Faltavam poucos segundos para acabar. Um livre envenenado de Danny Murphy encontrou a cabeça de Geli, perdido no meio de tantos jogadores. Não é assim que costumam acabar os contos de fadas mas foi assim que chegou a fim a final europeia mais empolgado da última década. Dez anos depois o Deportivo de Alavés milita na 2º B espanhola. Não é assim que costumam acabar os contos de fadas. Mas ninguém duvida que a história dos alaveses é digna de uma fábula futebolística.
A boa noticia para os adeptos do Alavés é que o pior parece ter passado.
A equipa de Vitória, capital do País Vasco, está no pote de clubes que irá lutar pela promoção à Liga Adelante, a segunda divisão do país vizinho. Há muito tempo que os alaveses andam perdidos nessa floresta de equipas caídas em desgraça. O seu caso tem uma explicação muito simples, nefastamente comum. Um pretenso milionário ucraniano, Dimitri Pitterman, comprou o clube e desfez o projecto em fanicos. Ficou apenas a memória do futebol de elite. E daquela noite em Dortmund. A noite de um 16 de Maio. Há dez anos atrás.
Numa equipa sem estrelas, que rapidamente seria desmembrada pelo poder de atracção do dinheiro fácil, ninguém esperava uma noite assim. Os jogadores do Alavés sabiam-se outsiders e apenas queriam dar a cara, responder ao orgulho dos adeptos que os acompanharam na sua caminhada europeia. O grande momento, a grande gesta tinha ficado para trás, numa fria noite de 22 de Fevereiro. O San Siro, cheio, testemunhou como o anónimo Alavés batia por 0-2 o poderoso Internazionale, uma semana depois de aguentar um 3-3 em casa. Jordi Cruyff, ao minuto 78, abriu a contagem que Tomic fechou 10 minutos depois para desespero de Marcello Lippi, Christian Vieri e companhia.
Mané, técnico modesto e com aquele espírito guerreiro de antes quebrar que torcer que moldou a escola vasca, nunca esperou a resposta dos seus jogadores depois do grande jogo do Inter em Vitória. Esta era uma equipa onde a estrela, pelo apelido, era Jordi Cruyff. Muitos jogadores espanhóis com largos anos de futebol secundário nas pernas formavam o esqueleto do conjunto. Num 5-3-2 que apostava profundamente no contragolpe, a segurança defensiva de Karmona e Tellez era fundamental. Os dois centrais, decisivos nos lances de bola parada, formavam o esqueleto. Mas era a velocidade do romeno Contra, a qualidade de passe de Desio e o instinto goleador de Javi Moreno que chamavam à atenção. Antes daquele duelo com o Internazionale a equipa tinha eliminado dois conjuntos noruegueses (Lillestrom e Rosenborg) e nas rondas seguintes bateu o igualmente modesto Rayo Vallecano e o Kaiserlautern alemão. Dois anos depois de ser promovido à Liga espanhola, o Aláves estava numa final europeia.
Olhando para trás, é fácil perceber o milagre do conjunto basco.
O espírito de equipa, a natureza dos rivais e a clara aposta do clube na prova da UEFA, o escaparate perfeito para fazer alguns milhões no defeso, funcionou como catalisador. Mané criou um forte sentido colectivo nos jogadores que saiam a jantar juntos com as famílias todas as semanas, comiam “pintxos” tradicionais em pleno balneário e que sentiam que partilhavam tanto as agruras como os elogios. A maioria da equipa tinha subido de divisão dois anos antes, incluindo o técnico. Os poucos que chegavam de forma ao Mendizorrozza integravam-se sem problemas e no final de contas foi esse espírito que permitiu ao clube dar a cara diante do poderoso Liverpool.
A equipa de Gerard Houllier chegava à sua primeira final pós-Heysel com uma das suas mais espantosas gerações. Tinham batido com autoridade o Barcelona, FC Porto e a AS Roma. Contavam com a estrela europeia de moda, Michael Owen, mas também Robbie Fowler, Steven Gerrard, Jamie Carragher, Danny Murphy, Gary MacAllister, Dietmar Hamman e Emile Heskey. Eram favoritos e sabiam-no. Mas não esperavam uma resistência de proporções épicas. Naquela tarde noite no Westfallenstadion a vitória do Liverpool ficou ofuscada pela exibição do modesto Deportivo. Os golos de Babbel, Gerrard, MacAllister, Owen encontravam sempre resposta. Ivan Alonso, Javi Moreno e Jordi Cruyff, no minuto 89, teimavam em amargar a festa dos reds. A tensão começava a tomar conta do banco do Liverpool e os alaveses acreditavam que um milagre, um milagre futebolístico, estava prestes a tornar-se realidade. A três minutos do fim o conto de fadas acabou na cabeça de Geli, nesse desvio para as redes de Herrera e nesse desalento que dura há dez anos. O Alavés esteve perto de fazer história. Sem entender muito bem como, acabou realmente por fazê-la, à sua maneira.
Depois dessa noite épica o mundo nunca mais se esqueceu dos vitorianos. Mas a sorte abandonou o Deportivo com aquele cabeceamento. Dois anos depois o conjunto foi despromovido à 2º Divisão. Voltaria no ano seguinte mas a gestão criminal do ucraniano Pitterman levou a instituição à falência e ao calabouço da 3º Divisão. A pouco e pouco o modesto clube começa a erguer-se. Mas faça o que fizer, sempre que o nome apareça numa noticia em qualquer recanto do mundo, a única imagem que nos saltará à cabeça é a dessa noite onde o futebol foi mais futebol do que nunca e em que ficou claro que os contos de fadas às vezes não acabam como queremos. Mas nunca deixam de ser mágicos.
