Desde a chegada de Roman Abramovich que o Chelsea se tornou num projecto de milhões onde a formação deixou de fazer qualquer sentido. Mesmo os mais jovens chegavam provenientes de outros clubes, já formados, à procura de um lugar ao sol. É nesse imenso deserto que surge um imenso oásis. Josh McEarchran é mais do que o futuro dos Blues, é a possibilidade de começar uma nova etapa para o clube da moda em Inglaterra.

Quando se estreou frente ao Zilina no primeiro embate europeu do Chelsea esta época, McEachran fez duplamente história.
Tornou-se no primeiro jogador a actuar na Champions League nascido depois da prova ter oficialmente arrancado, em 1993. E passou a ser o primeiro jogador britânico formado inteiramente no Chelsea a actuar pelo clube nos últimos oito anos. Um feito considerável se temos em conta que, com 17 anos, McEarchran parece ter nascido para desafiar as evidências.
O jovem médio centro é um dos grandes beneficiados da polémica decisão de Carlo Ancelotti. O técnico italiano preferiu abster-se de mover-se pelo mercado, trazendo apenas o brasileiro Ramires e o israelita Benayoum para os lugares de Ricardo Carvalho e Michael Ballack, as únicas baixas da equipa campeã inglesa. Manter um plantel forte e competitivo mas sem grandes opções de banco é tarefa complicada para uma equipa com quatro frentes bem abertas. Por isso - e também por indicação da direcção, desejosa de poupar uns milhões - o técnico promoveu à primeira equipa quatro jovens das reservas. Entre eles McEarchran. A grande promessa do futebol inglês.
Só actuou em três jogos esta época mas os destelhos de talento que evidenciou foram suficientes para deixar antever que a promessa que se vinha formando na equipa junior do Chelsea era bem real. Médio centro de um recorte limpo foi peça nuclear na equipa do Chelsea que venceu a Youth Cup 2010, é um armador de jogo ao primeiro toque como há muito carece o futebol britânico. Filho de pais escoceses, cresceu desde pequeno nas instalações dos Blues vendo desfilar à sua frente as grandes estrelas pagas a peso de ouro por Abramovich. Desde os quinze anos que se assumiu - com Jack Wilshire do vizinho Arsenal - como a grande promessa das camadas jovens da selecção inglesa. Entre ambos foram deixando óptimas sensações nas equipas de sub-15 e sub-17 dos Pross. A vitória da Inglaterra no Euro sub-17 de 2010 contra a favorita Espanha teve muito mais de McEarchran do que qualquer outro elemento. Foi a primeira vitória internacional inglesa em largos anos. Um farol no meio da penumbra. A sua progressão dentro do Chelsea chamou a atenção de Ancelloti que já na época passada o chamou por diversas vezes para treinar com a primeira equipa. Nunca chegou a ser convocado mas as boas sensações tiveram continuidade na pré-época do conjunto britânico. Em Setembro chegaram as grandes oportunidades. McEarchran fez história ao estrear-se contra o Zilina na Champions (jogou também contra o Olympique Marseille) e na Premier League, na derrota dos Blues contra o Manchester City. No entanto o seu melhor jogo continua a ser frente ao Newcastle, na passada eliminatória da Carling Cup onde se assenhorou do meio-campo dos Blues com uma autoridade inusitada.

Não é expectável que o Chelsea lhe entrega a batuta da equipa nos próximos anos mas a verdade é que o facto de surgir pela primeira vez um jogador britânico made in Chelsea com talento é realmente noticia. McEarchran tem todas as condições para se afirmar como o futuro do futebol britânico. Rapidez, destreza, agilidade e uma técnica fora da média. Agora só falta percorrer o caminho passo a passo, sem nenhum golpe em falso. A sua existência é, já de por si, uma luta genuina contra a dura evidência do futebol inglês.
A euforia programada começa a ganhar forma. Duas vitórias obrigatórias e sem glamour transformam-se em êxitos épicos, dignos de coroação à altura. O Portugal de Paulo Bento mudou muito pouco (ou quase nada) o Portugal de Carlos Queiroz. Mas os resultados e, acima de tudo, a pressão mediática, contribuem para uma lavagem de imagem. Num país onde continuam a existir sempre dois pesos e duas medidas, Portugal continua a sua caminhada, com mais sombras do que luzes, rumo a uma prova onde a sua presença é, ou devia ser, inevitável.

