Quinta-feira, 8 de Julho de 2010

A Itália reencarnou na selecção espanhola. Depois de um Mundial mediocre, La Roja decidiu que no jogo que mais importava era a hora de sacar todas as suas armas. Como a azzurra há quatro anos. Frente a outra Alemanha que também apaixonava, e que não mostrou ter estofo. Os germânicos ganharam em estética e perderam em garra. Espanha fez o seu jogo, repetitivo até à medula, rematou com a antiga "Fúria", e conseguiu justamente o apuramento para a sua primeira final.

Afinal este Mundial é a verdadeira negação da tradição. Afinal o favorito chegou até ao fim, a final é só de europeus - e nenhum deles com um titulo, algo que não se vê desde 1978 - fora do Velho Continente, a equipa que perdeu o primeiro jogo pode ganhar o último e as pernas não tremeram, como sempre, aos espanhóis. Foram os alemães a equipa mais espectacular do torneio, algo inédito, quem soçobrou face à pressão do momento. Como há dois anos. Com a diferença que, desta vez, a Alemanha era melhor que a Espanha. No papel. Em campo as coisas correram de maneira diferente.

A baixa de Muller prejudicou o jogo rápido e ofensivo germânico, até porque Piotr Trochowski é um jogador mediano até ao tutano. Passou sem chama pelo jogo. Joachim Low, o técnico que teve o mérito de golear Inglaterra e Argentina, foi destroçado por Vicente del Bosque. A equipa espanhola tem-lhe tomada a medida e nota-se em Low um respeito (medo) excessivo. Só isso explica a renúncia ao seu estilo de jogo por um modelo hibrido que tornou a temivel equipa teutónica num gato inofensivo. Sem unhas. Os alemães deram a bola à Espanha, um erro, e não souberam como tirá-la. Perderam a velocidade no contra-golpe e não criaram mais do que duas ocasiões de golo em todo o jogo. Foi a prestação mais fraca da equipa em dois anos. Precisamente no jogo mais importante. Mesut Ozil esteve demasiado só. Comido por Sergio Busquets, imenso ontem, nunca ajudou a ganhar a determinante batalha do meio-campo onde Espanha surgia com quatro elementos contra dois alemães. Low foi incapaz de corrigir o erro em 90 minutos. Pagou-o caro. Del Bosque arriscou ao deixar Torres no banco. Apostou em Pedro e ganhou. O jovem cumpriu um ano mágico e fez gato sapato da defesa alemã. O seu egoismo impediu uma vitória espanhola mais clara. A sua juventude foi suficiente para abanar o jogo horizontal e irritante do meio-campo hispânico. Xavi voltou a pegar na batuta e a pautar esse modelo asfixiante que tem tanto de estético como de pouco eficaz. Não fossem os remates de meia-distância de Villa e Xabi Alonso e a Espanha da primeira parte teria sido pouco diferente da dos jogos anteriores. A questão é que a Alemanha não parecia disposta a dar a réplica. Não quis fazer o jogo duro de pressão alta de suiços, portugueses e paraguaios, que optaram por não deixar a Espanha jogar confortavelmente com a bola. Mas também não teve a coragem de pegar na bola e partir para a frente. E por isso perdeu. Merecidamente.

 

Esta nova Alemanha multicultural é uma equipa bela quando o rival não incomoda, e bastante inócua quando o contrário pressiona. Viu-se com a Sérvia, viu-se com a Gana. E voltou a ver-se com a equipa espanhola.

Faltou-lhe o punch que definiu décadas de futebol alemão. As recuperações in extremis com os Rummenige, Bieroffh ou Mullers do passado. Esta Alemanha nunca se viu capaz de marcar, quando mais de igualar a contenda. Foi uma fera amansada desde o hino inicial. Futebolisticamente a Espanha não é melhor. Esta equipa continua a funcionar bastante melhor como um hábil producto de marketing acente na escola do Barcelona. Afinal, ontem, só quatro jogadores não actuavam no campeão espanhol. Uma dependência nunca vista. Mas é uma equipa mentalmente muito forte. Aguentou a derrota inicial com estoicismo. Soube dar a volta com a dose certa. Não lhe tremeram as pernas quando os fantasmas do passado voltaram. Abdicou de jogar bem para ganhar. Herdou essa cultura italiana que hoje mais nenhuma equipa no Mundo tem. E isso faz deles um rival temivel, altamente competitivo. Não se vê nessa troca de bola lateral constante um fluxo de ideias como as equipas que marcaram a evolução do jogo. Apenas a necessidade de não perder a bola até o rival cometer um falho de marcação, até que um ressalto resulte, até que um remate rasgue o jogo. E assim matam. Como o golpe imenso de Charles Puyol, um golo de raça à antiga espanhola, capaz de quebrar com a monotonia de um colectivo que joga bem para o lado e pouco para a frente.

O tento espanhol não mudou o jogo e devia ter sido um ponto de inflexão. Low já tinha perdido a batalha quando perdeu os nervos. Tirou Boateng e lançou Jansen. Sem perceber que o problema estava em Podolski, que nem defendia nem atacava. Ou na ausência de um parceiro para Schweinsteiger sair a jogar. Ou no mutismo de Trochowski. Não viu nada disso até que lançou Kroos, tarde demais. Faltou golpe de asa, coragem. Nem a velocidade de Marin ou a verticalidade de Cacau. Ontem sentiu-se a falta do clássico panzer. No dia em que Ballack foi para casa, "expulso" pelo balneário, a sua ausência fez-se notar. Ironia das ironias.

A Espanha chegou à final ganhando bem e com solvência o único jogo que realmente conta. Foi uma equipa afortunada, com arbitragens contemporizadoras (ontem, uma vez mais, um penalty ficou no bolso) garantidas pelo próprio Villar, e que soube matar os jogos quando era necessário. O seu futebol está a anos-luz de outras grandes selecções. Em números, serão o pior finalista de que há memória, incapazes de ganhar por mais de 1-0 nos jogos a eliminar. Nem a pior azurra! Só contra as Honduras ganharam com mais de um golo de diferença. Muito pouco. Mas espelho de um Mundial muito pobre. Claro que a imprensa espanhola já compara esta equipa ao Brasil de 70. Os complexos de inferioridade são assim. Mas ontem o verdadeiro conjunto "complexado" foi o germânico. Quando Low anunciou que Espanha teria vários Messis, o mundo pensou que estava só a ser educado. Mas não. Apesar de ter anulado o astro argentino, o conjunto alemão foi incapaz de anular os "baixinhos" espanhóis. E isso paga-se caro. No caso espanhol pode valer um Mundial. Um triunfo inédito para rematar uma era de ouro no desporto espanhol. Algum dia teria de ser...