Não é a primeira vez. Nem sequer é surpreendente. Mas os rumores que indicam a forte possibilidade da Football Association inglesa abandonar a FIFA são reais. E voltam a colocar no ponto de mira a máxima instituição do futebol mundial.
Lord Triesman abriu a guerra e está determinado a acabar com ela.
O lider da candidatura inglesa ao Mundial 2018 voltou à carga com novas acusações de corrupção nas mais altas esferas da FIFA. Há um ano foi forçado a demitir por dizer o mesmo. Mas então os ingleses ainda sonhavam com contrariar as fracas expectativas que havia à volta da sua candidatura. Até ao último momento pensaram que a FIFA ia, por uma vez, jogar limpo. O resultado é sobejamento conhecido e aqueles que tentaram calar figuras polémicas como Triesman começaram a olhar para as suas declarações com outros olhos. Hoje, está à vista de todos, FA e FIFA vivem de relações cortadas. E uma ruptura é bem possível. Com consequências imprevisiveis.
A Federação Inglesa pode ser, legitimamente, acusada de despeito. Se tivessem vencido a candidatura ao Mundial talvez as ferozes criticas sobre a corrupção à volta de Blatter se tivessem esfumado entre o champagne e charutos de vitória. Pode ser. Mas também é certo que os ingleses há muito que são a mais irritante sombra do senhor FIFA. As criticas arrancaram, precisamente, quando os ingleses perderam a oportunidade de organizar o Mundial de 2006 no que seria uma data simbólica, 40 anos depois da única vez que albergaram o torneio. Então a proposta inglesa era a mais sólida mas Blatter preferiu a Alemanha. Depois, para garantir os votos do resto do Mundo, anunciou a rotação de continentes, o que adiou para 2018 o sonho inglês. Depois da alta valoração da candidatura o próprio Blatter ajudou nos bastidores a minar a candidatura britânica. E alguns dos seus homens de maior confiança, como Jack Warner e Ricardo Teixeira, tornaram-se nos alvos da ira de Triesman e companhia.
A 1 de Junho o máximo organismo do universo futebol reelege presidente.
Sob o fantasma da corrupção, um fantasma do qual a FIFA nunca se conseguiu livrar desde que João Havelange chegou à cadeira presidencial. Blatter, um dos seus homens de confiança, é também um oportunista, cinico e com um passado repleto de sombras. O seu apoio a Mundiais em África, Médio Oriente e Rússia têm pouco a ver com o seu papel como presidente da FIFA e mais como o seu misterioso lado de homem de negócios. A falência da ISL, que geria o patrimonia multimédia da FIFA, e os contratos milionários com Adidas e Visa (numa guerra suja com a empresa Mastercard) levantaram mais do que suspeitas sobre a legalidade de ambos negócios. Blatter, naturalmente, não trabalha só. Os membros das comissões mais próximas da presidência são também reconhecidos nombre no mundo da corrupção desportiva, verdadeiros caciques como Teixeira, Grondona, Warner, Villar, Leoz, Makudi, entre outros. E todos eles tiveram papeis chave na definição da FIFA actual. Mas o suiço está nervoso e tem motivos para isso. Publicou no jornal italiano Gazetta dello Sport uma carta pública em que defende, palavra por palavra, que sem ele o futebol morrerá. Ou eu, ou o dilúvio. A espada contra a parede.
Não é provável que a candidatura de Bin Hamman, outro dos imperadores da corrupção desportiva, esta no mundo asiático onde a sua influência nefasta é sobejamente conhecida e descrita em várias obras, saia ganhadora. Mas já serviu para antecipar o que a FIFA viverá nos próximos anos. Criticas internas, mais polémicas, verdades embaraçosas e um duelo continental em 2015, quando Platini, previsivelmente, defronte Teixeira ou Bin Hamman, representantes dos votos latinos e asiáticos. No meio de tudo isto a Football Association olha para o panorama e percebe a sua impotência. A sua influência foi diminuindo com o tempo e hoje, literalmente, a FA vive numa ilha, isolada da UEFA, da FIFA e das restantes instituições. Os ingleses sentem-se postos de parte, a pagar o preço do sucesso de um modelo que a FIFA e a UEFA nunca olharam com bons olhos: a Premier League.
Talvez por isso comece a ganhar força nos corredores da sede da FA uma cisão a emular o que levou a Inglaterra a afastar-se da FIFA nos anos 20, na altura por culpa do profissionalismo que começava a ser uma realidade indisfarçavel nas ilhas. Os ingleses mostram um certo hastio com a FIFA – e não só com a figura de Blatter – e encaram a atribuição do Mundial à Rússia, depois de todos os pedidos pessoais dos votantes aos membros da candidatura, como uma ostensiva provocação. E não deixam de ter razão. A sua presença na FIFA não trouxe nada de positivo a um país que sempre se regiu com as suas próprias regras e que não conseguiu, sequer, capitalizar em Mundiais o pouco que o liga à máxima organização futebolistica.
Imaginar a FIFA sem a FA não é uma utopia e seria um golpe de credibilidade sério para uma instituição que vive constantemente sobre o fio da navalha. Poderia ser uma primeira e importante brecha na maquilhagem que Blatter continuamente retoca e que no fundo é a perfeita fachada para uma organização onde o futebol, como jogo e fenómeno social, conta cada vez menos. Se em tantas coisas os ingleses revelaram-se pioneiros nisto do jogo que ainda clamam como seu, talvez nenhuma outra tenha tanta repercursão como desafiar a FIFA, olhos nos olhos, e colocar em causa aquilo que todos os outros reconhecem mas são incapazes de contrariar.
O quinto titulo em sete temporadas confirma o FC Barcelona como o grande dominador do futebol espanhol contemporâneo. Mas o terceiro triunfo do Pep Team tem um simbolismo especial. Por ser a primeira vez que um técnico ganha três titulos consecutivos no clube blaugrana desde a sua nomeação. Mas, sobretudo, porque esta equipa está só a um titulo de emular o feito histórico de um tal Johan Cruyff. A história tratará de definir tudo o resto...
