Varela é o exemplo perfeito do jogador português. Nos momentos chave, a pressão pode mais do que a eficácia. A vitória da Alemanha resultou, sobretudo, dessa imensa diferença que separa as duas selecções. Quando teve a bola apontada ás redes, os germânicos demonstraram a sua experiência histórica e não falharam. Portugal, que optou por esperar, esperar e esperar, teve o empate a centimetros mas faltou-lhe esse espirito de vitória que nunca diz presente nas grandes noites. Uma derrota que esconde um jogo cinzento da Alemanha e que deixa Portugal sem outra opção que não seja vencer os próximos dois jogos.
A primeira parte foi cinzenta como Paulo Bento queria.
Portugal dedicou-se a entregar o comando do jogo aos homens de Low e posicionou-se perfeitamente no terreno para anular a verticalidade do jogo alemão. Sem espaços não há velocidade que valha ao jogo de Ozil e Muller e os germânicos ressentiram-se. Um terreno empapado, uma defesa rocosa e uma série de ajudas e coberturas perfeitamente coordenadas atascaram o jogo da Alemanha e transformaram o jogo num combate de boxe aos pontos, sem grandes golpes.
A Alemanha desferiu primeiro, com um remate de cabeça de Gomez, mas depois não voltou praticamente a aparecer pela zona de Rui Patricio. Muitas bolas largas, passes falhados no último momento e uma incapacidade crónica de assustar. Nesse cenário, Portugal sentiu-se cómodo, bastante mais cómodo. Aguentou as investidas sempre fora da área, manteve a bola nos pés quando era necessário e, ocasionalmente, tentou atacar. Claro que jogar sem um médio criativo é um karma para qualquer equipa que tenha de deixar as tarefas de criação a jogadores como Meireles ou Moutinho que abusaram dos lançamentos largos. Nem Nani, sem chispa, nem Ronaldo, muito pesado e marcado, conseguiram aproveitar esses lançamentos e Hélder Postiga, como sempre, trabalhou mais como defesa do que actuou como avançado de pleno direito. Nessa dinâmica salvou-se o jogo dos laterais, sobretudo Coentrão, que ganharam metros em várias ocasiões e um par de cantos de onde surgiu a oportunidade mais clamorosa dos primeiros 45 minutos. Pepe, só na área, ajeitou demasiado a bola que não passou a linha branca. Faltavam segundos para o final do primeiro tempo e ficou-se com a sensação de que a Alemanha teria de mudar o esquema para penetrar o esquema defensivo luso. A Portugal, só a sorte que faltou naquele lance podia dar uma ilusão de vitória, futebolisticamente a diferença ainda parecia evidente, apesar de tudo.
E se Portugal até entrou melhor na segunda parte, a verdade é que Ronaldo continuou desaparecido. E na Alemanha, finalmente, sentiu-se a presença de Ozil. E dos espaços. Os germânicos foram puxando os portugueses da sua linha recuado e explorando os metros que ficavam por detrás. Ozil, vezes sem conta, lançou passes cirúrgicos que eram constantemente desaproveitados pelo trio de ataque. Os minutos passavam, Paulo Bento optava por Nélson Oliveira em lugar de Postiga, e a Alemanha recuperava o controlo do jogo, mas à sua maneira.
Num centro fortuito de Schweinsteiger, depois de um belo lance começado pelo notável Matts Hummels na defesa, a bola encontrou a cabeça de um Mario Gomez que já tinha o seu número escrito no placard de substituições. Rui Patricio, mal colado, deixou-lhe todo o lado esquerdo da sua baliza e o avançado de origem espanhola fez o que sabe fazer melhor e marcou o golo que dava a volta ao guião.
Obrigado a atacar, Portugal começou a pensar como poderia fazer aquilo para que não está preparado para fazer. A Alemanha, por outro lado, agradeceu o imenso espaço que uns cansados Moutinho e Meireles iam deixando nas suas costas e enquanto Bento optava por Varela, os portugueses continuavam à procura de um Cristiano Ronaldo que, como D. Sebastião, desapareceu sem deixar rasto do campo de batalha.
Um par de oportunidades, inevitáveis, que não deram em nada e a habitual asfixia de jogo criativo dos lusos permitiram aos alemães não acelarar o jogo na busca de um mais cómodo segundo golo. Até porque, quando na hora da verdade, Varela teve o empate nos pés, parecia claro que um jogador como ele não teria o sangue frio para marcar. E não teve. Portugal está habituada a momentos desses. Por isso mesmo é que, neste grupo da morte, são a única selecção sem um titulo no historial.
No jogo com a Dinamarca a equipa portuguesa joga mais do que os três pontos. Se os nórdicos logram pontuar, quase que garantem seguir em frente pelo que Portugal tem a dupla missão de vencer e de apanhar os dinamarqueses no segundo lugar do grupo. A partir de agora não há margem de erro e Paulo Bento tem de pensar noutra fórmula que não seja apenas defender e esperar o erro do rival. Uma situação que os dinamarqueses manejam muito bem - já o demonstraram no passado recente. Jogar sabendo que um empate é um bom resultado é algo que os dinamarqueses vão utilizar habilmente. Portugal precisa de Cristiano Ronaldo presente, da eficácia que lhe falhou pela enésima vez e, sobretudo, de deixar de viver o eterno complexo de profunda pequenês que tem acompanhado os recentes mandatos de seleccionadores que optam por esperar em lugar de tomar a iniciativa e que têm contribuido, com isso, a que Portugal seja cada vez menos uma potência tida em consideração por essa Europa fora.
Ás vezes o conceito de "grupo da morte" é um oportunismo jornalistico mas neste caso tornou-se num eufemismo. A vitória da Dinamarca sobre a favorita Holanda deixou as contas do grupo ainda mais apertadas e não há margem de erro para holandeses até ao final da primeira fase, uma má noticia para Portugal e Alemanha, os seus próximos rivais. Numa exibição táctica perfeita de Morten Olsen, os nórdicos deram uma lição de futebol aos holandeses e demonstraram que este grupo é ainda mais temível do que se poderia imaginar.
A Laranja não foi mecânica. Foram os dinamarqueses quem estiveram automatizados à perfeição, manobrando perfeitamente os tempos de jogo e asfixiando o previsivel modelo de jogo que a Holanda vem desenvolvendo desde van Marwjick se tornou seleccionador. Um jogo que confia em excesso nas diagonais de Robben, na subida dos laterais e na conexão van Persie-Sneijder. Hoje não funcionou nada, essencialmente porque os dinamarqueses sabiam perfeitamente o que fazer.
Robben nunca se livrou de uma marcação que sabia perfeitamente como anular a sua jogada tipo e foi do seu lado, ele que nunca ajuda a defender, que nasceu o único golo do encontro, um remate extraordinário de Khron-Delhi, um dos melhores em campo. Um golo que surgiu contra a corrente do inicio do jogo mas que marcou a diferença de eficácia entre ambas as equipas. Um erro defensivo da Holanda e muitos erros ofensivos contra uma eficácia tremenda da Danish Dynamite, que teve várias oportunidades para ampliar a vantagem e que concedeu muito poucas ao rival para igualar. Robben encontrou-se com o poste, Huntelaar e van Persie não foram capazes de superar um excelente Anderson e no final o avançado do Shalke 04 queixou-se, talvez com razão, de um penalty que podia ter diminuido as perdas holandeses. Esta derrota, no jogo à priori mais acessível, é algo dificil de encaixar.
Depois do imenso jogo do conjunto nórdico é fácil entender porque Portugal, uma equipa incapaz de se manobrar com equipas compactas, ficou atrás dos nórdicos no seu grupo e é, à partida, o candidato a ficar no quarto posto. O jogo tremendo do miolo dinamarquês com Kvist e, sobretudo, Zimling, asfixiou a nula criação de jogo dos holandeses. Com as individualidades bem anuladas pelo jogo colectivo de entre ajudas dos dinamarqueses, sobretudo os laterais Poulsen e Jacobsen, o seleccionador Morten Olsen colocou o rival onde queria.
