A bipolarização do futebol espanhol nunca foi tão evidente. Um titulo – o terceiro consecutivo – para o Barcelona que custou mais do que a diferença pontual deixa antever. Um Pichichi (e melhor ataque) para um Real Madrid incomodado quando joga com os pequenos e demolidor quando encara rivais directos. O duelo dialéctico Guardiola-Mourinho foi decido no campo e a favor do blaugrana mas a aproximação real entre Barça e Madrid deixa antever um duelo ainda mais intenso, se cabe, para a próxima época.
O Barcelona de Guardiola venceu a liga porque foi melhor.
Mas, sobretudo, porque foi muito mais regular que o esquizofrénico Real Madrid de José Mourinho. Capaz de golear rivais directos e equipas de pedigree, os blancos foram demasiado moles com as equipas que penaram nos últimos lugares da classificação e perderam mais de 16 pontos contra equipas em desespero de causa. Sem esse colchão pontual tão necessário quando se enfronta uma equipa do pedigree do Barcelona, pouco há a fazer. Os homens de Guardiola começaram mal o ano – resultado de uma pré-época ausente na ressca mundialista espanhola – mas foram juntando fileiras e quando chegou o duelo do Camp Nou, aplicaram, como é seu hábito, um profundo golpe de autoridade na prova. Os 5-0 com que brindaram os rivais reforçaram a moral das hostes blaugranas e desde aí o Barcelona viveu a sua própria liga, debaixo da excelsa campanha de Leo Messi e de uma pressão que se foi tornando menos constante de um Real Madrid entretido com as provas a eliminar. O Barcelona colocou pressão a si mesmo para não baixar o ritmo e entrou numa série demoniaca que lhe permitiu celebrar a dois jogos do fim o titulo, acabando por perder apenas os titulos morais de equipa mais goleadora e o prémio ao melhor marcador. O triunfo de Cristiano Ronaldo, um recorde absoluto de 41 golos na corrida ao Pichichi e Bota de Ouro, foi o espelho do jogo brutalmente ofensivo dos homens de Mourinho mas também a luz e sombra de uma época notável dos merengues mas que empalidece em comparação com o triunfo superlativo e sem contestação do Pep Team.
Esta bipolaridade evidente apagou por completo qualquer disputa mais que a liga espanhola tivesse para oferecer.
E houve algumas. Desde o duelo regional entre Valencia e Villareal pelo último lugar do pódio (triunfo dos “ches”) à luta pela europa onde carimbaram o bilhete três clássico (Sevilla, Bilbao e Atletico de Madrid) para acabar no desespero de uma última jornada onde até seis equipas lutavam para não descer. Nunca a despromoção esteve tão cara (43 pontos, mais sete que na época passada) e nunca o futebol espanhol se nivelou tanto por baixo, deixando algumas mensagens sérias para o futuro próximo. Uma liga absorvida pelo poder mediático de Barcelona e Real Madrid, calada pelos sucessos desportivos da Roja, a Liga BBVA transformou-se num quinal para as grandes potenciais economicas e um oásis para os restantes 13 clubes que dão colorido à prova. Não é por acaso que a partir do próximo ano 10 equipas estejam sediadas nas quatro maiores cidades do país, com Madrid a estrear, pela primeira vez, o número redondo de quatro participantes dentro das suas fronteiras. Com o final do regionalismo do futebol espanhol, confirmado com o adeus da Galiza à prova, fica ainda mais evidente que os golos de Cristiano, as fintas de Messi e as conferências de imprensa de Guardiola e Mourinho se tornam no único atractivo real de uma liga que continua a vender-se como a liga das estrelas. Cadentes, nalguns casos, de Fórlan (em guerra aberta com Quique Sanchez Flores desde Novembro) a Luis Fabiano, vendido pelo Sevilla em boa hora para dar passo à confirmação de Negredo que junto a Soldado e Llorente confirmaram que há mais alternativas ofensivas do que a dupla Villa-Torres para a selecção espanhola.
Frente ao mesmo fantasma, no mesmo palco. Em 1994 o Deportivo de Arsenio Iglesias perdeu o titulo no último minuto contra o Valencia por um penalty falhado pelo sérvio Djukic. Dezasseis anos depois, também contra os “ches”, o Depor perdeu a categoria e 20 anos depois volta ao inferno da 2º Divisão. Uma situação normal tendo em conta a falta de investimento realizado nos últimos anos no plantel, consequência dos milhões gastos no SuperDepor campeão de 2001 que nunca tiveram retorno real. Aos galegos acompanham na queda o Almeria e o alicantino Hercules treinado, imagine-se, pelo mesmo homem que falhou esse penalty histórico na Coruña.

