O futebol é uma salada de diferentes sabores. Num Mundial, mais do que em qualquer prova, a mistura é inevitável e muitas vezes tem o toque de distinção de nos oferecer um manjar requintado. Outras, uma refeição insuportável. O Grupo A deste Mundial made in Africa é uma dessas saladas que há que comer com cuidado. Pode não parecer que valha muito por fora, mas tem um luz interior capaz de nos deixar de barriga cheia.
De tempos a tempos a FIFA entrega um Mundial a um país que não corre na lista dos eventuais ganhadores.
Com isso o futebol perde um toque de festa (um país emocionado com uma vitória dos seus) e abre-se uma imensa dúvida sobre, até onde pode chegar o anfitrião. Se até aos Oitavos de Final, quando o jogo começa a sério, como EUA, México ou Japão. Ou como uma surpresa inesperada, lembrando Suécia, Chile e Coreia do Sul. Tudo indica que a África do Sul não só está no primeiro grupo, como até pode fazer história e ser a primeira nação organizadora a cair na primeira quinzena de prova.
Ninguém o deseja, a bem do espectáculo com vida própria que é um Mundial, mas nem os gritos de milhares de vuvuzuelas parecem ser suficientes para colocar os "Bafana Bafana" no lote de favoritos a passar. É o inevitável prato de entrada quando a maioria já espera a sobremesa e ao brasileiro Carlos Alberto Parreira, que até sabe o que é ganhar um Mundial, os problemas ultrapassam o desfrute. Por muito que as pessoas se lembrem do recente Invictus, aqui o futebol é um evento marginal e sem expressão numa equipa que nem se encontra no top 10 do próprio continente. Nem o centenário Makoena, nem a eterna promessa (por confirmar) Steven Piennar...parece que ninguém vai aguentar o primeiro prato.

Uma das vagas, aquela que historicamente parecia destinada à equipa da casa, parece pertencer a um duelo continental. Como o canal do Panama é producto humano não é assim tão complicado imaginar uma relação mais fraternal entre México e Uruguai.
São duas das selecções que mais expectativa levantam. E com razão. Equipas ofensivas, repletas de muito talento (jovem, particularmente), têm o desafio de recuperar melhores dias. O Uruguai, primeiro bicampeão do Mundo, há muito que deixou de contar nestas provas, mas com um dupla de ataque formada por Diego Forlan e Luis Suarez, tem direito a sonhar. Do Uruguai esperamos uma tipica formação em 4-4-2, combativa mas com um toque de classe no sector ofensivo. Sem ainda algumas das suas maiores promessas (como Aguiersgaray ou Barreto), o conjunto celeste apostará numa defesa a quatro, à frente do genial Muslera, com os laterais ofensivos Maxi e Alvaro Pereira junto à dupla Godin e Caceres. O meio-campo mistura o talento de Lodeiro e Cavani à força de Eguren e Lugano. Um onze de respeito ao qual Javier Aguirre, o lider dos aztecas, terá de contrapor com muita juventude. Uma selecção mexicana repleta de energia à espera de um desafio à altura. Abrem contra os anfitriões e isso pode dar-lhes vantagem moral. A veterania de Blanco, Guille Franco, Marquez e Salcido com a tremenda juventude de génios em potência como Ochoa, Guardado, Juarez, Moreno, dos Santos ou Carlos Vela. Poucas equipas podem entusiasmar tanto como a mexicana. Resta saber se o desafio pertence a esta edição ou se esta geração está destinada a brilhar no Brasil.

Por fim a sobremesa, requintada mas que desperta sempre a dúvida. Esta França acompanha-se com ou sem café?
Raymond Domenech está de saída (Laurent Blanc já foi confirmado como o seu sucessor) e com ele toda uma geração de Bleus que estiveram nos melhores momentos da história desportiva do país. Esta prova será a última ocasião para os Henry, Anelka, Gallas ou Abidal e é a primeira hipótes de brilhar para uma nova vaga que, com o futuro seleccionador, será certamente rejuvenescida. Lloris é um guardião apenas à espera de um palco à altura para brilhar. No miolo, Toulalan e Gourcouff querem emendar a mão de uma época que podia ter corrido melhor e Ribery pode expiar os seus pecados uma última vez. Não se sabe ainda em quem vai realmente o técnico vai apostar. Se um formato 4-2-3-1, com Ribery, Anelka, Gourcouff e um apagadíssimo Henry num ataque com pouca pólvora, ou num ataque feito à medida de Malouda, Cissé e Gignac, em melhor forma. No eixo defensivo muitas dúvidas, particularmente com a condição fisica de Gallas, para atormentar os gauleses. A verdade é que se há uma selecção que desperta dúvidas desde o principio, essa é a equipa francesa. Mas não é isso que faz atractivas tantas surpresas gastronómicas?
O Duelo: A frieza da promessa (certeza) Hugo Lloris com um dos duas atacantes mais em forma do Mundo: Forlan e Suarez.
A Figura: O avançado uruguaio chega com a Taça UEFA debaixo do braço e com a última oportunidade de brilhar com a "Celeste". Dos golos de Diego Forlan depende em grande parte a esperança do Uruguai em contrariar o favoritismo das restantes equipas do grupo.
O Em Jogo aposta em: México e França
É assim sempre. Uma realidade imutável de uma prova que começa a disputar-se muito antes da bola rolar pela primeira vez. Os eliminados, os descartados e as vitimas de lesões inoportunas vão aumentando à medida que o jogo inicial se aproxima. Muitos são estrelas planetárias, outros jovens promessas. Todos eles partilham de um mesmo sentimento. O Mundial terá de ser visto pela televisão.

