Faltam menos de dois meses para o arranque do primeiro Mundial africano e a dura realidade é que a cada dia que passa se questiona com mais razão a popular escolha da FIFA. Problemas logisticos graves e uma autêntica revolução na venda de entradas deixam a sempre exigente FIFA em cheque. O profissionalismo da organização-mãe do jogo contraste com os constantes tropeções de um país pouco habituado ao mais alto nível.

Não é por acaso que os europeus esfregam as mãos de contentes. Depois do choque que significou a perda da organização do Mundial 2010 (e 2014) para África do Sul e Brasil, agora começam a apontar o dedo à FIFA pela sua escolha populista. Precipitada para muitos. Irreflectida para outros. Optimista em excesso para a maioria. Na ânsia de levar o Mundial a África (a partir de Julho só a Oceânia constará na lista dos continentes sem um Mundial organizado), a FIFA deixou de lado o seu elevado padrão de exigência. Mudou posturas que elevaram o profissionalismo da organização ao seu nível actual. E colocou em risco a realização de um torneio que tinha todos os condimentos para tornar-se memorável. Se a prova se revelar um fiasco a FIFA perderá toda a credibilidade para organizar uma nova aventura e deixar de lado as sempre sólidas candidaturas europeias. Um piscar de olhos também à UEFA que preferiu arriscar com a Polónia e Ucrânia e agora vive na incerteza de que se há realmente condições para que o Euro 2012 seja o primeiro na Europa de Leste desde a queda do Muro de Berlim. Porque uma coisa é a democracia institucional e o optimismo. Outra é a crua realidade.
A FIFA (e por arrastro, a UEFA) especializou-se na última década em eliminar a venda de bilhetes para grandes eventos fora do circuito electrónico.
Qualquer final de prova da FIFA, qualquer competição europeia de clubes e claro, qualquer Mundial, desde 2002, só pode ser visto se o espectador comprar o bilhete através da página oficial da organização. Isso garante, segundo a FIFA, uma dupla segurança. Por um lado permite filtrar a entrada de hooligans e controlar o número de adeptos afectos a cada nação em todos os encontros. Por outro permite centralizar de forma eficaz todas as receitas, prende o espectador ao bilhete e controla o mercado de revenda. Manobras úteis que se tornaram prática corrente. Até agora. Se a FIFA manteve a sua politica de venda até esta semana os números assustadoramente baixos de gente interessada em atravessar o Mundo até um dos países mais perigosos do hemisfério sul fizeram a direcção reflectir. Os europeus - mesmo os alemães e ingleses, as maiores hostes de adeptos migrantes - pensarão duas vezes nos gastos e na segurança. A situação economica mundial servirá também para reduzir o impacto das equipas da América Latina ou Ásia. E claro, para os adeptos locais, a compra online ainda é uma doce ilusão. Até ao dia de hoje só a final tinha já todos os bilhetes vendidos. Muito pouco comparada com 2006 mas que faz lembrar o fenómeno de 2002, onde na distante Coreia do Sul, os organizadores foram obrigados a vestir locais com as cores de cada equipa para dar a ilusão de estádios cheios de adeptos quando as vendas andaram muito por baixo da média. É um facto, os adeptos que realmente vão a provas como esta concentram-se na Europa Ocidental. A ausência de grandes equipas ou as longas distâncias colocam em xeque a alfuência de público. Foi um choque para muitos ver pessoas a comprar bilhetes para o Mundial em supermercados. Mas esse é o modelo sul-africano. E a FIFA teve de ceder. Abdicar dos seus principios para garantir que os estádios têm uma moldura humana significativa. Mesmo que isso comprometa todos os ideias. Money obliges.
No entanto não é só a polémica questão dos bilhetes (o elevado preço e a inevitável revenda faz esperar que muitos jogos tenham uma assistência a roçar minimos históricos, até porque estima-se que não superem os 30 mil, os visitantes estrangeiros) que tem colocado a FIFA num embróglio complicado. A organização presidida por Sepp Blatter concentrou-se largos meses nos estádios, muitos deles construidos sem motivo e apenas para dar negócio a empresas de construção civil locais. E esqueceu-se, muitas vezes, nas infra-estruturas fundamentais num país onde muitas selecções terão de fazer largas horas de avião, experimentar climas distintos no espaço de dias e cuja massa de adeptos terá de os acompanhar nas mais incriveis condições. Não é só a problemática hoteleira que assusta a FIFA. A confissão de um iminente médico que colabora com a organização de que nenhum hospital da África do Sul está preparado para uma circunstância excepcional deixa o aviso. Serão só os hospitais. Haverá algum plano B? Haverá sequer, a preocupação em que existam planos de contingência para proteger adeptos, equipas, organização e autoctones de um problema que pode ir de um atentado terrorista a uma larga intempérie de Inverno frio e chuvoso sul-africano? Afinal, em 2001 morreram 40 pessoas em Joanesburgo ao sair precipitadamente de um jogo. Não é assim tanto tempo.
A questão ganha um contorno especial se atentarmos à dualidade de critérios. A países como Inglaterra, Alemanha, Espanha, França ou Itália a FIFA nunca permitiria esta politica desastrosa. Pelo contrário, seria motivo suficiente para multar ou até mesmo, alterar o organizador. Mas estamos em África e voltar atrás agora é impossível. Não só por problemas logisticos. Porque estes existem há muito. Acima de tudo, é um braço de ferro entre a FIFA e o Mundo. Um braço de ferro que coloca em entre-dito a própria essência desportiva e gestora da milionário organização.
Tudo pode ainda suceder e a organização do Mundial pode passar por um mês imaculado e entrar na história como um caso de sucesso. Mas as probabilidades jogam em contra da FIFA e dos sul-africanos. Inverno, problemas logisticos, falta de organização, ausência de público, problemas de segurança, longas distâncias, horários complexos. Ingredientes pouco atractivos para uma prova que faz parar o relógio do Mundo de quatro em quatro anos.
"O meu som favorito é o de ouvir o osso a estalar". Frases como esta definiram o verdadeiro bad-boy do futebol inglês. Durante dez anos não houve um jogador tão duro, mal-intencionado e violento sobre os relvados de um futebol em mutação. Hoje Vinnie Jones é o espelho de um estilo de jogo que começa a entrar em extinção mas que ainda tem suficientes adeptos para fazerem dele uma estrela.

Não é só que tenha o recorde mais rápido de uma expulsão do futebol britânico. É que soube melhorar o seu inigualável registo duas semanas depois de ter sido amarelado aos sete segundos. E tudo pelo puro prazer de provocar. Assim é, assim sempre foi Vinnie Jones. Hoje estrela pop underground, actor de filmes de acção, inspirador de heróis de BD e personagem por direito próprio de vários videos do You Tube. Na década de 80, o pesadelo do futebol inglês.
Galês de nascimento, de origem cigana, começou a jogar futebol profissional com 19 anos no modesto clube local Wealdstone. O seu estilo fisico e altamente competitivo chamou a atenção de um conjunto sueco, o Holmsund, que o contratou de imediato. Depois de um ano, onde se sagrou campeão da segunda liga sueca, as suas exibições começaram a chamar a atenção de clubes da First Division. Foi o modesto Wimbledon, conjunto dos subúrbios de Londres, quem avançou para a sua contratação. Nem imaginavam que por 10 mil libras tinham acabado de contratar um dos icones do clube para o resto da sua história. Jones estreou-se em 1986 e rapidamente conquistou os adeptos. Violento como poucos, a sua especialidade era de cortar qualquer lance de ataque quando ainda estava na imaginação do rival. Formou parte do Crazy Gang, junto com o jovem Dennis Wise, o irreverente John Fashanu e Lawrie Sanchez. Em dois anos formou a equipa tornou-se num icone do futebol duro, que já começava a cair em desuso num país ainda assustado com os efeitos de Heysel e Hillsborough. A vitória histórica sobre o Liverpool na FA Cup de 1988 confirmou a popularidade de Jones. No ano seguinte os adeptos desesperaram com a venda Jones ao Leeds. Em Yorkshire, Jones fez escola com o seu futebol duro. Mas os problemas perseguiam-no e depois de dois anos onde andou pelo Sheffield Utd e Chelsea, o central, então já capitão da selecção de Gales, voltou ao seu Wimbledon.
Foi nesse regresso que o seu perfil de bad-boy ganhou outra dimensão.
Tráfico de drogas, alcool, mulheres, acidentes de carro, agressões a colegas e rivais. Expulsões aos 3 segundos por entradas violentas. Tudo isso passou a fazer parte do seu catálogo. Durante seis anos era o rosto do futebol que a Inglaterra queria esquecer. Apesar do seu estilo de jogo ter permanecido em figuras como Wise, Batty ou Keane, o simbolo do que representava tornou-se odiado pelo establishment da Premier League. Provocou uma lesão que destroçou a carreira de Gary Stevens, notoriamente trocou "mimos" com Paul Gascoine e acabou por ser finalmente suspenso pela FA durante meio ano por apresentar o polémico video Soccer´s Hard Men, onde recopilava algumas das entradas mais violentas do futebol inglês. Era suficiente. Mas à medida que a sua carreira desportiva ia caindo, a sua fama no meio underground londrino crescia. Jones era uma estrela sem o saber e quando o cineasta Guy Ritchie o chamou para o seu primeiro filme, Lock and Stock, abriu ao central as portas de Hollywood.
O seu perfil de duro voltou a ver-se em várias produções, desde o seguinte trabalho de Ritchie, Snatch, a várias produções norte-americanas como She´s the Man, Gone in 60 Seconds, Swordfish, Mean Machine ou X-Men. Pelo meio vários anuncios, muitos programas de televisão e livros polémicos pelo meio. Um denominador comum: o lado mais violento do intratável central.