Sketelenburg deixou evidente a falta de ideias dos holandeses - algo que já se viu há quatro anos e na África do Sul - com vários lançamentos longos para o jogo aéreo de van Persie mas aí os dinamarqueses estiveram, como em tudo, imperiais. De tal forma que, à medida que a angústia tomava conta da Oranje, o controlo do jogo foi totalmente dos homens de branco que souberam rodar a bola, circular o jogo e cansar ainda mais o rival. Os últimos dez minutos, significaram a evidência da superioridade da ideia dos dinamarqueses, sempre conscientes do que tinham de fazer, face ao evidente desnorte holandês, numa equipa onde se exige uma mudança de atitude e nomes. Strootman, Huntelaar e até mesmo Van der Vaart pedem sitio num onze demasiado rigido e incapaz de improvisar nos momentos de maior tensão.
A vitória dinamarquesa abre todos os cálculos possiveis e imaginários. Os nórdicos precisam de três, em seis pontos, para garantir matematicamente o apuramento e esperando o resultado do jogo da noite, uma vitória da Alemanha pode permitir-lhes, no próximo jogo com Portugal, ser matematicamente equipa de Quartos de Final. Os holandeses sabem o que necessitam. Seis pontos em dois jogos, margem de manobra zero e muita tensão para suportar.
Não têm as estrelas, o treinador mediático e as casas de apostas do seu lado. Mas os russos são, claramente, o candidato alternativo a vencer este Europeu de Futebol. Por detrás do trio Espanha, Alemanha e Holanda, o pódio do último Mundial, os eslavos apresentaram frente aos checos motivos suficientes para serem levados a sério nesta prova. Um brilhante jogo de Dzagoev que deixou para um segundo plano uma selecção checa que tem argumentos suficientes para discutir o apuramento com gregos e polacos.
Foram semi-finalistas em 2008 e só o cansaço acumulado frente aos holandeses os impediu de responder à altura do desafio de uma magnifica Espanha. Quatro anos depois, falhado o Mundial de 2010, este torneio é a última oportunidade de uma brilhante geração do futebol russo, liderada por Arshavin, e a primeira para aqueles que apontam para o Mundial de 2018, em casa, como o grande objectivo dos Dzagoev e companhia.
Foi a eterna promessa do CSKA quem soube mover a batuta de jogo do conjunto orientado por Dick Advocaat. Não só marcou dois belos golos como fez a bola rolar, desorientou o esquema defensivo dos checos e finalmente logrou a exibição com a camisola nacional que há muito se lhe exigia.
Ao lado do criativo, o óptimo jogo de um renascido Arshavin e a mobilidade de Kerzakhov e Denisov, foram fundamentais para pender a balança para o lado russo depois de um arranque melhor dos checos. Os homens de Bilek entraram bem em jogo e tiveram as suas oportunidades mas depois do golo inaugural dos russos vieram-se abaixo. Gebre Selassie, pela direita, e Kadlec, pela esquerda, abriram o campo e deram espaço a Rosicky para manobrar a batuta de jogo do meio-campo, mas a teia montada por Advocaat rapidamente neutralizou o jogo de toque dos checos e nem mesmo o golo de Pilar fez tremer a armada russa.
Os russos não só dominaram claramente o rival e o marcador como também trouxeram a primeira dose de espectáculo de primeira ao torneio.
Boa circulação de bola, manejo dos tempos, eficácia ofensiva e trabalho colectivo são conceitos que deixam claro que este conjunto pertence à lista de selecções que podem aspirar a chegar longe. É dificil pensar que o apuramento se lhes possa complicar mas o confronto dos Quartos, com qualquer uma das equipas do "Grupo de Morte" é algo que, aos russos, não assusta em demasia. Afinal, foi a mesma sina de há quatro anos e o resultado não foi nada mau para os eslavos.
Os checos de Bilek deram muito melhor impressão do que o resultado final pode antever. Está claro que não estão ao mesmo nivel do top seis do torneio (juntamos franceses e italianos aos quatro já mencionados) mas são uma equipa com recursos, onde o jogo dos laterais surpreendeu pela positiva. Nos primeiros quinze minutos foram a melhor equipa em campo e deixaram um sinal positivo para os duelos que se avizinham, com rivais muito mais acessiveis e com quem a República Checa irá discutir realmente as opções de seguir para os Quartos de Final. Ao conjunto de Bilek faltará, provavelmente, um goleador mais inspirado (o Baros que foi Bota de Ouro em 2004 já não tem a mesma frescura) para poder ombrear com polacos e gregos, mas em consistência e qualidade de jogo, não se mostrou nunca demasiado intimidade com o melhor futebol dos russos. Apesar do castigo que foi encaixar quatro golos, os checos deixam a sensação de poder surpreender na próxima semana.
A Rússia garante, praticamente, um lugar nos Quartos de Final (com o resultado do jogo da tarde um ponto deve bastar) e mostra que o trabalho iniciado por Hiddink há seis anos tem pernas para caminhar para os próximos seis, esse ambicioso Mundial que os russos querem vencer. No próximo duelo, com uma Polónia necessitada, os espaços e as fragilidades defensivas dos anfitriões serão tudo o que Arshavin e companhia precisam para rematar matematicamente o apuramento. A República Checa terá mais bola e menos espaços frente aos gregos, um duelo que se irá decidir por detalhes e que definirá, quase seguramente, o segundo apurado.
No jogo de abertura do Euro 2012 repetiu-se a velha sensação de que os primeiros 90 minutos de uma prova deste calibre são sempre menos do que se espera. Nem polacos, nem gregos souberam apresentar um grande futebol e apesar da polémica e da emoção, que não faltou em ambos casos, o empate sempre pareceu o resultado inevitável.
Ao minuto 92 o selecionador polaco, Francisek Smuda, preparou a sua terceira substituição.
Faltava um minuto, o jogador nunca chegou a entrar mas a mensagem era clara. A Polónia, anfitriã da prova, contentava-se com um empate contra uma equipa que chegou ao intervalo a perder por 1-0 e com 10 jogadores. Uma realidade que explica bem o que é a selecção polaca e o que foi este primeiro jogo de um Europeu que tem, neste grupo, o dia mais relaxado.
No final dos 90 minutos o empate, que sempre pareceu inevitável, mesmo nos momentos de maior drama, respeita bem o que se viveu. A Grécia, selecção que nos ensinou que nunca sabem desistir, podia ter marcado o segundo golo, de penalty. Seria uma reviravolta épica, digna de uma epopeia de Homero. Mas Karagounis, que até foi o melhor em campo, não tem madeira de herói clássico e o remate, fraco e fácil de parar, acabou nas mãos do guarda-redes suplente polaco, Tyton. Foi o momento em que os adeptos da equipa da casa começaram a pensar como seu seleccionador e a dar por bom um empate. Mas à meia-hora de jogo muitos seguramente tinham outra ideia em mente.
A Polónia entrou no jogo e na prova como se espera de um anfitrião, com a vontade de comer o Mundo e dar uma alegria aos seus. Uma equipa ofensiva, dinâmica e com o golo na cabeça. As oportunidades foram-se sucedende, especialmente graças à conexão de Dormtund. Pieszeck, Blaszczykowski e Lewandowski foram um quebra-cabeças constante para os gregos e deram velocidade e profundidade ao jogo polaco. Inevitavelmente o golo inaugural teria de passar pelos seus pés e depois de vários erros da defesa grega a bola encontrou a cabeça do avançado do Dortmund e mergulhou nas redes de Chalkias.
Estavam decorridos 17 minutos e o que se viu nos lances seguintes parecia indicar que a Grécia, onde Samaras andava desaparecido, Ninis entregue a si mesmo e toda a equipa á procura de Karagounis, não iria aguentar a pressão. Mas não, como sempre acontece no futebol, nem tudo o que parece, é.
Os gregos decidiram renegar do seu passado recente e pegaram na bola. Foram donos da possessão e começaram a respirar e a mudar o ritmo de jogo a seu belo prazer. As investidas da cavalaria polaca foram-se tornando cada vez mais raras e o tabuleiro equilibrou-se uma vez mais. Até aparecer Velasco Carballo. O árbitro espanhol já tinha mostrado amarelo a Papastatophoulos por um lance fortuito e a dois minutos do fim da primeira parte acabou por sacar pela segunda vez da cartolina, expulsando o central grego. A Grécia, que já tinha perdido por lesão o outro central titular, Papadopoulos, parecia condenada à derrota. Terrenos onde os helénicos se movem bastante bem.
