Explicar o que sucedeu em 2010/2011 com o FC Porto pode resumir-se apenas numa palavra: mistica.
Os dragões realizaram na passada época uma das mais suas mais lamentáveis temporadas, reflexo de um profundo desgaste interno com a bem sucedida gestão de Jesualdo aliados à clara melhoria de dois rivais, Braga e Benfica, e também ás polémicas arbitrais que marcaram um antes e um depois no torneio. Sem Jesualdo, mas com o esqueleto do seu projecto, o FC Porto transformou-se radicalmente numa equipa autoritária, possessiva e profundamente atacante. Mérito total de André Villas-Boas, o primeiro técnico portuense (e portista) desde António Oliveira, que soube recuperar essa mistica sem alterar profundamente os cimentos da equipa. Villas-Boas transformou o jogo de transição de Jesualdo num jogo de possessão, adiantou o quarteto defensivo, deu mais liberdade ao duo mais avançado do triângulo do miolo e apoiou-se no espirito goleador do colombiano Falcao e nos desiquilibrios constantes provocados por Hulk. E ganhou.
A forma autoritária como o FC Porto arrancou para a época dictou os tempos posteriores.
Beneficiando do atraso do Benfica, que foi perdendo pontos inimagináveis por culpa própria, a goleada frente ao rival no Dragão praticamente fechou as contas do titulo e obrigou os azuis e brancos a gerir, com tranquilidade, uma vantagem que acabou em números absolutamente escandalosos e que não reflectem a real diferença entre os rivais directos. Villas-Boas, motivador por excelência da escola de José Mourinho, soube também gerir um plantel que conheceu apenas três adicções significativas relativamente ao ano anterior. Se a Otamendi e James Rodriguez o técnico foi dando tempo, revelando-se fundamentais na segunda metade da temporada, já João Moutinho foi o interprete perfeito do seu ideário desportivo, a balança que permitiu a fluidez de jogo dos novos campeões nacionais, afastando definitivamente os fantasmas dos seus últimos anos em Alvalade. Num plantel sólido e bem preparado o técnico soube igualmente explorar os momentos de forma ideias dos seus jogadores. Recuperou Belluschi na primeira parte da temporada para entregar-se a Freddy Guarin, um dos nomes próprios da segunda volta da equipa. Viveu do pulmão de Varela até que este não aguentou mais e cedeu o palco a Cristian e James Rodriguez que se foram alternando em grande parte do final da época.
Pouco se pode apontar a uma equipa que olha para trás com a consciência de que logrou fazer história. Vencer um campeonato de 30 jogos sem qualquer derrota (93 golos marcados, apenas 16 – a metade do segundo classificado – sofridos) é um feito em qualquer liga europeia. Mesmo no profundamente debilitado campeonato português não deixa de ser um logro espantoso. Basta recordar que só o Benfica de Haggan logrou o feito, já lá vão quase quarenta anos. Se ao titulo ganho de forma simbólica no estádio de Luz se juntam as vitórias em mais três provas (Supertaça, Taça e Europe League) é fácil entender que estamos ante uma das equipas mais importantes da história do futebol português. Anos asssim são como os cometas. Mágicos e que se repetem de tempos a tempos para espanto dos comuns mortais...