As primeiras lágrimas verteram-se ainda em 2009. Com a confirmação dos 32 finalistas ficou claro que o Mundial ia perder alguns dos rostos mais sonantes do futebol actual. E menos mal que os astros do momento, Messi e Ronaldo, se salvaram in extremis. Ou o cenário teria sido bem mais complicado.
A eliminação precoce da Bélgica, Turquia, Irlanda, Ucrânia, Suécia e Rússia deixou de parte uma legião de talentos que terão de guardar as suas ambições para o Europeu de 2012. Entre eles pode formar-se um onze de primeiro nível, desde o guardião Igor Akinfeev aos centrais Verthogen e Vermaelen sem esquecer um meio-campo composto por Hazard, Denisov, Altintop ou Duff. O ataque Arshavin-Ibrahimovic meteria respeito a qualquer defesa. Infelizmente nenhum deles estará no outro lado do Mundo este ano. A estes juntaram-se também as estrelas egipcias - com o genial Zidan à cabeça - com mais uma eliminação inesperada, ou figuras em grande forma como o colombiano Falcao ou o avançado do Mali Frederic Kanoute. Nomes de primeira linha que ficaram imediatamente de fora de qualquer lista. Mas que não seriam os únicos. Ainda faltava muito para arrancar a Jubalani.
Chegados a Maio os seleccionadores foram forçados a realizar os primeiros descartes.
E levantaram uma nuvem de polémica que dificilmente acentará até ao final do torneio. Se Fabio Capello se poupou ao drama de uma Inglaterra sem David Beckham graças à lesão do médio inglês, já Dunga teve de viver com as criticas de meio Mundo quando declarou que nem Diego, nem Neymar nem Ronaldinho estavam entre os seus legionários. Fiel a si mesmo, Dunga declarou que prefere enfocar a participação num ambiente colectivo forte onde a individualidade é o de menos. Uma posição diametralmente oposta à de Diego Maradona que abdicou de cinco jogadores profundamente colectivos como Javier Zanetti, Esteban Cambiasso, Lucho Gonzalez, Ever Banega e Lisandro Lopez para levar consigo todas as individualidades que se lhe ocorreram. Uma desdita imperdoável que o destino quis compensar com uma série de titulos para os preteridos, desde o titulo da Ligue 1 à vitória na Champions League.
No espectro europeu a polémica foi menor do que a esperada. As sessões eróticas de Karin Benzema com uma jovem prostituta magrebi retiraram-lhe grande parte do apoio da imprensa e a sua ausência passou ao lado de muitos. Em Itália também poucas foram as vozes que se levantaram contra a não-convocatória dos três únicos pensadores italianos com algum critério de magia: Del Piero, Totti e Cassano. A própria Espanha, sempre amiga de uma polémica pontual, manteve-se em silencio quando Del Bosque preteriu os campeões europeus Diego Lopez, Cazorla, Senna e Guiza pela juventude de uma nova geração de talentos. E, ironicamente, acabou por ser o alemão Joachim Low a pagar a fava. Perdeu cedo Adler e Rolfes, e também preferiu ignorar os pedidos de Kuranye. Depois arriscou ao deixar de fora Borowski, Frings e Hitzlsperger e viu-se surpreendido, já no estágio, com as baixas de Ballack e Trasch.

Entre lesões (como as de Michael Essien), ausências mediáticas (que nem os anuncios televisivos ou cadernetas de cromos souberam antever) ou eliminações precoces, ficaram de lado jogadores suficientes para armar um candidato ao titulo mundial. Como sempre não se pode agradar a todos e será preciso esperar pelo 12 de Julho para perceber se as ausências se notarão mais no fim do que no inicio desta aventura na África do Sul.