No segundo tempo Fernando Santos abdicou do talentoso mas inconsequente Ninis pelo mais pragmático Salpingidis e num lance confuso, com algumas culpas para Sczcesny, a bola acabou nos pés de Salpingidis e inevitável terminou nas redes polacas. Os gregos estavam melhores e demonstraram-no pouco depois com um passe brilhante de Fourtunis que obrigou o guarda-redes do Arsenal a derrubar de novo a Salpingidis. Penalty, vermelho directo e direito à épica. O falhanço de Karagounis matou o jogo.
Ambas as equipas entenderam que um ponto é melhor que nenhum e entraram nessa espiral de auto-controlo que se costuma ver nos arranques de provas curtas e tão exigentes. O cansaço dos gregos e a falta de ousadia (e coragem) dos polacos dictou o ritmo dos vinte minutos finais e transformou o empate em algo profundamente previsivel.
A caminho da segunda ronda, os polacos sabem que o duelo com a Rússia será determinante no seu sonho em alcançar os Quartos de Final. A Grécia sobreviveu a um primeiro round duro e disputará, contra os checos, essa opção de ser a equipa surpresa em carimbar o apuramento. O guião esperado cumpriu-se, o jogo não foi demasiado exigente com os corações dos adeptos que começam agora a sofrer a sua overdose diária de emoção e, no final de contas, fica tudo aberto para os próximos capítulos!
Arranca hoje o Campeonato da Europa de Futebol, com um Polónia vs Grécia a abrir.
O Em Jogo começa também a sua cobertura diária ao torneio com análises a todos os jogos, aos jogadores, técnicos, árbitros, golos e momentos que vão marcar este torneio que se prolonga até o dia 1 de Julho na Polónia e Ucrânia.
A programação será dedicada de forma exclusiva - salvo algum caso extraordinário - ao torneio da UEFA e também podem (e devem) seguir uma outra abordagem ao Euro no site Futebol Magazine.
Que comece o espectáculo!
Paulo Bento não surpreendeu muito com a sua convocatória e Portugal será, na Ucrânia, um fiel espelho do que foi na fase de qualificação. Uma selecção desiquilibrada da cabeça aos pés, sem figuras individuais capazes de acompanhar o jogo pelas alas de Nani e Cristiano Ronaldo e que terá no duelo contra duas das três melhores equipas em prova, o teste de fogo mais claro que alguma versão da equipa das Quinas teve. Ao contrário de 2000, onde Inglaterra e Alemanha eram apenas grandes de nome, futebolisticamente esta equipa portuguesa não está ao nivel de holandeses e alemães. O apuramento, impossível, seria o milagre que Portugal nunca logrou verdadeiramente na sua história. Voltar para casa cedo parece inevitável, Cristiano Ronaldo e os restantes 22 tentarão provar que o futebol ainda é uma caixa de surpresas.
Contar com o jogador mais em forma do futebol mundial é um luxo com que poucos podem contar.
Mas Cristiano Ronaldo chegou em 2008 no mesmo estado de graça - mais ainda, talvez, pela conquista da Champions League - e com uma lesão inoportuna no pé e no torneio na Áustria e Suiça foi inconsequente ao ponto de nem ter sido o melhor do conjunto luso. Se o corpo o respeitar, Ronaldo quererá trazer para Portugal a mesma fome de titulos que começa a saciar em Madrid nesse duelo invisivel que mantém com Messi sobre quem é o melhor jogador do Mundo. O Europeu, uma vez mais, será o seu palco de espectáculo.
Como se viu no último Mundial, não basta ter Ronaldo para que Portugal repita os êxitos logrados na primeira metade da década passada. O forte da equipa lusa, desde 2000, foi o seu colectivo e é aí que estão os maiores problemas, agravados pela gestão de Paulo Bento. O seleccionador nacional utilizou a convocatória final para pagar os favores que deve ao grupo de empresários que estão por detrás da sua nomeação como treinador principal da equipa nacional portuguesa. Uma prática habitual na América Latina, que já levou até um seleccionador brasileiro a ser destituído e processado, mas que em Portugal, sob a benção de Jorge Mendes, passa ao lado com pretextos futebolisticos incoerentes.
Em casa ficaram Quim, Nélson, Eliseu, Hugo Vieira, João Tomás, Manuel Fernandes e Nuno André Coelho, todos eles com uma mais que digna temporada ás costas. No seu lugar chegam à Ucrânia Ruben Micael (inconsequente no Zaragoza), Eduardo (não utilizado por Jesus durante quase toda a época), Nélson Oliveira (nenhum golo apontado em provas de alto nível), Miguel Lopes (despontou apenas nas últimas doze jornadas) e Varela, Rolando e Ricardo Costa, todos eles autores de épocas bastante irregulares.
Claro que o facto da esmagadora maioria destes jogadores serem representados pela Gestifute seguramente que nada tem a ver com as opções de Bento, isto apesar de Hugo Viana, jogador com uma das melhores temporadas do lote de seleccionáveis só ter chegado à equipa depois da lesão de Carlos Martins, e, talvez pior ainda, depois do pretexto dado por Bento ser a sua total falta de capacidade para se adaptar ao jogo da selecção. Paulo Bento sabe que o seu onze base está definido e que, portanto, os restantes doze elementos serão mais figuras de corpo presente do que alternativas válidas. Optou por criar um grupo à sua medida em vez de escolher os melhores ou os mais aptos. É uma aposta pessoal e tem todo o direito em optar por ela, para isso é o seleccionador. Se o resultado final não acompanhar, a responsabilidade também será sua.
Portugal chega à Ucrânia fiel ao seu 4-3-3 e a um jogo sem criatividade e transições rápidas.
Ronaldo e Nani pelas alas serão os alvos preferenciais dos lançamentos largos de Meireles e Moutinho, ficando a dúvida se jogará Hugo Viana no meio do miolo ou se o técnico opta por uma versão mais defensiva com Miguel Veloso ou até Custódio como elementos mais recuados do triângulo. No centro de ataque a mobilidade de Hélder Postiga pode ganhar metros ao jogo mais fisico e estático de Hugo Almeida, especialmente no duelo inaugural contra uma Alemanha que conta com dois centrais imponentes.
Na defesa está, curiosamente, o sector mais coerente do projecto Paulo Bento. Pepe e Bruno Alves serão a dupla titular, como tem sucedido no último ano, e Fábio Coentrão e João Pereira os responsáveis pelas alas. O defesa do Real Madrid teve uma época mediana, perdeu o combustivel que o fez destacar no último Mundial precisamente mas dentro do leque de opções em Portugal continua a ser a escolha mais óbvia. Com João Pereira o seleccionador resolveu o problema com a não-convocatória crónica de Bosingwa e a opção por deixar Nélson de fora. O defesa do Sporting, competente quanto baste, terá pela frente Podolski, Rommedahl e Robben, tarefa nada fácil. Nas redes o seleccionador optou pelo seu protegido, Rui Patricio, importante na campanha europeia do Sporting mas ainda verde para os grandes torneios internacionais. Com Eduardo sem jogos e Beto como figura secundária de favor, ninguém questiona a titularidade do jovem guardião.
Se o onze base e as poucas opções são óbvias, o destino de Portugal não parece alentador.
A comunicação social relembrará seguramente os casos de 1966 e 2000, a única vez na história em que Portugal se encontrou em grupos com rivais complicados. Se em 1966 a lesão de Pelé fez muito pela má performance do Brasil, em 2000 a Alemanha e Inglaterra foram tão decepcionantes que nenhuma delas seguiu em frente. E então falava-se de duas gerações únicas na história do futebol português. Noutros casos, como 1986, 1996, 2002, 2010 ou 2008, a performance lusa passou do mediocre ao satisfaz e entre 1984, 2004 e 2006 encontramos os outros episódios em que Portugal pôde sentir-se orgulho da sua selecção. Mas em nenhum deles a equipa das Quinas teve de arrancar com dois rivais de este calibre. Isto, sem esquecer, que a equipa de Bento terminou a fase de grupos atrás da Dinamarca, o terceiro adversário na primeira fase.