Dois triunfos por 3-1 com duas exibições bem diferentes, nunca a passar da mediania, são suficientes. O país já tem o seu salvador da pátria. Todos podem dormir descansados, sem motivos para preocupações. Exageradamente, como tudo neste país, multiplicam-se as declarações de personalidades que secundam a nomeação de Paulo Bento e elogiam a sua gestão nestes dois primeiros jogos quando o próprio e os seus jogadores admitiram que o seleccionador pouco teve a ver com os dois triunfos frente aos rivais nórdicos. Como seria de esperar, com quinze dias de cargo, Paulo Bento tem tanto a ver com as vitórias lusas como Queiroz teve com as derrotas nos jogos em que a equipa foi orientada por Agostinho Oliveira. O ex-seleccionador pagou do seu bolso a sua viagem à Noruega e foi proibido pela própria FPF de comunicar-se com o banco. A mesma FPF que deveria estar interessada, acima das quezilias pessoas, no sucesso da equipa das Quinas e que agora está à morte com o novo técnico. De tal forma que Gilberto Madaíl está pondera recandidatar-se a um cargo que, há um mês atrás, com o espectro da eliminação bem presente, fez questão de anunciar que não lhe interessava. Dois pesos, duas medidas sem dúvida.
Portugal jogou contra a Dinamarca e contra a Islândia com diferenças minimas com base à equipa orientada por Agostinho Oliveira.
João Pereira rendeu Miguel e Silvio, as duas opções nos primeiros jogos, e fez duas exibições sem encher o olho, não comprometendo mas também não entusiasmando. Um posto que deverá pertencer a Bosingwa, quando recuperado, e que foi uma peça nuclear (pela sua ausência) durante todo o 2010, Mundial incluido. Pepe recuou para central e mostrou-se uns furos acima do que Ricardo Carvalho, desastroso nos dois encontros. Como Eduardo, a anos-luz da imagem que deixou no Mundial. No meio-campo surgiu João Moutinho, peça nuclear no FC Porto de Villas-Boas e com uma forma fisica e mental que não tinha em Junho passado. Carlos Martins completou o triângulo com Raul Meireles numa escolha feita para ganhar a galeria. O médio do Benfica é, à largos anos, um jogador sem estatuto de selecção. Suplente habitual no clube encarnado, ganhou protagonismo com os problemas fisicos de Aimar e pelo simples facto de ser dos poucos atletas portugueses do campeão nacional. Paulo Bento, o homem que o dispensou no Sporting por entender (e bem) que Carlos Martins rende menos do que deve, quis mostrar que é o seleccionador de todos. Entregou o posto a um jogador transparente que durante 180 minutos foi um holograma. Nada de novo portanto. Foi em Nani e Cristiano Ronaldo que se viram as principais diferenças com respeito aos dois primeiros jogos. Se Hugo Almeida continua a ser a prova viva de que Portugal e o golo é um casamento conflictivo, os dois extremos exibiram-se uns furos bem acima do habitual. Nani matou o jogo com a Dinamarca. Ronaldo ajudou a resolver o duelo na Islândia. Determinantes como se lhes pede sempre. E que só agora, finalmente, cumprem. Em dois jogos cuja a vitória era, independentemente do seleccionador, o objectivo minimo. E que, mesmo assim, foram conseguidas depois de muito sofrimento. No Dragão foi preciso dois erros infantis da defesa dinamarquesa (que até foi a pior equipa europeia do último Mundial, para quem se esqueceu já). Na Islândia, uma selecção que alinhou sem seis titulares que foram ajudar os sub-21 a estrearem-se no Europeu da categoria, sofreu-se e muito. Depois do golo e da pressão dos nórdicos, acabou por ser Raul Meireles a disparar contra a crise, tal como na Bósnia há um ano atrás. Quem ainda se lembra? Bolas que entram e bolas que saem, no fim está aí a diferença. A qualidade de jogo continua a ser a mesma, demasiado mediocre para uma selecção de alto nível.