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Miguel Lourenço Pereira às 08:36 | link do post | comentar | ver comentários (34)

Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

O Mundial é para as melhores equipas ou para as mais afortunadas?

Os amantes do Brasil e França de 82, da Dinamarca e URSS de 86, da Holanda de 74 e 78, de Portugal de 66, Hungria de 54, da Alemanha de 06 ou da Roménia de 94 têm direito a estar apreensivos. Nenhuma equipa jogou com a qualidade da Alemanha nesta prova. Do outro lado está a Espanha. Um conjunto que chegou cheia de fogo de artificio mas que foi demonstrando um cinismo e fortuna digna da melhor Itália. Hoje a qualidade defronta a persistência. A equipa das goleadas contra o conjunto das vitórias sofridas, contestadas, sempre pela minima. Os deuses do futebol têm a última palavra.

O polvo Paul prediu a vitória de Espanha mas já à dois anos se enganou no duelo hispano-germânico que marcou o final do Europeu da Austria-Suiça. Joachim Low estará com a sua camisola azul e Casillas tentará não distrair-se com a sua namorada, depois de ter voltado à condição de santo ao parar o penalty de Cardozo, o homem que afinal não é propriamente conhecido pela sua eficácia. Todo o tipo de superstições e cálculos passam pela cabeça dos adeptos de ambas partes. Hoje não há neutrais. Nem os holandeses, desejosos de vingar-se de 1974. Sim, daquela final.

Se Del Bosque sabe que a Alemanha "é a equipa que sempre vai às finais", já Low tem consciência de que a sua equipa terá de parar "vários Messi". A Espanha será certamente uma equipa distinta de Inglaterra e Argentina. Os primeiros eram desorganizados à frente e lentos atrás. Os segundos eram desorganizados atrás e ineptos à frente. O campeão da Europa é uma equipa mais equilibrada. Mas não é invencivel. Como o Barcelona, tão elogiado, que caiu diante do Inter, também esta Espanha tem problemas de caracter. Tem vivido (e sobrevivido) graças aos golos de Villa (só Iniesta marcou um golo na prova sem o selo de Villa) e uma que outra ajuda arbitral séria (a não expulsão do asturiano frente às Honduras, a expulsão de Medel no jogo com o Chile, o golo em off-side frente a Portugal, o tento anulado em fora-de-jogo ao Paraguai...). Falta-lhe a classe que exibiu há dois anos. Nessa altura a Espanha era outra equipa, mais equilibrada e incisiva. Hoje é mais organizada mas tem dificuldade em tratar o rival por tu. Em rasgar. E em criar oportunidades de golos. É um conjunto com mais medo a perder do que há dois anos, quando vivia o estado de graça de fazer história. Quem ganha fica diferente. Mais cinico. É inevitável. Com esta equipa não seria diferente. Não foi. Não podia ser. Os erros nos espaços defensivos estão aí, mas não tem havido dianteiros letais para os aproveitar. A época de Casillas está longe de ser perfeita. E o jogo de toque vertical do génio Xavi e do malabarista Iniesta ressente-se da notória falta de gasolina e ideias do duo do Barcelona. Mas são favoritos. Chegam com um galão ao ombro, com o olhar aprovador da FIFA e a simpatia de muitos. E com o cinismo que muitas vezes é chave nestas provas.

 

A Alemanha não tem nada a perder e essa é a sua maior vantagem. Talvez a mesma que exibiam espanhóis em 2008. E que funcionou.

Futebolisticamente são uma equipa muito superior. Rápida nas transições, letais no contra-golpe, eficaz na circulação de bola e incapaz de sacrificar o modelo de jogo por uma abordagem mais conservadora (ao contrário do duplo-pivot defensivo espanhol). Jogam num 4-2-4 que se transforma em 4-2-3-1 no processo defensivo. É a equipa mais jovem de sempre da Mannschaft. E uma das mais jovens de sempre a chegar tão longe num Mundial. Das mais goleadores de sempre e das que menos concede golos. Um conjunto apaixonante em todos os sentidos. Que goleou dois favoritos ao titulo. Se chegar à final de domingo, a Alemanha será a primeira equipa a chegar tão longe eliminando três equipas do top 10 do ranking FIFA. Talvez isso pese sobre eles. Habitualmente os finalistas são aqueles que rivais mais acessiveis vão encontrando. Uma fórmula que funciona na gestão do desgaste fisico e psicológico. A idade, vantagem em tantas coisas, pode pesar também na hora H. Mas afinal, esta é a Alemanha. Aquela equipa que Liniker sempre disse que ganha sempre. A equipa que já sabe o que é perder (aquela derrota contra a Sérvia, camisola errada Joachin) e o que é sofrer (a vitória in extremis frente ao Gana) e que também conhece o êxtase. Uma equipa que mistura a maturidade com a sede de vitória. Afinal, desde 1996 que a mais bem sucedida selecção europeia não prova um titulo. A mesma que, até nas horas baixas, chega às finais (2002, 2008). A mesma que tem uma espinha encravada na forma de um país arrogante que já se proclamava campeão do Mundo antes de chegar ao fim de África. Os favoritos nunca ganham. É verdade. Mas os europeus também nunca ganhavam fora da Europa. Este Mundial é um quebra-mitos. E Klose quer entrar nesse jogo. Dois golos são suficientes para ultrapassar Ronaldo. E Villa, já agora, o único espanhol endiabrado. A jogar a um ritmo diferente dos colegas. Na equipa alemã todos jogam ao mesmo. Mesmo sem o genial Muller, um dos homens chave da prova, esta Alemanha não tem medo de polvos, touros ou do piscar de olhos de Blatter a Villar. Só pode temer o fantasma que ensombra os melhores e que acaba tantas vezes por coroar os mais irritantes rivais. Por muito marketing que tenham por detrás.