Sendo assim o normal é pensar, se o futebol fosse lógica pura, que Portugal seria o último do grupo. A lógica dos resultados prévios, a falta de capacidade de gerar jogo convincente e entusiasmante e a profunda debilidade do plantel de 23 não convida a sonhar muito alto. Em 2008 e 2010, já com Portugal a entrar numa profunda fase de decadência, um grupo acessivel permitiu passar à fase seguinte, onde a selecção acabou eliminada de imediato por Alemanha e Espanha. Se é certo que historicamente o futebol português cresceu nas grandes e agónicas noites de glória, não é menos certo que este muro parece ser realmente alto demais para trepar.
E isso significa realmente o quê? O azar do sorteio de uns é a sorte de outros e Portugal viveu durante 12 anos o lado afortunado das bolinhas amarelas. Ser eliminada num grupo desta qualidade não tem nenhum inconveniente a médio prazo se o futebol português tivesse um plano de futuro estável. A França caiu nos últimos dois torneios na primeira fase e não é por isso que deixa de ser uma potência do futebol mundial. Portugal já não está ao nivel de favoritos que viveu entre 2000 e 2008 mas continua a ser uma selecção que marca presenças em grandes eventos, algo que contraria o estado real de um país que até 1996 vivia os Europeus e Mundiais sempre desde casa. É pena que a presença dos vice-campeões do Mundo de sub20 seja reduzida a um elemento, que os interesses pessoais de um grupo que gere o futebol da Federação falem mais alto que uma ideia de futebol e que Portugal não tenha aprendido absolutamente nada dos exemplos espanhóis, alemães e franceses. Mas vencer ou perder um Europeu, como provou a Dinamarca ou a Grécia, não faz uma potência futebolistica. Sem nunca ter ganho nada, Portugal foi um exemplo de formação e de longevidade da sua melhor geração. Agora esqueceu-se de como se fazem as coisas e chegar cedo da Ucrânia pode servir como o despertar emocional que tanta falta parece fazer ao futebol português.
Á partida a Ucrânia é, da dupla organizadora, a que tem mais condições para sonhar com um lugar nos Quartos de Final. Mas o grupo D é traiçoeiro, nem que seja pela profunda regeneração que atravessam as seleções francesa e inglesa, dentro e fora de campo, que transforma o seu histórico papel de favoritos numa incógnita. Os suecos, equipa que tradicionalmente se fica pela primeira fase, poderão acabar por ser o juiz do apuramento nos seus três duelos com os favoritos.
A escola do Dynamo Kiev, o sucesso recento do Shaktar Donetsk e o crescimento sustentado da liga ucraniana ajudam a devolver a ex-república soviética à elite do futebol internacional. Mas depois de falhar o Mundial da África do Sul e o Europeu de 2008, fica a sensação que os ucranianos teriam muitos problemas em viajar ao seu próprio torneio não tivessem garantida à partida a vaga de anfitriões.
Numa selecção onde ainda joga Andrey Shevchenko, a anos-luz do jogador que foi, pode-se esperar de tudo e há pouca gente que aposte dinheiro na continuidade dos ucranianos no torneio passada a primeira fase. Oleg Blokhin, talvez o melhor jogador ucraniano da história, não tem um grande curriculum como técnico principal e o seu trabalho como seleccionador passa, sobretudo, por manter um equilíbrio entre a velha guarda de Kiev e os novos nomes que começam a despontar em Donetsk, uma relação que nem sempre tem sido fácil.
A titularidade quase garantida de Shevchenko é quase mais um problema do que uma solução, sendo que é dificil ver ao técnico alinhar ao mesmo tempo o Ballon D´Or com Artem Milievsky, o mais talentoso jogador do lote de convocados, mas um jogador sem a disciplina táctica que se vai exigir a uma equipa que terá de defender mais do que atacar e que já tem no seu histórico capitão uma figura fora do baralho defensivo. Blokhin tem baixas sérias na defesa, do guardião Pyatov ao defesa Chygrinski e terá de apostar na juventude de Koval e numa linha composta por Kucher, Rakitsky, Mikhailyk e Shevchuk. No meio-campo a experiência de Tymoschenko, jogador do Bayern Munchen, será fundamental para dar equilíbrio a um desenho por onde se vão mover Alyev, Rotan, Yarmolenko, Garsmah ou Gusev, um quarteto atrás do duo ofensivo que será sempre Shevchenko+um, quem sabe Voronin, longe dos seus melhores dias.
Sem ter o seu melhor onze e com uma profundidade de banco bastante ligeira, os ucranianos sabem que a pressão de ser anfitriões é outro contra numa lista onde há poucos prós. Abrir o torneio com a Suécia, num duelo que pode valer 3 pontos fundamentais para a contagem final, é uma das suas poucas armas, sabendo que qualquer resultado do França-Inglaterra obrigará a uma das selecções jogar o tudo por tudo no duelo com os homens da casa.
A chegada de Laurent Blanc ao leme da selecção francesa foi a lufada de ar fresco que o futebol gaulês necessitava.
Depois de revolucionar Bordeaux, o técnico soube realizar uma limpeza cirúrgica após a hecatombe do Mundial da África do Sul e os grave problemas disciplinares que se seguiram. Separou o trigo do joio, apostou entretanto numa nova vaga de talentos que, apesar de não estarem à altura das duas gerações douradas pretéritas, acabam por dar aos Bleus armas suficientes para ser a surpresa da prova.
Apostando num 4-3-2-1 equilibrado tacticamente, com Benzema, Ribery e Nasri como principais interpretes ofensivos, os franceses chegam à Ucrânia desejosos de reencontrar-se com o bom jogo e os melhores resultados. O grupo é traiçoeiro, especialmente o arranque com a Inglaterra, uma selecção com quem os franceses têm um historial misto cheio de desencontros. Mas Blanc confia que a metamorfose espiritual que foi exercendo nos últimos dois anos faça efeito.
Ribery e Benzema chegam inspirados depois de um ano ao mais alto nível internacional. Nasri acabou de sagrar-se campeão inglês, apesar de não ter tido todo o protagonismo que queria. E Jeremy Menez e Olivier Giroud vêm de bons anos na liga doméstica. Eles serão os responsáveis de fazer a diferença no ataque mas, como bom central, Blanc soube construir a sua equipa detrás para a frente partindo de um dos melhores guarda-redes da actualidade, Hugo Lloris, para um eixo defensivo onde se movem Mexés, Evra, Rami ou Clichy. A baixa por lesão de Sagna e a doença de Abidal são um duro golpe mas em Reveillere ou Debuchy, o técnico tem alternativas sólidas. O meio-campo, centro nevrálgico onde o futebol francês sempre construiu a sua força, carece de um lider inspirador. Nasri será o criativo de serviço, salvo se Blanc aposta definitivamente na controversa figura de Valbuena. Sem eles a França tem um grande problema criativo mas não pode dizer o mesmo em estabilidade defensiva. Yann Mvilla, Yohan Cabaye, Alou Diarra, Marvin Martin e Blaise Matuidi vêm de excelentes épocas e serão o pulmão da equipa gaulesa que pode aspirar seriamente a romper os prognósticos e apresentar-se como séria alternativa ao trio de favoritos.
Jogar contra os homens da casa é sempre um karma para qualquer selecção, especialmente se não chega a uma prova como favorita. Mas os suecos sabem bem o que isso é. Em 2000 defrontaram a Bélgica e sofreram uma derrota que acabou de imediato com as suas aspirações. E em 1992, como homens da casa, sentiram na pele como um público entusiástico pode fazer a diferença.
Sabendo disso e assumindo que a sua equipa funciona melhor quando Zlatan Ibrahimovic decide aparecer, o seleccionador nórdico Erik Hamren já deixou transparecer a público que é consciente das poucas probabilidades dos suecos de lograr um brilharete. Qualificados como o melhor segundo depois de uma vitória surpreendente diante da Holanda, o colectivo nórdico não vive uma das suas eras mais apaixonantes mas ainda tem individualidades capazes de fazer a diferença. Ibrahimovic, por cima de todas, ele que sofreu uma lesão fatídica no primeiro jogo disputado com a Espanha em 2008 que acabou por fazer toda a diferença para a campanha sueca. Mas o avançado do Milan conta com o apoio de Kallstrom, Willhelmsson, Svensson, Isaksson e Elmander, tudo figuras de uma velha guarda que vem a caminho do seu último torneio, o quarto europeu consecutivo para os suecos. Sem grandes novidades a acrescentar, salvo o bom jogo colectivo de Bajrami e Larsson no meio-campo e a confirmação em Moscovo do talento de Wernbloom, os suecos são á priori uma das selecções mais acessíveis das dezasseis em prova. O que não significa que tenham dito a última palavra.
