O AC Milan quebrou a hegemonia do Inter de Milão num duelo fratricida que interessou menos que a curiosa rebelião das equipas de classe média. A queda da Sampdoria na Serie B deixou também um sério aviso à navegação e o drama esfingico pelo que passa a Juventus deixa ainda mais tranquilo o duo milanês que se prepara para repetir o duelo na próxima temporada.
Napoli. Udinese. Palermo. Parma. Lazio.
Num ano dominado pelas equipas de Milão o destaque acaba por ir para cinco clubes que não venceram nada mas trouxeram uma verdadeira emotividade a um torneio adormecido nos berços de ouro da capital lombarda. Porque o Internazionale, cinco anos depois, voltou a perder uma liga mas, mesmo assim, conseguiu terminar em segundo lugar e marcar presença na final da Taça. Porque uma equipa exprimida ao máximo por José Mourinho sobreviveu à debacle de Rafa Benitez para reeguer-se, com Leonardo, e ir a tempo de desafiar o lider da prova. Lider, esse, que venceu um titulo mais complicado do que aparentou a tabela classificativa. E no entanto, desde cedo muitos entendiam que era uma questão de tempo até o AC Milan de Allegri confirmasse matematicamente um titulo feito à sua medida. Sem espectacularidade, sem destreza e sem classe, o Milan passeou pela liga e resistiu ao acosso do modesto Napoli e do ferido Inter para garantir o enésimo troféu da era Berlusconi.
Allegri, na sua primeira época, não resistiu ao apelo mediático do seu presidente e durante a primeira parte da época andou perdido num onze com mais estrelas e menos jogo do previsto. A saída de Ronaldinho e as chegadas de van Bommell e Cassano deram mais organização aos rossoneri. Boateng tornou-se na peça chave do jogo ofensivo de uma equipa que, muitas vezes, alinhou com Robinho e Pato no banco, sem espaço para a improvisação e com um ritmo quase cirúrgico de eficácia. Com uma defesa coordenada pelo brasileiro Thiago Silva e um meio campo capaz de sobreviver ao ocaso de Pirlo e Gattuso, o Milan revelou-se um justo campeão mas não deixou, em nenhum momento, sensação de dominio incontestado como seria de esperar de um plante fortissimo e um técnico emergente.
Talvez por esse mau sabor de boca deixado pelos novos donos do scudetto, é necessário relembrar que a Serie A foi muito mais que os gigantes de Milão.
Foi a liga do Napoli de Walter Mazzari, uma equipa sem vedetas que esteve perto de emular o feito histórico de Maradona graças aos golos de Lavezzi, Cavani e Hamsik e uma organização defensiva superlativa. Os napolitanos não aguentaram o sprint final mas marcaram presença na Champions League do próximo ano de forma totalmente meritória. Também na prova rainha da UEFA pode estar a Udinese de Guidolin, uma equipa de tracção à frente, acutilante e com um génio chamado Alexis Sanchez a pautar o ritmo de jogo de forma contagigante. A Udinese terá de inspirar-se no modelo auto-destructivo da Sampdoria (que conseguiu esse 4º posto para depois perder tudo, inclusive a categoria) e preparar o novo ano com cuidados extras.
Em destaque igualmente a renascida AS Lazio, finalmente saída da sombra da rival Roma, e o Palermo de Pastore, Nocerino, Micolli e companhia que sobreviveu à troca de treinadores para manter o alto padrão de jogo e um espirito estético pouco comum na liga mais táctica do futebol europeu. E claro, o Parma, sofredor até ao fim, que se encomendou ao génio de Giovinco, escudado por Amauri, Candreva e Gallopa nessa luta desesperada pela salvação, ganha a pulso nas últimas rondas. Nomes fortes de uma liga por onde andaram também, em boa forma, AS Roma, Fiorentina, Cagliari e Genoa, sempre com a Europa no horizonte. A grande desilusão acabou por ser, um ano mais, a Juventus. Del Neri não encontrou o esquema certo e perdeu o controlo do balneário da Vechia Signora que aspira, com uma equipa profundamente rejuvenescida, a algo mais substancial no próximo curso. Matéria prima existe de sobra falta apenas um técnico com a força de caracter suficiente para ordenar a casa.
À histórica Sampdoria, despromovida perante o desalento de Palombo, o seu capitão, numa das imagens mais tocantes da temporada, juntaram-se também o centenário Brescia e o modesto Bari, equipas sem a fortaleza mental para aguentar o peso emocional de lutar até ao fim pela permânencia, algo que, surpreendentemente, encontraram Lecce e Cesena, os grandes candidatos à perda de categoria, numa série infernal de bons resultados nas últimas rondas. Para eles ficar entre a elite é também digno de celebrar uma liga para a posteridade.