O duelo de hoje leva-nos ao recinto onde a Espanha arrancou a prova. E onde perdeu. Será uma boa oportunidade para medir a resistência mental dos hispânicos, que ainda não souberam o que é jogar sem sofrer em todo o torneio. Mas também para atestar, até que ponto o génio explosivo desta Mannschaft está apto para as grandes noites. Para os alemães o jogo só acaba no fim (a Turquia deve lembrar-se bem disso). Para os espanhóis está acabado antes de começar. A Holanda espera tranquilamente o seu rival. Os deuses do futebol têm a última palavra. E esperemos que não gostem de polvo.


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Miguel Lourenço Pereira às 11:16 | link do post | comentar

Terça-feira, 6 de Julho de 2010

Génio e sofrimento. Tensão e exaltação. 32 anos depois o futebol holandês expulsa os velhos fantasmas e volta á final de um Mundial de Futebol. Uma presença mais do que merecida e mais do que sofrida. O Uruguai foi um imenso semi-finalista, uma equipa digna de entrar para a história, mas quando Wesley Sneidjer está em campo este inclina-se. Hoje, uma vez mais, ele foi a reencarnação de Cruyff e Gullit.

Já tinhamos avisado. Esta Holanda é uma equipa certeira como um relógio. Mecânica sim, mas com mecanismos precisos e nada floreados. A esta equipa, orientada de forma brilhante por Bert van Marwjick, há que enaltecer a maturidade competitiva, algo que parecia ser sempre o calcanhar de Aquiles do futebol que é, para muito, o mais belo da Europa. Não há campeonato tão goleador como o holandês. Não há equipa esteticamente tão ousada como o Ajax. Nem uma selecção tão magnética com a tulipa laranja. Mas faltava-lhe esse punch na hora H. Sempre faltou. Até em 1974 e 1978. Agora o trabalho de casa está feito. Mais do que o acerto táctico, um 4-2-3-1 enganador até ao tutano, com Kuyt como elemento chave, é este acerto de mentalidade que marca a invicta campanha Oranje até á final.

Mas até aqui percebeu-se que a caminhada era dificil. O jogo com a celeste não foi diferente. Um inicio dificil, uma possibilidade chave para matar e algum sofrimento desnecessário ao fim. Marcas deste novo ADN, preparado para esperar, para sofrer. E para vencer. Pela primeira vez.

 

Com a ausência de van der Wiel e De Jong o técnico holandês manteve-se fiel á sua filosofia e optou pelas opções lógicas de Boulharouz e De Zeeuw. O modelo de jogo manteve-se inalterado e rapidamente se percebeu que Sneijder estava num dia sim, pautando o jogo ofensivo da Holanda. No entanto o Uruguai também vinha para competir, por muito que se quisesse fazer parecer o contrário. Diego Fórlan foi, uma vez mais, o corpo e alma de uma equipa guerreira até ao tutano. Uma equipa pautada, acima de tudo, pelo querer. Que sempre esteve presente, mesmo depois do fabuloso golo inaugural de Giovanni von Bronkhorst. O remate indefensável do lateral esquerdo, culminando uma jogada perfeita do ataque holandês, foi o primeiro ponto alto da noite. Mas, estranhamente, a Holanda sentiu-se demasiado cómoda e o Uruguai cresceu e subiu e ocupou o terreno de jogo. Á sua maneira, com velocidade, garra, ressaltos e remates saídos do coração. Como o do empate, um tiro com a esquerda do destro Fórlan que o guardião Stekelenburg foi incapaz de segurar. Culpas para o número 1, mérito para o dianteiro.

A segunda parte começou pouco depois com os sul-americanos de novo com mais alma no terreno de jogo. Até que emergiu Wesley Sneidjer. O médio centro holandês, um dos dois homens do torneio, começou a pedir a bola, a pautar o jogo e naturalmente surgiu o golo. Um remate preciso que desfez as dúvidas. Pouco depois um centro do indomável Kuyt, essa peça nuclear, encontrou a cabeça de Robben. Era o ponto final num jogo que em 10 minutos tinha sofrido do mal da precisão holandesa. O desperdicio posterior, quatro golos que não subiram ao marcador, fazia lembrar a velha Holanda, particularmente quando Maxi Pereira aproveitou a distração dos europeus e reduziu para a minima. Já Fórlan e Robben estavam no banco quando o árbitro permitiu um sofrimento final desnecessário. Mas inevitável com esta equipa que joga no fio da navalha, sem nunca se cortar.

No domingo espera-se uma Holanda acertada ao minimo detalhe. Naturalmente o mundo e a história pedem um reencontro com a Alemanha, lembrança daquela final de 74 que os holandeses não souberam matar e que os alemães se viram incapazes de perder. A questão chave á volta da equipa será a mentalidade dos jogadores. Sneijder pode não ser uma estrela mediática como foram Cruyff, Resenbrink, Gullit ou Bergkamp. Mas tem nos pés a chave da história. O mundo já é seu. Só falta levantar a última taça. 


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Miguel Lourenço Pereira às 21:26 | link do post | comentar

Para uns são 60 anos. Para outros, 32. O céu terá uma cor particular na noite de 11 de Julho. Laranja holandês ou um celeste bem uruguaio? De uma selecção que ensinou o mundo a jogar, levando dois titulos meritórios de bónus, e outra que revolucionou o jogo pela última vez, e teve apenas direito à triste honra aos vencidos. Um duelo que enfrenta duas escolas miticas em processos de progressivo distanciamento da sua génese. Talvez seja por isso que hoje são eles que jogam.

O inesquecível Eduardo Galeano, autor do mais belo livro sobre a essência do futebol, relembrou estes dias que parte do sucesso da equipa celeste está no seu regresso às origens. Desde 1970 que o primeiro país sul-americano a vencer dois Mundiais (antes do Brasil e Argentina sequer terem ganho o primeiro) está ausente das meias-finais. Uma regressão de resultados acompanhada de uma regressão no estilo de jogo. Se na final de 1950, em pleno Maracana, o Uruguai fez metade das faltas do que o Brasil, hoje em dia a equipa sul-americana é conhecida mundialmente pela sua dureza. Tem a mais rápida expulsão da história nos seus registos e as pernas de jogadores mais virtuosos como foram holandeses, alemães, dinamarqueses, espanhóis ou franceses certamente estariam aí para demonstrá-lo.

