E no final 10 pontos eram mesmo demais. O Barcelona não logrou lograr um feito ao alcance de muito poucos e perdeu a Liga para o eterno rival. Um golpe duplo porque não conseguiu paliar o fim de uma série mágica de três titulos com uma nova vitória europeia. Ambas as equipas degladiaram-se até à morte na liga e na Europa pagaram o preço. O fosse entre Madrid e Barcelona é maior do que nunca, o jogo mais plástico de Guardiola não aguentou um ano mais e a eficácia goleadora do contra-golpe de Mourinho deu a estocada final. Um ano que mais do que uma mudança de ciclo, espelha bem a viabilidade de dois projectos antagónicos.
Parece evidente que, apesar do titulo logrado este ano, poucos se atrevam a não pensar no Barcelona como favorito para lograr o titulo da próxima época. É o poder de uma ideia que se sobrepõe a tudo, até aos resultados. O Barcelona sem Guardiola será substancialmente distinto e, no entanto, muito similar ao que temos acompanhado desde que Rijkaard tomou as rédeas do clube em 2004. Uma década de bom futebol, com algumas oscilações, de muitos titulos, dentro e fora de portas, mas sobretudo uma década em que ficou claro a que joga o onze blaugrana.
No meio de tantas certezas a dúvida da derrota torna-se mais perturbadora. Guardiola não logrou emular Cruyff e as suas quatro ligas consecutivas. Nem Cruyff seguramente pensava que o iria lograr, as últimas três conquistadas depois de sprints absolutamente agónicos e erros crassos dos rivais. Primeiro os fantasmas do Real Madrid em Tenerife e depois o medo de Bebeto a fazer história permitiram ao Dream Team dar uma imagem errada da sua real superioridade. Guardiola, perdendo, parece no entanto mais sólido que nunca este adeus do que El Flaco na glória do tetracampeonato.
As derrotas do Barcelona fora do Camp Nou mataram as aspirações ao titulo mas foi o único desaire em casa, frente ao Real Madrid, que confirmou o inevitável. Os blaugrana dependeram mais do que nunca de Leo Messi. O argentino respondeu com uma cifra estratosférica. Vai em 50 golos e com um jogo por disputar ninguém se atreve a prever onde vai acabar. O que logrou o número 10 do Barcelona não tem nome e no entanto, a sua insuficiencia para confirmar um titulo de liga que em Agosto parecia inevitável, explica bem como Guardiola não soube sacar o melhor de Iniesta, Fabregas, Pedro, Sanchez e Thiago na linha de ataque e, sobretudo, que a ausência de um plano alternativo a David Villa e Xavi Hernandez, asfixiou demasiado o jogo catalão. Messi sozinho não pôde com o tridente montado por Mourinho, onde Cristiano Ronaldo foi sempre a figura omnipresente. Se o português manteve até ao fim o seu duelo pessoal com Messi pela Bota de Ouro, a verdade é que o argentino nunca teve uma companhia goleadora tão ilustre como Gonzalo Higuain e David Benzema com quem partilhar os logros. Entre os três jogadores somam-se quase 90 golos, uma cifra superior à dos golos apontados por todas as equipas em prova, salvo o próprio Barcelona. Nesse jogo ofensivo o Real Madrid venceu por K.O. o Barcelona e cimentou um titulo onde pecou sobretudo pelos erros defensivos (em Levante, Villareal, contra o Malaga em casa, frente ao Barcelona no Bernabeu) e pela dificuldade em gerar jogo pelo miolo.