No entanto a fálacia está aí e quem quer agarra-a como pode. Queiroz perdeu, logo não serve (mesmo tendo estado afastado dos dois polémicos jogos inaugurais pela própria FPF). Bento ganhou, logicamente é o maior. Mesmo que jogue igual, conte exactamente com os mesmos jogadores e continue a deixar em evidência os problemas estruturais da selecção. Os dois anos de vacas magras do mandato de Queiroz saldaram-se com um Mundial em que Portugal foi nono e uma série de ameaças à estrutura dirigente do futebol português que despoletaram a execução sem piedade do técnico. Neste conto da carochinha, enterrado pela imprensa e pelos opinion-makers, Queiroz será sempre o lobo mau do futebol luso, odiado por dirigentes, jogadores, jornalistas, bloggers e adeptos. Paulo Bento é o novo caçador, o homem que "empolga a nação" a altos voos com jogos mediocres e vitórias sofriveis e de serviços minimos. Portugal continua igual, a precisar de vencer todos os jogos. Continua sem criativo, sem ponta-de-lança e com muitas dúvidas lá atrás. Os mesmos problemas, os mesmos resultados, dois técnicos diferentes. Dois pesos, duas medidas. Até Junho tudo seguirá igual. São assim os contos infantis por cá...
No futebol internacional estagnar é morrer. Talvez por isso se torne inevitável que depois de cada prova, a elite que saiu vergada por um rival mais poderoso insista na necessidade de começar do zero. Renascer, reconstruir, recomeçar. Sinónimos de uma realidade que não admite a ideia de que pode estar-se no caminho correcto perdendo. A finais de 2010 só duas equipas seguem à margem de revoluções. Espanha, porque ganhou e Alemanha, porque mereceu ganhar. Todos os outros continuam à procura de si mesmos num processo sem fim à vista...

Vicente del Bosque é um homem feliz. E com razões para sê-lo.
O afável seleccionador espanhol, homem impossíve de não admirar, confirmou esta sexta-feira que a sua Roja está para dar e durar. A ameaça de supremacia espanhola para a próxima década é real. Como era com a França de Zidane e companhia em 2000, quando juntaram a coroa europeia à mundial. Depois viu-se o que se passou. Mas na história tudo se repete e tudo está aberto à dúvida e no país vizinho há matéria prima para dar e vender. E, acima de tudo, há uma ideia de futebol, inatacável. Mas adaptável, a arma da sobrevivência. Contra a Lituânia a Espanha não tinha o seu maestro, Xavi Hernandez. O futebol rendilhado e estético não fazia muito sentido com uma defesa posicional perfeita. Funcionou o centro e remate, à inglesa, graças à presença de um homem de área que impõe respeito, Fernando Llorente. O plano B espanhol funcionou porque tem armas (centradores e cabeceadores) e atitude para que funcione. Saber jogar de maneira diferente é o primeiro passo para manter-se na elite. Del Bosque sabe-o e repete-o incessantemente. Por isso Espanha continua aí, inalcançável, no topo. Ele é o primordial constructor de catedrais moderno, o constructor de selecções.
Mas se é fácil ganhar e regenerar-se com tranquilidade (a última convocatória espanhol deu a entender isso mesmo), mais dificil é perder e manter-se fiel a si mesmo. Joachim Low é um homem coerente e é essa ideia que vem defendendo desde 2004, quando se juntou a Klinsmann no banco da Nationalmanschaft, que decidiu imprimir o seu cunho pessoal custe o que custar. Em seis anos conseguiu duas meias-finais de um Mundial e a final de um Europeu, sempre perdendo com o vencedor final. E a ideia não mudou. Em 2010 surgiram novos rostos e novas pernas. Mas a ideia ofensiva e atractiva é a mesma. Low vai trazendo a pouco e pouco as maravilhas que despontam no futebol germânico para render os veteranos. Mas o mais importante é transformar as jovens promessas em jogadores maduros e preparados para a alta competição. Foi essa a chave do sucesso espanhol. Espanha sempre teve jogadores e técnicos. Nunca teve foi um nivel competitivo capaz de aguentar até ao limite sem pestanejar. Esta nova Espanha é letal. Como o foi a Alemanha. Como Low quer que volte a ser. Que Ozil, Muller, Podolski, Kroos e companhia sejam autênticos matadores como os Villa, Xavi, Iniesta, Torres e companhia. Só assim poderão tirar a espinha espanhola da garganta.
Se a estabilidade é um bem precioso no futebol, mais o é no mundo das selecções.