Foi Julio César quem lançou ao mundo o seu “vini, vidi, vici” e a frase encaixaria perfeitamente no espirito de Josep Guardiola.
Mas o técnico catalão não conheceu a glória já na meia idade, ele é um precoce em tudo e os seus triunfos como treinador relembram mais o descaro de Alexandre ao calculismo de César. Na noite em que um empate bastava (e com dois jogos ainda por disputar), Guardiola parecia tão nervoso na linha de fundo como o jovem macedónio na linha da frente de Gaugamela. A sua terceira grande vitória sobre o exército persa foi talvez a mais brilhante manobra militar da antiguidade clássica. A terceira liga de Josep Guardiola não foi certamente a mais espectacular das que venceu de forma consecutiva. Mas foi a mais pletórica. E indiscutida.
Se Pellegrini obrigou os culés a sofrer até ao último dia (Juande Ramos capitulou antes, ferido de morte pelos 2-6), este ano o Real Madrid pagou o preço de jogar em toda a linha e atirou as armas ao chão antes da noite cair. As duas derrotas em casa – precisamente aquilo que ninguém imaginava de uma equipa orientada por José Mourinho – deram esse colchão pontual que permitiu a festa a meio da semana em Canaletas e a consagração histórica de um projecto de continuidade com um toque de classe própria e individual. Esta versão 3.0 do Pep Team é menos espectacular que a original e mais eficaz que a segunda parte desta trilogia exitosa. Guardiola abdicou da figura do ponta-de-lança (móvel com Etoo, estático com Ibrahimovic) e deu liberdade a Messi para emular o papel de Hidgekuti na Hungria dos anos 50, basculando por todo o campo, deixando um imenso vácuo na marcação defensiva e soltando o jogo dos interiores Iniesta e Xavi. Esse detalhe técnico, por si só, foi fundamental para fazer a diferença. No duelo directo contra o Real Madrid e nos jogos com os pequenos onde, efectivamente, se ganhou La Liga.
Se o Barcelona é tricampeão nacional deve-o sobretudo a esses jogos.
Porque o Madrid, salvo a copiosa derrota no Camp Nou, não fraquejou e bateu de forma clara todas as equipas entre o 3º e 8º posto. Mas o seu estilo de jogo, apostando na velocidade, no contra-golpe e nas transições rápidas, esbarrou sempre com os conjuntos modestos que não concediam os mesmos espaços dos conjuntos do topo da tabela. Contra Almeria, Levante, Zaragoza, Gijon, Osasuna, Deportivo e Mallorca perderam-se pontos imperdiveis. Pontos que o Barcelona não deixou cair, salvo pontualissimas excepções, porque encontrou no posicionamento de Messi uma forma de criar ainda mais desiquilibrios nessas defesas recuadas e profundamente sólidas. Os números espantosos do argentino resultam, em parte, dessa liberdade dada por Pep que beneficiou ainda o jogo de Iniesta e Xavi, sacrificando de certa forma o apetite goleador de Villa e Pedro, encostados às linhas laterais, cobaias para a defesa marcar com os olhos. Messi foi o eixo central do jogo blaugrana e soube sempre responder, ora com golos ora com assistências, mas a sua mutação táctica retirou também certa espectacularidade ao jogo da equipa culé. O ritmo frenético e dinamico de associação de 2009, com Messi e Henry no apoio directo a Etoo, com essas tabelas intermináveis, perdeu gás com o jogo de Ibrahimovic, como pivot central do carroussell ofensivo. Sem referência no ataque a bola circular mais perto da linha central do campo e menos junto à área. Mas os espaços aumentaram e com um conjunto de jogadores técnicos, velozes e audazes, o ratio de eficácia subiu claramente. Este Barça foi, sobretudo, uma equipa de poucos erros. Melhorou os seus registos defensivos, com Valdés num ano brilhante e Pique consolidado como um dos grandes centrais do futebol moderno, aguentando as ausências longas de Puyol e Abidal com estoicidade. E melhorou ainda os registos goleadores apesar da bola ter rolado mais na comodidade de Busquets, Xavi e Iniesta do que entre o trio da frente, mais solicito fisicamente e menos envolvido no jogo de criação. Pep regressou ao conceito básico de transição de Johan Cruyff e recuperou a velocidade nas transições como arma nuclear. Valdés e Pique a lançar os ataques, Pedro e Villa em constante sprint na borda do fora de jogo e Messi, qual Romário, um diabo à solta em campo. Recuperando alguns dos conceitos do Dream Team permitiu também ao Pep Team aproximar-se em titulos do histórico conjunto. Cruyff foi o pioneiro e isso será sempre impossível de reeditar, mas a classe de jogo dos homens de Guardiola há muito que é superior. Sem esquecer que, dos quatro triunfos consecutivos, apenas um foi claro. Os restantes três foram obras desse acaso que ás vezes sopra sempre para o mesmo lado. Não me perguntem porquê.
Num ano em que o duopólio se tornou ainda mais gritante, o futebol espanhol voltou a encomendar-se ao Barcelona para vender o producto made in Spain. Mas começa a haver um certo desencanto com a mutação de Guardiola. As atitudes dos jogadores, o elevado volume de passes em terra de ninguém, mais cauteloso e, ao mesmo tempo, cinico, e o próprio discurso da entidade criam, semana após semana, anti-corpos impensáveis à volta do merecido triunfo blaugrana. Mais do que emular o feito do seu mentor, Guardiola prepara-se talvez para o que será o seu ultimo ano em Can Barça com o desafio de recuperar parte da magia perdida sem abdicar dos altissimos niveis de qualidade e eficácia que o seu terceiro projecto lhe permite conseguir. Nascido para fazer história, Pep Guardiola e o seu FC Barcelona já são mitos por direito próprio.