Esse estilo nada tem a ver com a maravilhosa equipa que se sagrou bicampeã olímpica em 1924 e 1928 e campeã do Mundo em 1930 e 1950. Dessas mágicas gerações resta pouco. Oscar Tabarez, o treinador que levou o Peñarol a vencer uma Copa dos Libertadores (perderia contra o FC Porto a final da Intercontinental), tem o mérito de contrabalançar esse futebol pouco limpo da celeste para uma versão mais macia. Honestamente o Uruguai não é uma máquina de bom futebol. Vive da segurança do seu eixo defensivo (dois golos sofridos em cinco jogos) e nos destelhos de magia dos seus avançados. Quando não é o faro goleador de Diego Fórlan, é a inspiração de Luis Suarez ou a loucura de Abreu. Não há aqui, propriamente, um sistema de jogo trabalhado e infalível. Mas há ritmo, dinamismo e rápidas transições para compensar essa torpeza. E um jogo bem mais suave e limpo.

 

Se a equipa sul-americana foi a que mais jogos teve de disputar para chegar à África do Sul (20), os holandeses precisaram apenas de seis para confirmar um apuramento que terminaria invicto. A Holanda é a melhor selecção do Mundo. Quem o diz é o "outro Mundial", uma competição imemorial, ao bom estilo do boxe, em que o cinto de campeão está na equipa que vai ganhando à anterior dona, independentemente das provas, jogos ou rivais. Há mais de um ano que o titulo pertence à Orange, e como os holandeses se recusam a perder (são o único onze só com vitórias nesta prova), ainda é um mérito que lhes pertence.

De todas as equipas laranjas esta é talvez a menos espectacular. Mas é certamente a mais eficaz. Uma fase de qualificação invencível e uma série de jogos complicados ultrapassados sem brilhantez mas com classe. O triunfo diante do Brasil, acabando com uma maldição de 26 anos frente aos sul-americanos, é o sinal de que esta equipa está bastante diferente. Acenta no génio de dois jogadores, talvez os dois nomes próprios do ano (a par de Bastian Schweinsteiger e Thomas Muller), e no trabalho quase perfeito dos restantes oito elementos no terreno de jogo. Desde o seguro Sketelenburg ao imprescindível Dirk Kuyt. Para Bert van Maarjwick, tanto Wesley Sneijder como Arjen Robben, são o toque de classe à eficácia que exibem as camisolas laranjas. Ao contrário das equipas derrotadas em 74, 78 (na final) ou 98 (nas meias), esta Holanda é um bloco capaz de entusiasmar e irritar. Defende bem, controla o miolo, ataca pouco mas de forma eficaz. Joga pelo meio apesar dos talentosos extremos. E acima de tudo preocupa-se mais com o resultado do que com o jogo. Pode ter perdido alguns dos fãs neutrais (se é que há disso no futebol), mas está a responder com o que sempre faltou ao futebol holandês. Triunfos em jogos chave. O titulo que se resistiu aos génios da década de 70, da equipa do Itália 90 ou do França 98, está ao alcance da mão de um conjunto sem estrelas deslumbrantes, mas com um indice de trabalho e uma disciplina férrea impar.

Neste duelo entre dois dos países menos populosos que viajaram até ao fim do continente africano, há um perfume de história passada que ressoa por todos os lados. Os que sobreviveram à era do Uruguai mágico lembram-se ainda da alinhação que calou os 200 mil brasileiros que encheram  o seu santuário. Os que se lembram de todas as belas equipas da Laranja Mecânica sabem que não há nenhum país na história do futebol que mereça tanto um titulo que lhes escapa há uma eternidade. Não pode haver derrotados hoje. Não há polvos para confundir e modelos para chamar a atenção. Há apenas o ecoar de uma bola, um passe de Sneijder que recebe Cruyff, um centro de Forlan para Ghighia cabecear. Um jogo perdido no tempo. 


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Miguel Lourenço Pereira às 12:18 | link do post | comentar

Segunda-feira, 5 de Julho de 2010

Quando tudo parecia indicar que a África do Sul seria o coroloário do futebol sul-americano, as equipas europeias viraram o jogo do avesso e repetem o cenário mais habitual da história dos Mundiais. Três semi-finalistas, um dos quais o provável campeão. Qual a razão para este volte-face final que coroará, pela certa, uma equipa europeia pela primeira vez longe do "Velho Continente"?

Quando se preparava para arrancar, o Mundial parecia destinado a ser um de muitos a cumprir as eternas lenga-lengas da história.

O anfitrião parecia determinado a apurar-se, as equipas sul-americanas davam um forte sinal de quererem fazer deste Mundial uma festa privada e os grandes favoritos europeus pareciam eclipsar-se. Foi assim durante quase 20 dias. Mas à medida que os africanos iam caíndo, reforçando o sinal de regressão do "Continente Negro" e que os sul-americanos iam seguindo em frente (só o Chile, e por defrontar-se com o Brasil, não chegou aos Quartos de Final) também se ia percebendo que havia seiva nova na Europa. Capaz de dobrar o destino.

É certo e sabido que nunca uma equipa europeia ganhou um Mundial longe da Europa. Hoje ninguém se arrisca a otorgar o titulo ao esforçado Uruguai, regressado, 40 anos depois, a uma meia-final. Uma noticia histórica que reforça a importância do futebol europeu como eixo central do futebol mundial. Mais ainda, dos três semi-finalistas europeus, só um já venceu previamente o trofeu. Uma circunstância que não se vivia desde 1994 (na altura, dos três europeus só a Itália tinha ganho a prova). O selecto clube de vencedores pode conhecer um novo membro, caso a genial Alemanha (ou o surpreendente Uruguai) não vençam os dois jogos que têm diante de si. Desde a sobrevalorizada Espanha à eterna adiada Holanda, podemos estar prestes a testemunhar um feito histórico. Algo que este Mundial teve de sobra.

 

As principais razões por detrás deste volte-face estão na própria estrutura da prova mas, também, nos falsos-mitos que roderam as equipas europeias que viajaram até à África do Sul.

Apesar de ser o continente com presença mais clara (13 selecções em 32, um 40%), as equipas europeias foram forçadas a jogar entre si na primeira fase, com a excepção de Portugal, Grécia e França. Essa circunstância facilitou as eliminações precoces de várias equipas e, também, a passagem de 7 das 8 formações do continente americano (só as Honduras ficaram de fora). A Inglaterra causou a eliminação da Eslovénia, a Alemanha da Sérvia, a Holanda da Dinamarca, a Espanha da Suiça e a Eslováquia da Itália. Das restantes três formações, só Portugal soube seguir em frente, em parte graças à goleada diante da Coreia do Norte que tornou o decisivo encontro final contra o Brasil num trâmite. Não é de excluir, verdade seja dita, que as condições climatéricas, geográficas e de estruturação de provas oficiais tenham sido outra razão para que as pequenas formações americanas tenham superado rivais europeus de maior prestigio. A maioria dos jogadores destas equipas joga nos seus campeonatos e por isso beneficia de uma pré-época recente, de um cansaço muscular menos acentuado e de uma maior capacidade de adaptação climatérica. 