Nuri Sahin foi o flop desportivo do ano, Xabi Alonso perdeu toda a gasolina que tinha por Janeiro e Ozil exibiu-se em momentos pontuais como um génio em potência para depois desaparecer semanas consecutivas. Com esse tremendo hiato no meio, precisamente onde o Barcelona se mostrava iniguável, só se pode explicar o espantoso titulo do Barcelona pela eficácia de um treinador considerado como defensivo mas que apenas entende o ataque como uma sucessão rápida de golpes sem defesa antes que um cerco prolongado, extenuante e fatal. O Real marcou mais golos, gerou mais oportunidades, disparou mais e venceu a prova. O Barcelona venceu a liga alternativa, a plástica, a da bola, a dos admiradores mais incondicionais, um prémio que no futuro talvez faça mais sentido apesar deste ter sido, realmente, o mais fraco projecto da era Guardiola, um projecto que, na hora da verdade, foi silenciado pela tranquiladade de um Cristiano Ronaldo mais solidário, mais lider, mais exigente e, sobretudo, mais determinante do que nunca. O homem da liga.
A mais preocupante novidade é a confirmação do imenso buraco que se gesta entre os dois porta-aviões espanhóis e a restante frota espanhola. O terceiro lugar do Valencia, do sempre contestado Unai Emery, dista uma galáxia dos dois da frente. Atrás dos valencianos uma série de equipas que durante a época viveram momentos de altos e baixos constantes mostrando uma incapacidade tenaz de oferecer uma resistência clara ao duopólio espanhol. Os milhões investidos em Málaga e Atlético de Madrid e as surpreendentes performances de Levante, Osasuna, Espanyol e Mallorca mostram uma classe média espanhola forte mas muito pobre comparada com os ricos do costume.
Decepcionante, por razões distintas, a época de Athletic Bilbao e Sevilla.
No primeiro caso falamos da melhor equipa da Europe League do ano, na equipa que futebol mais espectacular praticou em momentos concretos da época, uma geração de talentos espantosa liderados por um treinador de excepção. Explicar o péssimo posto do Bilbao em liga passa sobretudo por conhecer a dinâmica de Bielsa, homem habituado a trabalhar com poucos jogadores, com poucas rotações que se encontrou como peixe na água nas provas a eliminar, chegando a duas finais no mesmo ano, algo inédito na história do clube. Essa capacidade de socos rápidos e concisos perdeu-se no duelo da liga, com tropeções constantes, especialmente no arranque da época, que custaram muito caro na altura mais importante do ano. O Sevilla, por outro lado, confirma-se como o lado negro da lua do projecto de Del Nido e Juande Ramos que encantou a Europa há cinco anos atrás. Os andaluzes não funcionaram durante todo o ano, nem no terreno de jogo nem fora dele, tentaram liderar uma revolta dos "outros" que não convenceu ninguém e acabaram por cair na depressão de uma profunda nostalgia que os atirou para fora da Europa e atrás, até ao último dia, do eterno rival e recém-promovido Betis.
Atrás do andaluzes o lado negro do futebol espanhol, o das dividas, dos concursos de credores, da péssima gestão desportiva e de um fracofutebol sem pretextos como o que apresentaram demasiadas vezes Villareal, Getafe e Real Sociedad. A tremida época de um Rayo Vallecano onde o dinheiro continua a pecar por escasso não tem comparação com o brutal investimento realizado pelo Zaragoza para acabar num duelo final financeiramente desigual mas pontualmente equilibrado. Na última ronda, no próximo domingo, aos "maños" e "vallecanos" juntam-se os europeus do "Submarino Amarelo", a "mareona" de Gijon e o projecto do Granada, um clube B da Udinese em solo espanhol mas sem a mesma solvência desportiva. Entre ambos jogam-se um bilhete para o abismo, um bilhete de companhia para um Racing Santander que completou uma época tão deprimente como inevitável depois da péssima gestão financeira das contas do clube.
É cada vez mais evidente que o modelo actual do futebol espanhol tem demasiados buracos negros para ter uma solvência imediata. O ano começou com uma greve de jogadores, acabou com mais acusações de irregularidades financeiras e compras de jogos e pelo meio assistiu-se sobretudo a um debate dialéctico entre dois clubes que permite esconder na sombra a depressiva realidade dos restantes 18. No próximo ano ninguém espera que a situação se altere, Mourinho e Tito Vilanova continuaram a sua particular guerra pessoal, madrileños e barceloneses disputaram cada jogo como se fosse uma final de Champions para romper uma vez mais os recordes de golos e pontos e Messi e Ronaldo voltarão a repetir o seu pulso pessoal interminável. Um cartaz atractivo para a maioria dos espectadores de todo o mundo mas que, a pouco e pouco, está a significar o fim da base do futebol espanhol que tanto sucesso deu na última década e que nos últimos quatro anos se transformou no modelo a seguir para o resto da Europa.