Eleger o seleccionador para um grande torneio internacional a um mês de que a bola comece a rolar é talvez a pior forma de se preparar um Europeu. Mas a FA tem o seu método tradicional de trabalho e depois da saída de Fabio Capello e dos problemas com a contratação de Harry Redknapp, cabe a Roy Hodgson liderar o exército dos Pross. Não será tarefa fácil.
Nem é o ex-técnico do West Bromwich um treinador que inspire confiança nem esta é, nem de longe nem de perto, a mais forte selecção inglesa do futebol actual. Jack Whilshire, a melhor descoberta britânica dos últimos quatro anos, está de fora do torneio. Frank Lampard, herói finalmente em Londres, depois de vencer a sua primeira Champions League com o Chelsea, também. O barómetro Barry e o lider Ferdinand sofreram lesoes suficientes para que Hogdson apostasse por outras figuras. E Wayne Rooney, génio e figura, será convocado para jogar o terceiro e decisivo encontro. E o que siga, se é que segue algo.
Apesar de ter resolvido o histórico problema das redes, com um Joe Hart em excelente momento de forma, esta Inglaterra continua a viver do trauma de uma Geração de Ouro que nunca o foi mas que ainda é fantasma que paira sobre o onze inicial. Hodgson terá problemas no balneário se optar por deixar de fora John Terry de fora e apostar numa dupla Cahill-Lescott. O mesmo se Gerrard der lugar no onze a Downing ou Young. O mais provável é os veteranos sobreviventes sejam titulares fixos, com os crónicos problemas de jogo que têm gerado. Os problemas físicos de Scott Parker, a falta de um homem golo inspirado e de um médio criativo em forma são puzzles para os quais Hodgson tem pouco tempo para resolver naquele que será, agora sim, o último torneio de uma velha guarda que caminha lentamente para o seu ocaso.
O Em Jogo aposta:
1º França
2º Ucrânia
É preciso recuar até 1974 para descobrir a última equipa europeia que conseguiu vencer de forma consecutiva um Europeu e um Mundial. Os espanhóis estão a cinco jogos de fazer história. Se à Alemanha de Beckenbauer parou Panenka e o seu penalty, à Espanha de Xavi e companhia vão levar a exame um trio de equipas sem nada a perder e com vista a conseguir um lugar imortal na história, derrubar a super-campeã. Italianos, croatas e irlandeses estão claramente num segundo plano futebolístico mas a motivação de seguir em frente será maior do que nunca e o equilíbrio entre as três selecções pode ditar muitas surpresas.
Não chegam com a frescura fisica e mental de outras vezes, mas quem se atreve a apostar contra a Espanha?
Depois de vencer o Mundial de 2010, perdendo o jogo inicial (algo inédito), apontando apenas quatro golos em quatro jogos na fase a eliminar (também inédito), Espanha entrou em crise existencial. Perdeu de forma estrepitosa amigáveis com várias selecções, venceu um grupo acessível sofrendo até aos últimos minutos na Lituânia e Escócia, sobretudo, e afronta agora um último desafio para uma geração que se despede. A Vicente del Bosque caberá realizar essa transição da forma mais tranquila possível mas o clima quente entre jogadores do Real Madrid e Barcelona, o desgaste físico e emocional dos blaugranas e a afirmação noutras paragens de novas figuras, não só tornam a Espanha uma equipa mais forte como, ironicamente, também a fazem mais débil.
Se parece evidente que o estilo é inegociável, também é certo que a necessidade de novas variantes resulta da metamorfose do onze titular. Llorente é o avançado referência mas a sua presença em campo exige outro jogo. Apostar num 4-6-0, como já fez em alguns amigáveis, devolve o ideário táctico de 2008, com os "bajitos" a controlar o jogo, com mais protagonismo para Silva e Mata e o apoio de Xabi Alonso, Busquets, Xavi e Iniesta. E ainda há Cazorla, Fabregas, Torres...
No papel os espanhóis parecem invencíveis mas atrás, a defesa sem Puyol e sem um lateral-esquerdo fiável (agora que Arbeloa se mutará para a direita com Ramos e Pique no miolo central), parece mais frágil do que nunca. O problema é saber roubar a bola e aproveitar os espaços que vão ficar atrás do carrossel da Roja, uma equipa de tracção à frente que lida muito mal com equipas que, tal como com o Barcelona, se negam a jogar de corpo e corpo e esperam a sua oportunidade. Foi assim no Mundial com Portugal, Paraguai e Holanda e foi assim na fase de qualificação e nos amigáveis que perderam. Contra croatas, irlandeses e italianos é difícil pensar noutro cenário, pelo que a paciência será a grande arma dos espanhóis para seguir em frente e fazer história, outra vez!
A Itália de Cesare Prandelli tem a clara ambição de ser uma "pequena Espanha" mas no jogo inaugural, com os campeões em titulo, é fácil adivinhar que a Azzurra vai ser tão italiana como sempre. E com o enésimo estágio caótico, depois de mais uma polémica judicial à volta dos azzurri, que se pensar? A Itália é uma equipa que se dá mal com os Europeus mas bem quando chega a uma prova contestada por escândalos domésticos. Foi assim em 1982, foi assim em 2006 e agora repete-se o mesmo cenário.
Criscito abandonou a concentração, Bonucci e Buffon vivem debaixo da sombra da suspeita e entre os desejos de Mario Monti, a resignação do seleccionador e a raiva dos adeptos, tudo pode suceder.
No plantel de jogadores que aterram na Polónia há muitas variantes da equipa que fez uma péssima figura no último Mundial mas é sobretudo a condição física de elementos nucleares (Pirlo, Di Natale, Marchisio) que realmente medirá o valor deste novo projecto. Prandelli exibiu-se em Roma como um treinador de ideias e de profundo sentido táctico e aliando a sua experiência aos novos rostos que vai incorporando ao conjunto italiano pode-se esperar uma equipa atractiva da que se pode questionar, de momento, a sua real fiabilidade.
Sem um goleador puro - um ataque com Di Natale, Balotelli e Cassano não é um ataque demolidor - o jogo italiano procurará sobretudo explorar a sua riqueza defensiva (Buffon volta, talvez para o seu último torneio, e Chellini, Bonucci, Maggio, Bochetti e Balzaretti são opções de grande quilate) e, como sucedeu com a campeã Juventus, procurar Andrea Pirlo como o seu eixo nuclear. O veterano médio, fisicamente "ausente" na sua melhor versão no último Mundial, será a vara de medir deste conjunto. Ao seu lado Marchisio, Giovinco, Nocerino, De Rossi e Montolivo trazem criatividade e pausa, armas de Prandelli para por em prática o seu estilo de jogo. O facto de ter apostado claramente na juventude nesta convocatória anuncia uma nova era do futebol italiano, uma mutação que terá de resistir aos resultados, sejam quais sejam, para triunfar a longo prazo.
Slaven Bilic já anunciou que este é o seu canto do cisne ao leme dos croatas.
Chegar ao torneio, depois de eliminar a Turquia num play-off onde foi claramente superior, permitiu-lhe cumprir os objectivos mínimos. Passar à seguinte fase, como logrou em 2008, um objectivo realista mas que dependerá, sobretudo, do nível de implicação de uma selecção que oscila entre as grandes noites e as tardes mais desastrosas com uma assiduidade assombrosa. O jogo técnico da Croácia continua a ser um dos seus principais emblemas e Luka Modric o seu lider espiritual. O médio do Tottenham não viveu este ano uma época tão brilhante mas continua a ser o elemento à volta de qual Bilic confia em ultrapassar os dificeis obstáculos dos favoritos Espanha e Itália.
Mas nesta geração croata low profile, longe das suas mais brilhantes épocas, há muitos jogadores capazes de proteger Modric e dar asas aos sonhos dos croatas. Perisic é, actualmente, um dos médios mais sedutores do futebol europeu. Jelavic realizou uma segunda volta memorável em Goodison Park. A experiência de Srna, Krankjar, Olic, Rakitic, Pranjic e Corluka um plus de qualidade que fazem da Croácia uma séria candidata a ser, uma vez mais, a surpresa da prova.