Desde a vitória em 2001 da AS Roma que o titulo da Serie A não desce a linha do horizonte que cruza a cidade de Milão. Uma ditadura futebolistica que não é novidade num país onde os três grandes clubes somam um total de 63 titulos, mas que espelha bem as assimetrias em que vive mergulhado o Calcio, com o futuro marcado num imenso ponto de interrogação.
Milão está habituada a celebrar em Maio.
Tornou-se já uma rotina que a cidade se vista de gala e saia à rua num qualquer fim-de-semana do mês primaveril e solte toda a euforia contida nos meses prévios. Desde 2006 que assim tem sido. A única novidade deste ano foi a mudança nas vestimentas. Já não são os neruazurros, que vinham de um ano de celebrações sem fim, quem sai à rua de cachecol na mão. É a hora da desforra dos rossoneri, um clube que apesar da grandeza institucional e económica conquistou apenas o terceiro campeonato numa década. A vitória do AC Milan surpreende pouco aqueles que seguem o futebol italiano. Não há clube com uma carteira tão recheada, com um plantel com tantas opções e com um empenho tão grande em ser o senhor de Itália. Espelho do seu presidente, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, este AC Milan estava fadado desde o principio a triunfar. O que estranha é que tenha tardado tanto em lograr o feito. Afinal o Calcio, a mais competitiva prova de clubes dos anos 80 e 90, já há muito que não é o que era.
Depois do Tetracampeonato do Inter, do annus horriblis do Moggigate e da curta ditadura da Juventus, o titulo regressa a um clube habituado a ganhar, custe o que custar. E volta a afastar-se da periferia futebolistica italiana. E isso que a classe média do país da bota começa a dar um ar da sua graça. As excelentes campanhas de Napoli, Udinese e Palermo são a prova viva de que há vida para lá do eixo Milão-Turim. Mas ainda não é suficiente para repetir o feito dos clubes romanos, que durante dois anos deixaram o Norte transalpino em cheque.
A vitória do AC Milan na liga acontece num ano em que Massimiliano Allegri começou por confiar na recuperação de Ronaldinho e acabou por encomendar-se ao talento de Cassano.
Durante a temporada houve duas equipas totalmente distintas, dois modelos de jogo, dois rostos que se contradizem na sua própria essência. Só num torneio cada vez menos competitivo poderia um clube mudar tanto da noite para o dia e, mesmo assim, triunfar de forma tão categórica. Explica-se o triunfo também nos deméritos dos rivais. Na falta de regularidade de napolitanos e friules, bem como dos conjuntos romanos. E, acima de tudo, no processo de desconstrução do Inter que hipotecou o titulo durante o mandato de Rafa Benitez e que não soube dar a esperada luta sob o comando de Leonardo. Com a Juventus em coma – ainda – e o Inter em constante ressaca, pouco teve que fazer Allegri para passear-se pela “madonnina” com ar de triunfador. Mas foi-o realmente?
O técnico repescado ao modesto Cagliari por Berlusconi arrancou a temporada com um optimista 4-3-3 onde Robinho, Ronaldinho, Pato e Ibrahimovic repartiam e alternavam o peso do ataque face a um meio-campo descompensado e pouco criativo. As lesões de Pirlo e Ambrosini, a confirmada decadência de Ronaldinho e o reduzido impacto de Pato e Robinho deixaram a nu as debilidades tácticos dos rossonero. Valia a segurança defensiva, a ineficácia dos rivais e algumas decisões polémicas que paliavam os tropeções do conjunto milanês. O mercado de Inverno trouxe a estabilidade necessária e permitiu uma verdadeira lavagem de cara do onze. As entradas de van Bommel e Boateng transformaram o 4-3-3 um 4-2-3-1 mais sólido e eficaz e reduziram enormemente a carga ao quarteto defensivo. A chegada de Cassano, desterrado de Génova por uma Sampdoria agora à beira do abismo, e os golos do sempre omnipresente Inzaghi (até à sua lesão) permitiram o sprint final que sobreviveu às birras de Ibrahimovic (oitava titulo consecutivo, feito histórico, em três ligas e com cinco clubes diferentes), os problemas fisicos de Gattuso e Nesta e as tentativas desesperadas dos rivais mais directos.
Um titulo sem chama nem história que no entanto devolve a supremacia do Calcio a um clube que tem estado ao seu nivel nos palcos europeus mas que em Itália, por um motivo ou outro, acaba por defraudar constantemente os seus tiffosi. Depois de sete anos de espera o scudetto volta à camisola rossonera mas muitos suspeitam que na próxima temporada este AC Milan terá grandes dificuldades em reter a coroa. A tirania de Milão e do Norte de Itália continua mas aqueles que esperam uma mudança de rumo têm boas razões para estar optimistas. A caça ao campeão promete ser apaixonante.
Um breve parentesis nos artigos habituais no Em Jogo.
A partir de hoje arranca de forma oficial e regular a minha colaboração no projecto online Euro Football Zone.
Trata-se de um website britânico que visa agregar os artigos de análise de vários especialistas em futebol europeu liderado pelo jornalista inglês Chris Atkins.
Neste novo projecto, que será compaginado com o Em Jogo - sem que este sofra qualquer tipo de prejuizo - assumirei as funções de Editor-Chefe da secção dedicada ao futebol em Portugal e Espanha. Isso não impedirá, no entanto, de que possam encontrar por lá outros artigos assinados por mim relativamente a outros temas. Podem igualmente seguir o nosso trabalho através das contas de Twitter e Facebook.