Há algo no futebol inglês que seduz. Talvez a sua eterna incapacidade para impressionar a todos. Ao contrário de holandeses, brasileiros, espanhóis, franceses ou argentinos, ninguém se lembra de uma selecção inglesa que tenha reunido um consenso universal. É sempre o patinho-feio dos torneios, a equipa que quer e não pode, a selecção de uma liga que só encanta pela legião estrangeira que lhe dá cor e forma. Nesse panorama cinzento a FA já tentou seleccionadores de distintas personalidades e experiência. Agora opta por Roy Hodgson. O técnico mais cinzento para uma selecção em que já ninguém consegue acreditar.
Fabio Capello saiu pela porta pequena como não lhe é habitual. Estava farto. E Capello farta-se depressa das coisas.
Farto da pressão dos media, da relação dos jogadores e da incapacidade crónica do futebolista inglês a aprender conceitos de jogo colectivos. A prestação no Mundial da África do Sul foi um desastre. Muitos culpam a falta de arrojo do italiano, outros o espírito bélico dos próprios jogadores, incapazes de lidar com o ritiro inventado por Capello. Estava claro que este casamento não ia ter final feliz porque Capello, ao contrário de Giovanni Trapattoni, é demasiado inflexível. E só alguém ainda mais hermético do que um técnico italiano. Um jogador inglês.
O cinzentismo da equipa que deixou Capello contrasta com o excesso de juventude e inexperiência que parece estar reservada para as próximas concentrações dos Pross. Como sucede com o caso português, a Geração de Ouro inglesa afinal não o foi e há um hiato tremendo entre jogadores com lugar cativo no onze e novos nomes que bebem já outros conceitos aprendidos numa Premier League que começa a assimilar algumas das características do jogo de toque continental. É preciso relembrar que a única vez que a Inglaterra não jogou como a Inglaterra é suposto jogar, os leões foram campeões do Mundo. Essa ideia ronda pela cabeça de muitos jornalistas e treinadores britânicos e depois da consagração do modelo espanhol, há quem tenha a tentação de seguir esse ideário deixando para trás décadas de kick-and-rush e desilusões. A tentação inicial era procurar dentro de casa alguém que fosse seguir esse caminho. O treinador inglês é um oásis de originalidade e há tão poucos técnicos de sucesso na Premier de origem inglês (a maioria são os escoceses ou irlandeses) que reduzir o leque de candidatos não era tarefa complexa. Harry Redknapp parecia, desde o primeiro instante, o mais claro favorito. Mas este não é um país para suspeitos, pode dizer-se, e apesar de ilibado o nome de Redknapp ficará sempre ligado ao escândalo de fuga de impostos, algo que a FA nunca viu com bons olhos. A recusa do treinador em abandonar de imediato o Tottenham Hotspurs - então a lutar pelo titulo - também não ajudou e a federação quis provar com o treinador dos sub-21, Stuart Pearce. A falta notória de habilidade de Pearce e a péssima segunda volta dos homens de Redknapp acabaram com as duas opçoes e o vazio voltou a aparentar ser maior do que nunca. O dinheiro não comprou Mourinho e Guardiola e no meio do desnorte, o cinzentismo voltou a imperar.
Roy Hodgson é o mais continental dos treinadores ingleses.
