno de Guardiola parece ter remitido os êxitos do Madrid a um passado longinquo. São portanto dois clubes dominantes, dois planteis de primeiro nivel e dois técnicos bem diferentes mas com trajectórias impecáveis, os que se medirão no próximo sábado. Ganhe quem ganhe, o beautiful game já sair a lucrar com este duelo de gigantes que definem o futebol moderno. 



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:01 | link do post | comentar

4 comentários:
De DC a 25 de Maio de 2011 às 09:11
São os 2 melhores clubes da actualidade, será sem dúvida uma final fantástica onde mesmo que as equipas apresentem um grande respeito mútuo se prevê futebol bonito e ofensivo.

Discordo apenas um pouco quando refere a capacidade de liderança do Rooney. A mim parece-me que face às birras que fez no início de época a influência dele no balneário é bastante inferior à de Giggs, Scholes, Ferdinand e até Vidic e Van der Sar.


De Miguel Lourenço Pereira a 25 de Maio de 2011 às 10:32
DC,

São, sem dúvida alguma, os dois projectos desportivos mais admiráveis das ultimas duas décadas, os mais consistentes e conscientes com a sua herança. O Barcelona pode ter um jogo mais vistoso mas a eficácia e as sete vidas do Man Utd com Ferguson (quando, lembramos, tem uma divida tremenda por culpa do empréstimo realizado pelos Glazers para a compra do clube) é igualmente admirável.

Quanto ao Rooney, discordo. É uma anti-estrela, fez a sua birra e conseguiu o que queria e naturalmente não tem o peso dos veteranos no balneário (e fazem bem em relembrar o Vidic). Mas dentro do terreno de jogo é um motivador daqueles que o rodeiam e com Nani, Chicharito, Fletcher e Giggs entende-se às mil maravilhas e exerce de general de forma bem mais diplomática e humana do que fazia Cristiano Ronaldo, mais impositivo da sua figura.

um abraço


De filomeno a 25 de Maio de 2011 às 20:48
Los dos finalistas, ciertamente antipáticos. Un poco menos antipático el equipo de la Poderosa Albion, por eso de contar con dos jugadores lusos.......
Saludos.


De Miguel Lourenço Pereira a 26 de Maio de 2011 às 08:12
Filomeno,

Son, de facto, dos equipos que nunca han caido bien, para decirlo de manera suave, entre los adeptos españoles ;-)

un abrazo


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