O link para o primeiro artigo, dedicado ao Real Madrid, já se encontra online. Vale a pena uma visita e talvez um comentário de boas vindas!
http://www.eurofootballzone.com/2011/05/madrid-poor-away-form-ends-title-hope.html
Sejam bem vindos ao Euro Football Zone, a casa é vossa, como sempre!
Como pode a cor da pele influenciar uma decisão desportiva? O racismo europeu que nunca desapareceu debaixo da capa da hipocrisia social sempre encontrou no futebol um escape moral onde a cor da pele nunca permitiu marcar diferenças sociais. A grandeza de Pelé ou Zidane nunca se mediu pelo seu tom de pele. Mas em França, um país de muitas luzes e muitas sombras, a verdade é mais negra que a pele dos jogadores que a Federação Francesa de Futebol quer excluir dos seus programas de formação. É a verdade amoral de um país com memória curta e um sério problema entre as mãos.
Ser africano, caribenho, magrebino, asiático, negro, castanho, amarelo ou vermelho ainda é importante. Pelo menos em França.
E, surpreendentemente, no mundo do futebol. Porque aí o racismo faz menos sentido ainda. Está à vista de todos a qualidade de um atleta, independentemente da sua cor de pele, do seu credo. A sua performance fala por si, não precisa de passar por um canal de avaliação preconceituoso. Em França, país que há anos vive assustado com o seu próprio futuro, isso não é bem assim, nem nunca o foi. O racismo existiu sempre no futebol e de uma forma aberta e socialmente aceite. Os jogadores "importados" das antigas colónias nunca foram tratados ao mesmo nível que os herdeiros dos gauleses, seja lá o que isso for. Roger Milla, o ícone dos Camarões. andou durante anos em clubes pequenos do futebol francês e mais tarde reflectiu o seu desencanto pela forma como dirigentes, técnicos e colegas o tratavam simplesmente por ser negro. Até aos anos 80, e apesar de serem uma presença constante nos clubes da Ligue 1, eram raros os atletas negros, magrebinos ou mulatos que chegavam a representar a selecção. Até Just Fontaine, nascido em Marrocos ( e branco), chegou a ser questionado pela imprensa gaulesa por não ter nascido em território europeu. Com Tigana, Tresor e companhia a situação foi-se alterando. Os franceses aprenderem a aceitar lado a lado os imigrantes das ex-colónias com os emigrantes dos países europeus (como foram Kopa ou Platini, filhos de polacos e italianos respectivamente) junto com os "seus" heróis nacionais. Hoje talvez alguns deles fossem impedidos de actuar com a camisola dos Bleus. Porquê? Porque talvez excedessem as quotas de minorias étnicas que a Federation Française du Foot estava, em segredo, a preparar para o seu futebol de formação.
A polémica estalou quando foram divulgadas as conversas que muitos já sabiam que existiam nos bastidores.
Vários dirigentes e administrativos da FFF confessavam o seu desejo de instituir um número mínimo de lugares reservado para jogadores de ascendência caribenha (como Thuram), africana (como Desailly) ou magrebina (como Zidane) de forma a não asfixiar o progresso natural dos jovens filhos dos "franceses de verdade". Uma quota de 30% para satisfazer todos os interesses era a ideia da FFF. E nem sequer era nova. Este debate repete-se em França em todos os lados num país que ainda não entendeu que a sua identidade nacional não pode excluir todo aquele que não é branco, mas era um tabu no mundo do desporto. Porque se há alguém a que os franceses devem as suas grandes vitórias desportivas, esse alguém é certamente o "jogador imigrante". Os títulos em ténis de Yannick Noah, o talento dos principais jogadores das selecções de rugby e andebol e, acima de tudo, a selecção de futebol que entre 1998 e 2000 venceu tudo o que havia para vencer, falam por si.
Por isso mesmo quando a voz de Laurent Blanc se juntou ao coro de defensores deste gueto futebolístico, o país, ou parte dele pelo menos, entrou em choque. Porque Blanc era o capitão dessa selecção. Era o homem que tinha ganho tudo ao lado de negros como Desailly, Thuram e Vieira ou magrebinos da estela de Zidane. Aquele que melhor deveria entender que o sucesso da França de 1998 foi o sucesso do multiculturalismo é agora o primeiro que quer impedir que essa realidade se repita. Uma amoralidade profundamente perturbadora.
O homem que foi contratado para regenerar uma selecção em estado de sitio rapidamente caiu nas graças de todos. Jogadores, adeptos, dirigentes. Afinal Laurent Blanc era um professional respeitado e um treinador consagrado depois do seu sucesso com o Bordeaux. Aliás os seus primeiros meses à frente da equipa nacional não deixou nenhuma pista sobre o seu posicionamento porque à selecção chamou jogadores de todo o tipo de proveniências. E saiu-lhe bem. Blanc pediu desculpas públicas (ele que foi apanhado a dizer, sem papas na língua, que a poderosa Espanha não tinha esse problema porque não tinha "negros"). Mas isso pode não ser suficiente. O problema é que não é o único. O problema é que é apenas o rosto público de uma ideia enraizada entre dirigentes, treinadores e adeptos. As quotas às minorias no desporto são apenas o espelho das quotas que a sociedade francesa gostaria de aplicar em vários sectores chave do país. Blanc defendia-se, nas polémicas gravações. declarando estar farto de ver como Clarefontaine - a casa dos centros de formação dos gauleses - formava jovens que depois preferiam jogar pelos seus países de origem ou mesmo os países de origem dos seus pais ou avós. Que esse espaço e esses recursos estavam a ser desperdiçado em jogadores sem interesse em defender as cores de França e que podia ser dirigido aos jogadores autóctones. Demasiados negros, demasiados magrebinos, poucos brancos. Uma ideia que não faz sentido mas que tem muitos adeptos. E que podia começar a ganhar forma não fosse a divulgação pública das chamadas gravadas por um membro da FFF de origem argelina, Mohammed Belkacemi. O homem que era responsável por avaliar o trabalho dos jovens que chegavam à selecção vindo das pequenas academias dos banlieus disse basta a uma politica que existe, não oficialmente, em muitos clubes do "hexágono". E não só.
