Num ambiente hostil e com uma arbitragem indigna da elite europeia, o Liverpool viu-se subitamente a ter de correr contra o relógio para chegar ás meias-finais da Europe League. Tal como no encontro contra o Lille é preciso recuperar uma indesejada desvantagem. É necessário envocar, uma vez mais, o espirito da Kop.

O Liverpool começou a vencer. Merecidamente.
Entrou bem no jogo e empurrou o Benfica, mais contido do que noutras ocasiões com Carlos Martins no lugar de Javier Saviola. O golo de Dani Agger fez justiça ao marcador e deu uma confiança extra a uma equipa habituada a sofrer. Eliminados precocemente da Champions League, o Liverpool tem trepado de forma periclitante pelas provas europeias. Muitas baixas, como tem sido habitual, para Rafa Benitez montar o seu onze. E se o SL Benfica soube equilibrar o jogo, a verdade é que foi uma polémica decisão arbitral que começou a decidir a contenda. A expulsão do holandês Ryan Babel, num lance em que o brasileiro Luisão só pode agradecer não ter seguido o mesmo caminho, mudou por completo o jogo. O Benfica acreditou, empurrado por 55 mil adeptos fanáticos e a roçarem atitudes que poderão valer ao conjunto encarnado uma severa suspensão por parte da UEFA, e começou a empurrar o Liverpool. A pouco e pouco ia-se notando a diferença de homens no terreno de jogo. A implacável marcação de David Luiz a Fernando Torres fez efeito. O avançado espanhol passou ao lado do jogo. Ao intervalo tudo mudou. O Liverpool surgiu mais contido e o Benfica acreditou. Dois penaltys impensáveis ajudaram á reviravolta e, de ver-se a perder, o Benfica passou para a frente do jogo. E da eliminatória.
Agora resta ao gigante Liverpool pensar na mágica Koop.
O histórico hino nunca terá feito tanto sentido como na eliminação contra o Lille com os adeptos a empurrarem a equipa para a vitória. Relembram-se reviravoltas históricas do clube de Merseyside. E pensa-se em repetir o sucesso passado na prova que marcou o primeiro trofeu da década para o clube, numa final histórica contra o espanhol Alavés.
Benitez será mais atrevido. Sem Kuyt a equipa terá de assentar, mais do que nunca em Gerrard-Torres. O duo mágico passou ao lado do jogo da Luz. Não pela eficácia defensiva encarnada, mas principalmente porque foi o meio-campo com Masherano e Lucas Leiva quem falhou. Com dez homens o trabalho duplicou-se. A indecisão de Benitez protelou as dúvidas e os inesperados penaltys, marcados por Cardozo, deram a volta a um jogo que, apesar de tudo, parecia controlado. Erros como esses não serão permitidos. Não diante da mitica Kop. Os adeptos Reds serão o 12 jogador. Uma vez mais terão de vir ao resgate de um histórico que está, uma vez mais, em queda livre. Ao contrário do Benfica que depois da vitória frente ao Braga, mostrou ter pulmão suficiente para atacar o segundo objectivo da época. O que pode significar um regresso á elite europeia. Mais de 20 anos depois da última final do clube lisboeta. Muito tempo para quem presume de tanta grandeza.

O espirito de Shankly será necessário. Mas pode não ser suficiente. Benitez está, desde há muito, na corda bamba. Com o quarto lugar na classificação da Premier League como um objectivo impossível, o orgulho do clube só se poderá salvar com uma nova consagração europeia. E mesmo assim isso pode não ser suficiente. Em cinco anos o técnico espanhol entrou a "matar" na primeira temporada com uma Champions. Talvez ganhar a Europe League sirva mais como uma digna despedida do que, propriamente, como uma salvação de última hora a um emprego maldito desde o final do mitico "Boot Room". O mesmo que definiu o espirito da Kop!
Na cidade da Europa onde mais se respira futebol ontem pudemos entender que há algo no verde tapete que atrai os mais assombrosos magos do futebol europeu em noites de Quarta-Feira. O maior espectáculo desportivo do ano colocou frente a frente as duas equipas europeias que melhor interpretam o beautiful game. O resultado? Ninguém acreditaria.