Por continental não digo pelo estilo de jogo. Não é uma reencarnação de Jimmy Hogan como Niels Egen era um primo afastado de Stan Cullis. Mas grande parte da sua carreira foi feita longe da Velha Albion. Foi seleccionador da Finlândia, dos Emirados Arabes Unidos e, sobretudo, da Suiça a quem levou ao Mundial de 1994 em grande estilo para depois assinar uma fase final deprimente. Foi treinador principal do Inter de Milão e não só não venceu o Scudetto como perdeu a final da Taça UEFA com o Schalke 04. Em Inglaterra passou toda a carreira em equipas de low profile até que levou o modesto Fulham à final da Europe League, perdida, claro está, nos últimos minutos diante do Atlético de Madrid. Um logro emocional que o levou a Anfield Road onde assinou talvez o pior arranque de época da história do Liverpool. Não durou meio ano (não que Kenny Dalglish tenha feito muito melhor esta época) e acabou no West Bromwich equipa que luta por sobreviver com poucos recursos e menos imaginação ainda.
A um mês de que arranque o Europeu poderíamos imaginar mil treinadores diferentes para orientar a selecção inglesa. Menos Hodgson.
Talvez por isso tenha sido o escolhido.
Dele não se espera nada a não ser um low profile. Não é um inovador táctico apesar de ter bebido de várias culturas. Não é um lider de balneário e nem sequer é uma inspiração para os adeptos. E como já poucos esperam algo de uma equipa sorteada no mesmo grupo de uma França revitalizada, uma sempre complicada Suécia e a equipa da casa, Ucrânia, há quem pense mesmo que passar à segunda fase é algo a que os ingleses não podem ambicionar. Redknapp teria sido uma escolha de inspiração genuína mas o seu estilo de liderança provavelmente entraria em choque com o balneário. Hoddson formará consensos. Apesar de todos saberem que a geração de John Terry, Ashley Cole, Rio Ferdinand, Frank Lampard e Steven Gerrard tem os dias contados, a verdade é que não há jogadores de nivel internacional para substituir-lhes. Jack Whilshire, talvez a melhor aposta de futuro, está de fora do torneio por lesão. Wayne Rooney não jogará os dois primeiros jogos e nem Ashley Young, Danny Wellbeck, Phil Jones, Kyle Walker, Tom Cleverley ou Micah Richards têm o espirito de liderança e sangue frio que se exige nestes momentos.
Hodgson sabe que terá de formar uma equipa que capte o melhor de dois mundos. Terry jogará, Lampard também, Ferdinand e Gerrard terão os seus momentos. Hart resolveu, de momento, o problema da baliza mas a falta de cabeça de Rooney abriu outro no ataque. Entre Bent, Defoe, Wellbeck, Carroll e Sturridge estará a solução momentânea. No meio o enigma, entre o 4-4-1-1 e o 4-3-3, mais do que no dispositivo táctico nos nomes que sobem ao terreno de jogo e que podem fazer dos Pross uma equipa mais especulativa ou frontal. Conhecendo Hodgson, não esperemos milagres.
A eleição de Roy Hodgson como novo seleccionador inglês deixa claro que há federações que continuam a querer acreditar que um seleccionador é uma figura menor, de perfil baixo, que existe apenas para resolver problemas humanos durante duas semanas. São os que acreditam que os jogadores já vêm com as lições tácticas debaixo do braço e que apenas é necessário ordenar os nomes no tabuleiro. Essa postura britânico não é nova e não tem dado frutos positivos. O último grande técnico de vertente táctica que orientou a selecção foi campeão do Mundo. Todos os que o seguiram tentaram encarar as fases finais como meros torneios motivacionais. Todos falharam e o novo seleccionador sabe-o bem. O problema para os ingleses é que tão poucas expectativas num homem tão cinzento como é Hodgson podem ter precisamente o efeito contrário no balneário e o feitiço virar-se contra o feiticeiro. Sven-Goren Erikson sofreu-o na pele na Alemanha em 2006. E todos sabemos como esse filme acabou.
No mesmo dia o futebol português assistiu a mais uma cena digna do surrealismo em que se move há alguns anos. Um clube campeão no sofá, outro derrotado no momento em que entraram em campo apenas oito dos seus jogadores. Apesar do que a UEFA diz, o futebol português vive dias negros e uma etapa para esquecer da sua história. O titulo de campeão vale pouco quando durante um ano os grandes, com orçamentos de dezenas de milhões, têm de se medir com equipas onde os jogadores não têm nem para viver. A Liga e a Federação continuam os seus jogos das cadeiras do poder, os grandes preocupam-se com ter uma maior fatia do bolo e os adeptos vendem-se à omnipresente SportTv para encontrar lá fora o espectáculo que ninguém vê cá dentro.
