O rei Kenny escolheu-o pessoalmente como sucessor e durante algumas temporadas parecia claro que estava ungido para tornar-se numa lenda viva do futebol inglês. Mas a decadência do Liverpool e o naufrágio do Newcastle passaram factura e pouco a pouco a Old Albion começou a esquecer-se de um dos maiores génios da sua longa história, um pássaro chamado Peter.
Quando Dalglish trocou o relvado de Anfield pelo mesmo banco por onde andaram Fagan, Paisley e Shankly tornou-se claro que faltava uma referência no ataque dos Reds. Não havia alternativas no balneário para render aquele que foi, muito provavelmente, o mais completo jogador da história do clube. E muitos acreditavam que nem fora de Anfield o consagrado "King" Kenny poderia fazer o mesmo que Paisley logrou com ele quando Keegan partiu para Hamburgo no final dos anos 70. Mas foi precisamente ao lado da velha glória que Dalglish descobriu o seu homem. O Newcastle tinha acabado de subir de divisão e na equipa do Norte pontificava um jovem de 22 anos que já tinha andado pelo Canadá e por Old Trafford, sem fazer muito barulho. Dalglish ficou com ele debaixo de olho durante duas temporadas e quando percebeu que a coisa era séria (e que a concorrência apertava) apostou forte. E ganhou.
Peter Beardsley assinou pelo Liverpool a 14 de Julho de 1987. Uma data difícil de esquecer.
Foi um recorde e levantou dúvidas. Afinal a grandeza do clube de Anfield não se podia encaixar no pequeno projecto regional que era, ainda, o Newcastle. E apesar de já ser internacional (Beardsley esteve na equipa mundialista de 86), o pequeno avançado estava longe de ser uma estrela. Mas não chegou só. Na mesma semana o técnico, desejoso de repetir o titulo ganho na sua primeira temporada como treinador-jogador, apresentou John Barnes e John Aldridge que formariam um dos trios de ataque mais letais da história do futebol moderno. Sem Dalglish e Rush havia suspeitas que a equipa não estaria ao mesmo nível. Os números provaram outra coisa.
Beardsley rapidamente explodiu e tornou-se num dos ídolos da velha Kop.
O seu estilo de jogo, incisivo, técnico e com um potente disparo, foi deixando marcas jornada após jornada. O entendimento com o gigante Aldridge e o supersónico Barnes deram uma profundidade de campo a um conjunto que pode ser visto como um dos mais completos da história do beautiful game. Ninguém imaginava ao principio mas o ritmo demoníaco daquele conjunto Red nascia, muitas vezes, do cérebro de xadrez de Beardsley. A equipa esteve perto da dobradinha mas naquela mítica final frente ao Crazy Gang do sempre criticado Wimbledon a oportunidade de fazer história esfumou-se. Beardsley emergiu claramente como o rosto vivo da nova geração de internacionais ingleses, a viverem ainda o lastre do afastamento das competições europeias. Tornou-se impossível medir o sucesso do conjunto de Dalglish com outras equipas de elite da época, como o Madrid de Butrageño, o Milan de Sacchi, o FC Porto de Artur Jorge, o PSV de Hiddink e o Napoli de Maradona. Mas em Inglaterra a superioridade era inquestionável. Só as lesões (de Rush), os desastres (de Hillsborough, momento que marcou talvez o final da era Red) e o mais puro azar (sob a forma do pontapé de Michael Thomas no último minuto do Liverpool vs Arsenal de 1989) permitiram que o titulo escapasse ao conjunto de Beardsley. Mas, mesmo com a derrota, a sua aura mágica aumentava e na final da FA Cup frente ao eterno rival, o Everton de Howard Kendall, mais uma vez "Beardsie" foi fundamental. Era o principio do fim da história de amor.
Com o regresso de Rush e o adeus de Aldridge, o escocês Dalglish abdicou do espectacular 4-3-3 por um 4-4-2 mais convencional e Beardsley foi perdendo espaço para deambular pelo terreno de jogo. Começou a ver mais jogos desde o banco e sem oportunidades de brilhar na Europa (a suspensão do Liverpool prolongou-se até 1992) o peso da frustração era claro. A explosão mediática à volta de Gascoine também não ajudou. No final de 1991 trocou Anfield Road por Goodison Park. Os adeptos da Kop, em lugar de apupar o traidor, aplaudiram-no de pé no seu regresso. Ele era há muito uma lenda viva.
O final da carreira de Beardsley, depois da passagem pelo Everton, significou um regresso às origens. Keegan recuperou-o para o seu novo Newcastle ao lado de Ginola, Ferdinand, Cole, Shearer e Asprilla e apesar da idade não permitir as mesmas espantosas corridas pelo miolo, o seu estilo ajudou a definir a magia de uma das equipas mais admiradas da década de 90. O Newcastle não venceu um único troféu mas entrou no coração dos adeptos que puderam, por uma última vez, admirar o talento do pássaro rebelde do Tyneside. Quase esquecido, Beardsley ganhou a pulso o estatuto de jogador legendário. Friamente olhando para números, romanticamente deixando-se seduzir pelos movimentos surdos no tapete verde, é difícil encontrar um jogador inglês ao seu nível nos últimos 30 anos. Beardsley foi o génio de quem os ingleses aparentemente se esqueceram...