Em 2008 a classe do jogo dos axadrezados permitiu-lhes sonhar mais alto do que nunca mas o choque de realidade provocou uma pequena metamorfose a curto prazo. Conscientes dessa experiência, Bilic e os seus jogadores sabem que têm de entrar na Polónia com os pés no chão, sabendo que partem desde atrás para dessa forma surpreenderem e quebrarem os mais cinzentos prognósticos.
Quando Giovanni Trapatonni aterrou na ilha de esmeralda, os mais cinicos anunciaram a lenta destruição do que restava do futebol irlandês.
Mas a "Velha Raposa" italiana fez o que sabe fazer melhor e mudou por completo o rosto dos irlandeses, ausentes dos grandes torneios desde 2002. A mão de Henry impediu-os de chegar á África do Sul mas ninguém foi capaz de deter a sua marcha até à Polónia.
É a última oportunidade para a velha geração de Shay Given, Damien Duff, John O´Shea e Robbie Keane. Mas o grande mérito de Trapattoni foi conjugar essa geração com novos talentos que fazem parte do colorido nacional da Premier League, desde os golos do gigante Shane Long ao talento inato de James MacClean, a grande surpresa na lista de convocados depois de só ter despontado na equipa titular do Sunderland esta época. O jovem extremo é um dos ex-líbris dos irlandeses que chegam a esta prova como em 1988, num grupo complexo e sem qualquer pressão. Aí começou a desenhar-se a lenda do futebol irlandês, habituada a superar os mais negros cenários, de tal forma que sempre que participou num grande torneio internacional, a República da Irlanda logrou passar da fase de grupos. Foi assim no Euro 88 e nos Mundiais de 90, 94 e 2002.
Um aviso sério para a concorrência que sabe que na Irlanda encontrará uma equipa tacticamente muito organizada, apostada em aproveitar ao máximo as poucas oportunidades que vai gerar e apoiada, emocionalmente, no grito de guerra dos seus velhos heróis e na vontade de comer o Mundo dos seus novos legionários.
O Em Jogo aposta:
1º Espanha
2º Itália
Sucede em todos os torneios e a maior parte das vezes com algumas surpresas. Em 2008 ficou a França pelo caminho. Em 2004 foi a Alemanha e quatro anos antes ingleses e germânicos. Tal como sucedeu no Euro 2004, Holanda e Alemanha voltam a medir-se. Mas agora os papeis invertem-se. São, com a campeã em titulo, os máximos favoritos ao ceptro europeu o que não deixa em bom lugar Portugal e uma Dinamarca que já venceu o grupo de apuramento ao conjunto luso. Três campeões em titulo, um eterno aspirante, as máximas figuras individuais do futebol europeu e seis jogos de cortar a respiração.
Neste carro desportivo de alta gama só cabem dois passageiros. Há quem volte a pé para casa. Quem, é o dilema.
A Dinamarca chega a este Europeu em processo de renovação. O mítico Morten Olsen, figura chave da Danish Dynamite dos anos 80, sabe que se há selecção em prova de quem nada espera algo, depois do sorteio da fase final, é da sua. E pretende jogar com isso a favor. Se no último Mundial os dinamarqueses defrontaram a Holanda, sem mostrar uma grande inferioridade, e se na fase de grupos bateram Portugal, outro rival directo, cabe pensar que a distância entre os dinamarqueses e o apuramento não é tão grande como se possa imaginar. Mas é certo que desde 1992, quando vieram de férias para sagrar-se campeões da Europa, os dinamarqueses apenas se apuraram para a seguinte fase em Portugal, sendo eliminados imediatamente pela República Checa. Um cenário que se adequa ao perfil dos nórdicos, equipa sem figuras mas com um forte sentido colectivo, liderada pela experiência de Thomas Sorensen e pelo talento inato de Christian Eriksen, a mais flamante promessa do futebol dinamarquês desde os dias dos irmãos Laudrup.
Entre os dois movem-se jogadores que vêm de uma boa época - casos de Niklas Bentner, Simon Kjaer, Daniel Agger, Dennis Rommedahl e Christian Poulsen - e que funcionam bem em conjunto, num futebol bastante pragmático, onde o jogo dos laterais (Wass e Jacobsen) ajuda a dar velocidade e abertura de campo a um ataque que se move bem nas bolas áreas e é hábil na reorganização do meio-campo. Os dinamarqueses são uma das equipas com maior low profile da prova e no entanto um dos rivais mais difíceis de bater em 90 minutos onde a pressão estará sempre do lado do rival. O jogo inaugural, contra a Holanda, pode ditar o rumo que a prova tomará para a armada nórdica.
A Holanda chegou à África do Sul sem ser favorita e saiu da final com o sabor ágrio de ter perdido um titulo mundial por culpa própria.
Os holandeses fizeram um torneio pragmático e no último jogo preferiram jogar pouco e esperar muito, demasiado. A Bert van Maarjwick a jogada não saiu perfeita mas deu-lhe pistas que seguramente irá seguir neste torneio. Da Holanda não se espera o dilúvio ofensivo da fase de qualificação e sim uma versão mais cautelosa, expectante, com a bola nos pés mas sem desgastar-se em demasia, procurando o espaço e a velocidade de Arjen Robben e Robbie van Persie, dois jogadores que chegam ao torneio em estado de graça.
Atrás desse duo de bailarinos estão Wesley Sneijder, Dirk Kuyt, Rafael van der Vaart, Mark van Bommell e Nigel de Jong, o mesmo esqueleto da campanha da África do Sul, o verdadeiro segredo do sucesso desta "Laranja Mecânica" mas pouco espectacular. Resta saber como se comportará uma linha defensiva que foi no Mundial exemplar, apesar da ausência de nomes de vulto e, sobretudo, de quanto tempo nas pernas vão ter os jogadores mais jovens (e mais em forma) que chegam ao torneio sob a sombra dos titularissimos consagrados. Strootman, de Jong, Janssen e Huntelaar são alguns dos jogadores de maior destaque da época europeia mas terão o duplo trabalho de convencer ao seleccionador que podem jogar lado a lado com o seu bloco bem definido. Essa profundidade de banco pode ser uma vantagem a longo prazo mas nos dois primeiros duelos - com Dinamarca e Alemanha - será menos influente do que saber o estado real de forma de alguns dos titulares absolutos.
Ficou no último Mundial a sensação que, apesar de cair nas meias-finais, a selecção mais espectacular tinha sido a Alemanha de Low. O técnico que herdou o projecto de Klinsmann soube levar uma versão menor da Mannschaft à final em 2008. Agora que chega com aquela que é seguramente a sua melhor geração em 30 anos, o titulo é o objectivo único.
Ozil, Muller, Schweinsteiger, Gomez, Kroos, Gotze, Klose, Khedira, Neuer, Boateng, Lahm, Reus, Hummels ou os irmãos Bender são os nomes próprios deste projecto, uma conjugação de talento individual que mais nenhuma selecção no torneio é capaz de reunir. Não só o projecto de renovação geracional está completo como a própria metamorfose táctica operada por Low parece estar definitivamente assimilada. Esta Alemanha joga com a bola nos pés, joga utilizando o espaço e, sobretudo, exerce a sua autoridade do primeiro ao último instante. Tanta matéria prima dá possibilidades a explorar outras variantes mas é sobretudo a eficácia do onze titular que os alemães esperam que seja decisiva para superar nos dois primeiros jogos rivais temíveis como são Portugal e Holanda.
Low confiará nos seus mas também já demonstrou ser um técnico que privilegia sempre quem está em melhor forma. Schweinsteiger e Muller são, portanto, o seu maior enigma para acompanhar a Khedira, Ozil, Podolski e Gomez na linha de ataque. Toni Kroos e Mario Gotze são as alternativas naturais, Marco Reus e Lars Bender as mais surpreendentes, mas qualquer um dois seis jogadores mantém alto o nível do jogo de transição e posse que os germânicos têm sabido aliar tão bem.
