Hoje ganha o futebol!
Seja qual for a equipa que saia com o trofeu nos braços, seja qual for o lado que verta as lágrimas de dor, o futebol não pode perder. Nunca, em toda a história da Champions League, desde o seu arranque oficial em 1992, que se viram frente a frente as duas equipas mais espectaculares e apaixonantes do Velho Continente. Desditas de sorteios, dias negros de equipas de sonho foram adiando a possibilidade de viver um momento assim. Hoje em Roma estarão os dois clubes mais marcantes da década e os interpretes do futebol mais belo e extasiante do novo milénio.

Ter frente a frente os dois melhores jogadores do Mundo é um luxo. De um lado o génio e arrogância de Cristiano Ronaldo, esse protótipo do jogar fisicamente perfeito, tecnicamente mágico e letalmente eficaz. Do outro estará Lionel Messi, com essa finta fácil, sprint determinado e sorriso matreiro. Mas o maestro deste Barcelona é outro. Pode não ser capaz de videojogos, vender tantas camisolas ou protagonizar videos vistos por milhões no You Tube. Pep Guardiola sabe bem que o seu Homem chave neste Pep Team é sem dúvida, Xavi Hernandez. O mundo do futebol sempre nos habituou a acreditar que o melhor é o mais espectacular. Sempre se preferiram os sprints rápidos, os golos habilidosos, as fintas demoniacas à precisão do passe, ao controlo de bola e à leitura de jogo. Os primeiros são o exemplo perfeito do poder dos Highlights, esses resumos de 1, 2, 5 minutos que condensam o espectáculo. Os segundos são os interpretes desse jogo que dura 90 minutos, e às vezes, um pouco mais. Messi é um heroi para os amantes da primeira corrente, mas desaparece ao longo dos 90 minutos demasiadas vezes. Xavi está sempre aí. É ele que controla cada milimetro de jogo da sua equipa soltando dardos venenosos para Iniesta, Henry, Etoo e o próprio argentino consagrarem essa arte máxima do futebol. Mas se o rio é mais belo quando chega ao mar, forte e determinado, não há nada mais mágico que a sua nascente, timida, escondida mas inesquecivel. Xavi é a nascente do jogo da equipa de Pep Guardiola. Cristiano Ronaldo é invarivalmente o principio e o fim do jogo do Man Utd, como o provou bem o terceiro golo ao Arsenal. O português é uma máquina de jogar futebol, seja onde quer que esteja. É entre eles que vai estar o grande duelo.
O Manchester United tem um melhor plantel, o Barça um melhor onze. Os ingleses apenas uma baixa, um operário estimado pelo general Ferguson. Os catalães contam com três baixas fundamentais e um banco demasiado curto. O técnico escocês é o mais titulado da história e já anda nestas batalhas à mais de quarenta anos, dos quais já passou quase um quarto de século em Old Trafford. O maestro da Cidade Condal começou agora mas já leva na bagagem dos preciosissimos titulos. O passado e presente contra o presente e futuro. Duas escolas distintas, duas personalidades vincadas, dois nomes de génio. Hoje, definitivamente, quem ganha é o futebol.
Longe da areia seca do velho Coliseu, o relvado do Olimpico de Roma será o palco de um embate inesquecivel. O jogo pode terminar num aborrecido 0-0 ou ser um frenético desafio com bola cá, bola lá. O Manchester United vai ser mais contido, mais cerebral. Baixará do habitual 4-4-2 para o mais "europeu" 4-3-3, com Carrick a comandar um miolo onde há espaço para a dúvida. Park, Giggs, Scholes e Anderson lutam por dois postos. Nas alas o coreano também é hipotese, especialmente se o treinador preferir repetir o falso 9 com Cristiano Ronaldo, estando Rooney certo à esquerda. Jogar com Tevez seria mais um golpe de raça numa equipa conhecida por nunca desistir até ao final. E por isso venceu sempre, in extremis, as três Champions League que já conta (um prolongamento épico, 110 segundos de infarto e uma série de penaltis inesquecivel). O futebol romantico do Barcelona não mudará mas a ausência de Daniel Alves e a fraca capacidade defensiva de Messi abre buracos nas alas. O ataque será letal e o meio campo a chave mas a defesa blaugrana parece, no papel, bastante débil. Por isso Guardiola sabe que tem de guardar sempre a bola de forma a evitar os ataques letais dos mancunianos.
A bola especial, o estádio cheio. Os gritos na arena e os gladiores de branco e blaugrana no tunel. A taça imponente, quieta, à espera da vigorosa mão que a erga bem alto nos céus da Cidade Eterna. Mais do que jogadores, mais do que treinadores, equipas ou clubes. A noite de hoje em Roma é a noite do futebol. As pessoas podem ganhar e perder. Hoje o Beautiful Game será mais belo do que nunca...e terminará por ser o grande vencedor!