A isso também é obrigatório referir que tipo de selecções representaram o Velho Continente na prova.

Uma decadente França, entregue a uma guerra-civil inevitável, foi o exemplo perfeito de uma formação europeia que viajou milhares de kilómetros para nada. O mesmo se pode dizer da Itália, uma pálida versão da campeã do Mundo em 2006. Ou até da Inglaterra, que teima em não resolver os seus problemas internos (disciplinares e tácticos), mesmo com Capello ao leme. Mas há aqui novidade? Se os Pross nem se apuraram para o Euro 2008, com este mesmo plantel, já a França e Itália mostraram um rosto decepcionante na prova suiço-austriaca. Nada mudou. Se a isso juntamos o pouco futebol demonstrado por eslovenos, gregos e suiços (em tudo semelhante ao que vimos na fase de qualificação), estamos explicados. A Sérvia mostrou ter uma equipa de futuro mas caiu no grupo mais complexo, como se percebeu pela última ronda, quando tinham tudo para seguir em frente. Talvez, de todos, tenha sido a Dinamarca a grande desilusão. Mas nem sempre um apuramento, com circunstâncias particulares, é um bom indicador do que se segue. E nesse aspecto, Maradona tem razão. A Europa tem direito a tantas vagas que a primeira selecção é sempre aberta a equipas de menor nível competitivo. Para que a FIFA não se esqueça.

Ao perceber que equipas europeias seguiram em frente, chegamos à conclusão de que os Oitavos de Final (onde cairam, em duelos só entre europeus, Inglaterra, Eslováquia e Portugal)  foi um exercicio de separação do trio do joio. Os americanos não tiveram problemas, em parte porque defrontaram equipas asiáticas mais débeis (Coreia do Sul e Japão) e em parte porque jogaram entre si (México e Chile). Quando chegou a hora do confronto directo entre os melhores de cada continente, só o Uruguai se salvou. Porque foi o único a evitar equipas europeias. Nos três duelos mano-a-mano, que definiriam se a África do Sul 2010 seria uma mini-Copa América ou um mini-Europeu, venceu a tradição europeia sobre as figuras sul-americanas. Alemanha, Holanda e Espanha são claramente as três formações mais fortes do Velho Continente. Os holandeses têm do seu lado o duelo mais acessível. A Alemanha, por sua vez, joga agora melhor do que os espanhóis faziam quando bateram os teutónicos em Viena, há dois anos. Num Mundial facilmente para esquecer (começa a ser um processo ciclíco, de oito em oito anos) a unica consolação seria voltar a ver holandeses e alemães num duelo final. A história merece-o. Os espectadores merecem-no. O futebol merece-o. Que o polvo adivinho não se engane! 


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Miguel Lourenço Pereira às 15:05 | link do post | comentar

Sábado, 3 de Julho de 2010

A maior vitória da história alemã num duelo com um velho rival. O repasso futebolistico do onze anónimo alemão face ao conjunto de estrelas argentinos foi o grande hino ao futebol deste Mundial. Depois de esmagar a pobre Inglaterra, esta Alemanha soube repetir a dose de eficácia ofensiva batendo a Argentina por 4-0. O Mundial é deles. Só precisam de o confirmar...

Foi um desses jogos que define a história do jogo. Um jogo para a galeria dos momentos imperdíveis dos Mundiais. De fazer escola.

A Alemanha humilhou, de maneira soberana, uma Argentina que confirmou as perspectivas dos mais cinicos que viam no onze de Maradona apenas uma soma de individualidades. E quando a maior dessas estrelas, Leo Messi, sai do Mundial sem marcar um golo e sem criar um clara ocasião, quando a equipa mais precisava, estamos conversados. Messi, ao contrário de Rooney, Ribery e Ronaldo, lutou do primeiro ao fim. Mas foi sabiamente anulado por Low que, tal como Mourinho, sabe que o argentino se deve parar no espaço e não na bola. Messi tentou desavencilhar-se do espartilho alemão mas nunca conseguiu. Rematou, lutou, assistiu mas saiu impotente, rosto da maior derrota do seu país em 36 anos de história. Uma derrota que irá marcar o seu futuro num país que já tem um Deus no relvado e que parece incapaz de encontrar sucesso. Nem Leo esteve á altura do desafio. E condições não lhe faltaram. Sai do Mundial como um lutador, mas pela porta pequena. Dos derrotados.

A Alemanha, sem individualidades sonantes, foi uma equipa em toda a acepção da palavra. Se Schweinsteiger foi provavelmente o melhor e mais constante em campo, pautando sempre o jogo ofensivo da equipa sem se esquecer de ajudar atrás, já Klose demonstrou, uma vez mais, que o Mundial é o seu estado natural. Está a um só golo de Ronaldo e, caso chegue á final, tem 180 minutos para fazer história. E bem o merece. A sua eficácia goleadora é abrumadora e o seu trabalho no ataque chave para que o ritmo de transições velozes funcione nesta Alemanha que só conhece uma filosofia: a do golo.

 

Thomas Muller abriu o marcador. É a revelação do ano, talvez a maior do futebol mundial nos últimos anos.

Falhará, injustamente, o jogo das meias finais. Poucos fizeram tanto para lá chegar. A sua assistência para o golo de Klose foi um gesto perfeito de técnica e raça, a equação genética chave desta Mannschaftt que já supera em jogo as suas melhores versões passadas. Mesmo sem ter ganho nada, Low sabe que tem equipa para anos mas que, já agora, está ao nivel de 54, 72/74 e 90. Os grandes onzes teutónicos da história.