Hoje Vinnie Jones continua a ser uma das figuras de culto para a juventude suburbana inglesa apesar da maioria já nem se lembrar de ter visto as suas entradas violentas no terreno de jogo. A viver há anos em Los Angeles, a sua figura continua a pairar sobre o futebol britânico sempre que uma entrada violenta rasga a rotina de um futebol que aprendeu a controlar-se. Depois de 386 jogos oficiais, 33 golos e 12 vermelhos, o seu cadastro é tão impactante dentro e fora das esquadras policiais. Mas o seu nome não deixa ninguém indiferente. Ainda hoje ele é o "Duro" por excelência.
Hoje partilha o feito com outro nome mágico da história do futebol, Lothar Mathaus. Mas durante largas décadas o mexicano Antiono Felix Carbajal fez história ao marcar presença em nada menos do que cinco Mundiais. Cinco aventuras com o mesmo triste final. E que não lhe permitiram despedir-se diante dos seus.

La Tota é história viva do futebol mundial.
Hoje, com 80 anos, ainda vive tranquilo na Cidade do México e espera um novo Mundial. Ele, mais do que ninguém, sabe o emocionante que é uma aventura mundialistica. Afinal ele foi o primeiro jogador a disputar uma mão cheia de edições. Um feito que, durante 32 anos se manteve inigualável. Até que o alemão Mathaus disputou em França a sua quinta prova. E quebrou uma das hegemonias mais originais da história dos Mundiais. Uma aventura que começou no inesquecível Mundial de 1950 no quente Brasil e acabou em terras de sua Majestade, dezasseis anos depois. Do Maracana ao Wembley. Sempre sob o triste signo da derrota.
Carbajal nasceu na Cidade do México a 7 de Junho de 1929. O mundo estava prestes a entrar num pesadelo mas na capital azteca ainda não havia noticias dos problemas de futuro. Durante dezanove anos Carbajal foi mais um rapaz de bairro, jogando na rua com os amigos, frequentando a escola até completar o ensino obrigatório e procurando fazer da sua paixão um oficio. A sua afirmação definitiva ocorreu em 1948 quando foi escalado para viajar até Londres com a seleção olimpica de futebol do México. Precisamente onde terminaria a sua aventura, Carbajal mostrou-se ao mundo. Os mexicanos não foram propriamente a maior sensação do torneio mas dois anos depois voltaram a marcar presença entre a elite, no seu primeiro Mundial. Que também foi o primeiro da aventura de La Tota.
No Brasil 1950 o guardião do Real Club España teve uma performance para esquecer. O conjunto azteca estreou-se a 24 de Junho com uma derrota por goleada (4-0), diante do favorito Brasil. Até ao final da performance no torneio o guardião sofreria mais seis golos (quatro da Jugoslávia e dois do México). E, sina sua, o México ficaria em último na primeira fase. Em terras brasileiras Carbajal começou também um recorde que preferia esquecer: o de guarda-redes com mais golos sofridos na história do torneio. No total acabariam por ser 32.
Quatro anos depois, já consagrado como o grande guardião centro-americano, Carbajal voltou com a sua selecção à liça. Na Suiça era já o capitão de equipa, tinha-se mudado para o Club León, onde ficaria até ao final da carreira e pelo qual seria bicampeão do México, mas o destino acabou por ser o mesmo. O México jogou contra Brasil e França e saiu vergado de ambos os jogos com oito golos sofridos e apenas dois marcados. O mais triste da carreira de Carbajal seria apontado por Raimond Kopa, que aos 89 minutos do duelo decisivo entre franceses e mexicanos disparou para as redes do número 1 sem que este pudesse deter o remate. Um tento que significou o apuramento dos gauleses e o regresso a casa, uma vez mais, cedo dos mexicanos. Quatro anos depois, na Suécia, o primeiro motivo de festejo. Após o correctivo inicial frente aos anfitriões, o México logrou o seu primeiro empate na história do torneio num duelo contra Gales com um golo no último minuto. No desafio final voltou a sonhar-se com o apuramento. Pura ilusão. Quatro golos sem resposta da Hungria ditaram mais uma eliminação. E eram já 26 golos sofridos em três mundiais.
Chegado aos anos 60 Antonio Carbajal já era um icone do futebol mexicano.
Com 33 anos chegou ao Chile como uma estrela. A sua rivalidade com Lev Yashin era um dos pratos fortes da primeira fase do certame. Mas quando muitos esperavam que a hora dos mexicanos tinha chegado, depois de ter estado perto do apuramento por duas vezes, uma nova desilusão tomou conta das hostes. Após a derrota inicial com o Brasil (onde Pelé marcou o seu único golo do torneio), o México caiu diante da Espanha no último segundo de jogo alargando uma maldição que parecia não ter fim. Peiró cabeceou e Carbajal não chegou. Apesar do afastamento o México provou que era uma equipa diferente ao bater por 3-1 a Checoslováquia, equipa que, curiosamente, chegaria à final com o Brasil. Depois de ter passado dois anos de calvário com lesões, Carbajal surpreendeu tudo e todos a recuperar a tempo para viajar até Londres. Antes do torneio começar o guarda-redes mexicano confirmou que esse seria o seu último Mundial. Um recorde de longevidade que não passou desapercebido num país que valoriza como poucos a história do jogo. Foi tratado como uma estrela. No empate a 1 com a França mostrou umas mãos prodigiosas. Mas acabou por sofrer o seu 30 golo em Mundiais, um feito que superaria frente à Inglaterra, que venceria os mexicanos por 2-0. No encontro em Wembley os adeptos locais aplaudiram o mexicano no final dos 90 minutos. O jogo final, frente ao Uruguai, seria o último. 14 jogos e 32 golos depois, era o final de uma longa aventura. La Tota passou então a ser conhecido, simplesmente, como "El Cinco Copas".

Carbajal terminou a carreira dois anos depois, com 39 anos de idade e 20 de carreira. Pela selecção sumou 48 jogos oficiais.
O seu grande desgosto foi não ter aguentado até 1970. No Mundial disputado diante dos seus adeptos o México fez história e finalmente passou da primeira-fase. Alguns comentaram que era o veterano guardião quem tinha estado a trazer azar ao exército azteca. Verdade ou não, depois da sua saída o conjunto mexicano tornou-se um candidato habitual a passar à fase seguinte, tendo chegado por uma vez (2002) até aos Quartos de Final. E Carbajal seria o pai de uma longa escola de guardiões excêntricos que o México daria a conhecer ao Mundo. Apesar de já não ser o único na lista, o seu feito continua a ser especial e a própria FIFA confirmou-o como um dos 100 Jogadores do Século XX. Afinal, La Tota é pura história viva do jogo.
Roma será sempre eterna mas a sua equipa de futebol há muito que se debate com um problema existencial bem mais complicado. Já lá vai quase uma década desde que Fabio Capello montou uma equipa de luxo que soube devolver aos gialorosso a alegria de sair à rua e festejar um titulo. Agora o tempo parece estar em suspenso, em contagem decrescente. Nunca o scudetto esteve tão perto.

Medo e ilusão. Dois sentimentos que caminham lado a lado na mente de cada adepto do clube da loba.
Depois de anos a tentar desafiar a hegemonia do Norte, pela primeira vez a AS Roma está no primeiro posto. A apenas cinco jogos do fim. O sonho do titulo está perto mas agora a pressão começa a ocupar as mentes embrigadas pela vitória frente à Atalanta. Que só funcionou porque o Inter de José Mourinho voltou, uma vez mais, a tropeçar quando menos se esperava. O conjunto de Milão há muito que parece estar desconcentrado da prova ligueira. De olhos postos no sonho de todos os neruazurri: a Champions.
Dessa obsessão vive também a recuperação do historico conjunto romano. No inicio do ano perdeu o técnico e a esperança. A equipa adormecia na parte baixa da tabela e havia sérias dúvidas sobre o futuro de figuras chave na estrutura da equipa. Totti, eterno capitão, à cabeça. A chegada de Claudio Ranieri, o eterno número dois, o homem que sempre falha na hora H, assustou os adeptos de um clube que viveu estes últimos anos sempre à sombra da eficácia do Inter. Mas com tempo e paciência as hostes voltaram a reunir-se debaixo do Coliseu. E a impossível recuperação ganhou forma. A ponto de assaltar uma liderança que nem AC Milan nem Juventus conseguiram roubar ao Il Speciale nos seus quase dois anos de mandato. Pela primeira vez desde a sua última etapa no Chelsea o português não depende de si mesmo. A euforia em Itália está ao rubro.
Ranieri apostou numa AS Roma rejuvenescida e com um espirito claramente ofensivo. E no entanto, a equipa vale pelo colectivo. Nenhum goleador no top 10. Mas muitos golos apontados nos últimos meses entre todos. Coisa rara.
Retirou a confiança a Doni nas redes e entregou-a a Julio Sérgio, um desconhecido brasileiro que hoje é o grande simbolo da estabilidade defensiva do conjunto do Olimpico. Numa linha defensiva alta brilham o jovem Marco Motta, o francês Philip Mexes, o argentino Burdisso e o noruguês Riise e a jovem promessa Andreoli. O meio campo, que perdeu o influente Aquilani no Verão, voltou a encontrar estabilidade sob o futebol directo e raçudo de De Rossi, Baptista, Perroti e Cassetti. As alas bem abertas com Brighi, Pizarro, Menez, Cerci e Taddei alargam o campo e cercam a defesa rival. Para a estocada final a dupla de gladiadores, os inevitáveis Totti-Vucinic. Uma dupla especial que conta, desde Janeiro, com a ajuda extra de Luca Toni, um goleador tardio que chegou para ficar. Uma equação simples de resultados imediatos. Imbatido desde o 28 de Outubro, o conjunto romano recuperou 14 pontos de atraso para o Inter. Uma vantagem histórica que estimula ainda mais uma massa adepta que há nove anos não sabe o que é ser campeã. Um feito que só logrou três vezes na sua centenária história. Da dúvida à adoração, Ranieri é o homem do momento em Itália. Depois de ter falhado com a Juventus, ataca agora o titulo que há muitos anos se lhe escapa com a improvável formação da capital. O técnico pede calma. Sabe que joga com uma velha raposa, uma equipa que reage melhor quando ferida no orgulho. Nos cinco encontros que faltam tudo pode suceder. O ponto de vantagem (mais a vantagem no confronto directo) é infima. Para já. Sabendo que Mourinho estará a 100% no duelo contra o Barcelona, a esperança dos gialorosso é precisamente que o clube do norte volte a tropeçar. Uma e outra vez. Para então poder festejar de novo na fonte de Trevi.