Atrás do sexteto ofensivo - e no caso alemão até o médio mais recuado é uma arma de ataque - está o hipotético ponto débil da Mannschaft. Mas, mesmo aí, a melhoria de Neuer, Boateng, Hummels, Badstuber e Howedes tem sido clara no último ano e meio e a presença de veteranos como Lahm e Meerstzacker garante a estabilidade emocional necessária para aguentar com a pressão de ser um dos máximos favoritos. Os alemães não vencem um troféu há 16 anos mas depois dessa noite em Londres já estiveram em duas finais e duas semi-finais com versões menos estéticas e aclamadas que esta. Olhar para esta equipa e não imaginar o futuro campeão da Europa é um exercício difícil de fazer mas algo que os rivais da Alemanha e o seu próprio seleccionador terão de ser capazes de fazer.
O Em Jogo aposta em:
1º Alemanha
2º Holanda
Organizar um Europeu em dois países que não são candidatos claros ao trofeu tem destas coisas. Um sorteio que nos proporciona talvez o grupo mais acessível e equilibrado da história dos Europeus, sem um claro favorito para seguir para os Quartos de Final. Aberto a tudo e todos, aos sonhos dos locais e às aspirações dos gregos, à ambição russa e ao silencioso projecto checo, nunca foi tão dificil imaginar o que se poderá passar no grupo que abre o torneio.
Em 2008 a Áustria e a Suiça defrontaram Alemanha e Portugal. Em 2000 à Bélgica calhou a fava chamada Itália.
Os polacos vivem ainda num estado de ansiedade mista. Por um lado agradecem a um sorteio que lhes evitou um dos tubarões do futebol do Velho Continente, como Alemanha, Itália, França ou Inglaterra, ou favoritos crónicos como Espanha, Holanda e até mesmo Portugal. Mas, por outro lado, há uma sensação de desconfiança profunda. Não seguir em frente, diante dos seus, num grupo com Grécia, Rússia e República Checa mais se parece com um presente envenenado. E os polacos estão habituados a ser enganados.
Fransizcec Smuda sabe-o tão bem como qualquer outro e o jogo inaugural com a Grécia será a verdadeira vara de medir de uma selecção que nos últimos dez anos apenas logrou participar em dois Mundiais (2002 e 2006, sem deixar boa imagem) e o último Europeu (último de grupo) que dista muito da imagem de potência histórica que se forjou nos anos 70. Esta Polónia é, a par da Áustria de 2008, o anfitrião mais dócil da história e é contra esse quase fatalismo que os polacos irão jogar. O apoio do público será massivo e os homens da casa contam com um dianteiro inspirado como Lewandowski para abrir as fechadas defesas de gregos e checos. Mas olhando para os eleitos de Smuda e fica a clara sensação de que falta algo mais para que a Polónia sonhe em ir mais longe. Apesar do talento evidente de Szczesny e Piszczek, há poucas alternativas para montar um onze de alto nível e muitos suspeitam - e não sem razão - que dificilmente a Polónia marcaria presença no torneio se não jogassem em casa.
Do outro lado do espelho vive a Grécia. Se há qualquer selecção que sabe o que é contrariar as fatalidades históricas, essa é a Grécia.
Seguramente que o projecto de Fernando Santos não é o mesmo de Otto Rehagel. Mas entretanto não mudaram muitos dos jogadores, grande parte da filosofia de jogo é a mesma e, sobretudo, o que continua igual é a fortíssima resistência mental dos helénicos, que venceram um grupo frente a uma superior Croácia mantendo-se fiel ao seu ideário. A aposta no colectivo faz esquecer que à Polónia não chegam individualidades capazes de desequilibrar. Os gregos continuam com um problema na criação de jogo mas mantêm um bloco defensivo forte, apoiado no tremendo talento de Papadoupoulos, mas do meio-campo para a frente Karagounis, Salpingidis, Charisteas, Katsouranis e Samaras continuam a ser os nomes próprios. Pouco para quem quer repetir um brilharete, talvez suficiente para sonhar com outras surpresa. No estado de sitio em que vive o país, será curioso ver como o futebol, mais uma vez, pode funcionar como catarsis ou catalisador da asfixia social.
Num torneio disputado na Europa de Leste e com um grupo onde todas as equipas estão a leste da antiga cortina de ferro (apesar do posicionamento ideológico grego nunca ter entrado nessas contas por culpa de manobras de bastidores) parecia inevitável que a Rússia fosse o cabeça de cartaz moral.
Os russos chegam com legitimas aspirações de repetir o brilharete de 2008, onde alcançaram as meias-finais caindo apenas diante da Espanha. Advocaat não é Hiddink, com esse dedo de midas que sempre caracterizou o holandês, mas não deixa de ser um técnico competente e com um bom historial às costas. Vencer o grupo parece ser o objectivo mínimo dos russos e depois sonhar com ir percorrendo o leste europeu com o à vontade com que se moviam as altas dignidades soviéticas durante a Guerra Fria, terminando a marcha em Kiev. É evidente que para isso Advocaat precisa de ver a melhor versão dos magnificos jogadores que fizeram o quase milagre de 2008 possível e que, a partir daí, se entretiveram a destruir cada uma das suas carreiras individuais. Andrei Arshavin, Roman Pavluychenko, Igor Shemshov já não são os mesmos. Yuri Zhirkov já não entra nestas contas e Beretzusky e Ignatsievich contam com mais quatro duros anos nas pernas. Na convocatória russa a juventude não é a grande novidade e apesar do génio contrastado de Dzagoev e Akinfeev, poucas alternativas têm os russos de surpreender a partir do banco. Advocaat, que já anunciou que deixará a selecção para voltar ao seu PSV, preferiu rodear-se de veterania absoluta para vencer um grupo acessível e cumprir as expectativas mínimas de uma federação que tem investido muito dinheiro para preparar uma equipa que possa disputar o titulo mundial no Mundial de 2018.
Patinho feio do grupo, os checos chegam sem expectativas e ambição à Polónia. Uma situação onde se sentem, habitualmente, bastante cómodos. Foi assim em 1996 e em 2004, quando obtiveram os seus melhores resultados internacionais. A geração de Bruckner deu passo a uma nova etapa de talentos que não estão ao mesmo nível individual (Poborsky, Berger, Nedved, Koller) mas que funciona bem como colectivo. Bilek, o seleccionador, conta com um misto de veterania (Rosicky, Cech, Suchy, Baros, Kadlec) com a promessa futura de Necid, Selassie, Kolai e Rajtoral. Os checos não são favoritos para seguir em frente e arrancam com o jogo mais difícil, frente aos russos. A partir desse momento inaugural, sem pressão, tudo pode suceder e os checos são hábeis nesse departamento.
O grupo que abre o torneio no próximo dia 7 é um enigma. Os polacos jogam com o efeito casa e pouco mais, os checos com a ousadia das grandes noites e os russos e gregos, que já sabem o que é ganhar um Europeu, com o peso da história. Entre os quatro seguem em frente os adversários que todos gostariam de defrontar nos Quartos de Final. Mas quem segue provas como esta sabe bem que o que parece uma coisa no papel no relvado transforma-se totalmente.
O Em Jogo aposta
1º Rússia
2º Grécia
A partir de hoje arranca a cobertura exclusiva do Em Jogo ao próximo Europeu de Futebol.
Até ao próximo dia 2 de Julho o Euro vai ocupar a 100% a programação do Em Jogo - e parte do que poderão encontrar no Futebol Magazine, numa abordagem alternativa ao torneio - entre antevisão, análise a cada um dos jogos disputados, questões técnico-tácticas que valem a pena ser analisadas e factos e figuras que darão forma ao torneio mais importante de selecções do futebol europeu.
Como é habitual neste site o debate estará aberto a todos os leitores e procuraremos abordar de forma equitativa todos os elementos do certame, com destaque especial à performance da selecção portuguesa.
Desfrutem connosco deste mês de Junho inesquecível com o olhar perdido entre o verde da Polónia e Ucrânia e os sonhos envoltos numa bola perdida entre quarenta e quatro chuteiras e um milhão de sonhos!
Foi um ano em que se confirmaram velhas ideais do futebol português. A mais óbvia é que em Portugal a frase de Gary Liniker é facilmente adaptável a "e no final ganhamos os dragões". Num dos anos em que o FC Porto se mostrou menos seguro de si mesmo o bicampeonato logrado por Vitor Pereira deixa em evidência uma vez mais os erros dos rivais directos. Uma péssima gestão, por parte do Sporting, uma má planificação de época pelo Braga, que arrancou tarde, e claro, os ovos em diferentes cestos de um Jorge Jesus que teve o titulo na mão e deixou-o escapar das mãos. Isso num ano em que o futebol português, entretido com ampliações, esqueceu-se de pagar as contas e subiu ao terreno de jogo da forma mais vergonhosa de que há memória.