Muitos foram os rumores que falavam em desentendimentos na selecção francesa de 1998. Emanuelle Petit escreveu sobre isso, Aime Jacquet calou-se sobre isso. O sucesso pagou o silêncio de um país que depois de voltar a sentir o sabor da derrota voltou a relembrar fantasmas antigos. Blanc queixa-se agora da fórmula que o fez campeão do Mundo. Ser negro ou magrebino tornou-se um crime público para o futebolista francês quebrando toda a moral de uma sociedade moderna. Quebrando toda a moral de um país que saiu para a rua para glorificar negros, brancos e magrebis da mesma forma, com o mesmo entusiasmo. Talvez se Nasri e Anelka tivessem levado a França à final de Joannesburg nada disto fosse conhecido pelo público. Porque nos bastidores a amoralidade da FFF sempre esteve presente à espera de uma oportunidade para se fazer ouvir.
46 quilómetros. Um diâmetro espacial que é menor do que une muitas das grandes cidades do Mundo. O espaço que separa o estádio do Dragão do estádio Axa. O Porto de Braga. Os dois finalistas da Europe League 2011. Um feito histórico para o futebol português. Um feito histórico para uma região que tem sentido, como nenhuma outra, o desmoronar da economia comunitária. Nesses 46 quilómetros vivem os projectos, as ilusões e as esperanças. Passe o que passar eles chegaram lá. A Dublin. Cidade com pronúncia do norte...
Um salto na história. Um salto desafiante. Um salto preciso.
O golo de Custódio gelou um país habituado à ladainha dos "seis milhões", um país que não entende de diferenças de credo. Um país que, ainda hoje, se esquece que há vida para lá da capital, que há vida para lá do império imaginário. O salto de Custódio, um puto de Guimarães que se fez herói em Braga. Coisas da vida! O salto de um jogador dispensado por um grande da capital e que deixou de ser uma promessa para passar a ser mais um zé-ninguém. Assim funcionam as coisas em Portugal. Palavras que Miguel Garcia e Hugo Viana poderiam fazer suas. Os três estavam lá e testemunharam aquele salto imenso que transformou um clube regional numa potência europeia. O Sporting Clube de Braga, esse clube que parecia uma moda passageira, é o 100º finalista de uma prova da UEFA. A quarta equipa portuguesa em lograr esse feito histórico. A primeira a deixar outra equipa nacional pelo caminho. Sem contestação.
Um projecto pequeno que a imprensa lusa sempre tentou empequenecer sem entender que os partidismos nacionais na Europa perdem todo o sentido. Este Braga, uma equipa com as contas em dia, uma equipa sem dividas e fundos a que recorrer quando as coisas apertam, é um caso sério. Desde a chegada de António Salvador transformou-se num autêntico grande, feito que só o Boavista pode reclamar fora do circulo dos três clubes que têm asfixiado o futebol português. Com a desaparição momentânea dos axadrezados destas contas e o progressivo empequenecimento do Sporting, o Braga tinha a oportunidade de dar um murro na mesa. Em 2010 o titulo perdeu-se por muito pouco, em 2011 Dublin conseguiu-se por pequenos detalhes. Estavam Vandinho e Mossoró desta vez. Estavam aqueles que aprenderam a lição de como se joga este tipo de duelos. E estava, sobretudo, uma equipa com fome de desforra. Ás vezes é o que basta. Isso e um salto imparável para furar os livros de história.
Os 46 kilómetros que separam Braga da cidade do Porto são quase a mesma distância da mais longa avenida do mundo. É muito para um país pequeno e muito pouco para um Mundo tão grande. As provas da UEFA já acolheram finais entre clubes do mesmo país mas nunca com uma proximidade geográfica tão gritante. Bracarenses e portuenses são quase vizinhos e em Dublin a festa terá uma forte pronuncia nortenha. Com sotaque do Porto.
Domingos Paciência era aquele miudo de Leça que mal tinha para comer e que muitas vezes lançava na casa dos amigos porque estes sabiam que em sua casa só lhe esperava uma sopa. Esse herói das Antas tornou-se no messias da pedreira de Braga. Quando em 1994 o inglês Bobby Robson parecia ter perdido a confiança no esguio dianteiro um miúdo de 13 anos aproximou-se dele perto de sua casa e explicou-lhe como tinha de aproveitar as capacidades do internacional português. Esse miúdo, portuense de gema, que nunca passou fome nem lhe faltou nada, transformou-se no homem dos recordes e aos 33 anos no mais jovem técnico a chegar a uma final europeia. André Villas-Boas e Domingos Paciência representam dois lados bem diferentes da Invicta, da vida que pautou o norte de Portugal desde sempre. E o futebol uniu-os de tal forma que até na glória mútua acabam por ter de se reencontrar. Da mesma forma que o FC Porto se tornou um clube internacional depois do desprezo da capital que queria reduzir os azuis e brancos a "andrades" de província com uma final europeia (então perdida para a toda poderosa Juventus em 1984), também o Braga conseguiu soltar-se desses preconceitos sociais para fazer história. Celtic, Sevilla, Liverpool, Dynamo de Kiev e Benfica, todas elas equipas com títulos europeus no seu brilhante curriculum que não souberam aguentar o vendaval bracarense. Um vendaval em quem ninguém acreditou, eliminatória após eliminatória. Se ao FC Porto era reconhecido o seu favoritismo, que se foi cimentando a cada jogo e acabou numa eliminatória histórica face ao Villareal, ao Braga estava destinado o papel de patinho feio. Talvez por isso a equipa de Domingos seguiu sempre em frente, porque não teve de se preocupar em olhar para o espelho.