Há nove anos atrás Capello, o homem então caído em desgraça, provou que ninguém entendia melhor o calcio do que ele. Numa equipa em muito similar a esta, com os seus obreiros e carismáticos lideres, a AS Roma foi ultrapassando a imensa concorrência (AS Lazio, AC Milan, Juventus, Inter) e quando chegou ao topo não voltou a cair. Tinham passado 18 anos desde a última vez. Demasiado tempo. Agora os adeptos romanos têm cinco semanas de máxima tensão. A cidade imortal vive em suspenso. E cada minuto será, mais do que nunca, eterno.
A noticia caiu para segundo plano com a inesperada eliminação dos Red Devils às mãos do Bayern Munchen. Mas espelha bem a nova politica de prospeção do clube de Manchester. Tal como há uma década fez com um uruguaio praticamente desconhecido, Ferguson volta a procurar na Améria Latina um novo goleador. A caminho do Teatro dos Sonhos vem o jovem Chicharito.

Com quatro internacionalizações o jovem Javier Hernandéz Balcázar é a nova sensação do futebol mexicano.
Não é fácil. Há uma imensa geração de talentos azteca a caminho. Mas poucos têm dado um salto qualitativo tão rápido como Hernandez. O avançado irrompeu no seu clube actual, o Chivas Guadalajara, em 2006, quando ainda tinha 17 anos. A pouco e pouco foi ocupando o seu espaço na equipa e começou a mostrar os seus dotes goleadores. Filho de um internacional mexicano que fez parte da geração de 86 ao lado de Hugo Sanchez, o diminutivo da alcunha paternal ficou: el Chicarito.
Aos 9 anos o jovem já brilhava nas equipas de infantis do clube onde o pai tinha feito carreira. Fez uma progressão constante, sempre com um óptimo registo goleador. Começou a ser presença regular nas selecções jovens desde tenra idade. Aos 17 anos falhou a presença no Mundial da categoria por uma inoportuna lesão. Mas dois anos depois não falhou e juntou-se a Giovanni dos Santos e companhia marcando presença no Mundial do Canada, onde chegou a apontar um golo. Daí à equipa principal, agora orientada por Javier Aguirre, foi um salto. A 30 de Setembro do passado ano, já consagrado como uma das estrelas máximas da liga mexicana, foi finalmente chamado à equipa A. Um jogo contra a Colombia marcado por uma assistência sua para golo. Dias depois surgiu o primeiro golo, frente à Bolivia. Até hoje, em quatro jogos apontou quatro golos. Uma média excelente que Aguirre confirmou colocando-o na pré-lista de mundialistas. Se estiver na África do Sul herdará o passado internacional do pai, mas também do seu avô que esteve nas equipas mexicanas dos Mundiais de 54 e 66.
Foi aos 19 anos que Javier Hernandez se estreou pela equipa principal do Chivas.
Como só acontece aos mais dotados, a sua primeira noite foi inesquecível. Numa vitória por 4-0 ao Necaxa apontou o ultimo golo e estreou-se como goleador profissional. Entretanto as lesões e a juventude foram jogando em contra a sua afirmação e Hernandez passou dois anos complicados no banco do Chivas. Até que em 2009 explodiu definitivamente no ataque do conjunto mexicano. Marcou 11 golos em 17 jogos no torneo de Apertura desse ano e nove mais no Clausura, confirmando-se com o mais eficaz goleador do futebol mexicano. A sua facilidade para marcar lembrou imediatamente o ritmo goleador de um jovem Hugo Sanchez e os grandes do futebol europeus começaram a olhar para a sua progressão com outros jogos. Depois de vários emissários, chegou a vez de Alex Ferguson lançar as cartas na mesa. O avançado nem hesitou e o contrato foi fechado. O jovem fica até ao Verão no México, incorporando-se ao conjunto do Man Utd para a próxima época, colocando-se desde já a hipotese de ser emprestado aos belgas do Standard Liege para adaptar-se ao futebol europeu. Este negócio, que a todos apanhou de surpresa, fez lembrar o de Diego Forlan, que o técnico escocês resgatou em 2002 ao Independiente por petição expressa do técnico. Nunca se impôs num Manchester de transição, mas acabou por converter-se em Espanha num dos melhores avançados do Mundo. Talvez o futebol inglês não seja o ideal para o jovem Chicarito. Mas poucos duvidam hoje em dia que será um dos goleadores mais explosivos dos próximos anos.

Com a chegada do jovem mexicano, Ferguson continua a provar que a nova politica do Manchester United é definitivamente uma aposta clara na juventude. Depois de Macheda, Tosic, os irmãos da Silva, Possebom, Smalling, Diouf, agora é a vez do jovem mexicano procurar emular os passos dos grandes que
Na noite em que o Mundo decidiu parar porque uma bola redonda ia rolar sobre um rectângulo verde no norte de Madrid, o professor entrou tranquilamente na sala de aula e olhou para a plateia. Sem fazer muito ruído virou-se para o quadro e começou a desenhar. Traços perfeitos, linhas rectas, puros triângulos. Por duas vezes parou de olhar. Descansou. O trabalho estava feito. O professor podia voltar a sair de cena. Tinha dado mais uma licção de geometria.

Há desportos que roçam constantemente a perfeição. Não permitem o minimo erro ou distração. Mas há poucos que sejam tão linearmente geométricos como o futebol. Especialmente quando o jogo ganha proporções de classe magistral de um maestro catedrático.
Pequenos e grandes rectângulos sob a forma de televisores espelham o imenso espaço perfeito que é o Santiago Bernabeu. Noite quente em Madrid, a espreitar já a Primavera. Bancadas repletas de gente a fervilhar de esperança. Um ano e 300 milhões depois dos 2-6 há quem acredite que o reinado barcelonista está prestes a chegar ao fim. Ou, pelo menos, a sofrer um severo correctivo. Equipas alinhadas, um piscar de olho nada inocente entre dois grandes que o Mundo decidiu que se tinham de odiar, e um abraço sentido. Todos sentados, silêncio ensurdecedor. A aula pode começar. Durante algum tempo os alunos barafustam e o barulho e desorganização das carteiras torna imperceptivel a licção. Mas ela está ali. Enquanto os de branco, vulgo Real Madrid, preferem explicar à sua plateia que o futebol é uma questão de longas rectas, sem final aparente, o professor Xavi Hernandez decide voltar a por em práctica a matéria que o tornou numa figura iminente do meio: o futebol é coisa de triängulos.
Pequenos toques, movimentos rápidos. Só fazem falta dois homens para formar três linhas. Passe, recepção, passe, recepção. O ritmo de carrousell vai ganhando forma à medida que os pequenos triangulos se vão espalhando no tapete. O professor, no meio, vai expondo a sua teoria. Recebe, pensa, faz jogar. Como sempre. Como ninguém é capaz de fazer. Fora da zona verde o seu mentor, já formado e doutorado na teoria do triângulo, espera pacientemente. Ambos sabem o que é preciso para fazer passar a mensagem.
A vitória do Barcelona de Xavi sobre o Real Madrid de ninguém foi mais uma prova de que o futebol é geometria pura. E pouco mais há a dizer. As capas podem preferir a figura do sorrateiro Leo Messi, rápido a pensar, rápido a agir, rápido a enganar com um braço súbtil o olhar perdido do árbitro. Mas o argentino sabe que só existe, futebolisticamente, quando trabalha ao lado de um maestro da régua e esquadro. Nos dois lances de golo, o numero 6 blaugrana explicou ao senhor do cheque em branco que os milhões não pagam a perfeição do traço. Levantou a cabeça, tardou apenas leves segundos. Chegou. Tocou para Messi passando a bola por cima de toda uma defesa em estado de letargia. Rasgou o triângulo com Pedro rumo à baliza. Tirou as dúvidas de quem ainda tinha o braço no ar, disposto a fazer uma qualquer pergunta embaraçosa. Não foi preciso, há licções assim.
Enquanto o Real Madrid continua a ser uma equipa desorganizada, o Barcelona é a tranquilidade pura. Uma linha perfeita de quatro, organizada ao ritmo do relógio, soube conter a dupla ofensiva mais goleadora da Europa. O argentino Higuain continua a provar que a sua veia goleadora diminiu proporcionalmente à qualidade da equipa rival. E Cristiano Ronaldo, sempre só, limitou-se a correr, centrar e rematar para e com ninguém. Jogou um encontro à parte de todos os outros. Os colegas, que nunca o acompanharam. Os rivais, que estavam concentrados na sua licção. É dificil perceber como um jogador como o português se deve sentir ao ver o seu rival mediático benificiar do toque simples de um pequeno grande génio. A cada arrancada de Messi antecede-se um passe milimétrico de Xavi. Já Cristiano luta contra o Mundo. Sem ter quem lhe passe, sem ter a quem passar. O seu futebol não pode ser de triängulos. Para isso fazem falta dois. Ele baila só.
Guardiola arriscou com Dani Alves e teve de emendar. Até nisso se distinguem os génios. Pellegrini enganou-se desde o primeiro segundo. Nunca soube dar a mão à palmatória. O medo tomou conta do seu modelo de jogo, montado para destruir as folhas de papel onde a melhor dupla do Mundo, Xavi-Messi, ia desenhando as suas ousadas teorias. Mas ao recuperar a bola - e o Barcelona sofreu com essa pressão, jogando sem a mesma soltura a que nos habituou - esqueceu-se de que o futebol é construção. Apostou em longas linhas rectas para a frente. Sem triangulos, rectangulos ou cilindros não se pode jogar. Uma só linha não leva a lado nenhum. Nem ao horizonte. O chileno não entendeu ainda a licção básica do jogo. Numa equipa sem extremos para jogar com o meio-campo, sem um pensador de jogo para conectar com o ataque, resta esperar. 90 minutos de agónica espera com um resultado previsivel. Em jogos assim nem vale a pena acelerar. Duas fórmulas e caso resolvido. Há equações bem mais complexas para resolver. Com esta licção de geometria o clube merengue volta a olhar para dentro, para o seu eterno vazio. Não se trata de Messi estar melhor que Cristiano. É que Messi tem uma equipa por trás de si. 100 milhões de euros não fazem nada, se estão sós. Perdem-se no ar, papel sem valor. A diferença voltou a estar, como sempre, no professor que tudo ensina. Que tudo decide. Deixa para os outros as capas, os prémios. Fica com o saber dentro de si. Com a certeza de que a sua licção funcionará em qualquer universidade. Outros, mais hábeis do que muitos, vão sempre precisar dos seus ensinamentos para brilhar. Aí está a diferença entre a grandeza e o génio.