Equipas feitas a retalhos, sem tempo para serem trabalhadas, as selecções são mais um case-study humano do que um fenómeno futebolistico. A função do seleccionador é mais a de gestor de grupo e mentor de uma ideia que funcione, seja quem for o jogador convocado. Foi isso que falhou nas grandes equipas nacionais que arrancam este ano um novo periodo de vida. Nenhum soube controlar o balneário, nenhum soube transmitir correctamente a sua ideia. A classe do atleta é algo que o técnico não pode controlar. Que Cristiano Ronaldo, Andrea Pirlo, Wayne Rooney e Frank Ribery desapareçam é mais culpa do jogador do que do técnico. Mas este tem de saber ter opções, planos B´s, alternativas. Não o teve nenhuma selecção da elite mundial. Algumas nem plano A realmente apresentaram. Agora toca recomeçar do zero, num contra-relógio angustiante.
Laurent Blanc teve um inicio pouco auspicioso. O treinador campeão no Girondins Bordeaux tem uma ideia. Futebol rápido, alegre e colectivo, acente numa estrutura defensiva forte e um ataque eficaz. Funcionou na Ligue 1. Tinha as armas certas. Em Clarefontaine terá algo pior, egos imensos que gerir. Benzema, Ribery, Evra, Gallas, Diarra são atletas problemáticos. O fantasma dos grandes da era do técnico ainda está aí, na cabeça dos franceses. Dar tempo e espaço a que os Remy, Briand, Mvila, Tremoulinas e afins assimilem essa ideia do técnico é a sua principal tarefa. Mais do que o 4-4-2 ou 4-3-3 por onde se movem no espaço, os jogadores terão de aprender a mover-se na mente do técnico. E a tornarem-se parte da engrenagem. Parte da solução. Nunca do problema.
Cesare Prandelli, o homem que recuperou a herança de Lippi, sabe como fazê-lo. Inverter tendência. A Itália campeã do Mundo jogava com a classe de um número 10 e o espirito colectivo reforçado. Quatro anos depois não havia nem fantasista, nem grupo. Os italianos nunca precisaram de goleadores (Toni quase que passou ao lado do Mundial da Alemanha), mas sempre tiveram um artista nas suas fileiras. Antonio Cassano foi resgatado do exilio e deu outro ar à azurra. Com ele a criar os operários desfrutam do jogo. São nomes pouco sonantes, jovens e com muito caminho que percorrer. Mas têm a quem admirar ao seu lado e isso ajuda-os a integrar-se numa equipa que vive da mesma ideia há cinquenta anos.

Mais complicada será a missão de Inglaterra e Holanda. Porque mantêm técnico e estrutura (leia-se jogadores), mas porque deixaram uma imagem agridoce. Estão no limbo. No perigoso limbo. Os ingleses tentaram ser continentais e perderam a sua fleuma e originalidade. Depois de Capello ter tentado convencer a Inglaterra a ser mais Itália agora são os ingleses a tentar convencer o italiano a ser mais inglês. Adam Johnson, Theo Walcott e Andy Carroll estão aí para recuperar o jogo de bandas com um killer na área. Na Holanda a final perdida foi uma ocasião flagrante para testemunhar o impalidecer do mais belo futebol da Europa. Uma tendência que já levava dez anos e que agora ficou a nú. Bert van Maarjwick sabe que tem de apresentar futebol, para lá dos resultados. Tem a matéria prima, tem os novos rostos, falta saber moldar a sua ideia ultra-competitiva a um modelo mais amigo do espectador. Ás vezes esse é o grande desafio. Aquele que Espanha e Alemanha superaram há muito e que todos os outros têm forçosamente de seguir. Para sobreviver a outro renascimento. Reconstrução. Recomeço. Chamem-lhe como quiserem. Os constructores de catedrais modernas nunca têm maus a medir.
Dentro da sempre mediática Liga BBVA os jornalistas amontoam-se para seguir as conferências de Pep Guardiola e José Mourinho. Mas não disfrutam tanto como quando viajam ao El Molinón. Comeu o pão que o diabo amassou e continua aí, de sorriso tranquilo e lingua honesta, sem medos para enfrentar a maré que lhe chega aos pés. Em Espanha não há técnico mais (a)Preciado do que Manolo.

Os episódios de Manuel Preciado no banco de suplentes do Sporting Gijón começam a ganhar o contorno de mito futebolistico.
