À quarta foi de vencida. Nem os dias de glória de Stanley Matthews, nem as gestas épicas dos anos 70... foi preciso esperar muito tempo, talvez demasiado, para que finalmente o Stoke City conseguisse um velho objectivo: marcar presença no mitico Wembley. Já não é o estádio das Twin Towers mas para os adeptos encarnados isso é o de menos. Para eles será sempre uma tarde de festa, a doçura da primeira vez...
A primeira vez foi no último ano do século XIX. Mas já então o Derby County era equipa suficiente para tirar-lhes o gosto da final. Stanley Matthews ficou-se pelos Quartos de Final no periodo do pós-guerra e teve de migrar a norte, a Blackpool, para saber o que era uma final da FA Cup. Em 1970 o Arsenal precisou de um segundo jogo para livrar-se dos tenazes jogadores do Stoke que tinham empatado a duas bolas no primeiro encontro. Um ano depois nova tentativa, novo fracasso, cortesia, quem senão, dos Gunners outra vez com segundo jogo à mistura. Parecia que a gaffe era eterna. Até que chegou 2011, esse ano inesquecível na história do modesto clube do coração de Inglaterra, um clube sem titulos de renome mas com um passado de respeito nas diferentes categorias do futebol britânico. Era um duelo inesquecível e foi um jogo memorável. No final dos 90 minutos o Stoke City tinha deixado para trás mais de um século de desilusões. Finalmente era finalista da mais antiga competição de clubes do Mundo.
O Wembley recebeu os preliminares e deu boa sorte à equipa treinada por Tony Pullis. O resultado não engana ninguém. Um 5-0 nestas coisas da FA Cup impõe respeito, especialmente se o rival está por cima na tabela classificativa da liga. E o Bolton não é osso fácil de roer, provado muitas vezes ao longo do ano pelos mais insuspeitos dos rivais. Mas não tiveram coração para os de Stoke on Trent. Matthew Etherington, eterna promessa por cumprir, abriu as hostes cedo. Walters fechou-as perto do fim, o seu segundo golo num jogo que viu ainda Huth e Jones celebrarem entusiasticamente uma tarde histórica. Já sabiam que o rival seria o Manchester City, a equipa dos petro-dólares. Mas importava muito pouco. O bilhete de volta à meca do futebol inglês já estava comprado. A corrida começou apaixonadamente.
O Stoke caminha tranquilamente na metade baixa da tabela da Premier League. É uma equipa humilde.
Fortemente criticada por Arsene Wenger, sempre pronto a queixar-se de um rival que lhe rouba pontos, pelo seu estilo de jogo defensivo, o Stoke é uma armada bem organizada e com a faca na boca. Pullis tem aguentado as dificuldades económicas do clube com espirito estoico e coração de leão. O seu conjunto mistura a veterania de Sorensen, Etherignton, Carew, Fuller ou o mitico Rory Delap com muita juventude. Pennat, Walters, Jones e claro, o inquebrantável Shawcross. O médio centro, capitão e alma da equipa, é o espelho do conjunto. Guerreiro, muitas vezes a roçar a loucura, Shawcross tornou-se num dos primeiros jogadores do clube a chegar à selecção. Mas também ficou conhecido por provocar várias lesões largas e complicadas a colegas de profissão. Ele, como o Stoke, é uma faca de dois gumes.
Nesse 4-4-2 rigido e que aposta na velocidade e eficácia destaca-se a táctica dos longos lançamentos laterais de Rory Delap. O jogador criou escola com os seus quase centros com as mãos para o coração da grande área. A eficácia é discutível, afinal não foram assim tantos os golos que gerou, mas a ideia é original e bem britânica. O fisico sobrepõe-se à técnica.
Com o Brittania Stadium como um dos fortins por excelência da Premier, os Potters, alcunha do clube, conseguiram aguentar-se na máxima categoria desde a promoção ganha em 2008. A equipa caminha num tranquilo 13º posto com 38 pontos, a onze do último posto europeu (do Liverpool) e com um colchão de cinco pontos para a linha de água. O calendário até ao final da época não apresenta grandes desafios e é de esperar que a equipa se mantenha, um ano mais, entre os primeiros do futebol da Old Albion. Mas as atenções estão agora viradas quase exclusivamente para o duelo do Wembley com uma equipa, o Manchester City, que há 40 anos que não vence um trofeu. Depois de tantos milhões investidos, numa prova de tanto prestigio, os Citizens terão de ser considerados como favoritos. Mas os Potters não sabem render-se e já na época passada coube a eles eliminar a equipa azul da prova. Este ano, na Premier, o duelo entre ambos resultou num agridoce empate nos últimos momentos. É esse o espirito que o David quer recuperar nessa luta contra o poderoso Golias.
Passe o que passar no Wembley e história já está feita em Stoke. A equipa chegará sem pressão e com a ilusão de um grupo de adeptos que há uma década vivia no desespero das categorias baixas da prova. Os guerreiros de Pullis fizeram mais do que todas as figuras históricas do passado do clube. Entre eles e a eternidade estão 90 minutos, uma bola e onze guerreiros pagos a peso de ouro. Para eles isso serão meros detalhes, a batalha está marcada...