O Barcelona dos Triângulos vs o Real dos Quadrados é apenas um espelho de como o espaço é tudo neste jogo. No vazio de um quadrado há muito verde por ocupar, por tapar. No pequeno espaço que mede um triangulo cabem um, dois homens. Mas a bola circula livre, rumo ao objectivo final. Quarenta anos depois do Futebol Total ter trazido para o futebol o 3D, há ainda quem funcione a duas dimensões. Parados no tempo e no espaço mais não podem do que abrir o caderno e apontar na folha em branco. A licção de hora e meia terminou. Agora há muito trabalho de casa a fazer.
Aqui começou a longa e amarga viagem dos "ses" holandeses. Numa prova feita à sua medida, os soldados de Rinus Mitchell pareciam invencíveis. Mas não o eram. A RF Alemanha, ferida no orgulho, provou saber bem onde estava o calcanhar do Aquiles futebolístico. Desde essa longa tarde até hoje, a história continua a dever uma à mágica "laranja mecânica".

Há histórias que começam melhor contadas de trás para a frente.
Munique, Olympiastadion. Tarde de 7 de Julho de 1974. Minuto 43. A dois do intervalo. Bola pelo lado direito do ataque da RFA. Centro para trás. Dominio em queda de Gerd Muller. O "Torpedo" gira, em queda. Remata, colocado. Corre de braços no ar. A reviravolta está completa. O marcador ficará imutável durante largos 50 minutos. A Holanda, máxima favorita, caía pela primeira vez. A primeira de tantas vezes. De tantos "ses". E se a equipa tivesse sido mais contundente nessa tarde de 74. E se Cruyff tivesse ido ao Mundial de 78. E se Rijkaard não tinha perdido a cabeça em 90. E se Gullit tivesse ido aos EUA em 94. E se os penaltys não tivessem amaldiçado a equipa em 98...e se, e se.
A ferida RFA, que tinha começado a prova com uma amarga noite, ressuscitava perante o olhar surpreso dos seus adeptos, que pareciam condenados à assistir à coroação dos irresistível holandeses. Muller, o mal-amado goleador, cumpriu a sua própria história. Com esse golo calou os mais criticos e repetiu o feito de Rahn, 20 anos depois. Os melhores caiam na final frente aos mais eficazes. Os temiveis teutões.
Num jogo em que a Holanda tinha passado os primeiros instantes a demonstrar a sua superioridade, foi a humildade que ganhou. Os holandeses estavam demasiado confiados em si mesmos. Tal como os hungaros, em Berna. Sabiam-se superiores. Poderiam ter morto o jogo depois do 1-0 inaugural de Neeskens. Mas não o fizeram. Entreteram-se a trocar a bola entre si, em mostrar ao mundo o seu futebol total. Foram apanhados desprevenidos. Penalty e golo de Breitner. E depois chegou Muller. O letal dianteiro que personificava a alma da RFA. A história fala, ainda hoje, de injustiça. Não o foi. Beckhenbauer, Netzer, Vogts, Maier, Schwarzenbeck, Heynckhes, Breitner, Muller e companhia não mereciam ter passado para a história sem um Mundial nas vitrines. E mereceram o seu. Não tão espectaculares. Não tão efusivos. Mas igualmente mágicos.
A caminhada para a glória da RFA começou com um golpe seco no estomago.
A Holanda iria fazer seu um Mundial marcado pelos confrontos com os rivais sul-americanos. A forma como bateram a Argentina (4-0) e o decadente Brasil (2-0) pautou o nível que se esperava de uma equipa que, mesmo assim, tinha empatado com a Suécia num jogo soso e tinha adormecido durante grande parte do jogo inaugural com o Uruguai. Mas a memória é selectiva. Já com os alemães, ela é bem mais longa.
Os organizadores tinham tudo para emergir como triunfantes. Tinham vencido o Europeu, dois anos antes, de forma clara. Tinham na sua liga duas das melhores equipas da Europa, incluindo o novo campeão europeu de clubes, o Bayern Munchen. A equipa nacional, orientada por Helmut Schoon, era composta por jogadores do Borussia Moncheblagdbach e do clube bávaro. Uma mistura que se revelou certeira. Nos dois primeiros jogos da fase de grupos, disputados em Berlim e Hamburgo, os alemães jogaram de forma timida e contraída. Bateram por 1-0 o Chile com um golo madrugador de Breitner e frente aos estreantes australianos triunfaram por uns claros 3-0. A 22 de Junho tinham um encontro com a história que decidiria mais do que o simples vencedor do Grupo A. Era uma questão de orgulho e prestigio. Contra a RDA, pela primeira vez. Um jogo especial para um seleccionador que era, ele próprio, um fugitivo do regime comunista. E que queria, mais do que nunca, vencer. Nessa longa noite em Hamburgo o jogo foi tenso. Violento até. Os jogadores da RDA utilizaram o fisico como nunca. Os da RFA eram, cada vez mais, macios e inofensivos. Até que um disparo monumental ao minuto 77 de Sparwasser, até então um dos muitos anónimos que vivia por trás da cortina de Ferro, fez história. No primeiro duelo entre as Alemanhas, venceu a vermelha. A jogar de azul. Uma noite de sonho em Berlim oriental. Na RFA ninguém acreditava. Schoon foi obrigado a ir a uma conferência de imprensa especial com Beckhambauer. Mas a derrota funcionou como estimulo. Os jogadores, até então desunidos por questões de prémios, deixaram de lado as diferenças. E a RFA renasceu.

Curiosamente a passagem como segundo de grupo permitiu à RFA escapar das garras da "Laranja Mecânica" quando esta estava no ponto certo. Os holandeses dominaram o seu grupo, onde os perigosos sul-americanos surgiam por ter terminado os respectivos grupos apenas no segundo lugar. A RFA teve de medir forças com um insuspeito trio bem europeu. A super Polónia de Lato, a fisica Suécia de Edstrom e o belo jogo da Jugoslávia. Um grupo feito à sua medida. No primeiro jogo os renascidos alemães trucideram os jugoslavos. Dois dias depois da humilhante derrota. A 30 de Junho, debaixo de um temporal, recuperaram duas vezes de um resultado em desvantagem para vencer por 4-2 a Suécia. No último e decisivo encontro, Muller apareceu. E derrotou sozinho a surpreendente Polónia. Três dias depois voltaria a aparecer. Dos quatro golos que apontou ao longo do Mundial só dois foram decisivos. Precisamente os últimos. Os que ditaram os livros que fizeram parte da história. Que hoje deixou para segundo plano essa noite em que na RDA se sonhou com uma superioridade em que nem eles mesmos acreditavam.
Temia-se, no inicio da época, que o Newcastle sofresse do mesmo sindrome de outros históricos que se afundaram nas profundezas do futebol britânico. A saída de Shearer, os problemas financeiros, a pressão de uma massa adepta única. Tudo parecia jogar contra os Magpies. Mas aí estão eles, de volta à elite, em tempo recorde!