Não é normal, nos dias tensos que correm em que quase todos os técnicos espelham do primeiro ao último instante (Guardiola e Mourinho incluidos) uma tensão abrumadora, que surja uma personagem como Preciado. Uma genuína personagem do norte de Espanha, amável e directo, sem papas na lingua e com um desejo inconfessável de romper as normas. Sempre com um sorriso.
Na última visita ao Camp Nou houve quem se lembrasse das palavras do ano passado. Derrotado, sem apelo nem agravo, Preciado surgiu resignado na conferência de imprensa "É o Barça, que estavam à espera? Milagres? Eu estou contente, podiam ter sido mais!". Uma frase que muitos não perdoariam ao seu treinador. Mas em Gijón Preciado tem o seu particular santuário e séquito. O El Molinon rendeu-se há muito ao talento de um treinador que resgatou um histórico do futebol espanhol e lhe deu a estabilidade que faltam a tantos clubes da liga. Esta época, no mesmo recinto, o Gijón voltou a perder. Preciado não teve reparos, durante o jogo, de se aproximar de Guardiola (um dos seus admiradores confessos) quando Andrés Iniesta se queixou de uma dor no adutor. "Tira o Andrés, Pep que não quero que façam mal ao miudo!". A cara surpreendida de Guardiola, captada pela televisão, dizia tudo. De Preciado pode-se esperar de tudo. Até que decida dar a táctica ao rival.
A sua vida não foi fácil. Perdeu no espaço de um ano a mulher (vitima de um cancro) e o filho (morto num acidente de viação). Momentos duros que viveu estoicamente quando
Nasceu em 1957 em El Astillero, localidade pesqueira da Cantábria, um dos pontos mais a norte do país vizinho, pautado por um tempo agreste, violento e capaz de moldar o caracter de homens. Foi futebolista profissional por vocação e necessidade e durante os anos 60 e 70 actuou em várias equipas da zona norte, especialmente no Racing Santander, onde deixou boas recordações. Terminada a carreira, botas penduradas, pegou nos livros e seguiu em frente. A vida como treinador era algo inevitável em que já respirava futebol quando deambulava pelos empapados relvados do El Sardinero ganhando o carinho dos adeptos que desculpavam alguma da sua torpeza como central de marcação. Como técnico arrancou em Torrelavega, onde tinha terminado a carreira, e depois passou à equipa B do Racing Santander onde se manteve quatro temporadas. Em 2004 saltou à equipa principal dos cantábros onde terminou a temporada para depois arrancar com um novo projecto no modesto Levante de Valencia, cumprindo a palavra dada a meio da época com o presidente do clube levantino e rejeitando uma primeira abordagem do Gijon. Na primeira época logrou um histórico regresso à I Divisão mas acabou por assinar pelo Múrcia e logo de novo pelo Racing antes de chegar em 2006 a Gijón. O clube asturiano militava na parte baixa da II Liga e depois de um ano de transição conseguiu a ambicionada promoção, mais de dez anos depois da queda no abismo. O carácter afável e directo do técnico junto com uma nova vaga de talentos lançados de Mareo, o centro de formação dos rojiblancos, funcionaram como a base de trabalho de uma equipa condenada por tudo e todos a descer na época seguinte. Preciado sofreu até ao fim mas aguentou a categoria com um sprint final electrizante marcado também por algumas das suas mais directas afirmações sobre o futebol espanhol. Na passada temporada voltou a fazer do El Molinon um recinto quase inexpugnável com uma equipa muito jovem e aguerrida e conseguiu um excelente 15 posto na classificação. A tranquilidade, palavra esquecida nos corredores do belo estádio do Sporting, voltava a fazer sentido. Graças ao filósofo do norte.

"Para tirar a bola a Xavi seria necessária estudar álgebra". Palavras sábias do treinador mais apaixonante e "entrañable" da Liga Espanhola. Para tirar a sabedoria e frontalidade ao descarado Manolo Preciado seria falta muito mais. E seria totalmente desnecessário. A sua presença é um oásis na frieza que vai arrebatando os campos espanhóis. Manolo é de outra era e está determinado em mantê-la eterna. O futebol espanhol merece-o menos do que Manolo merece todo o protagonismo no centro mediático que rodeia o futebol espanhol.
Num clube impulsionado pelos milhões árabes do petróleo, orientado por um controverso italiano e repleto de jogadores dos quatro cantos do Mundo seria de estranhar que a grande referência da equipa fosse um jovem inglês? Inevitavelmente. Mas Adam Johnson traz para a miscelânia de talentos que forma este City um toque de classe imprevisível.