Depois do golo inaugural, a Argentina tentou reagir. Apostaram na raça como resposta ao talento técnico dos alemães. Procuraram surpreender Neuer por diversas vezes com remates de meia distância, mas faltou sempre acerto ofensivo. Em contra-golpe, a Alemanha causava maior perigo e na segunda parte o argumento do filme não mudava muito. Só a paciência dos argentinos. Nem a contemporização da equipa de arbitragem, sempre disposta a aturar os excessos da albiceleste. Maradona tentou mudar o jogo mas saiu-lhe mal a aposta. Low foi rápido a ler o jogo e deu a volta ao esquema ofensivo germânico. Os três golos seguintes, verdadeiros exercicios de pureza futebolistica, confirmaram a esmagadora superioridade alemã. Muller no chão assiste Klose. Um lance sublime do gigante Schweinsteiger oferece a Friderich um golo inédito e, claro, Klose remate um centro perfeito de Toni Kroos. Festejava com os quatro dedos no ar, recado para a afficion argentina e para o seu staff técnico que tinham dito, horas antes, que Deus queria que a Argentina fosse campeã. Bem, afinal Deus é alemão.

Com esta vitória esmagadora e histórica aos alemães já não há quem lhes tire o rótulo de favoritos. Na meia-final terão diante de si possivelmente a equipa que os impediu de ganhar o quarto Europeu da sua história. Mas nem esta Espanha é a equipa dessa noite de Viena nem esta selecção alemã é do mesmo nível. A perspectiva de uma reedição da final de 74 está aí. A 180 minutos de história.


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Miguel Lourenço Pereira às 17:34 | link do post | comentar

Franz Beckenbauer tem, como sempre, toda a razão. O efeito Maradona não pode ser desprezado de nenhuma forma. Como aconteceu com Guardiola no Barcelona, o seleccionador argentino tem do seu lado o efeito mito. Um jogador mitico transformado em técnico tem, automaticamente, a admiração suprema dos seus jogadores. Quando esse jogador é para muitos um semi-deus, percebe-se bem porque o onze da albiceleste está disposta a lutar até para lá da morte. A ressurreição está-lhes prometida.

Fala a voz da experiência.

A antiga estrela alemã, herói do Mundial de 74, presente em três fases finais de um Mundial, é a única figura capaz até hoje de erguer a taça de Campeão Mundial como jogador e treinador. Nomeado seleccionador alemão em 1984, sem experiência prévia como treinador, o Kaiser demorou seis anos a cumprir o seu objectivo. Pelo meio uma meia-final de um Europeu e uma final perdida. Contra Maradona. Em 1990, no Olimpico de Roma, a Alemanha mostrou ter aprendido com os erros. Tinha uma equipa disposta a morrer pelo maior icone futebolistico de um país reunificado. E assim foi. Foi o último titulo mundial germânico. E a última final argentina.

Hoje as duas selecções voltam a olhar-se olhos nos olhos. Há quatro anos foi o papel de Jens Lehmann que fez pender a balança. Mas Diego Armando Maradona estava na bancada, como espectador. Agora está no banco a orientar 11 jogadores que a última coisa que precisam é de olhar para o seu particular "Dios" e encontrar decepção nos seus olhos. Maradona não é um técnico nem um estratega. Provavelmente o trabalho táctico duro é feito pelos seus adjuntos, Billardo à cabeça. Mas se a equipa argentina, tão criticada antes, se tem revelado um festim para os olhos, deve-o à sua presença. As quatro semanas que levam juntos uniram técnico e jogadores mais do que nunca. Os jogadores argentinos sabem que não podem falhar perante o seu idolo. Estarão dispostos a morrer e ressuscitar, se isso significa vencer. Serão a equipa mais dificil de bater porque acreditam, verdadeiramente, na superioridade do seu lider. E na sua, por arrasto.

 

Maradona é o único técnico que decidiu fazer deste Mundial uma festa. Joga com a importância da sua imagem. As suas conferências de imprensa são sempre o ponto alto do dia e as suas pérolas, muitas vindas da celebre escola existencialista de Eduardo Galeano, dão cor a um Mundial de gente cinzenta como Dunga, Del Bosque, van Maarjwick, Capello, Lippi ou Queiroz.

O "efeito mito" fez-se sentir pela primeira vez num Mundial com Beckenbauer. Foi o primeiro craque mundial que saltou para o outro lado com sucesso. Depois Platini tentou o mesmo, sem sucesso. E o mesmo se pode dizer de vários jogadores de menor ou maior prestigio, de Klinsmann a Marco van Basten. Mas faltava-lhes esse efeito congregador que poucos atingiram na história. Josep Guardiola foi um desses homens. No Barcelona pós-Cruyff ele é o "principe" eleito, o maestro do bom jogo, o iniciador da escola do médio centro de corte técnico eximio, de leitura de jogo impecável, simbolo do catalanismo moderno. Guardiola é o espelho perfeito do que é a filosofia do clube. Os seus actuais jogadores reverenciam-no como um mentor, confessando habitualmente que tinham o seu poster no quarto, que sonhavam em ser como ele e que não acreditam poder partilhar do seu conhecimento. Esse "efeito mito" é visivel na forma como os jogadores, principalmente da cantera, se entregam a cada jogo. Dificilmente, por muito bom técnico que seja, Guardiola criaria o mesmo efeito noutro sitio. O efeito perde-se com o afastamente geográfico da base. Mesmo Maradona, uma figura mundial incontornável, seria incapaz de conseguir o mesmo noutro espaço que não o futebol argentino. Na selecção albiceleste ele está em casa. No seu templo.

A Alemanha hoje tem melhor equipa, melhor técnico e melhor onze que a Argentina. Se Messi é o melhor da actualidade, Ozil tem sido o melhor do torneio. Se a defesa argentina tem experiência e fisico, o ataque alemão tem mobilidade e presença. No entanto se há algo que os germânicos não têm, por muito bom que seja (e é) Joachim Low, é um mito no banco. Quando tocar o hino a Alemanha jogará por si. O onze argentino, Messi incluido, jogará por Maradona. A Alemanha está a milhares de kilómetros de distância. Maradona estará ali a olhar, a gritar, a sofrer. É preciso não esquecê-lo!  



Miguel Lourenço Pereira às 04:28 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Desde o imenso Johan Cruyff que nenhum holandês conseguia quebrar o feitiço brasileiro sobre a Laranja Mecânica. O que falhou Bergkamp e Kluivert logrou Wesley Sneijder, patrão de uma Holanda de máxima eficácia que demonstra ao mundo que o Brasil sem festa é sempre menos Brasil. 22 anos depois a final está a 90 minutos para os holandeses.