Ainda faltam seis jogos para acabar a Coca Cola Championship e já há um vencedor claro.
O Newcastle United, histórico como poucos do futebol em terras de suas majestades, confirmou o favoritismo pendente e atirou-se à garganta da prova com uma garra inesperado. Trepou lugares até chegar ao topo. E nunca mais daí saiu. Derrotou todos os rivais directos, impôs um futebol rápido e agressivo. E cumpriu o objectivo. A equipa logrou a promoção. Agora só falta confirmar o titulo de campeão.
Perdemos a conta aos históricos que vivem no ocaso. Do Leeds United ao Nottingham Forrest, dos clubes de Sheffield ao Derby County. De Southampton a Coventry, há equipas suficientes para criar uma liga de velhas glórias. E muitos adeptos do conjunto do Norte de Inglaterra temiam entrar nessa espiral. Mas não. A equipa teve um bom arranque de época como o novo técnico, Chris Hugthon, a mostrar que estava ao controlo da situação. Apesar de algumas saídas inevitávies muitos dos jogadores ficaram. Com uma larga experiência revelaram-se fulcrais nos momentos complicados. E mereceram também eles o perdão de uma massa adepta que entrou em histeria depois da época para esquecer de 2008-2009.
Com dois jogos menos que os rivais directos, na passada segunda-feira o Newcastle recebeu no majestoso St Jame´s Park o Sheffield United. Minutos antes do jogo arrancar a noticia do empate do Nottingham Forrest despoletou a festa. Os 14 pontos de avanço para o terceiro classificado davam uma margem de manobra histórica. Mas, mesmo assim, a expectativa era muita. A ansiedade também. O jogo foi disputado, como quase todos esta época. Uma liga dura, implacável com quem falha. Quando Cresswell abriu, aos 22 minutos, a contagem para o Sheffield o silencio tomou conta das bancadas. Por um breve segundo. Até que voltaram os gritos entusiastas de apoio. E a equipa despertou da letargia. O dinamarques Lovenkrands, uma das chaves da subida de divisão, empatou mesmo antes do intervalo. O resultado não era ainda suficiente para os adeptos que queriam uma noite verdadeiramente em grande. Sem subidas à custa de outros. Ao minuto 73 um belo lance individual de Kevin Nolan matou o jogo. E despoletou a euforia generalizada. Agora sim, nas bancadas do mais belo estádio do norte de Inglaterra, volta a respirar-se o ar da Premier.

Para a próxima época o desafio será ver até que ponto o Newcastle aprendeu a licção. Muitos são os casos dos recém-promovidos que não conseguem acompanhar o ritmo. E adaptar-se à Premier League. Talvez um ano no charco seja pouco para os experientes jogadores e directivos do clube. Manter a trave-mestra que tão bons resultados deu este ano é a chave. Atrás de si não se sabe ainda quem seguirá. É certo que o West Bromwich Albion, outro despromovido, está perto de voltar à elite. Mas faltam pontos. Poucos, mas faltam. Logo atrás, a luta de sempre, aberta a um play-off que pode ter de tudo. Do histórico Nottingham ao Swansea de Paulo Sousa, há muitos sonhos por cumprir, muitas lágrimas por cair. Muito futebol por jogar!
A goleada sofrida em Anfield Road marcou o ponto final do regresso à elite europeia do SL Benfica. Uma derrota que se deve à base elementar do futebol de contra-golpe do Liverpool e a uma série de erros de palmatória de um treinador que se tem destacado pela sua sagacidade táctica. Diante da mitica Kop o Benfica caiu por culpa própria. E o desgaste fisico revelou-se o menor dos seus problemas.

No jogo da Luz, com 60 mil adeptos a empurrar a equipa, o Benfica tomou a rédea do jogo no final da primeira parte e não mais a largou. Venceu bem, mas deixou demasiadas pontas soltas para uma segunda mão num estádio sagrado e onde a equipa da casa se transforma. Subestimou o efeito Anfield e pagou caro. Jorge Jesus, um técnico a fazer uma época notável, é mais conhecido pela sua inteligência táctica do que pelo seu fair-play, mas ontem soube reconhecer que a sua equipa não teve pedalada para o jogo do Liverpool. Mas só se enganou num pequeno detalhe. Não foi a questão fisica - nem muito menos o jogo de reviravolta na Figueira da Foz - que ditou a eliminação do onze encarnado. Antes uma série de erros inesperados por parte de um técnico hábil e que nos habituou a mostrar que tem os trabalhos de casa sempre bem feitos. Num jogo onde se pedia paciência, espirito de sacrificio e inteligência táctica o Benfica mostrou-se ansioso, precipitado e sem aquela estaleca que define as equipas que conseguem singrar na Europa. Foi inocente na forma como se deixou levar pelo esquema táctico de Rafa Benitez. Foi melhor equipa na primeira parte. Empurrou muitas vezes o Liverpool para o seu rectângulo. Mas nunca soube deixar o rival KO. Nem o conseguiu derrotar por pontos. Os socos desferidos foram muitos. Mas inocentes. E cada golpe do conjunto inglês revelou-se fatal. Poucos rins para tanta ambição.
Se David Luiz tinha sido, unanimemente, um dos melhores jogadores no jogo da primeira mão, marcando implacavelmente Fernando Torres, então não se entende a mudança táctica do técnico encarnado. Deslocar a sua melhor torre para a esquerda foi desiquilibrar uma defesa que se tem mostrado senhorial. Do lado direito a entrada de Ruben Amorim também deixou a equipa coxa nas movimentações ofensivas. Pagou-o bem caro. Amorim viu-se constantemente ultrapassado pelos rivais e nunca soube dar o apoio necessário ao meio-campo. Luiz teve responsabilidades directas no terceiro golo, num erro de posicionamento que é mais culpa do seu desnorte táctico do que da sua incapacidade para lidar com o goleador espanhol que, ontem sim, provou ser um avançado de excepção. Da mesma forma que apostar em Julio César num jogo de este nível revelou-se fatal. Quim, mais experiente, teria sido o homem para o posto, independentemente de esta ser "a prova" do brasileiro. A sua inocência no golo inaugural e o nervosismo posterior não ajudou a controlar uma equipa que, emocionalmente, se foi esvaziando.
O golo inaugural de Dirk Kuyt rompeu com a tónica inicial do encontro. Jesus pensou que um golo madrugadorpoderia desiquilibrar o esquema de Benitez. Lembrou-se do desafio da véspera em Old Trafford. Mas era precisamente o ataque continuado do Benfica que o espanhol queria. Colocou uma linha defensiva sólida - com o grego Kyrgiakos - e baixa, abrindo espaços nas alas. E esperou. O inocente Benfica, a quem convinha mais um jogo na linha do meio-campo com ataques estudados ao detalhe, engoliu a isca. E foi para cima do rival descurando a retaguarda. E sem qualquer eficácia. Nem nos lances de bola parada, nem no acosso às redes de Reina. Ao sofrer o polémico golo inaugural a equipa não parou para pensar. E continuou a achar que tinha o controlo do jogo, quando o que realmente se passava é que deixava espaços perigosos para o contra-ataque do "Pool". Não estranha portanto que assim tivessem nascido os restantes três golos ingleses. Lucas Leiva, antes do intervalo, concluiu um lance desenhado ao milimetro. E, na segunda parte, Torres fez o resto. Com a calma que sempre faltou ao ataque encarnado (em 180 minutos só soube marcar de bola parada) onde Aimar desapareceu, Cardozo - apesar do golo - voltou a ser perdulário e em que não houve vislumbre de Di Maria. O jovem argentino é um peso pluma de imenso potencial. Mas ontem, com a Premier inteira a estudá-lo com atenção, o pupulio de Jesus falhou no exame. Redondamente.

Apesar de vergado por um resultado pesado para as duas mãos, a campanha europeia do Benfica tem de ser vista pelo lado positivo de um clube que há mais de 20 anos que não alcança a meia-final de uma prova europeia. Na última década três clubes portugueses (FC Porto por duas vezes, Sporting e Boavista) estiveram em meias-finais europeias. O Benfica continua a tropeçar na barreira dos Quartos de Final, tal como sucedeu em 2006. Mas neste projecto ainda na sua primeira fase de construção notaram-se aspectos positivos que podem indicar uma mudança de ciclo. O titulo da Liga, objectivo principal e praticamente logrado, não esconde no entanto que há uma diferença substancial entre o dominio de uma liga doméstica e uma destreza competitiva para singrar na Europa. Como demonstrou o modesto Fulham londrino, não é preciso uma equipa ter um grande plantel ou um bom desempenho doméstico. É sim necessário ter rins para reagir diante das adversidades. E saber adaptar-se a cada jogo. Os ingleses deram a volta a uma derrota por 3-1 em Turim, frente à toda poderosa Juventus. E derrotaram o campeão alemão, Wolfsburg. Tudo isso sem um plantel caro e estrelas ao serviço de um técnico, também ele como Jesus, de low profile. É nestes pequenos grandes exemplos de competitividade máxima que o Benfica, que continua a reprovar na cadeira Europa, se tem de apoiar para ir crescendo, passo a passo.

Para a próxima época a Champions League será um desafio bem distinto. Resta saber se a derrota tática do professor Jesus face ao mais experiente Rafa Benitez serve de aviso. No meio de tubarões, são poucos os que sabem sobreviver. Basta ver que este mesmo Liverpool não mostrou ter pedigree para aguentar o ritmo dos campeões. Mas mostrou ter esse plus que continua a faltar à maioria das equipas portuguesas quando saem do rectângulo. E particularmente quando viajam à "pérfida Albion".
Poucas equipas exerceram uma hegemonia desportiva durante a última década como o Olympique de Lyon. Chegou ao ano 2000 sem titulos na bagagem. No final da década tinham sete ligas consecutivas, varias Taças e uma maldição que lhes atravessava a garganta. Agora que parece que o seu reinado no hexagono terminou, a maldição chegou ao fim. O sonho europeu está ao virar da esquina.