Faltam três jornadas para terminar o campeonato nacional de futebol.
Há duas, talvez três, equipas a disputar o titulo de campeão. Um titulo que sabe melhor quando se festeja no relvado, no final de um jogo, um titulo que para os adepto significa mais do que para os próprios directivos. O adepto vê motivo de orgulho para seguir acreditando, para pagar as quotas, os bilhetes, as viagens ou simplesmente para ter orgulho em levar a camisola no dia seguinte para o trabalho. O directivo vê números, sonhos europeus e contas para pagar. Porque o que há mais no nosso futebol são contas para pagar.
O Benfica joga em Vila do Conde, o Porto na Madeira. Uma vitória dos campeões em titulo deixa tudo em aberto para o duelo do rival. E quando o Benfica empata, o FC Porto pode sair à rua para festejar. Depois de um dia do seu jogo. Em Portugal há gestores que percebem pouco de gestão e há programadores que não entendem nada de programação. Além de ser evidente para todos que os duelos dos dois candidatos ao titulo deveriam ser disputados nas últimas jornadas de forma simultânea, não parece curioso que seja a equipa que pode celebrar primeiro o titulo a que jogue antes? Estamos a falar de uma Liga que entrega as taças e medalhas de campeões com meses de atraso, algo único no panorama europeu, por isso já nada nos surpreende mas fazia todo o sentido ter sido o Benfica a jogar no sábado e o FC Porto, caso o rival tivesse repetido o mesmo resultado, desfrutado no domingo com a possibilidade de fazer-se a si mesmo campeão. Mas o surrealismo português, esse servilismo a Joaquim Oliveira e esbirros destrói até os momentos mais puros e belos de uma temporada, aqueles em que os adeptos enchem a rua e expulsam as frustrações que levam no corpo.
Numa prova de 16 muitos têm motivos distintos para celebrar mas só um grupo de adeptos pode invadir o espaço público com aquele sorriso no rosto. No Dragão já estão habituados a festejar, são 17 títulos em 25 anos, números asfixiantes para qualquer prova que quer ser competitiva. Os jornais bem tentam vender ligas abertas, oportunidades reais para todos os grandes e para algum intrometido, mas a verdade é que o FC Porto mantém-se num escalão por cima da concorrência. Porque tem um orçamento de 100 milhões de euros, superior a muitos clubes europeus em ligas mais poderosas. Porque tem uma estrutura desportiva e administrativa sem igual no espaço português, imune ao populismo do momento e capaz de ver para lá do horizonte. E porque tem um plantel que, mesmo em horas baixas, é capaz de responder nos jogos a doer. Os azuis-e-brancos ganharam a liga nos duelos directos, na Luz e em Braga, aqueles jogos onde se pedia algo mais. Nos restantes encontros o nivel futebolístico foi miserável, a falta de personalidade do técnico principal um enigma e a postura de muitos dos jogadores, um karma. E mesmo assim, a dois jogos do fim, mesmo assim o FC Porto repetiu o titulo e deixou claro que em Portugal é preciso existir uma catástrofe desportiva para que sejam outros grandes e felizes adeptos a saírem para as ruas.
Do outro lado desta prova kafkiana, o desespero de quem teve de mandar para longe a família. De quem come ás custas dos outros e de quem não sabe em que buraco se meteu.