Houve várias vozes criticas quando Fabio Capello divulgou a lista de 23 mundialistas no passado mês de Maio. Não havia espaço para Adam Johnson.
No entanto o jovem extremo, contratado pelo Manchester City ao nortenho Midlesborough, colhia o favoritismo da critica e do público para viajar com os Pross. Teve direito a um Verão de descanso enquanto que os internacionais voltavam de cabeça baixa. Também por isso ele é o rosto da nova Inglaterra. Mais solta, mais aguerrida, mais determinada. Johnson confirma agora, aos 23 anos, tudo aquilo que deixava antever há quatro épocas atrás quando irrompeu no Boro. Na altura ninguém era capaz de prever o descalabro do clube nortenho. O extremo estreou-se num duelo europeu contra o Sporting e teve tempo para crescer. Natural de Sunderland, um verdadeiro guerreiro do norte, Johnson traz em si a irreverência e descaro que habitualmente falta ao futebolista inglês, todo raça e ordem. As suas diagonais, o potente remate de pé esquerdo fazem lembrar os seus dois idolos de infância, David Ginola e Ryan Giggs. Tal como eles é capaz de desiquilibrar e abrir o campo de forma automática e autoritária. Uma modalidade tão invulgar que rapidamente fez dele um jogador a seguir. Mas Johnson precisou de tempo para explanar o seu jogo. No caótico Midlesborough soube irromper como estrela e os pontuais empréstimos a Leeds e Watford deram-lhe a força suficiente para entender o lado mais dramático do jogo.
Quando começou a render Stewart Downing, outra promessa por concretizar, poucos imaginavam que se estava a gestar um jogador tão determinante. A sua propensão pela diagonal em vez de optar pela corrida rumo à linha de fundo, trademark do extremo britânico, notou-se de imediato que havia ali um recorte particular. A pouco e pouco Johnson foi-se tornando na figura de uma equipa em queda livre. A saída de Downing para o Aston Villa abriu-lhe definitivamente a titularidade que o jovem agarrou com unhas e dentes. De tal forma que no meio de tantos milhões gastos em estrelas internacionais (Robinho, Tevez, Adebayor, Millner, Barry, Silva, Touré, Lescott, De Jong, ...) o Manchester City encontrou um miseros seis milhões de libras para trazer o jovem da luta pela promoção no Championship à disputa pela Champions League na Premier. Mark Hughes tinha dado o aval, Roberto Mancini, um virtuoso por excelência, deu a aprovação final.
Quatro dias depois de assinar pelos Citizens, Johnson estreou-se com a sua nova camisola rendendo Stephen Ireland, um dos poucos resistentes britânicos do clube do petróleo árabe, num duelo com o Hull. Foi o arranque de um final de época captivante. Três dias depois era eleito o melhor em campo, no seu primeiro jogo a titular, e imediatamente depois conseguia o golo do empate no confronto contra o clube da sua cidade natal, o Sunderland. A dez segundos do fim.
O final de época consagrou-o como o jogador diferente e o arranque da nova temporada só fez mais do que confirmar as expectativas. Mancini, rendido, já não nega a dar-lhe a condução da equipa, relegando até o campeão do Mundo espanhol, David Silva, para o fundo do banco de suplentes. O golo épico frente ao Newcastle, num jogo de loucos, é só mais um aperitivo para uma época que se antecipa longa. E cheia de espectáculo.

Encontrar uma jovem promessa inglesa que prometa algo diferente às vezes é tão complicada como encontrar uma agulha num palheiro. Adam Johnson tem esse toque de classe que tantas vezes escasseia. Já se assumiu como a diferença numa equipa paga a peso de ouro e onde o inglês é um idioma esquecido. Agora a próxima etapa é provar na selecção inglesa que a chama do futuro saiu do seu pé esquerdo. Ele é o factor britânico que faz a diferença.
Nos principios do Reno emerge a beleza de Mainz, cidade fulcral na evolução histórica da Alemanha moderna e uma eterna desconhecida para o viajante distraído. Artisticamente célebre, politicamente fundamental, Mainz nunca foi um centro desportivo por excelência. Até que a lebre decidiu sair da toca num sprint imprevisível e entusiasmante. Alguém é capaz de lhe seguir o ritmo?

