Domingo, 31 de Maio de 2009
Há dez anos o Calcio vivia o seu zénite. A imprensa começava a considerar que a liga italiana perdia em glamour e interesse para o campeonato espanhol e os clubes italianos entravam numa grave crise de resultados, que hoje, passada uma década, continua e ameaça expandir-se ainda mais. Exceptuando os dois triunfos isolados do AC Milan na Champions League dos últimos 10 anos, nenhum clube italiano logrou vencer uma prova europeia. Mais ainda, o escândalo de corrupção destapado a meio da década ainda hoje deixa moça. O Inter conquistou tranquilamente o seu quarto campeonato consecutivo e os seus rivais continuam marcados por uma série de anos de fracos resultados e graves problemas financeiros. Estádios vazios, adeptos desanimados, equipas sem figuras de renome…tudo contribui para fazer do campeonato italiano o menos interessante das grandes ligas europeias. Ultrapassado em emoção por França e Alemanha, a liga italiana vive uma grave crise. E a esperada vitória do Inter de José Mourinho não ajudou em nada em recuperar o prestígio do Cálcio.

Desde que chegou Mourinho anunciou que seria campeão mas ao contrário do que passou nas suas anteriores experiências, aqui poucos duvidavam da previsão do técnico português. O Inter era tricampeão, os rivais pareciam imersos numa profunda crise e o plantel do clube nerazurri parecia ser o mais equilibrado da parte alta da tabela. E mesmo assim custou ao setubalense vencer o seu primeiro Cálcio. Problemas dentro do plantel, desequilíbrios no sector defensivo, falta de espírito competitivo, tudo contribuiu para transformar uma vitória clara num triunfo tremido. O falhanço na Europa (de toda a armada italiana aliás) não ajudou a dar uma impressão positiva de um conjunto que não consegue criar respeito junto dos rivais europeus. Ibrahimovic foi a estrela da companhia e destacou-se entre companheiros e rivais em toda a prova, mas também o avançado sueco esteve a milhas do que já o vimos fazer.
Na luta pelo segundo posto a Juventus e o AC Milan dividiram o protagonismo. Os bianconerri começaram melhor, com um rejuvenescido Del Piero e um meio campo de força com Poulsen, Tiago, Nedved e Camoranesi em boa forma. No entanto o conjunto de Cláudio Ranieri rapidamente perdeu gás e o técnico acabou mesmo por ser destituído a três jogos do fim. Mesmo assim foi suficiente para a Vechia Signora conseguir o segundo posto isto porque o AC Milan, que começou mal a temporada apostando erradamente nas contratações de Flamini e Ronaldinho, só arrancou já a época ia a meio. Ancelotti percebeu que o craque brasileiro chegado de Barcelona não tinha ritmo para jogar e apostou em David Beckham, acabado de chegar dos Estados Unidos, para juntar-se a Kaka, Seedorf e Pato numa linha ofensiva bem mais incisiva. Um excelente sprint final quase permitiu aos milanistas sonhar com o título mas sucessivos tropeções na hora H impediram o capitão Paolo Maldini despedir-se com um troféu.

Na luta pelos postos europeus a Fiorentina levou a melhor diante da revelação Genoa e da AS Roma. O conjunto de Florença foi uma equipa dinâmica e ofensiva, baseando o seu jogo no talentoso Jovetic e no brasileiro Filipe Melo, mas nunca ameaçou verdadeiramente o trio da frente. Os genoveses viveram do bom labor de Thiago Motta e dos golos de Diego Milito enquanto que a Roma começou muito mal a temporada acabando por trepar na recta final para postos europeus, com Totti, Vucinic e companhia a mostrarem de novo uma irregularidade imperdoável para este nível competitivo. A Udinese fez uma boa época, particularmente na Europa, disputando até ao final com o Palermo a possibilidade de se estrear na Europe League. Duas equipas com um ataque produtivo mas defesas frágeis. Todo o contrário de Atalanta e Catania, equipas orientadas desde o sector mais defensivo e com uma tremenda eficácia que lhes permitiu realizar um campeonato tranquilo sem demasiados altos e baixos. Abaixo das expectativas terminaram AS Lazio e Sampdoria, clubes com orçamento e expectativas europeias que terminaram tranquilamente a época a meio da tabela. O Napoli, grande sensação da primeira volta, tropeçou na segunda ronda e teve de sofrer para garantir a manutenção, algo que não lograram Torino, Lecce e ainda Reggina, clubes que baixam assim à Série B de onde regressam os históricos AS Parma e AS Bari.
Para o próximo ano e com a ameaça da saída de nomes ilustres como Ibrahimovic e Kaka, bem com as anunciadas reformas de Maldini e Nedved e a veterania de craques como Totti, Del Piero, Gattuso ou Buffon, o Cálcio volta a ter de se enfrentar a velhos fantasmas. Os jogadores estrangeiros de nível já não arriscam entrar pela Europa nos campos italianos e a nova vaga de jovens transalpinos tarda em afirmar-se. Talvez seja esta a ocasião ideal para os jovens Giovinco, Balotelli, Amélia, Criscito ou Acquafresca mostrarem que chegou a sua hora e que serão eles a voltar a elevar o Cálcio ao lugar onde sempre esteve.