Quem tivesse saído do Emirates Stadium ao intervalo perguntar-se-ia que brisa de sorte brindava a equipa gunner. Os mesmos teriam dúvidas 45 minutos depois sobre quem teria sido realmente o onze mais afortunado. O embate de gigantes destes Quartos da Champions League deixou para a história o melhor jogo do ano. O mais vibrante. O mais entusiasmante. O mais puro. Lado a lado os dois técnicos que melhor sabem tratar a bola, os espaços, o tempo de jogo. E duas equipas que seguem á linha as indicações dos seus generais. Parecia que o vencedor seria quem mais tempo tivesse a bola. A filosofia de base de blaugranas e londrinos. Mas não. O futebol é mais do que isso e o resultado final provou-o. Se o Barcelona foi dono e senhor da bola, o Arsenal foi dono e senhor do ritmo. Duas partes antagónicas como as duas formações que subiram ao relvado. Se ao intervalo o Barcelona poderia ter saído a vencer por 0-4, não surpreenderia ninguém que no final dos 90 minutos o jogo tivesse acabado com uma dezena de golos. Mas não, foram apenas quatro. Como se isso importasse. Guardiola ganhou o primeiro round. Wenger venceu o segundo. No final, puro empate técnico.

O Barcelona entrou melhor. Controlou a bola. Pautou o ritmo. Cercou o espaço ofensivo do Arsenal e empurrou-o para a sua grande área. E rematou. Rematou muito. Por seis vezes Manuel Almunia salvou os gunners de sofrer o primeiro golo. Xavi, Pedro, Messi, Busquets e claro, Ibrahimovic, foram desafiando o espanhol que se manteve imbatido por 45 minutos. A lesão inoportuna de Arshavin bem cedo mudou os planos de Wenger. Habituado a jogar em 4-3-3, o jogo obrigou-o a abdicar de atacar. Só por duas ocasiões teve o Arsenal perto de marcar. Em ambas exibiu-se, uma vez mais, o grande Victor Valdés, um dos heróis deste conjunto. E se os catalães só se podiam culpar a si próprios depois de exibirem o seu melhor futebol do ano, mas sem eficácia, eis que chegaram os golos. Almunia colaborou no primeiro adiantando-se demasiado e permitindo o oportunismo de Zlatan Ibrahimovic. Minutos depois o génio, outra vez, de Xavi Hernandez voltou a descobrir o sueco. Desta feita sem contemplações. 0-2, um resultado que então era justo. Mas perigoso. Porque se Guardiola é um génio, Wenger não lhe fica propriamente atrás.
O francês leu o jogo de forma soberba e percebeu onde podia atacar o Barcelona. Pelas laterais e em velocidade. Lançou o supersónico Theo Walcott que só precisou de quatro minutos para romper as redes de Valdés. O jogo tinha mudado, o Barcelona perdeu a bola e o espaço. O desaparecido Messi ficou em campo e saiu Zlatan. Uma mudança que deu a Henry o aplauso merecido e nada mais. O Barcelona com este lance perdeu a linha ofensiva e o Arsenal subiu no terreno de forma imediata passando a jogar no campo do rival. Poderia ter dado a volta ao marcador por várias vezes mas Pique e Puyol estavam sublimes. Até que mais uma arrancada pela direita de Walcott levantou a bola para a cabeça de Bendtner. O dinamarques, espertissimo, assistiu Fabregas que se preparava para fuzilar Valdés quando prende a perna em Puyol. Penalty pelo toque de ombro do capitão. Vermelho e o momento do jogo. Fabregas marca mas lesiona-se. Sem poder ser substituido fica no relvado a sofrer. E o conjunto gunner perde o seu pensador. E o jogo adormece lentamente até ao suspiro final.

Sem Pique e Puyol para a volta, Guardiola tem um grave problema. Mas não menor que Wenger que não contará com Arshavin, mas também não poderá alinhar Gallas e Fabregas que podem estar de fora até Maio. Resultado de uma batalha inesquecível no tapete londrino que relembram ao mais comum dos mortais que a bola no pé, o espaço de campo aberto e o ritmo cardíaco ao máximo são os únicos condimentos realmente necessários para demonstrar que o futebol é mesmo o maior espectáculo á face da terra.