A história recente da Bundesliga há muito que parece fazer lembrar a fábula da lebre e da tartaruga.
Uma equipa surpresa, com quem ninguém conta, desponta num arranque espectacular para sagrar-se (ou quase) campeão de Inverno quando a liga pára para dar passo à neve, ao gelo e ao frio bem germânico. Mas no final, quando a Primavera vai lá no alto e o sol desponta antes e com mais força, lá surge a eterna tartaruga, nome seguro e consagrado, para arrebatar o troféu. Tem sido invariavelmente assim. Leverkusen e Hoffenheim foram as últimas lebres. Bayern Munchen e Wolfsburg as seguras e sábias tartarugas. À falta de sete meses para acabar o ano já se encontrou o casting perfeito para a primeira. Falta saber quem quer partilhar o titulo de cabeça de cartaz deste filme particular.
Em Mainz todos deliram com o arranque histórico da equipa. Histórico. São 7 vitórias nos primeiros 7 encontros, um registo único na vida cinquentenária da liga germânica. Registo logrado por um clube de uma cidade bela e mágica mas sem qualquer importância no universo fussball que domina a vida alemã. Um clube sem nenhum titulo nacional em 105 anos de história. Mas com uma geração que quer contornar os erros do passado. De nonos na passada época o FSV Mainz passou a lider indiscutivel daquela que é, cada vez mais, a terceira liga europeia.
Uma cavalgada heróica com várias vitimas de luxo pelo caminho. O vice-campeão europeu (1-2 em pleno Allianz), o Werder Bremen (0-2), o Wolfsburg (3-4), o Stuttgart (2-0)...Quase nada!
Lewis Holtby, de quem já aqui falamos, é a estrela desta equipa de descartados.
Não é por acaso que o quinteto de luxo que tem mantido a equipa no topo, sem conhecer o sabor da derrota, é composto exclusivamente por jogadores emprestados por outros clubes. Equipa modesta de orçamento curto, o FSV Mainz soube montar um plantel equilibrado e muito, muito barato. Ao lado do extremo convertido em artesão central do jogo do Mainz, estão ainda Andreas Ivanschitz, internacional austriaco emprestado pelo Panatinaikhos, o igualmente austriaco Christian Fuchs (emprestado pelo Bochum), o avançado dinamarquês Morten Rasmussen (pertence ao Celtic Glasgow) e Malik Fathi, alemão dos quadros do Spartak Moscow. Seiva nova, mentalidade nova, resultados novos.
O técnico Thomas Tuchell, um jovem promissor de 37 anos que chegou das camadas jovens do Augsburg, em ainda uma base de trabalho sólida da regular época passada acente em Noveski (o seguro capitão), o nigeriano Haruna Babangida, a promessa hungara Adam Szalai e o checo Jan Simak. Um conjunto que vale pelo colectivo mas que aposta na frescura e arrojo de um ataque jovem e temerário.
18 golos marcados e 7 sofridos são um registo impressionante para um quinto da prova já decorrido. A equipa lidera a prova com mais três pontos que o segundo, o Borussia de Dortmund, e mais oito que o terceiro, o Hannover. Dos crónicos candidatos nem se fala. São 13 pontos de vantagem sobre as tartarugas do Bayern Munchen e Werder Bremen, 11 mais que o Wolfsburg e Hamburg e 9 mais que o Leverkusen. E quase todos eles com a licção aprendida do confronto directo com os O-Five, alcunha de guerra de uma equipa preparada para dar mil batalhas.
Um sprint de lebre demoníaco que estes pesos pesados terão dificuldade em acompanhar se não houver rapidamente uma mudança de tendência. De um lado e de outro.

A Bundesliga já nos ensinou que um rápido arranque nem sempre quer dizer que haverá final feliz. Mas a emoção e a surpresa que o jovem conjunto do sudoeste alemão deu a uma prova marcada pela queda abrupta dos favoritos (Schalke 04 e Stuttgart, por exemplo, são os últimos) e pelo espectáculo ofensivo de Holtby e companhia que antevêm uma luta sem quartel até ao final. A rapidez do contra-golpe, a frescura da visão de jogo e a falta de receio à frente das redes têm sido as chaves desta equação. Resta saber até quando as pernas da lebre aguentarão. Algum dia a tartaruga terá de perder.