Futebolisticamente há poucas formações como o Girondins Bordeaux de Laurent Blanc.
Trata-se de uma equipa extremamente ofensiva, repleta de jovens e grandes jogadores. Quebrou o dominio de sete anos do Lyon de forma categórica e este ano já demonstrou ter todas as condições para revalidar o ceptro. E mais, na sua primeira época a sério na Europa, depois de uma breve experiência, provou ser a equipa mais fiável e competitiva daquelas que vinham da Ligue 1. E no entanto, quando sairam derrotados por 3-1 do Gerland em Lyon, poucos acreditavam que pudessem seguir em frente. Não por serem piores. Mas porque estava no ar que a longa maldição dos Gonnes tinha chegado ao fim. E assim foi.
O Lyon, ex-rei de França, nunca tinha superado os Quartos de Final da Champions League. Caira aos pés de FC Porto, Manchester United ou Barcelona em edições prévias. Pela sua equipa passaram jogadores que marcaram a década como Juninho Pernambucano, Benzema, Diarra, Essien, Fred, Tiago ou Coupet. E nenhum deles conseguiu o que este geração regenerada logrou. Estar na penultima fase da prova é um sonho antigo. Um sonho que, durante muitos anos, se temeu ser impossível. Quanto o sorteio ditou o confronto entre R. Madrid e Lyon nos Oitavos de Final parecia que a maldição se mantinha. Mas afinal foi outra malapata, a dos espanhois, que prevaleceu. A inteligencia de Claude Puel eliminou os milhões de Perez. E o sorteio escancarou as portas de um regresso a Madrid.
Nos dois jogos contra o Bordeux o Lyon não foi superior. Mas também nunca foi inferior ao conjunto gascão. Venceu graças a detalhes. Fundamentais. E à sorte. A mesma que sempre lhe escapou. A sorte de ter nas redes um imenso Hugo Lloris, chamado a marcar uma geração em França. O guardião - determinante frente ao Liverpool e ao Real Madrid - foi magistral na noite fria de Bordeaux. O golo de Chamkah no minuto 43 deixava tudo em suspenso. Um tento mais e era o atractivo Bordeaux que seguia em frente. E eles bem que tentaram. Mas Lloris parou tudo. Nem o marroquino, nem o genial Gourcouff, nem a constelação de médio experientes ao serviço de Blanc. Nenhum deles logrou romper as redes.
Do outro lado a táctica e a rigidez fisica do conjunto lionês voltou a fazer a diferença. Gomis, imenso, galgou kilómetros. Bastos também. Sem Lisandro, suspenso, e com o hábil Pjanic no banco, a ordem era conter. Aguentar fileiras. E sofrer. Muito.
Nesse capitulo este Lyon mostrou estar muita acima dos seus antecessores. Eram equipas que manejavam melhor a bola. Mais espectaculares. Mas menos práticas. E hábeis no controlo do tempo de jogo. O Lyon ontem soube parar e acelarar o ritmo a seu belo prazer. E aguentar as cargas rivais com uma estoicidade que já se tinha visto no desigual duelo de Madrid. Se o bom futebol ficou a cargo do Bordeux, a inteligência dormiu ao lado do Ródano. E isso fez toda a diferença. Jean-Michel Aulas pode finalmente dormir tranquilo. A sua equipa ultrapassou a velha malapata.

Agora contra uma equipa do seu nível, o Olympique de Lyon sabe que pode sonhar em emular os feitos de AS Monaco e Olympique Marseille, as últimas equipas francesas a marcar presença numa final da Champions League. Os gauleses contam com um técnico preparado para as artimanhas tácticas de Louis van Gaal e tem à sua disposição um grupo de legionários que sabe que já fez história. Curiosamente, o último ano em que as meias-finais colocaram frente a frente equipas de quatro países, uma formação francesa chegou à final. Pequenas curiosidades que podem servir de motivação extra para uma equipa que finalmente deixou de ser maldita.
Há anos destinados a marcar a história. Este é um deles. Pela primeira vez desde 2003 não há nenhum conjunto britânico nas meias-finais da prova rainha do futebol europeu. O império da Premier que marcou a primeira década do novo século abre passo a uma nova ordem. Quatro equipas, quatro países. O regresso às origens, a eterna desilusão dos vencidos.

2004 Chelsea. 2005 Liverpool, Chelsea. 2006 Arsenal. 2007 Liverpool, Chelsea, Man Utd. 2008 Man Utd, Chelsea, Liverpool. 2009 Man Utd, Arsenal, Chelsea. 2010....end of story.
É assim que se escreve a Champions League dos últimos seis anos. Com muitas, muitas esperanças inglesas. Desse periodo histórico, apenas comparado ao sucesso conseguido entre 1976 e 1985, resultaram dois campeões europeus (Liverpool e Man Utd), mais quatro finalistas vencidos e uma final totalmente britânica na fria Moscovo. Quase nada. A supremacia financeira e desportiva da Premier e a emergência do que se convencionou chamar de Big Four definiu o futebol europeu de hoje. Até agora. Pela primeira vez desde que o futebol italiano se impôs em 2003 (com três equipas nas meias-finais) que não há ingleses à porta da grande final de Madrid. Liverpool caído na fase de grupos contra todas as expectativas. Chelsea batido pelo experiente e sábio Mourinho. Arsenal esmagado pelo futebol total de Guardiola. E agora o inesperado. Manchester United, o colosso europeu por excelência, que quebra assim um passado recente brilhante de três meias-finais consecutivas. Por culpa própria. Aliás, por culpa própria foram caindo, um por um, os soldados ingleses. Até não ficar nenhum no campo de batalha.

Ontem em Old Trafford assistiu-se a outro mágico desenlace, desses que ficam para a história mais do que o resultado pode deixar antever. Um jogo que marca tendnência.
O Man Utd fez 43 minutos absolutamente brilhante. O eterno conservador Alex Ferguson esqueceu-se de trinta anos de medos e receios e lançou em campo um onze assustadoramente ofensivo. Perante uma equipa que em nada lhe era inferior e cuja a vantagem na eliminatória era bem mais favorável do que parecia à primeira vista. Com Rafael a defesa direito, Gibson a encher o meio campo e Nani e Valencia abertos nas alas, o United foi um turbilhão. Rooney, que forçou a recuperação para estar no jogo decisivo, começou de inicio. Foi como se nunca lá tivesse estado. A estratégia funcionou durante esses 43 minutos. Um golo a abrir de Gibson, uma obra prima de Nani e um remate espantoso do portugês, depois de mais um bom lance no flanco direito, pareciam relembrar outros tempos no Teatro dos Sonhos. Mas a festa acabou mais cedo. Carrick, trapalhão ontem como nunca, lá se deixou bater por Olic. Um golo mais do que inoportuno. Ao intervalo Ferguson podia ter ganho a eliminatória com duas substituições. Não fez nenhuma. Perdeu tudo. Rooney ficou em campo em figura de corpo presente. E Rafael, que tinha estado a bom nível mas que já tinha um amarelo, auto expulsou-se com um estúpid amarelo tão inocente como o seu rosto de menino. Por uma vez, arriscar tinha saído mal. Com 10 o United sentiu o peso da oleada máquina ofensiva do Bayern. Os ataques sucederam-se, os contra-ataques dos Red Devils escassearam. van Gaal, como sempre, foi inteligente a ler o jogo. Forçou o ataque, reforçou o meio-campo. Esperou. Uma genialidade de Robben, outro maldito de Madrid que prova o quão errada foi a politica de vendas do clube espanhol, reduziu para o fatìdico 3-2. O Manchester vencia. Mas perdia a esperança. Já não restavam forças para lutar, animo para seguir em frente. A história voltou-se a cumprir frente ao clube maldito. O clube que só caiu uma vez aos seus pés. E o sonho da quarta Champions adiado, injustamente, uma vez mais.
O erro do Manchester United esteve em não ter procurado o 0-2 em Munique mais do que na exibição de ontem.
E a juventude de Rafael, imaturo num jogo onde se pedia calma, deitou tudo a perder. Para o ano a equipa estará de novo na elite, é certo. Mas ao ver-se superado pelo rival alemão, num ano em que tudo lhe parecia favorável para recuperar o titulo perdido, fica a sensação de que este Man Utd perdeu, sem a acutilância de Cristiano Ronaldo, esse carisma europeu que o português ajudou em 2007 a resgatar depois de um largo vazio que se sucedeu ao titulo de 1999. Ferguson terá de pensar bem. A derrota frente ao Chelsea pode ter hipotecado o Tetra. Os erros de cálculo frente ao Bayern, custaram a Europa. E a falta de profundidade no banco, onde só havia o desapontante Berbatov e os veteranissimos Scholes e Giggs, impediram-no de reagir de outra forma à expulsão do lateral brasileiro. Ferguson é uma velha raposa que sabe emendar os erros. Mas a sua queda este ano, mais do que simbólica, é sintomática do estado actual do futebol inglês. Muitas dividas, muitas incertezas, muitas dúvidas. O Big Four é um conceito ultrapassado, mais do que nunca. Tottenham, Aston Villa e Manchester City consolidam-se como alternativas. O Liverpool continua a cair, desportivamente, depois de uma aparente ressurreição que acabou mais por ser fogo de vista. E o Arsenal, sem dinheiro para investir, tem de contentar-se com lamber as feridas de uma derrota previsivel. Os onzes repletos de estrelas foram-se esvaziando entre jovens promessas e veteranos em fim de ciclo. Sairam os Henry, Ronaldos, Robbens e este Verão poderá dar-se o mesmo com os poucos que restam...Fabregas, Torres e companhia.

Essa mutação desportiva é evidente mais do que nunca na juventude do onze apresentado ontem pelo vice-campeão europeu. Com a sua estrela em deficiente forma, não havia quem pegasse na equipa. Faltava um golpe de efeito. Golpe que o dinheiro investido permitiu ter ao clube de Munique. O hábil Robben, o vertical Ribery, o omnipresente Gomez e o cerebral van Bommell montaram a teia de aranha perfeita. Agora até à final, é só um pequeno passo.
Durante três horas de eliminatória o Arsenal foi igual a si próprio em menos de uma. O Barcelona ao largo de ambos os jogos. Foi essa fidelidade de Josep Guardiola à ideia futebolistica que molda o sistema de jogo do campeão europeu que permitiu o apuramento. Mais complicado do que os números aparentam, mais fácil do que se poderia supor. Ver jogar este Barça é perceber que na vida também a fidelidade pode dar muito prazer.

