Por alturas do Natal havia pouca gente que imaginasse Sir Alex Ferguson a festejar o seu 19º titulo. O tal que lhe permitia ultrapassar o Liverpool. A promessa, realizada em 1986, foi cumprida. Demorou 25 anos, mas a partir de agora ninguém pode questionar o titulo de maior clube inglês aos Red Devils. E cuidado, porque Ferguson não tem previsto retirar-se tão cedo...
Foi o último ano de Gary Neville e Edwin van der Saar. Também Paul Scholes, Ryan Giggs e Rio Ferdinand estão mais perto do fim das suas carreiras do que nunca. E pelo meio houve a novela Rooney, onde muitos questionavam realmente se Ferguson ainda era capaz de mandar no balneário de Old Trafford. Com uma equipa repleta de gladiadores e miúdos com poucos jogos importantes nas pernas, a debilidade deste plantel do Manchester United parecia evidente. E no entanto este acabou por ser um dos títulos mais fáceis da década para Ferguson.
Ganho com nove pontos de avanço e lado a lado com uma histórica campanha europeia que só terminou aos pés do melhor Barcelona, o triunfo caseiro do Man Utd destroçou as previsões da esmagadora maioria dos analistas. Muito graças ao Chelsea, que se foi afundando na classificação a partir de Dezembro e, sobretudo, ao espírito (ou melhor, à falta dele) do Arsenal, que a certa altura parecia ser o rival a bater. Os gunners acabaram num deprimente quarto lugar, perderam a final da League Cup e cedo saíram da Champions League demonstrando, uma vez mais, a fraqueza psicológica do projecto de Arsene Wenger. Se essa foi a debilidade do Arsenal (e em certa medida do City de Mancini, mesmo depois de 400 milhões gastos em estrelas internacionais), essa foi também a fortaleza do United. Muitos empates fora, muitos poucos pontos perdidos em casa e uma solidez mental tremenda definiram a temporada. Os golos de Berbatov (ao inicio) e de Javier Hernandez (no fim) confirmaram a tremenda eficácia atacante de uma equipa que contou com o melhor Nani e um superlativo Vidic. O titulo mais do que merecido foi confirmado com uma vitória sobre um Chelsea totalmente perdido nas suas próprias dúvidas existenciais.
Se a equipa de Ancelloti parecia talhada para o bicampeonato, o arranque da época confirmou todas as expectativas à volta dos Blues.
O Chelsea não parava de golear, impondo o seu estilo de jogo musculoso e fluido, e abria uma brecha pontual considerável com os rivais. E depois, do nada, começaram as derrotas e os empates em Stanford Bridge e os problemas físicos de Lampard, Drogba e Terry para minar o esqueleto do conjunto londrino. O castelo de cartas montado pelo técnico italiano desfez-se no dia em que Abramovich decidiu intervir e pagou o impagável por Fernando Torres, a agonizar no Liverpool. O dianteiro espanhol marcou 1 golo em meia temporada ao serviço do Chelsea mas a sua presença imposta afastou Drogba do onze e revolucionou a estrutura ofensiva dos campeões. Foi o erro da temporada e Ancelloti pagou caro a sua falta de mão dura perdendo um posto que, mesmo quando há vitórias, parece amaldiçoado desde a saída de José Mourinho.
Por outro lado, em Eastlands, o Manchester City deu um salto qualitativo considerável, mais graças ao jogo de Carlos Tevez do que há gestão de Mancini. O outro Manager italiano da prova nunca conseguiu gerir o imenso balneário (e também teve o seu Torres na forma do bósnio Dzeko) e a hipótese de conquistar o primeiro titulo em 40 anos rapidamente se desfez com tropeções inesperados ainda na primeira volta. O City acabou por salvar a época com um notável sprint final que lhe deu o terceiro posto e o apuramento directo para a Champions League. Graças ao Arsenal, em queda livre absoluta, uma equipa desorientada e perdida que tem de mudar drasticamente a sua politica desportiva se não quer correr o risco de cair no erro do Liverpool. Os Reds viveram com Hogdson dias de inferno e só o regresso de Kenny Dalglish devolveu a ilusão e esperança à Kop. Atrás veio a habitual caravana europeia de Aston Villa, Everton, Fulham, Sunderland, Newcastle e West Bromwich Albion, as equipas que escaparam ao sofrimento dos últimos dias. Num mundo à parte caminhou quase sempre o Tottenham. Com um dos melhores planteis da Premier, a equipa de Harry Redknapp não demonstrou ter pernas para caminhar entre Champions e Liga ao mesmo ritmo e acabou por perder por pouco o acesso aos milhões europeus, conformando-se com um quinto posto que, no entanto, abre boas perspectivas para a próxima temporada.
A queda do West Ham Utd acabou por não surpreender ninguém. Apesar de contar com um excelso Scott Parker no miolo, os históricos hammers, sob o comando do israelita Avram Grant, mostraram uma insegurança constante em Upton Park e nunca deram sinais de inverter a queda livre na tabela a partir do Natal. No ultimo dia juntou-se-lhes o modesto Blackpool, a equipa que ninguém queria ver despromovida (muito por culpa do estilo original de Ian Holloway, o seu treinador) e o Birmingham City. Curiosamente os de Birmingham carimbaram, através da Taça da Liga, um lugar na Europe League, onde não estarão nem Liverpool, nem Everton nem os rivais vizinhos Aston Villa.

