Pode uma actriz porno revolucionar um clube de futebol? Talvez não, mas a febre de futebol que assaltou o clube mais pequeno de Valência está intimamente ligado com os atributos fisicos de uma celebridade erótica do país vizinho. Maria Lapiedra prometeu apoiar com tudo o pequeno Levante e os jogadores responderam com um novo alento. A equipa passou do último posto a lutar pela Europa em três meses.
Quando foram goleados pelo Real Madrid por 8-0 (num jogo a contar para a Copa del Rey) muitos dos adeptos levantinos olharam cabisbaixos para o chão. A sua equipa não tinha sido apenas trucidada por um clube que não conseguira marcar um golo no duelo ligueiro, logo à terceira ronda. Havia algo na atitude dos jogadores que não entusiasmava a afficion. A descida na tabela até chegar ao último posto classificativo parecia antecipar uma certa despromoção. O Levante, que há dois anos tinha conhecido o mesmo caminho sem pagar os salários aos jogadores, estava uma vez mais perto do abismo. Nem a vitória honrosa numa segunda volta morna parecia mudar a mente dos adeptos, já resignados. O segundo clube de Valencia, clube onde jogou Cruyff, clube que imitou o equipamento do poderoso Barcelona quando irrompeu nos anos 70 como uma sólida alternativa regional aos Che, era consciente do seu destino.
E então chegou ela. Maria Lapiedra. Polémica como poucas, atrevida como nenhuma. Não há nada no corpo da actriz que o mundo ainda não tenha visto. Os seus filmes porno são sobejamente conhecidos em Espanha, as suas produções fotográficas também. É capaz de caminhar nua em directo num programa de televisão sem medo a reprimendas e falsas moralidades. Sente-se bem com o seu atrevimento e o público masculino espanhol sente-se bem com a sua fisionomia paga a preço de ouro pelo seu marido e productor porno que lhe deu um apelido que antes pertenceu a outra rainha do sexo espanhol agora casada com um jornalista desportivo especializado no...Real Madrid.
Lapiedra não é de Valencia, provavelmente não é de nenhum sitio. Mas declarou a sua simpatia pública pelo clube. E decidiu ir mais longe. Apoiar os últimos da tabela na sua fútil luta pela manutenção. Organizou um ensaio fotográfico erótico onde tapou algumas selectas partes do corpo com a bandeira do Levante. Os adeptos do clube responderam em massa e o calendário tornou-se omnipresente na cidade. Chegou ao clube, que não teve nenhuma relação com a senhora, e inspirou Luis Garcia. O jovem técnico decidiu motivar os seus jogadores à antiga. Encheu o balneário de posters da actriz e utilizou-a como imagem motivadora para uma equipa desalentada. Não havia nada de Lapiedra que não tivesse sido já visto. Mas os jogadores devem ter ido mais além. Porque desde esse dia o Levante não voltou a tropeçar.
Talvez seja exagero pensar que uma colecção de posters possa fazer milagres mas o Levante que no Natal era último agora está a dois pontos da Europe League. Trepou furiosamente na classificação não fazendo prisioneiros pelo caminho. Derrotou rivais directos, fez do seu Ciutat de Valencia um fortim. E bateu o pé aos primeiros, com atitude e garra. Uma equipa que não se mexeu no mercado de Inverno, talvez já a pensar na condenação, e que despertou com os golos do insuspeito Caicedo. O mesmo que em Alvalade confundiu os adeptos com a sua falta de aptência pelo golo, na costa mediterrânica transformou-se num devorador de defesas e guarda-redes. Marca jornada sim, jornada não e não golos quaisqueres. Golos de belo efeito, golos determinantes.
A veterania do plantel, uma fraqueza para muitos, tornou-se numa virtude. Luis Garcia, técnico da nova geração que começa a substituir os nomes mais veteranos do futebol espanhol, é visto como o principal artifice desta mutação. Um motivador único que soube explorar bem a moral dos seus e as falhas dos demais. Não há nenhum nome sonante num plantel onde sobrevivem Ballesteros, Javi Venta, Valdo, Del Horno e Munúa mesclados com a juventude de Xavi Torres e Jefferson Montero, filhos da cantera de Barça e Villareal. 13 dos 25 jogadores do plantel estão por empréstimo. Não há dinheiro para mais. E os milhões da Europa aí à porta. Um sonho que nem os próprios valencianos conseguem sequer imaginar. A concorrência é muito dura (Sevilla, Bilbao, Atlético, Espanyol, Mallorca...) mas só houve duas equipas com melhor pontuação nesta segunda volta que os granota: Barcelona e Real Madrid.
Sob o mote "La Unión es la Salvacion" o clube deu um murro na mesa. O conjunto está, matematicamente, salvo e tem de jogar nas duas últimas rondas com Barcelona e o eterno rival, Valencia. Antes enfrenta-se a Atlético, Bilbao e Gijón, rivais directos. A reviravolta começou na ronda 21, numa vitória por 2-0 frente ao Getafe, então em postos europeus. Depois um triunfo agónico, mas justo, em casa do Villareal e vitórias claras frente a Almeria, Osasuna, Espanyol, Deportivo, Málaga e Hércules. Pelo meio apenas três empates e uma derrota, no Bernabeu. Um percurso praticamente imaculado que levou a equipa do 20º ao 9º posto. Com 36 golos marcados, quase um por jogo, e 42 sofridos. É na veia goleadora que a equipa peca e aí os golos de Caicedo são chave. Quase um exclusivo da salvação do colectivo que se inspira pelas noites com essas fotos que deixam pouco espaço para a imaginação.
O Levante pode sonhar, um ano mais. Para a próxima época talvez o corpo da celebridade não seja suficiente para manter-se entre os maiores. Luis Garcia inevitavelmente será cobiçado pelos grandes e a maioria dos jogadores voltarão ao seu clube de origem. Um projecto arrancará do zero e muitos nem se lembrarão que houve um dia em que alguém colou a fita-cola um poster gigante em cima do quadro das tácticas. Um poster que pode ter valido uma salvação. Ás vezes também é preciso acreditar nisso...