Desde os célebres relatos de amantes infiéis que se criou o conceito de que a infidelidade é muito mais atractiva do que a simples e monótona fidelidade. A uma mulher, a uma ideia. O Barcelona do Pep Team nasceu para contestar essa linha de pensamento. E ontem, num duelo de iguais com outra equipa também habitualmente fiel a um modelo de jogo especifico, voltou a provar que é a equipa da Europa mais fiel. Ao seu ADN. Se o Arsenal emergiu em Inglaterra como a equipa mais atractiva, aquela que gosta de jogar em pequenos espaços, com sucessivas trocas de bola, isso foi porque desde que chegou Wenger se estableceu uma progressiva mutação genética que levou o "boring Arsenal" a tornar-se no "cool Arsenal". Quinze anos de muito trabalho sob a batuta de um técnico notável com uma ideia radical para o estilo da Premier League. E que, em altos e baixos, sempre soube ser fiel a si próprio. Talvez por isso fosse interessante ver como se comportaria o francês com a única equipa na Europa capaz de superar esse seu modelo. No exame final, Wenger sai com uma nota negativa. Não pela eliminação. Mas pela atitude. Durante 180 minutos de eliminatória só vimos o verdadeiro Arsenal em cerca de uma hora. A que pauta a segunda parte do jogo no Emirates Stadium e a primeira metade do encontro de Camp Nou. E mesmo assim, em versão pálida. É verdade que a este Arsenal as baixas sonantes (van Persie em ambos os jogos, Gallas, Arshavin e Fabregas ao largo da primeira mão) valem mais que as que teve o conjunto blaugrana. E que a profundidade de banco de Wenger não é a mesma. Mas o problema dos gunners foi a falta de clarividência. Poucas vezes jogou o Arsenal o futebol de toque que lhe deu fama. Poucas vezes construiu uma jogada de trás para a frente com calma, tranquilidade e contundência. Porque o Barcelona não deixou? Certamente. Mas houve algo mais, uma ingenuidade competitiva que voltou a ficar evidente. Uma sucessão de erros defensivos que permitiram o resultado desnivelado. E mais uma eliminação precoce.

Se o Arsenal foi infiel, e pagou-o, o Barcelona de Guardiola personificou a fidelidade pura.
Em Londres teve a melhor primeira parte de toda a época. Num braço de ferro, venceu Pep. O seu futebol de toque, assente no jogo de Xavi-Messi-Keita, foi desiquilibrante e podia ter sentenciado a eliminatória. Não o logrou. No segundo tempo a equipa perdeu clarividência e renunciou quase ao ataque. Foi o seu lado mais negro em todos os 180 minutos. No jogo de ontem foi menos contundente que nos primeiros 45 minutos de Londres, mas muito mais equilibrado. Marcou quatro golos fruto, acima de tudo, de quatro erros graves da defesa do Arsenal. Silvestre ofereceu a Messi um "poker" de bandeja. O argentino não desaproveitou. Hoje, mais uma vez, irá personalizar-se na sua figura todo o génio do Barcelona. Mas por muito que o diga, Guardiola sabe que não é assim. Há grandes jogadores que definem equipas. E há outros grandes jogadores que são definidos pelas equipas onde jogam. No primeiro caso teremos sempre o Napoli de Maradona, uma equipa feita à sua medida e que só existiu enquanto a sua estrela brilhou. No segundo lote temos muitas associações históricas. E aí onde está Messi. O argentino é o producto perfeito do pensamento blaugrana. Um jogador de excepção mas que beneficia de todas as condições para triunfar. É o último herdeiro do pensamento de Cruyff, que há mais de 20 anos impôs uma mentalidade de jogo à qual o Barcelona tem sido quase sempre fiel. É o herdeiro de Stoichkov, Romário, Rivaldo ou Ronaldinho. Todos eles, na sua época, grandes. Todos eles que apenas souberam existir dentro desse ADN catalão. Com a particular diferença de que Messi é 100% blaugrana. Desde a génese. Essa dependência do código de jogo explica que o seu melhor futebol exista quando a equipa está ao máximo nível. Nos anos de queda de Rikjaard, o argentino desapareceu. Como todos os outros. Essa intima dependência explica o sub-rendimento de Messi na sua selecção. E também demonstra que todos esses génios tenham perdido a sua chama assim que sairam de Barcelona. O ADN blaugrana com Cruyff não só criou o mitico número 4, encarnado por Guardiola e Xavi. Deu também origem a esse estilo de jogador, hábil no regate, oportuno diante das redes, individualista e colectivista ao mesmo tempo. Jogadores para o colectivo que destacam pelo génio individual. Messi marcou quatro golos. Poderia ter sido qualquer outro. Foram golos de oportunismo, de quem sabia que o espaço estaria ali, disponível. Golos estudados num código genético impar no futebol actual. Golos individuais com puro mérito colectivo.

À espera de saber o que se pode esperar da segunda semi-final, onde tudo está em aberto, temos em perspectiva um duelo repleto de emoções. Talvez os dois melhores técnicos do Mundo. Duas equipas diametralmente opostas, dentro e fora de campo. Mas com a mesma sede de vencer. Não haverá tanto espaço, tanta emotividade. E tantos golos. Serão jogos cientificos, como Mourinho gosta. E como Guardiola soube já saber vencer, com a indispensável ajuda da sorte que tanto escapa ao português. Assim foi o duelo com o Chelsea o ano passado. Outra equipa com um ADN made in Mourinho. Por muito que o português já lá não esteja. Antes há Madrid. Depois poderá haver Madrid. A capital espanhola é a obsessão catalã, este ano mais do que nunca. Para lá chegar, ver e vencer é preciso continuar a ser fiel. O dificil é resistir à tentação!
Depois de décadas de ditadura desportiva, o Dynamo de Kiev encontrou no Shaktar Donetsk um rival à altura. O clube laranja apostou forte no mercado sul-americano mas sempre sem descurar a sua própria formação. Os resultados estão à vista com a vitória na última edição da Taça UEFA. Entre a nova vaga de legionários ergue-se o jovem Rakytskiy, imperial sobre os céus da Ucrânia.

Quando o clube ucraniano aceitou a assombrosa oferta do Barcelona de Guardiola pelo central Chygrinskyi no passado defeso, os mais criticos acusavam a equipa de delapidar a segurança defensiva dos detentores da Taça UEFA. O central de cabelo comprido tinha sido o esteio da formação ucraniana nos dois anos anteriores. E no entanto em Barcelona é hoje uma das figuras mais contestadas da década. Pelo seu infra-rendimento, entenda-se. Lá longe, a milhares de kilómetros de distância, a diferença não se nota. O buraco na defesa foi tapado com eficácia pelo técnico romeno Mircea Lucescu. E o sucesso desportivo de Yaroslav Rakytskiy é um espelho do salto qualitativo da politica de formação ucraniana. O central de 20 anos vive o seu ano dourado. Passou da equipa júnior à titularidade com a equipa nacional. É um dos cérebros do sector defensivo do Shaktar e já tem meia Europa atrás de si. Muitos pensarão duas vezes, lembrando-se dos constantes emigrantes de leste que não vingam nas ligas europeias. Mas a sua cotação não deixa de estar em alta.
Rakytskiy nasce em Agosto de 1989 em Pershtravensk.
Pouco ciente de que a URSS estava a dar o último suspiro, nasceu sob o signo de uma das melhores formações da história, o Dynamo de Kiev do qual o pai era um adepto fanático. No entanto a vida afastou-o da capital do novo estado e lançou para norte. O trabalho em Donetsk do pai abriu as portas do futuro como jogador do filho. Yaroslav começou a actuar em clubes de bairro até que foi chamado pelos olheiros do Shaktar a prestar provas. Com 15 anos foi contratado para a equipa juvenil numa altura em que os milhões de Ahkmetov começavam a dar outra forma ao conjunto ucraniano. O seu crescimento foi notável. Tapado na equipa principal por uma geração talentosa do qual precisamente era Chygrinskyi o maior expoente, o jovem central de 1m80 esperou. E teve a sua oportunidade. Começou a ser chamado com regularidade na época passada, a da consagração europeia do arrojado Shaktar. Com um lugar vago na defesa, agarrou a oportunidade. Foi implacável na final da Supertaça Europeia no Monaco e rapidamente assumiu a batuta do conjunto ucraniano que caiu na Europe League cedo demais. Rápido a sair com a bola, implacável nas marcações e com um sentido de posicionamento impar, o central deu de tal forma o salto que chegou à titularidade com a selecção nacional.

O futuro pertence-lhe. A margem de progessão na Ucrânia ainda é imensa e o jovem tem a titularidade mais do que assegurada. O fracasso da viagem a Barcelona do seu mentor pode ser um fardo para um investimento de um grande europeu. Mas com o Europeu de 2012 na mente, o mais provável é que Rakytskiy opte por ficar em Donetsk para aproveitar esse Junho para deixar a Europa a perguntar: de onde saiu este legionário?
Na véspera da final já se sabia que o troféu Jules Rimet tinha os dias contados. Frente a frente duas selecções bicampeãs do Mundo que queriam levar para casa, de forma definitiva, o troféu que marcou as primeiras nove edições da prova. O mundo reuniu-se no México para o mais belo espectáculo de futebol da história. No final, Pelé saltou mais alto que o Mundo e consagrou a equipa perfeita.