Há muito que a Kop deixou de entoar o You´ll Never Walk Alone para Roy Hogdson. O flamante técnico está mais só do que nunca à medida que o Liverpool vai mergulhando no precipicio. As bancadas de Anfield uivam o nome de Dalglish enquanto a tabela apresenta o pior arranque em 55 na história do Pool. Um longo suicídio desportivo que antevê mais um ano de pesadelo para os Reds.

O titulo do Chelsea na passada época foi celebrado euforicamente em Anfield Road.
Um estádio que há muito perdeu a alegria própria dos titulos teve de contentar-se com o triunfo dos londrinos que significou, na prática, que por uma época mais o Liverpool continua a ser o clube mais titulado de Inglaterra, apesar da omnipresença do Manchester United. Curioso é que o último titulo Red remonta a 1990. Vinte anos de derrotas atrás de derrotas. Vinte anos de equipas desfeitas e sonhos perdidos. A ascensão de Alex Ferguson significou o fim da hegemonia do Liverpool mas duas décadas a ver os titulos passarem por mãos de Leeds, Blackburn Rovers, Chelsea e Arsenal, tem sido um longo e interminável pesadelo. Que começa a ganhar contornos mais preocupantes à medida que a equipa montada por Roy Hogdson se despenha na classificação. Estão em postos de despromoção. E acabam de sofrer um pesado correctivo do recém-ascendido Blackpool. Diante dos seus. A situação não podia ser mais dramática.
Depois do muito criticado Benitez ter partido para Itália, muitos pensavam que o grande problema do Liverpool estava finalmente resolvido. O espanhol que chegou, viu e venceu uma Champions League (repetindo a final dois anos depois) nunca caiu no goto dos adeptos e a sua politica de contratações e rotações em jogos da Premier foram apontados como os elementos necessários para a constante falta de competitividade do clube na prova. Exceptuando 2008/2009, o Liverpool nunca roçou sequer o título, acabando por debater-se pelo quarto posto, algo que nem na passada época logrou. Nem com Steven Gerrard e Fernando Torres na equipa o histórico conjunto de Anfield encandilava. As lesões do espanhol, a intermitência do inglês e a falta de qualidade do plantel faziam o resto. Uma manta de retalhos que Roy Hogdson, popularizado pela campanha europeia do Fulham, não soube emendar.
O técnico perdeu antes de ter começado.
A polémica gestão de Tom Hicks e John Gillet, os gestores norte-americanos do clube, não permitiu grandes aventuras no defeso. Foram-se Javier Mascherano e Yossi Benayoum e entraram Joe Cole, Raul Meireles e Christian Poulsen. Curta mutação de um plantel débil em vários pontos e desanimado após anos de desaires. A falta de ambição de um técnico habituado a outros desafios e a baixa de forma evidente de vários pilares da equipa, de Torres a Reina passando por Gerrard, Agger e Johnson foi fazendo o resto. Derrotas ligueiras, sofrimentos na Europa e uma massa adepta desiludida até ao tutanto. Não foi por acaso que no passado sábado se ouviu o nome de Dalglish nas bancadas.
O histórico médio escocês não é só uma das figuras no terreno de jogo da história do Liverpool. É também o último treinador a poder proclamar com orgulho ter sido campeão em Anfield, com uma equipa que então roçava a lenda. Depois disso repetiu a dose ao serviço do Blackburn Rovers enquanto o seu Liverpool entrava numa espiral auto-destructiva trocando de técnicos e jogadores que excessiva facilidade. Nem a geração de Fowler e McManamman, nem os Owen e Heskey, nem Gerrard e Torres. Ninguém reencontrou a fórmula. Este Verão o veterano Kenny Dalglish ofereceu-se à direcção com alternativa. Foi imediatamente colocado de lado. Os adeptos não gostaram. Referenciam o escocês. E com sentido. E agora gritam por ele. Vêm no passado a única esperança para o futuro

Certo é que Roy Hogdson tem os dias contados em Anfield. O projecto do técnico não tem futuro e o próximo duelo - depois da pausa das selecções - é contra o eterno rival Everton. O clube do qual Bill Shankly só queria saber quando olhava para a parte baixa da classificação. Onde agora está o seu Pool. O velho técnico continua à espera de alguém que pegue na sua herança. Qual estátua de pedra à porta de Anfield, o velho Shankly espera poder voltar a sorrir. O céu está cinzento. Há nuvens no horizonte. Terá de continuar a esperar...