 

O ódio brasileiro cairá todo sobre Dunga, o mentor deste Brasil de serviços minimos que só existiu durante meia hora num dos jogos mais apaixonantes da prova. A Holanda, que até entrou temorosa, tomou a batuta do jogo à meia hora e não a voltou a largar. Usou e abusou do génio de Wesley Sneijder e do desiquilibrio constante que significa a mudança de velocidade do turbo de Arjen Robben. Os dois jogadores mais em forma da Champions League são-no também desta equipa que é, hoje mais do que nunca, candidata legitima ao titulo mundial.

Sneijder centrou para o auto-golo de Felipe Melo no primeiro e marcou o segundo. Mas Robben foi chave na manobra ofensiva. E ambos distribuiram a responsabilidade de um jogo de máxima tensão que o "escrete canarinho" de choque que Dunga montou.

E se é verdade que o Brasil da primeira parte foi o melhor que viajou à África do Sul, também é verdade que o efeito durou pouco. Kaká, Robinho e Fabiano trocavam a bola no ataque com uma rapidez inusitada que ganhava da velocidade de Maicon e Dani Alves pela direita. O mesmo esquema que destroçou o Chile voltou a funcionar com uma lenta e temerosa defesa holandesa. Sem Mathijsen, os centrais europeus tinham dificuldade em aguentar o ritmo do eixo ofensivo do Brasil. O meio-campo procurava o choque do minuto zero. Felipe Melo, o panzer por excelência do sargento Dunga, quis impor o seu fisico aos talentosos médios holandeses. A sua técnica de intimidação funcionou a principio. Até que os rivais começaram a ganhar o duelo. E Melo foi perdendo a cabeça. Quando tudo mudou, acabou expulso. Com ele foi a imagem deste pobre Brasil.

 

O escrete marcou por Robinho num erro imenso do sector defensivo holandês. E poderia ter marcado mais não fosse o atento Stekelenburg ter evito por duas vezes os remates de Kaká e Maicon. Mas ao intervalo essa vantagem transformou-se num pesadelo. A Holanda entrou com a velocidade que ainda não tinha imprimido no Mundial. O trabalho hérculeo de Dirk Kuyt abriu esoaços para o duo criativo rasgar o sector defensivo canarinho. Num livre, Sneijder encontra a ajuda do desastrado Melo e do precipitado Julio César. O guardião foi, a par de Maicon e Robinho, o melhor brasileiro do Mundial. Mas aquele momento decidiu o jogo.

A Holanda cresceu e Robben usou e abusou da velocidade. Num desses lances ganhou o canto e colocou a bola na cabeça de Kuyt que desviou subtilmente para Sneijder, só, fuzilar as redes brasileiras. Um volte face como aquele de 1994 que deixou os brasileiros em choque. Quem se atrevia a dar a volta ao marcador depois de uma primeira parte de tal nivel? Dunga não soube reagir, Melo perdeu a cabeça, Robinho ia pelo mesmo caminho e a própria Holanda nem parecia acreditar tal foram as oportunidades claras desaproveitadas pelo ataque Orange. No final a velha malapata chegou ao fim. A Holanda batia, 36 anos, o Brasil num Mundial.

 

Bert van Marjwick ganhou a aposta. Mantém uma equipa esteticamente ofensiva, com um 4-3-3 claro, com um médio solto á frente de dois médios de contenlão. E com o trabalho de Kuyt e a velocidade de Robben como elementos desiquilibrantes. Ganhou em eficácia sem perder em classe. E tem todas as condições de ser o primeiro técnico holandês, desde 1978, a pisar o palco de uma final de um Mundial. Dunga saiu da prova pela porta pequena. Os seus métodos, a sua selecção, o seu estilo foram destroçados. Felizmente para o Brasil há esperança. Chama-se 2014 e também eles têm que acertar contas com um passado doloroso. Um grito no silêncio.


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Miguel Lourenço Pereira às 00:26 | link do post | comentar

Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

 

"Maybe, after all, he is just the soccer world's most expensive fraud"

 

Grahame Jones, LA Times

 

No final do Portugal vs Espanha, que dictou o afastamento da equipa das Quinas do Mundial, todos os olhos estavam no derrotado.

As camaras pouco queriam filmar a festa dos espanhóis, os campeões europeus em titulo. O importante era captar o olhar do jogador mais caro do Mundo, aquele que gosta de dizer que é o "primeiro, segundo e terceiro" melhor jogador do Mundo. Aquele que capitaneava a equipa das Quinas numa noite que podia ter passado do drama ao extase facilmente. Revelando o seu já constante péssimo perder, Cristiano Ronaldo insultou os assistentes de camâra da FIFA e cuspiu-lhes como faria, quase uma hora depois, ao rosto dos portugueses e do seu seleccionador, ao dizer que as respostas da derrota, que não fiasco, e da sua exibição não eram com ele. Eram com "o Queiroz".

 

Cristiano Ronaldo emerge como o grande derrotado pessoal deste Mundial.

Certamente não perdeu sozinho. Carlos Queiroz tem a sua culpa no cartório, em alguns lances chave, desde o não arriscar frente ao Brasil quando sabia que o apuramento estava confirmado, até à escolha de Ricardo Costa como marcador directo de David Villa. Também é preciso refrescar a memória de quem se lembra de ver Simão Sabrosa em campo. Especialmente no lance do golo espanhol. Ou as trapalhadas constantes de Danny, ou os passes errados de Tiago frente a Brasil e Espanha. Todos eles contribuiram, de certa forma, à eliminação de Portugal. Mas nenhum deles era o capitão de equipa. E nenhum deles era o "melhor do Mundo", rótulo com que o extremo chegou ao Mundial, nesse duelo com Messi que dura já três anos, com vantagem clara para o argentino nos últimos dois. O seu rosto de desalento dizia tudo. Depois de um ano em branco com o Real Madrid (outra vez Messi, outra vez os espanhóis) também a selecção o afastava dos titulos colectivos, porta para os titulos pessoais. O que lhe interessa realmente. De tal forma que até Carlos Queiroz, o seu principal valedor e homem por detrás da sua nomeação como capitão - e responsável por este excesso de ronaldismo na selecção - reforçou isso na conferência prévia ao jogo. O importante não parecia ser Portugal passar, mas sim que o CR7 vencesse qualquer coisinha. Para o puto não ficar chateado, va lá.