Foi o Mundial de tantas coisas. De jogos inesquecíveis. De defesas espantosas. De jogadores esforçados, lesionados, a aguentarem até ao fim. Estrearam-se os cartões, as substituições, o goal-average na fase de grupos e defrontaram-se todos os campeões nos últimos jogos. E, acima de tudo, o México 1970 foi o Mundial dos dois melhores golos da história…que nunca o foram. Ambos com a mesma assinatura. O nome próprio da prova que acabou por ser o símbolo de uma equipa perfeita, montada ao mais mínimo detalhe por um Mário Zagallo que completava a idade de ouro do futebol brasileiro. Na final do lotado Azteca mais do que a coroação de Pelé, chegou-se ao final de uma era. O futebol romântico apoiado no 4-2-4 tinha chegado ao seu final da forma mais espectacular possível. Os anos seguintes iam ser marcados pelas revoluções tácticas holandesas e alemãs, o futebol mais físico das equipas britânicas e pela aplicação do 4-3-3 e 4-4-2. Mas então ninguém pensava nisso apesar de já haver um par de sinais. Naquele Verão o Brasil cegou o Mundo com o seu futebol de ataque, baseado no toque e transições rápidas. O golo que fechou o Mundial teve o condão de fazer a bola passar pelos pés dos 11 jogadores no terreno de jogo num exercício de perfeccionismo que não voltou a ser igualado. O escrete canarinho confirmou o Tri, ficou com o troféu mais apreciado e carimbou a letras de ouro um título que muitos duvidavam que seria capaz de lograr.
A verdade é que o Brasil chegou fragilizado ao torneio. João Saldanha, o jornalista nomeado seleccionador, tinha sido despedido meses antes. Pelé, entretanto afastado, tinha sido reincorporado e o novo técnico, o ex-jogador Mário Zagallo, tinha de encontrar uma forma de fazer alinhar em campo as estrelas de Santos e Botafogo, as equipas mais em forma no Brasil. Na linha de meio campo alinhou lado a lado o cerebral Gerson e o dinâmico Clodoaldo. Nas alas colocou, bem abertos, os rapidíssimos Jairzinho e Rivelino. Pelé surgia como falso avançado atrás de Tostão, um avançado com instinto matador como poucos teve o país do golo. Com esta linha ofensiva parecia impossível travar o Brasil. Mas havia candidatos igualmente fortes. A Inglaterra surgia, campeã do Mundo, com uma equipa melhorada em relação à sua versão de 66. A finalista vencida, a RF Alemanha, apostava no crescimento de Franz Beckenbauer, o novo patrão da equipa tinha uma arma secreta no ataque: Gerd Muller. Por fim estava a Itália. A campeã da Europa alinhava a sua segunda geração dourada, com Fachetti, Riva e Rivera à cabeça. Os italianos eram os favoritos. E foram-no confirmando, cinicamente, em cada eliminatória.
Muitos lembram-se da defesa de Banks impossível a um cabeceamento genial de Pelé. Outros das fintas inesquecíveis do peruano Cubillas. Ou das saídas loucas do guardião uruguaio Mazurkiewicz. A história guardou um leque de jogos inesquecíveis e esqueceu-se dos protestos dos jogadores, forçados a jogar debaixo do calor do meio-dia mexicano para que os adeptos europeus acompanhassem o jogo ao final do dia pela televisão. A Inglaterra sofreu com uma infecção alimentar nas vésperas do duelo contra a RFA. Esteve a vencer por 2-0 mas Alf Ramsey teve medo e tirou Charlton para colocar um terceiro defesa. Os alemães venceram por 3-2 no prolongamento. Noutro jogo dos Quartos a Itália goleou o México por 4-1 deixando para trás o futebol defensivo. O Brasil vergou o Peru e a URSS caiu aos pés do Uruguai. Enquanto o Brasil seguiu implacável rumo à final, a Itália e Alemanha deram um espectáculo como pouco se viu. O jogo foi até prolongamento e terminou em 4-3 a favor da Azzura. Pelo meio, a imagem de Beckenbauer, braço ao ombro por um choque a poucos minutos dos 90, ficará sempre como um ícone da resistência germânica. E da classe do seu líder. Para muitos ainda é o melhor jogo da história!

Mas a eternidade é matreira e fica com pequenos detalhes. Ainda hoje o México 70 lembra-nos esses dois golos impossíveis que só um génio do nível de Pelé pode ousar em sonhar concretizar. Na fase de grupos, no duelo inaugural com a Checoslováquia, o número 10 brasileiro viu o guardião checo, Viktor, adiantado. Ainda antes do meio campo tentou um remate poderosíssimo que gelou as bancadas durante instantes. A bola roçou o poste e saiu. Injustamente. Uma semana e meia depois, nas Meias-Finais, o Brasil defrontou a equipa que lhes tinha arrebatado a Copa América, dois anos antes, o Uruguai. Num gesto de audácia extrema, Pelé recebe uma bola centrada por Rivelino. Em vez de tentar driblar o guardião uruguaio deixa-a passar, corre à volta do guarda-redes e vai buscá-la ao outro lado para surpresa da defesa Uruguai. Em queda, Pelé remata. A bola cruza toda a área e passa rasa ao poste direito. Não entra. Injustiça. Uma semana depois o número 10 subiu ao mais alto do Azteca e abriu as hostilidades da final. Para trás tinham ficado os seus dois golos mais belos. Que importa que não tivessem entrado.
Poucas vezes Mourinho se confessa diante de jornalistas. Cada palavra que sai da sua boca é estudada ao pormenor. Mas desta vez o técnico sadino confessou o que já se lia, semana atrás semana, no seu rosto enervado. Depois de quase dois anos Mourinho fartou-se de Itália. Esta nunca se habituou ao estilo competitivo e incansável do português. Uma história de amor que nunca o foi que pode ter um final inesperado.

Imaginemos que a longa seca (serão 45 anos) de vitórias do Inter na Champions League chega ao seu final. Que, pela segunda vez, Mourinho vê os seus subirem ao mais alto da Europa e vencer, surpreendendo tudo e todos. E tal como, em Gelsenkirchen há seis anos, o técnico não celebra. Não festeja. Está demasiado amargurado para celebrar o momento. O cenário será complicado. Ao contrário daquela equipa moldada a partir do zero, este Inter tem muitos remendos que o português não conseguiu alterar. E continua a estar uns furos abaixo de Barcelona, Man Utd, Arsenal e talvez até de Bayern Munchen. Mas não deixa de ter o gene competitivo de José Mourinho, um técnico habituado ás grandes noites. Mesmo quando vive amargurado no majestuoso San Siro. Mourinho disse que é feliz no Inter mas não o é em Itália. É dificil acreditar nessa felicidade neruazurra. Ao contrário de FC Porto e Chelsea, aqui o técnico encontrou mais dificuldades para implantar a sua politica. Muitos jogadores chegaram como segundas ou terceiras opções. Apesar do bom trabalho de Milito e Sneijder, as constantes incorporações foram falhando o processo de adaptação ao técnico. De Etoo a Quaresma, de Mancini a Muntari. Demasiados. Para além disso muitos dos que já estavam se revelaram constantes dores de cabeça. E o estilo de jogo do Calcio impediu-o de explorar as suas variantes tácticas preferidas. Jogar pelo resultado deu-lhe uma Serie A tranquila. Este ano as contas complicam-se. Com culpas repartidas.
É verdade que tanto para Mourinho como para Moratti esta Serie A é um objectivo secundário, comparativamente com o sucesso europeu.
Isso explica essencialmente os vários pontos que os milaneses foram deixando para os rivais. Na véspera de um jogo europeu as derrotas tornaram-se um habitué. O próprio Mourinho, então no FC Porto, disse claramente que precisava de dez pontos de avanço na liga para aspirar ao sucesso europeu. Na altura teve-o. Aqui será dificil repetir o feito. Mas não é só por isso que os neruazurri têm tropeçado. E não é por isso que Itália se tornou num cadafalso para o técnico. As constantes supensões da Federação, a inimistade de todos os agentes desportivos italianos, invejosos do seu talento, incapazes de lidar com o seu caracter, as expulsões por palavras...tudo isso pesa na balança. Em Itália Mourinho é temido, mais do que respeitado. E na boa tradição italiana, é eliminado sempre que possível. Nunca um treinador foi tantas vezes suspenso na história da Série A. Nem tão mal tratado pela imprensa. Semana atrás de semana os canais controlados por Berlusconi ou sediados em Roma debatem, em longas tertúlias, a arrogância e falta de talento do português. Horas de entrevistas, conversas, criticas. Deixando o jogo para segundo plano, sempre. Em Itália Mourinho é visto como um "strangieri" a todos os niveis. Está cercado. Aqui não existe espaço para "Il Speciale", ao contrário de Portugal e Inglaterra, onde o técnico foi sempre respeitado e, até, idolatrado.

É mais do que certo que Mourinho sairá do Inter no final da época. Será dificil que o faça com um titulo. Poderá quebrar o seu recorde histórico de logar dois titulos consecutivos onde quer que passe. A AS Roma está lançada e não tem pressão. O próprio AC Milan tem as suas possibilidades. E á medida que a equipa se aproxima do objectivo chamado Madrid, mais provável é que a equipa se distraia na liga. Mourinho é um competidor nato e dificilmente quererá sair pela porta pequena. Mas, por uma vez, isso contará menos que a vontade de partir da bota. Voltar á amada Inglaterra, experimentar a polémica Espanha, onde deixou contas pendentes. Dúvidas que só o tempo esclarecerá. O que é certo é que Mourinho dará a volta por cima. Afinal, sempre o fez.