O Benfica, o terceiro português em discórdia, era o favorito. Antes de arrancar a Liga, antes de arrancar a Champions League e antes de arrancar a Europe League na sua fase a eliminar. Mas perdeu demasiado tempo a olhar-se reflectido num espelho enganador. Sem pernas, sem atitude, sem destreza mental, os encarnados actuaram numa semifinal europeia convencidos que estavam num duelo nacional sem grande importância. A arrogância, sempre patente no discurso do seu técnico, desencontrou-se com a realidade. Talvez se a eliminatória tivesse sido trocada e o duelo fosse com os espanhóis a equipa tivesse reagido de outra forma. Pagou o preço do pecado mortal que no futebol não perdoa, o orgulho. E assinou por baixo uma época a todos os títulos decepcionante. Não soube estar à altura da sua história, dos seus pergaminhos e do seu próprio futebol. O espelho mentiu, mas só a eles, porque havia muitos que conseguiam ver para lá da ilusão.
18 de Maio tornar-se-á num dia histórico para Portugal. Mas talvez a ausência dos representantes do centralismo asfixiante transforme uma festa europeia numa reunião de vizinhos. O impacto mediático dado, em Portugal pelo menos, será bem diferente se os rostos fossem outros. É de esperar, afinal não seria a primeira vez. Mas a Europa estará forçosamente atenta e tentará descobrir o que está no meio destes 46 quilómetros que unem mais do que separam. Do Bom Jesus de Braga vê-se o Douro? Talvez não, mas o eco da pronuncia do norte já se ouve lá longe nas areias dançantes de Dublin...
Foi talvez o titulo mais saboroso. Se é que os triunfos têm um paladar especial. Porque o dinheiro não pagou o troféu. Foi o talento genuíno de uma geração de miúdos inesquecíveis que fez vibrar, uma vez mais, o imenso Welfastadion. Foi a visão de futuro de Jurgen Kloop, o alter-ego clubístico de Joachim Low, que permitiu moldar uma das equipas que marcaram o ano. Em Dortmund festeja-se mais do que o regresso à elite. Festeja-se um titulo que é todo ele dos miúdos da terra. E isso tem de saber a outra coisa...
Não foi preciso gastar milhões em Sammer, Chapuisat, Riedle, Koller ou Rosicky.
Os nomes e rostos dos títulos de 1995, 1996 e 2002, os únicos conquistados pelo clube histórico do Rhur depois dos anos 60, foram pagos a peso de ouro. Eram outros dias e o Dortmund fazia vibrar o futebol europeu graças a uma preciosa combinação de talento local e contratações sonantes. A distribuição dos lucros da renovada Bundesliga e o sucesso europeu na campanha europeia de 1993 deram esse balão de oxigénio tão importante para definir o projecto vitorioso de Ottmar Hitzfield. Em 2002, quando o clube vivia os seus últimos dias de bonança, ainda havia algum dinheiro para gastar e pagar a ambição de voltar a brilhar na Europa. Quando o clube caiu na bancarrota, tudo mudou. Forçados a vender o seu próprio estádio, santuário de décadas, os administradores do Borusia entenderam que o sucesso futuro tinha de vir ao mínimo custo possível. E a única forma de lá chegar passava por apostar, cegamente, na formação. Paciência, paciência e paciência. Foi o que foi preciso para aguentar anos dificeis até que a colheita correspondeu às expectativas. Em 2010 a equipa orientada pelo paciente Jurgen Kloop já dava ares da sua graça com um excelente final de campeonato. Estava na lista dos favoritos para 2011 mas a derrota inaugural contra o Bayer Leverkusen, um dos grandes derrotados do ano transacto, acendeu o sinal de alarme. Era falso. Mas poucos podiam imaginar que poucas jornadas depois o espectáculo do futebol champagne começasse a jorrar no estádio com os adeptos mais fervorosos do futebol europeu.
A média de idades de 23 anos é a mais jovem de sempre da história da competição alemã. No espaço europeu está no top5 de sempre e isso é dizer muito deste projecto onde a maioria das suas estrelas só este ano conseguiram saltar das selecções sub21 e sub19 para a elite. O dinheiro ficou no banco e a qualidade no terreno de jogo. O Dortmund apostou na prata da casa e montou um estilo de jogo que há muito não se via nos palcos alemães. A Bundesliga está a crescer e com equipas como o Borusia esse crescimento faz ainda mais sentido. Com Barcelona e FC Porto, os alemães tornaram-se nos símbolos do jogo bonito. Mesmo que não tenha funcionado na Europa - e Klopp assumiu a falta de interesse pela competição quando surgiram os duelos a doer - o modelo foi suficiente para carimbar, a dois jogos do fim, o sétimo titulo da história do clube do Rhur, esse clube que marcou o primeiro golo da prova em tempos tão pretéritos.
Falar desta equipa amarela e negra é falar de Nuri Sahin, o equivalente da selecção turca ao seu amigo "alemão" Ozil. De Matt Hummels, que o Bayern não quis e que agora é o esteio da melhor defesa alemã. De Shinji Kagawa que chegou à cidade alemã desde a segunda divisão do Japão, tal como Hulk. Dos extremos alemães, recém-chamados por Low à selecção principal germânica, Kevin Grosskreutz e Mario Gotze, dois miúdos de 19 anos que jogam com a classe de veteranos. Do killer-instinct de Lucas Barrios à segurança defensiva de Subotic. E tudo numa equipa sem vedetas onde a harmonia e o colectivo saiam sempre a ganhar. Duas derrotas e um empate em toda a primeira volta. Duas derrotas e três empates na segunda. Pelo meio vitórias históricas, contundentes, inapeláveis. Todas fieis a um estilo, a uma filosofia. O Borussia de Dortmund rugiu com voz própria, sem ter de recorrer às vicissitudes do mercado, e deixou a Alemanha em êxtase.