Não foi um FC Porto vintage, nem de longe nem de perto.
Mas foi uma versão profissional quando teve de ser. Em 18 pontos contra Benfica, Braga e Sporting, os dragões amealharam 16. E com isso selaram mais um titulo de campeão nacional, confirmando a hegemonia quase ditatorial que o clube do Dragão tem vindo a exercer sobre o futebol português nos últimos 30 anos. O sucesso dos azuis e brancos, visível também no espaço europeu, é um eucalipto que seca tudo à sua volta e esse domínio asfixiante que reduz a três os títulos do Sporting, um ao Boavista e sete ao Benfica, em 30 anos, é uma realidade preocupante para quem acredita, ou quer acreditar, que a Liga Sagres é realmente competitiva.
E no entanto dos titulos ganhos pelos azuis e brancos, este foi talvez o mais surpreendente porque parecia perdido muito cedo - um arranque de época penoso dentro e fora de portas, com a colaboração da gestão desportiva da SAD e da pouca vontade de um plantel que só acordou realmente em Fevereiro - para o Benfica de Jesus.
O técnico não conseguiu bater Villas-Boas em nenhum dos seus duelos com o anterior técnico portista. Mas para a Liga também foi incapaz de ganhar ao adjunto deste, Vitor Pereira, confirmando uma vez mais que o seu talento como treinador, exacerbado em 2010, continua a ser mais um problema que uma solução para o Benfica. A forma como exprimiu o plantel, deixando-o sem forças para o sprint final, repetiu o mesmo problema das últimas duas épocas (mesmo a do titulo) e deixa claro que o técnico encarnado acaba por ser o grande responsável pelo titulo azul e branco. A vantagem que o Benfica detinha em Dezembro parecia, numa liga tão pouco equilibrada como a lusa, suficiente. Não o foi. O Benfica não só perdeu o titulo em casa como voltou a viver com o bafo de um atrevido Sporting de Braga nas jornadas finais. Conseguiu um segundo lugar que sabe a pouco mas que em dinheiro vale muito. A sensação de supremacia moral dos azuis e brancos ficou, assim, imaculada, apesar da venda de Falcao ter aberto um cisma no balneário e um problema sério que Vitor Pereira teve dificuldades em resolver.
Para o FC Porto ter sido campeão também ajudou o mau arranque do Braga, que quando se lançou ao sprint final já partia com atraso, e o enésimo tiro no pé do Sporting, mudando um plantel de forma integra para depois deixar de apostar no treinador que liderava o projecto. O quarto lugar conquistado por Sá Pinto é um mérito, tendo em conta o desastre emocional dos leões em Janeiro, e reafirma a ideia de que a liga lusa é uma questão de um clube, que perde mais quando quer do que quando os demais realmente podem.
Do outro lado do mundo da Alice a União de Leiria tornou-se apenas o espelho da pobreza genuína de um futebol que abandonou a sua formação, os seus adeptos e a sua história para entregar-se a projectos insolventes, jogadores importados de terceiro nível e bancadas vazias graças aos preços e horários impostos por clubes e estruturas directivas.
Nesse mundo de loucos a Académica, que se salvou no último dia de descer de divisão, conquistou um lugar na Europe League porque todos os clubes, do 6º ao 13º posto, decidiram não inscrever-se previamente para disputar as provas da UEFA. Uns por decisão pessoal - os gastos das viagens a Israel ou Cazaquistão não são atractivos - e outros pelas dividas acumuladas que, fosse a liga portuguesa uma prova séria, significava a despromoção automática de quase metade dos participantes no torneio.
E no entanto 2011/12 foi o ano em que se falou da ampliação a 18 equipas, do regresso das equipas B, de empréstimos interessados de clubes grandes a "falsas" filiais para fintar a legislação e, sobretudo, da profunda crise de governabilidade num órgão onde os pequenos elegeram um presidente que não consegue governar sem o apoio dos grandes.
No meio desse cocktail molotov útil para um hara-kiri pirotécnico, muitos se esquecem de Pedro Martins e do seu Maritimo, da sustentabilidade dos projectos de Gil Vicente, Olhanense, Paços de Ferreira e mesmo do despromovido Feirense e do "aportuguesamento" do Braga, esquecido por Paulo Bento e pela maioria dos grandes com orçamento. Razões positivas para acreditar que há sustentabilidade futura, noutras condições organizativas e económicas, do futebol português. Mas o mais provável é que essa situação, quando se realize, não impeça o dragão de impor a sua lei. Com o plantel mais débil e o treinador mais contestado, o FC Porto revalidou o titulo nacional e nas Antas já começam a contar os anos que faltam para superar o histórico registo de um Benfica que teima em não dar uma versão alternativa sólida ao império do dragão.
Jogador do Ano
James Rodriguez
Hulk é o lider moral do FC Porto mas a dois jogos do fim do campeonato o jovem colombiano James Rodriguez tinha tantos golos como o brasileiro. Em metade dos jogos. Depois de uma grande segunda volta no ano de Villas-Boas, muitos esperavam que este fosse o seu ano. Vitor Pereira nunca o utilizou como titular absoluto, talvez interessado em lançá-lo mais como arma secreta pelo miolo em vez de o manter preso à ala. A sua exibição na Luz valeu um titulo, os seus golos e assistências foram nucleares para algumas das vitórias fundamentais do bicampeão e a sua afirmação deixa claro que com a inevitável saída do brasileiro, o projecto azul-e-branco crescerá nos seus ombros.
Revelação do Ano
Lima
O Braga contratou-o ao Belenenses ultrapassando todos os outros e pagando tão pouco dinheiro que ainda hoje na Luz, Alvalade e Dragão muitos devem estar preocupados com o seu staff de prospecção. O brasileiro foi fundamental no grande ano dos bracarenses, com os golos, assistências e posicionamento em campo, uma mobilidade que explorava bem a ideia de jogo de Leonardo Jardim, dando espaço aos jogadores de segunda linha para aproveitar os espaços que deixou para trás. Jogador de grande potencial, será dificil que fique em Braga muito mais tempo.
Onze do Ano
Helton salvou o FC Porto de muitos apuros durante longas jornadas, aquelas onde o onze de Vitor Pereira parecia estar perto de perder todas as possibilidades de revalidar o titulo.
Se olharmos para a defesa do campeão nacional é dificil encontrar jogadores que tenham estado ao máximo nível durante todo o ano, mas no lado esquerdo Alvaro Pereira continua a ser um jogador sem igual na liga lusa. E esse problema extende-se à maioria das equipas de topo da liga lusa. Ezequiel Garay, bónus na transferência de Coentrão para o Real Madrid, destacou-se sobre a mediania na Luz e João Pereira manteve-se a bom nível em Alvalade. Em Braga a confirmação de Nuno André Coelho foi uma boa noticia
Descartado pelo Sporting, o médio-centro Custódio encontrou em Braga em Hugo Viana, outro ex-leão, o parceiro ideal para um meio-campo sólido e tremendamente eficaz. À dupla de Braga podemos juntar outro médio minhoto, Hugo Vieira, revelação do Gil Vicente.
Lima, serpente no Minho pescada por poucos tostões, e James Rodriguez, arma-secreta no manual táctico de Vitor Pereira, dançam à volta de Hulk, que mais uma vez foi o jogador mais determinante no bicampeonato azul e branco, jogando ora descaido na ala ou como o falso-avançado que os defesas nunca conseguiram bem travar.
Treinador do Ano
Leonardo Jardim
Herdou um projecto sólido, com o melhor resultado nacional e europeu logrado por um técnico que deixou saudades mas em quem poucos na estrutura confiavam. Pedia-se-lhe que mantivesse o rumo. Cumpriu. Durante 17 jogos consecutivos manteve-se invencível e aproximou-se da disputa por um titulo que fraquejou nos jogos com os rivais directos. Mesmo assim, segundo apuramento para a Champions League em três anos, e um passo em frente em qualidade de jogo, mérito indiscutível de um treinador que está chamado a treinar um dos grandes nos próximos anos.