Futebolisticamente o extremo dos 100 milhões não existiu no torneio.

Queixou-se de que a táctica não era do seu agrado. Jogou sozinho na frente mas também jogou a extremo. Não rendeu em nenhuma das posições. Em Madrid jogou nas mesmas posições e soube marcar, soube assistir, soube brilhar. Deve ser um problema com o equipamento.

No jogo inaugural frente à Costa do Marfim, entrou bem durante meia-hora. Depois, prenuncio futuro, escondeu-se do jogo. Frente à Coreia do Norte fez parte da excelente segunda parte colectiva, porque na agonia da primeira meia-hora pouco se lhe viu. Contra o escrete canarinho, no jogo que sabia que era um prato mediático forte, queixou-se mais do trabalho dos colegas e do árbitro do que dos seus remates estapafúrdios a kilómetros de distância de Júlio César. Foi um jogador amador, egoista e debilitado psicologicamente. Prenúncio, hellas, do jogo chave. Desse jogo onde nunca apareceu. Ao contrário de Villa, o homem golo do torneio, os seus remates nunca assustaram as redes espanholas. Foram só quatro, contra dez do dianteiro do Barcelona. Também não assistiu nenhum colega, nem sequer ajudou no processo defensivo. Quando caía, vitima ou não da insensibilidade arbitral, a camara fixava-se no seu olhar de menino a quem lhe roubaram o doce e que espera um novo. Até que ajeita as meias, lentamente, e se decide levantar. Durante esse largo periodo os colegas suam para tapar os buracos que o capitão deixa. Ninguém se queixa, só ele. Os livres, apontados por outros, passam a ser seus, exclusivamente. Não tivessem em campo Bruno Alves, Simão ou Raul Meireles, jogadores que sabem bem o que é marcar de livre directo. Mas que têm o problema de não ter os seus remates como um trademark. "Tomahawk" chama-lhe. Ele saberá. Deve ser a rotação da terra que muda a trajectória do missil. Tevez, Lampard e Honda não pareceram queixar-se. Gente estranha essa.

 

Ao contrário de Leo Messi, Robinho ou Arjen Robben, apenas para citar dois exemplos, o futebol de CR7 estagnou.

É um portento fisico, resultado de um trabalho cuidado digno de um profissional, verdade seja dita. Mas falta-lhe aquele regate improvisado que o fizeram subir do anonimato até às estrelas. Neste Ronaldo já não há a picardia que levou uma equipa de topo a contratá-lo depois de um jogo de apresentação. Nem a capacidade de improvisação que deixou loucos os defesas da Premier League, que nunca tinham visto nada assim nas suas vidas. Esse CR já não existe. O seu jogo agora é puramente vertical. Cristiano Ronaldo, arranque donde arranque, nunca muda o sentido do lance. Nunca improvisa. Nunca surpreende. Vai em frente, vai em diagonal. Vai até ser travado. Tornou-se demasiado fácil anulá-lo. Basta saber dobrá-lo e esperar que o arbitro, ao vê-lo chocar com um muro imutável, não se deixe levar pelo grito de protesto. Ao contrário do holandês, do argentino e do brasileiro, que rodopiam sobre a bola e sobre si mesmos, desconcertando rivais, o número 7 de Portugal parece estático. Remate sem a inteligência de um jogador que conhece a realidade de um relvado. Egoisticamente quer a bola sempre para si, mas é incapaz de entrar num jogo de associação com Messi faz com o colectivo à sua volta. A bola chega aos seus pés e só acaba fora, nas redes ou no pé do rival. Não há uma quarta via.

Durante muito tempo dizia-se que Cristiano baixara a forma porque não tinha parceiros de associação, como Villa tem Xavi, como Messi tem Tevez como Robinho tem Kaká e como Robben tem Sneijder. Desta vez, nem essa desculpa lhe vale. O olhar dos colegas, a cada remate disparatado, diz tudo. Se alguém quer jogar sozinho, esse alguém é ele.

O Mundial de Futebol é o local da consagração dos mitos. Nem todos o ganharam. mas todos os grandes jogadores da história confirmaram os seus mitos nos Mundiais. Pelé e Maradona ganharam Mundiais praticamente sozinhos. Entre a galeria dos "monstros" que o venceram estão também os Charlton, Garrincha, Muller, Beckenbauer, Romario, ZidaneRonaldos. Os Cruyff, Platini, Eusébio, Puskas, Belanov, Elkjaer, Laudrup, Zico, Socrates, Gascoine ou van Basten não os venceram,  mas marcaram profundamente as edições em que participaram. Em dois Mundiais já disputados, o total da prestação de Cristiano Ronaldo resume-se a dois golos (um penalty e um golo acrobático), duas assistências e pouco futebol. Um fracasso.

Fraude. 

O Los Angeles Times, que de futebol não costuma perceber muito, verdade seja dita, não soube dizer menos.

É esse o sentimento que fica depois da prova. Fraude de liderança. Fraude de futebol em campo. Fraude de espirito de equipa. Fraude de gratidão. Ronaldo atacou o homem que o contratou, ajudou a crescer e acabou por fazer capitão. Atacou os colegas ao referir-se sempre a si e nunca ao colectivo durante a prova (se o ketchup, se os MVP´s, se o "jogo sozinho"). Atacou os adeptos ao virar as costas a mais de 10 milhões de pessoas porque tinha "o direito de sofrer sozinho". E atacou o futebol, o futebol que os admiradores que tem nos quatro cantos do Mundo esperavam ver sair dos seus pés. Nem Messi, nem Robben nem Robinho têm feito um grande Mundial. Ninguém o fez. Até se pode discutir e dizer que Rooney, Ribery, Torres e Kaká têm sido bem piores. Mas nenhum pode ser acusado de não deixar tudo em campo, de respeitar o jogo e fazer-se respeitar a si mesmo.

Cristiano Ronaldo pode ter, porque tem, um talento incomensurável. Uma trajectória de sonho e um futuro brilhante. Mas o que não terá é o respeito de quem via nele o lider desta selecção. O jogador que poderia fazer com este Portugal pautado pela mediania (no banco e no relvado) o que fez Eusébio em 1966. Nesse aspecto, e em tantos outros pequenos grandes detalhes, CR7 transmutou-se em CR0. O CR da fraude!

 



Miguel Lourenço Pereira às 15:03 | link do post | comentar | ver comentários (4)

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