Com o ceptro alemão nas mãos os adeptos do Westfalenstadion perguntam-se agora pelo futuro. O dinheiro continua a ser uma necessidade para um clube que há poucos anos esteve bem perto do fim. Vender será inevitável e candidatos não faltam, com Nuri Sahin à cabeça. Haverá solidez colectiva suficiente para repetir o brilharete sem voltar a cair em erros antigos. Uma pergunta de resposta difícil que fica para depois. Agora até os mais sérios entre os alemães da cidade industrial à beira do Reno sabem que a hora é de celebrar. Momentos como estes acontecem de tempos a tempos. E se calhar por isso sabem tão bem!
As almas de Carrow Row inspiraram fundo. Olharam para o céu. Olharam para o relógio. Viram como estava o vento desde a portuária e longínqua Portsmouth. E soltaram as asas. Finalmente podiam voar rumo à mítica elite. Em dois anos o milagre devolveu o histórico Norwich City aos grandes do futebol inglês. Uma dupla promoção prodigiosa e que devolve os "Canários" ao confronto directo com a elite britânica. Uma história com um surpreendente mas necessário happy-ending.
Paul Lambert entrou na mitologia "canária". E não é para menos.
Nos inicios de 2010 o Norwich andava pelo meio da tabela da League One, a terceira divisão inglesa. Era muito pouco para um clube com uma história imensa, um clube que fez parte dos fundadores da Premier League. Um clube que representava uma zona geográfica inglesa há muito afastada do resto do país, East Anglia. No meio dos pântanos, do vento e das correntes, os adeptos dos populares "canários", um dos poucos clubes ingleses a equipar de amarelo e verde, pensavam que os dias de glória nunca mais chegariam. E então chegou o escocês Lambert. E com ele um novo espírito. A equipa começou a trepar postos na tabela classificativa e quando a época passada chegou ao fim o Norwich sagrava-se campeão com cinco pontos de avanço. Tinha menos 18 que o líder quando o técnico se apresentou aos adeptos.
Se já essa subida era para recordar, o que se viveria em Carrow Row em 2011 será certamente para entrar nos livros de história. O conjunto chegou ao Championship com objectivos claros de manutenção. Não havia dinheiro nem condições para competir com os despromovidos da Premier League ou os grandes nomes como Leeds, Nottingham e Middlesborough que tinham falhado o assalto final no ano anterior. Talvez por isso o arranque tranquilo, sem demasiados altos e baixos, fosse visto com aprovação. Passo a passo, pensavam, lá chegaremos. Daqui a uns anitos talvez possamos ser nós. Mas Lambert não é homem de conjecturas futuras. E chegado o mês de Dezembro a equipa começou a reagir à pressão psicológica do seu próprio Manager. Os ataques convertiam-se em golos, as defesas multiplicavam-se e os jogos pendiam, cada vez mais, para os amarelo e verdes. O Norwich repetiu a façanha e trepou, trepou e trepou na tabela classificativa. Até que se colou ao líder, o recém-milionário - e igualmente histórico - Queens Park Rangers. E não o largou. Até que a matemática tornou o sonho em realidade.
O voo dos canários custou muito a equipas que apostaram forte na subida à Premier League.
Se o QPR - e o dinheiro investido por Ecclestone e Briatore - era um fortissimo candidato desde o principio, as campanhas de Middlesborough, Portsmouth, Nottingham, Cardiff, Burnley, Hull e Reading pareciam condenar qualquer outro conjunto a aspirar a ter, apenas, um ano tranquilo. Mas o Norwich City - e o mítico Leeds United, de certa forma - nunca se resignaram. E à medida que alguns candidatos mostravam não ter ritmo para lutar pelos primeiros postos, as posições na tabela foram-se invertendo. O Norwich, sem nenhuma estrela a que se agarrar, imitou o modelo do modesto Blackpool, que em 2010 tinha logrado um feito similar. O conjunto, capitaneado magistralmente por um treinador que sabe o que é ganhar. Lambert, internacional escocês de topo nos anos 90, sagrou-se campeão europeu com outra equipa amarela, o Borusia Dortmund, em 1997. Também então os germânicos foram subestimados pela concorrência. E acabaram por sagrar-se justos campeões da Europa.
Esse espírito guerreiro foi inculcado num plantel de nomes aparentemente desconhecidos para a imensa maioria mas que já valem o seu peso em ouro na história do clube. Quando a equipa bateu a 21 de Abril o seu rival regional histórico, o Ipswich Town, por 1-5, tornou-se claro que só uma hecatombe podia acabar com o sonho do Norwich. Para trás tinha ficado uma série de seis jogos seguidos sem perder, todos com rivais directos, todos com superioridade contrastada no terreno de jogo. Que o nome mais sonante da equipa seja Henry Lansbury, um jovem emprestado pelo Arsenal, diz muito da natureza de um projecto sólido que não arrisca sem ter a certeza de que vale a pena. Desde há 20 anos que uma equipa não conseguia duas promoções consecutivas. Isso diz muito do feito logrado pelos homens de Lambert que agora terão de saber sobreviver no meio dos falcões da Premier League.
O titulo pode pertencer ao QPR e há ainda muito drama e emoção à espera na luta dos play-offs onde quatro equipas (Cardiff, Swansea, Reading e Nottingham) ainda sonham com a promoção. Mas ninguém será capaz de roubar o protagonismo mediático a um conjunto histórico que ultrapassou todos os problemas possíveis e imaginários e logrou em 18 meses o que grandes tardaram anos em conseguir. 2011 será sempre um ano doce na história do Norwich City, um ano onde se provou que os Canários podem ser pequenos mas também sabem voar...