Foi a União de Leiria. Mas antes já foram Salgueiros, Campomaiorense, Alverca, Estrela da Amadora, Farense, Boavista ou Belenenses. Todos clubes com passado europeu, essa imagem de marca que fica na retina e que explica a incapacidade dos directivos portugueses de uma gestão responsável. Tarde ou cedo estes clubes endividaram-se demais, ficaram demasiado pendentes de dinheiro alheio e começaram a desmoronar-se. Dinheiro gasto em infra-estruturas impossíveis de rentabilizar, abandono progressivo da formação, negócios privilegiados com agentes de jogadores, o padrão é o mesmo e o final da história também. A União de Leiria já nem está unida e também já não é de Leiria. Os jogos na Marinha Grande são o espelho dessa hipocrisia social de um clube que tentou crescer de bicos nos pés, sem sequer uma massa adepta empática e disposta a jogar tudo no clube da sua terra. Não é algo novo, viveu-se isso no Algarve, no Alentejo e nos clubes dos subúrbios das grandes cidades.
Mas a realidade mascarada é bem pior. Em Guimarães, um histórico como há poucos, os jogadores levam meses sem receber. Em Setúbal essa realidade é a tónica da última década. Na Madeira os projectos do Maritimo e Nacional só sobrevivem graças ao apoio do Governo Regional. A Académica de Coimbra vive em números vermelhos e o Beira-Mar não sabe muito bem a quem pertence. Numa liga de 16 equipas provavelmente há cinco que têm os salários em dia, mas mesmo essas apresentam um passivo sério que o futuro tratará de dizer quão grave pode ser. O FC Porto e Benfica precisam do dinheiro das provas europeias para respirar. O Sporting é cada vez mais um clube dos bancos e só o Braga, timidamente, oferece outra versão de como deve ser o futebol.
Os oito jogadores que entraram em campo com a camisola da União foram forçados a fazê-lo, pelos clubes que os emprestam (outro cancro do futebol português, o empréstimo compulsivo) e pela vontade de pegar no primeiro dinheiro que caia do céu e fugir. Ninguém os pode acusar de nada a não ser de sobreviventes, como tantos que trocaram o futebol português pelo Chipre, Roménia, Bulgária, Suiça ou Grécia, onde pelo menos os salários chegam a tempo e as famílias têm um tecto. No dia em que Portugal repetiu o campeão, a União de Leiria repetiu a farsa de que significa esta liga de 16. Ampliar o torneio para 18 ou 20 equipas é o espelho perfeito da idiotice do gestor português e só pode terminar numa operação cirúrgica que faça o proporcionalmente inverso. Por muito que doa ao adepto, Portugal não tem dinheiro para sobreviver como país e portanto não tem mercado para uma liga de mais de 8 ou 10 equipas. Uma liga como a que já conta o futebol suíço, alguns países nórdicos e do centro da Europa, países que sabem a que realidade pertencem. Uma prova a quatro rondas, como sucede na Escócia, onde o equilíbrio e a qualidade sejam a nota. Há clubes grandes e pequenos em todos os lados mas seguramente que entendo os jogadores do novo campeão, os mesmos que querem emigrar, quando sabem que uma vitória por 1, 2 ou 3 golos contra um rival que não tem dinheiro nem para comer vale o que vale. Muito pouco.
Mas esta situação não passa nos telejornais, não aparece na imprensa e não ocupa a cabeça dos adeptos. Se por eles fosse a liga seria de 20 equipas, os bilhetes seriam de 5 euros, os horários televisivos respeitariam as familias e tudo estaria bem. Mas não está. Na próxima década a probabilidade de que se multipliquem ao ano casos com o do Leiria é tremenda. Os grandes vivem a sua particular via crucis mas mascaram as contas com negócios com fundos desconhecidos, empresários polémicos e vendas fantasmas. Ninguém quer saber, todos assobiam para o lado, afinal estamos em Portugal. O FC Porto é campeão português, a União de Leiria daqui a uns anos aparecerá nas divisões regionais, por onde andava há largas décadas. Nada irá mudar e no entanto poucos se importam. De certa forma é normal, afinal foi a pensar assim que chegamos até aqui. E se Portugal fizer um brilharete no próximo Europeu haverá mesmo quem escreva que somos um exemplo para o mundo. Pena que os adeptos do Leiria ou do Campomaiorense saibam que não é bem assim.

